Eu #lovytwitter

A rede social dos cento e quarenta caracteres neste dia 21 de março de 2016 comemora dez anos. Em meio a troca de executivos, debates intensos sobre possibilidades de melhores e maiores alternativas de monetização, e fantasmas eternos dando conta da chegada de um inevitável fim, o fato concreto é que o twitter segue firme e forte, com centenas de milhões de usuários em todo o mundo.

Neste texto que ganha como título uma declaração pública de amor, pretendo compartilhar com vocês alguns motivos que fazem desta rede para mim, um dos espaços mais bacanas para o convívio e interação social no ambiente virtual.

Comecemos falando da capacidade inigualável de funcionar como segunda tela. Quem é usuário do twitter ressignificou ao longo desta década o jeito de assistir TV. Momentos como a derrota do Brasil para a Alemanha, o último capítulo da novela Av. Brasil, ou mesmo a final de Reality shows como Master Chefe, mostraram a potência da ferramenta e a grande capacidade de estimulo ao compartilhamento de ideias bem humoradas e criativas. A limitação de números de caracteres desafia a quem quer se posicionar, convidando para dizer muito com pouco, o que de cara não abre margem para rodeios ou grandes explicações. É óbvio que nem tudo são flores e muitas vezes o bom humor, acaba dando espaço para postagens ácidas com efeitos muitas vezes catastróficos.

O twitter também se consolidou como um solo fértil para a afirmação de identidade de grandes personalidades. Muitas inclusive ganharam um corpo, através de posicionamentos fake, isto é, quem postava não eram os verdadeiros personagens que se apresentavam.

Exemplo disso é atriz Luana Piovanni, que em entrevista ao escritor Fabrício Capinerjar em seu programa de TV A máquina, disse ter removido a conta do Twitter e mesmo assim, sabia que haviam outros perfis que com milhares de seguidores acreditando que as ideias lançadas na rede ainda eram dela.

Por outro lado, o Padre Fábio de Melo, o apresentador Wiliam Bonner, o jornalista esportivo Milton Neves, dentre tantos outros, misturam posts de suas atividades profissionais, com tantos outros baseados em visões e fazeres do cotidiano, criando um vínculo de proximidade com os seguidores muito maior e mais intenso do que os construídos até então.

Diferente do Facebook, no twiter não cabem polêmicas extensas e talvez por isso a ironia e o bom humor, acabam sendo bem mais presentes que o ódio e o linchamento público. O advento das hashtags, também fez do twitter uma poderosa ferramenta para campanhas relacionadas as mais diferentes bandeiras. Assim, não é incomum, se deparar com posts na timeline, ávidos por retwitts e comentários, visto que chegar ao top trade da plataforma, acaba sendo quase que uma certificação pública de relevância e engajamento coletivo.

Na primavera árabe, nas grandes mobilizações brasileiras de 2013, e mesmo agora em meio ao conturbado contexto político do país, o twitter firma-se como sendo o grande megafone de formadores de opinião, assegurando um ambiente de total imparcialidade e democratização política.

Por lá você encontra o Papa Franciso, o CEO da Apple, a Presidenta do Brasil, o presidente dos Estados Unidos, e milhares de personalidades que vez ou outra acabam chacoalhando as estruturas a partir de algum post bombástico. Vejam que a notícia chega sem qualquer espécie de mediação ou tratamento, o que caracteriza o twitter como uma ponte facilitadora de diálogos. Com freqüência vemos amigos insatisfeitos denunciando determinadas marcas, que logo em seguida respondem fazendo do restante dos seguidores testemunhas de um bom ou mau atendimento.

Se você ainda não tem uma conta no twitter, vale a pena dar uma espiada por lá. Isso pode ser feito por meio de um PC, ou mesmo a partir da instalação de aplicativos em um smartphone. No mundo onde imagens e vídeos ganham cada vez mais a preferência do grande público, o twitter continua marcando terreno, como sendo a rede social que privilegia as palavras e as ideias. Caso você decida por experimentar, não deixe de me adicionar, basta pesquisar pela conta @blogdoferrari.

#ficaadica

 

 

Retrospectiva: tem pra todos os gostos…

A cada ano fica mais complexo e ao mesmo tempo um tanto banal, o volume e a qualidade de retrospectivas que somos submetidos pelos diferentes e diversos veículos de mídia dos quais consumimos conteúdos. Existem aquelas customizadas, elaboradas especialmente por exemplo para quem gosta de esportes. Também, todo fim de ano pinta aquela genérica, recheada de desgraças, comemorações e dados diversos, empacotada de um jeito que dá a impressão que todo ano acaba ao fim das contas sendo igual em forma e conteúdo.

A verdade, no entanto, é que a vida é única, diversa e cheia de surpresas, cabendo a cada dia, de algum jeito, a grande responsabilidade de pavimentar a narrativa da história da humanidade. Olhando por essa perspectiva, as pequenas coisas ganham grandeza, intensidade, e nos chamam a atenção para que olhemos para os fatos que vivemos com maior estranhamento, cuidado, e compromisso de quem é testemunha de algo único; fundamental para que tantas outras situações possam ocorrer. Assim, neste artigo de fim de ano, lhes convido a experimentar a elaboração de sua própria retrospectiva.

Quais as amenidades de 2015 que lhe fizeram respirar? Falo daquele bate-papo, ou aquela situação aparentemente pouco importante, porém fundamental para recarregar as baterias com boas risadas, ou mesmo com um bom relaxamento da sempre pressionada massa encefálica. Foram os momentos em que vivemos, simplesmente por viver. Pessoalmente lembro de um karaokê entre amigos, dos muitos almoços e pizzas em família, ou mesmo das horas dedicadas a produção de uma boa cerveja a ser posteriormente compartilhada. Lembro do sabor dos deliciosos peixes e sorvetes na estação das docas em Belém do Pará, do canto das cigarras e conversas ao fim do dia entre amigos em Brasília, das músicas tradicionais cantadas com alegria e muito chimarrão e/ou vinho e em Porto Alegre.

Quais as inovações de 2015 que te fizeram parar e refletir. Falo das coisas que te arrancaram do lugar comum e lhes deram a sensação de viver um tempo novo. Pessoalmente me encantei com o Uber, e fiquei um pouco chocado de ver o quanto o conceito de taxi ficou ultrapassado. Me impressionei, diante das descobertas de minha filha de cinco anos no youtube, e pude constatar minha condição de testemunha viva de um novo jeito de consumir conteúdos pela televisão.

Quais os livros, filmes e séries deste ano que você guarda na bagagem para levar para a vida. A gente acaba vendo, ouvindo e deixando para trás muita coisa bacana, ou claro também muita porcaria. Em 2015, pude conhecer e me encantar com a escrita e a narrativa de Leonardo Padura, mergulhando em seu fantástico livro Os homens que amavam os cachorros, e travar boquiaberto diante das reviravoltas de Game Of Trones. Tive um belo reencontro com a filosofia, graças ao qualificado diálogo entre os Prof. Cloves de Barros Filho e Julio Pompeu no livro Somos Todos Canalhas, e me deliciei diante dos ótimos textos e provocações de Eliane Brun com o livro A menina quebrada.

E quanto as grandes experiências profissionais, o que fica como boas lembranças e aprendizado de 2015. Nosso trabalho pode ser fontes de infindáveis retrospectivas. A cada ano, revisitar o que fizemos e/ou deixamos de fazer, em boa parte das vezes configura-se em medida quase cirúrgica para avançarmos com qualidade. Compartilho com vocês, as excelentes experiências que pude vivenciar em cidades como Caxias do Sul, Sorocaba, Itapetininga, Maceió, Natal, Campo Grande dentre tantas outras, que me acolheram com carinho, respeito e muita empatia, para discutirmos questões relacionadas a Política Pública de Assistência Social e a Pessoa com deficiência. Sou um profissional que tenho construído uma carreira comprometida com a militância, e com todo o aprendizado que pude obter e compartilhar na universidade. Por isso, afirmo sem medo de errar, que em cada formação que ministro, ensino e aprendo com a mesma intensidade, e melhor ainda trago de volta para casa muitos amigos e histórias para lembrar e revisitar.

As nossas retrospectivas podem ter muitos outros capítulos, mas não tenho dúvidas de que só serão autênticas se de fato tiverem a nossa assinatura.

Pretendo continuar por aqui, escrevendo muitos outros capítulos de meu 2015. Por hora me despeço agradecendo pelo companheirismo de tantos colegas de trabalho e de luta. Pela amizade e carinho de meus familiares, velhos e novos amigos, e tantas pessoas que acompanham meus trabalhos online e offline. Obrigado meus velhos e novos alunos, a cada encontro em sala de aula, nos tornamos juntos mais fortes e acima de tudo, cidadãos brasileiros. E que venha 2016.

 

O que tem ali?

SCFV

Em meio a correria do cotidiano, o retorno para casa e o bate-papo sem pressa de Paula e Cristina, tornavam leve os mais de trinta minutos de caminhada entre a grande fábrica de peças automotivas onde as duas trabalhavam e o bairro tido por muitos como distante, porém para as amigas o mais perto possível daquilo que muitos chamam de aconchego do lar. Após tomar uma água de coco na barraca do Zeca, as duas ganharam fôlego e seguiram a passos largos continuando a conversa iniciada ainda no trabalho sobre o futuro dos filhos, vez ou outra sendo interrompida por cenas e promoções que saltavam aos olhos mesmo que não quisessem. Paula contava que a filha Ana pudesse seguir carreira na saúde, pois ela própria sempre sonhou com o mundo da enfermagem. Cristina queria ver o filho estudando, não importava o que fosse, ela repetia sempre que esse seria o único caminho para que o moleque pudesse ter uma vida melhor e mais tranquila do que a dela e do marido. Depois de cruzar o calçadão repleto de lojas com atrativos, que a todo tempo se transformavam em pequenas paradas das amigas para especular os preços. Paula e Cristina viraram à direita, e seguiram rumo a Av. Loas. Tratava-se de uma grande via, com uma subida difícil de vencer, mas que valia a pena ser percorrida, pois levava até a praça da cidadania, um espaço arejado, repleto de árvores, pássaros e pessoas que reconheciam naquele lugar o melhor ponto de encontro da comunidade.

Na altura do número 1993, Cristina mostrou para a amiga um prédio laranja com várias crianças, jovens e familiares chegando e saindo. “Olha lá, o Scolari vem sempre aí”. Por mais que fosse comum, Paula sempre ficava incomodada quando ouvia o nome do afilhado, preferia chamar o guri pelo apelido de Larinho, para evitar ainda mais bulling e constrangimentos. A mãe e o pai apaixonados por futebol, decidiram homenagear o técnico da seleção brasileira campeã de 2002 ano que o garoto nasceu. Como Luis Felipe ficaria muito óbvio segundo Paula, o maridão Augusto decidiu inovar, foi então que optaram por Scolari, mas aproveitaram para também reverenciar o Fenômeno: Scolari Ronaldo de Souza – uma pena não terem previsto os 7 a 1, doze anos depois.

“O  que que tem ali Cristina?”

“O nome é serviço de convivência e fortalecimento de vínculos! Nossa, demorei para guardar isso menina, e foi o povo lá do CRAS que recomendou no dia que fui lá para conversar sobre o Larinho”. Cristina continuou: “Depois que ele começou a vir aí, eu também já fiz essa pergunta algumas vezes e cada vez, é uma resposta”. Paula surpresa questionou, “eita, como assim?”

Cristina respondeu: “pois é, quando perguntei pela primeira vez, ele disse que era respeito, pois estavam fazendo uma conversa sobre os nomes de cada menina e menino”.Nossa, como assim? perguntou Paula. “Pois é, conversaram entre eles, saíram para assuntar nos comércios da região, foram até na igreja e no centro do Pai Lorival”. O Scolari disse que mesmo reconhecendo que era diferente todo mundo passou a respeitar o nome dele.”

– “Uai Cristina, ainda não entendi, o que realmente ele vai fazer lá, fica só falando de nome? ” “Imagina, diz ele que lá também tem desenvolvimento da autonomia. Você acredita, que eles vão conversar com os vereadores, já foram na associação comercial, e estão fazendo com nós das famílias, umas conversas bacanas sobre nossos direitos…  Os meninos estão ensinando a gente comadre! ”

Cristina de repente parou de caminhar, olhou reflexiva para o prédio laranja que a essas alturas já havia ficado um pouco para trás e falou um pouco mais baixo, “acho que agora eu já sei o que é que tem ali!

– Então me diga mulher! disse Paula sorridente, já imaginando procurar o CRAS para ver se Ana também poderia começar a frequentar o tal serviço de…….., e já não lembrava mais o nome completo.

“Ali tem vida comadre! Os meninos aprendem jogar bola lá na quadra do clube do bairro, tão começando a tocar um instrumento com a banda da igreja, estudam muito na escola, e chegando ali, vivem e aprendem a viver. O bom é que fazem isso tudo com as famílias e a comunidade”.

Paula ficou em silêncio por alguns minutos e quando estavam chegando na praça decidiram sentar para tomar um ar. A mãe da Ana retomou a conversa meio afirmando meio perguntando, –  “caramba comadre, que coisa boa se tivesse esse tal serviço no nosso tempo “. – “É verdade minha amiga, acho que muitos amigos não seriam perdidos por besteira, uns preconceitos sem sentido, brincadeiras maldosas, umas ideias velhas que a turma só ficava repetindo, sem contar os lugares e as pessoas que a gente poderia ter visto com o olhar de criança, sem precisar crescer para chegar até lá. O Scolari, uma vez disse para o pai que descobriu lá no serviço, que a cidade é feita para todos, e que não tem lugar para rico, lugar de pobre. Lá no serviço, tem meninos de toda a condição social, vai até criança com deficiência, é impressionante. Eles foram até no teatro, e agora tão até querendo fazer uma peça”.

Paula levantou, e convocou a amiga: –  “Então vamos seguir para casa.  Quero ainda hoje ir lá no CRAS para matricular a Aninha nesse lugar. Minha menina merece viver e conviver mais e melhor.”

Um prêmio inusitado

coco

Faz uns vinte anos, mas parece que foi ontem. Eu trabalhava com vendas por telefone, e dado o então grande crescimento dessa atividade, pude vivenciar diferentes experiências. Vendi cartões de crédito, planos de saúde, revistas, jornais, equipamentos de telecomunicações, dentre outras coisas com maior ou menor grau de complexidade.

A empolgação dos trabalhadores da época era algo contagiante, e em um português vulgar que tomava conta dos bate-papos de corredor, o que mais se dizia era que vendedor dos bons vendia até m*#$%@!, e/ou terreno na Lua. Claro, tratavam-se de figuras de linguagem que buscavam ao máximo trazer o impossível como algo a ser suplantado.

Ontem passeando com a família no shopping, fomos a um aniversário de uma coleguinha de minha filha em um daqueles espaços com vários jogos e brinquedos, onde as crianças em posse de um cartão previamente carregado podem ter acesso a boa parte das atrações. Digo maioria, pois outras tantas depende de uma espécie de créditos que se pode ganhar ou comprar para interagir com games que dão ainda mais créditos ou prêmios em espécie. O espaço apresenta-se como uma alternativa fantástica para as crianças, pois ali elas interagem, brincam, e celebram mais um ano fazendo aquilo que mais gostam, ou seja, brincar, brincar e brincar.

Em meio a idas e mais idas a uma série de brinquedos, me chamou a atenção ouvir repetidas vezes de crianças diferentes “papai, mamãe, eu quero um cocô”. Talvez por ser cego, diálogos e falas soltas ao redor acabam me chamando mais a atenção, e a surpresa foi aumentando, visto que não pediam como de costume para fazer, mas afirmavam com veemência que queriam o tal produto.

Tive a certeza que não estava ouvindo mal, quando minha filha disse o mesmo, e logo em seguida pude comprovar com as próprias mãos. A amiga da mesma idade havia acabado de ganhar em um dos tantos jogos que haviam por lá um cocô de pelúcia, que minha esposa e os demais pais ao redor me permitiram finalmente tocar, e fazer como São Tomé: “ver para crer”.

É isso mesmo, alguém do mercado de games, atividades lúdicas ou sei lá como mais poderíamos tipificar esse setor econômico, pensou fora da caixa e conseguiu transformar o cocô em um prêmio cobiçado e aclamado por crianças.

Voltando para casa fui consolando minha pequena, explicando que se tratava de um prêmio e teríamos que jogar em algum outro momento para ver se ganhávamos tal objeto de cobiça. Aproveitei a oportunidade para tentar dialogar com ela sobre tal situação inusitada, ao menos para mim que cresci percebendo o prêmio desejado como algo que só poderia encontrar lugar em esgotos, foças e afins. Perguntei, “você acha legal ganhar um cocô, dormir abraçada com ele”? Minhas perguntas foram fazendo rapidamente ela mudar de ideia, mudando de assunto e deixando para trás o pedido por aquele brinquedo novo.

Trouxe essa experiência pessoal para nossa conversa semanal, pois acho importante de tempos em tempos, refletirmos sobre a falta de limites do mercado, quando o tema é aumentar e estimular o consumo. Crianças e jovens estão entre as vítimas prediletas dessas ofensivas e por vezes nós pais e familiares, por amor ou por ímpeto em atender nossos amados (as), acabamos entrando na onda e comprando sem perceber o tamanho da armadilha. Alguém, pode ler este texto e afirmar que estou errado. Talvez minha história refira-se a uma estratégia moderna que tenta ressignificar o papel do cocô para crianças e a sociedade em geral.

Pessoalmente ainda acho que se trata de uma afronta de um mercado agressivo, totalmente descompromissado com elementos educacionais e culturais importantes para contribuir com aqueles que no futuro assumirão a condução do planeta.

Como diria Pepe Mujica, quando compramos não gastamos dinheiro, mas sim tempo. Desta forma, espero que nossos filhos, primos, sobrinhos, enfim, nossas meninas e meninos, possam investir seus dias de infância com brinquedos e brincadeiras mais bacanas que um “cocô”

O dia mais amargo do Brasil

memeipaday

E aí, esse título lhe faz sentir vontade de fazer parte desta data? Provavelmente não, exceto se, assim como eu e outras milhares de pessoas você for fã das lupoladas Índia Pale Ale, estilo de cerveja cheio de aromas e sabores, marcados pela adição de diferentes lúpulos nos diversos momentos que compõem o processo de produção da bebida.

No último dia 22 de agosto, estivemos em Ribeirão Preto celebrando o IPA DAY, comemoração com origem americana, mas que rapidamente graças a uns caras empreendedores, de uma empresa chamada Academia de Ideias Cervejeiras, chegou no Brasil com muita força, se configurando como o maior evento do estilo no mundo. Estávamos lá, em quase 3 mil pessoas, e infelizmente o amargo que de acordo com o esperado deveria ser o protagonista em cada copo dos festeiros, passou a dominar   o humor e o clima da festa. O dia ficou amargo por conta das longas filas para entrar, mais filas para beber, e claro filas de toda ordem para comer.

Assim, os excelentes músicos que com muita qualidade de som tentavam animar todos que chegavam, passaram a cada intervalo de músicas a ter que conviver com vaias crescentes, típicas de um cenário hostil e perfeito para se formar grandes confusões. Felizmente tudo terminou bem, e da metade do evento para frente, os organizadores conseguiram com algumas medidas paliativas, e a prorrogação do evento em mais duas horas, acalmar os ânimos reconstituindo em boa medida o clima de congraçamento tão presentes em anos anteriores.

Conto-lhes esta experiência, pois a mim o que de fato realmente chamou a atenção, foi uma postura raivosa e porque não dizer impiedosa de uma galera que até então era extremamente alinhada e porque não dizer “fã dos organizadores daquele evento que tem marcado o crescimento da cultura cervejeira no país.

A fúria tomou as redes sociais, e mesmo os esforços de gestão da crise, que se deram ao longo do dia não foram para a enorme maioria, suficientes para amenizar toda a ira online e offline.

Ficou claro que mais do que consumidores insatisfeitos, haviam ali haters habituais, que identificaram naquele problema mais uma oportunidade de explodir, maldizendo uma festa que até poucas horas antes era mais esperada do ano.

Com essa constatação não quero culpabilizar as vítimas, até porque faço parte delas. Paguei e peguei filas como poucas vezes já havia feito, contudo não creio que seja inteligente fazer uma análise odiosa de qualquer que seja a situação, sem também ponderar os acertos e as possibilidades de ajustes de rota para um próximo momento.

Pessoalmente destaco a qualidade do espaço, dos músicos presentes, das cervejas participantes, e da logística criada para distribuição de água gelada. Notem que mais do que tratar de uma festa que teve problemas, quero discutir e provocá-los a pensar que necessitamos de análises e opiniões mais complexas. Seja na arte, na gastronomia, na política, ou mesmo em nosso cotidiano particular, sempre irão existir bem mais coisas do que os óbvios dois lados da moeda.

 

Pelo que se protesta…

protesta

Em julho de 2013, rapidamente manifestantes e lideranças que mobilizaram centenas de milhares de pessoas a partir das ruas da capital paulista, apressaram-se em dizer que não estavam ali apenas pelos vinte centavos. Tal posicionamento queria enfatizar que apesar de se ter por mote inicial o aumento nas passagens dos ônibus da cidade, o que fazia com que tantos fossem para as ruas eram muito outros casos e coisas. Se gritava por mais educação, mais acesso a saúde, qualidade e efetividade na segurança pública, menos privilégios para a classe política, melhor distribuição de renda, maior rigor no combate a corrupção.

Dois anos se passaram e parece que o reencontro do país com as ruas, acabou se perdendo em alguma esquina ou via tortuosa de nosso frágil ordenamento político nacional. Se temos uma democracia consolidada, marcada pela inovação e ousadia de processos e instâncias participativas, como conselhos, fóruns e conferencias, também convivemos com uma total descrença marcada pela desconfiança nos partidos políticos, e por uma ojeriza coletiva aos eleitos para ocupar os espaços nas câmaras legislativas e nos poderes executivos.

Foi neste clima que milhares ou quem sabe até milhões de pessoas saíram às ruas para protestar neste último dia dezesseis de agosto. Tomados por um patriotismo repentino, pediam a queda da presidente, exaltavam o juiz responsável por prisões da Lava-jato e até clamavam pela condenação sumária do ex-presidente, que deixou o poder com mais de oitenta por cento de aprovação. O objetivo desta coluna não é discutir ou manifestar opinião quanto ao mérito dos protestos, mas dialogar com você leitor, sobre o que de fato motiva nosso povo a protestar.

Não preciso dizer que motivos existem de sobra, contudo a pergunta que lhes trago é se de fato as pessoas têm clareza do que de fato estão combatendo ou mesmo aplaudindo. A indignação com a corrupção não pode ser maior ou menor, variando de acordo com o corrupto, a fúria com a ineficiência na gestão pública tão pouco pode ser destinada a um partido ou outro, visto que os danos decorrentes acabam sempre tendo impacto cumulativo.

Entendo que precisamos ter ainda mais gente nas ruas, porém espero que junto venha a qualificação dessas mobilizações. Brasileiros e brasileiras, precisam se perguntar, quem são os porquês de tantos novos vilões e mocinhos em nossa cena política atual.

Talvez as respostas não sejam tão simples, e pior nada agradáveis de se digerir ou mesmo de explicar. O lado bom desse possível futuro tsunami de realidade, pode ser um grande ganho de consciência cidadã, e daí para um país melhor e mais justo, tenham certeza é um pulo.

Mas no final quem paga a conta?

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Mesmo com tantos avanços legais e conceituais, ainda impressiona a postura reacionária de inúmeros segmentos da sociedade quando o tema é “destinação de recursos para entidades sociais”. Coloco a expressão entre aspas, pois dentre tantos imbróglios que perturbam este segmento de organizações, até a nomenclatura acaba sendo por vezes um problema, para que se compreenda a real importância do serviço prestado por estas instituições e seus trabalhadores.

O rótulo de pilantrópicas cunhado e difundido, intencionalmente por teóricos defensores de um estado executor de todos os serviços, programas e projetos até aqui ofertados por este segmento, infelizmente ganhou espaço na grande mídia e colocou no mesmo balaio centenas de milhares de entidades sérias e algumas outras tantas de má índole. Tal fenômeno somado a uma cultura milenar de voluntarismo e benemerência, criou no inconsciente coletivo da sociedade e no olhar de muitos gestores públicos, a ideia de incompatibilidade entre dinheiro e ONGs.

O problema ainda não acaba por aí. Após conseguirem suplantar a burocracia estatal, muitas organizações passam a encontrar nos convênios ou prestações de serviços para o Estado, uma alternativa de garantir o cumprimento da missão. Infelizmente a história nos mostra que o próximo capítulo desta novela geralmente é o calote público. Alegando falta de verbas, irregularidades na prestação de contas, ou mesmo não dando justificativas, vemos por todas regiões do Brasil entidades com anos de atuação sucumbindo com milhares ou por vezes milhões de reais a receber.

Mas então, o Estado é o vilão? De forma alguma podemos fazer essa afirmação. Nenhuma gestão pública seja ela municipal, estadual, ou federal, consegue dar conta de todas as ofertas,  sem parceiros de qualidade. A expertise e a qualidade de muitos trabalhos desenvolvidos por organizações da sociedade civil é reconhecido e valorizado por usuários, gestores públicos e por toda comunidade que convive com os projetos. Precisamos então avançar na concepção e implementação de estratégias que ressignifiquem as alternativas de acesso e repasse de recursos para tais organizações.

A Lei 13019, conhecida popularmente como Marco Regulatório das Organizações da Sociedade Civil, contribui em alguma medida para muitos aspectos relacionados a contratualização entre governos e entidades. Contudo, nem de longe oferece novas respostas para o velho problema da sustentabilidade financeira.

Se quisermos continuar contando com serviços de qualidade, e alta capacidade de incidência política para a defesa e garantia de direitos, historicamente consolidada pelas entidades da sociedade civil, precisamos urgentemente discutir quem ou quais os atores que pagarão a conta.

É chegado o momento de sindicatos que representam esses trabalhadores, organizações patronais, usuários, e a sociedade como um todo, trabalharem juntos para que o fator dinheiro deixe de ser um mito na gestão de entidades.

Cada um de nós podemos contribuir neste sentido, seja levantando essa bandeira, promovendo debates em nossos espaços de construção e troca de conhecimento e mesmo contribuindo financeiramente para causas com as quais nos identificamos.

Veja a cerveja e com outros olhos

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Pode parecer estranho, um tanto quanto paradoxal, mas por incrível que pareça é sempre um desafio para mim, discutir ideias, propor conceitos, ou mesmo externar pequenas opiniões, sem que tais situações tragam consigo o carimbo recorrente de que se trata de algo dito por um cego. Preciso dizer que não tenho qualquer problema com a cegueira, e ao contrário disso, busco sempre fazer da realidade concreta que me coloca como pessoa com deficiência, uma oportunidade para trabalhar melhores dias de inclusão e acessibilidade.

O que procuro sempre evitar é que a condição de cegueira se sobreponha a outras características pessoais, que acabei desenvolvendo independente da cegueira. Por exemplo, quando me apresento como professor para uma nova turma na sala de aula, não preciso falar antes da cegueira, pois trata-se de uma condição humana, e como tal não precisa ser destacada nem tão pouco omitida.

Já fui guitarrista, presidente de Conselho de Políticas Públicas, palestrante e sempre busquei pautar minha atuação partindo da premissa que a cegueira é apenas uma das tantas coisas que me fazem ser humano. Conto-lhes tudo isso, pois nesta última semana abri uma exceção para essa minha postura, ou seja, acabei permitindo que a cegueira aparecesse se sobrepondo para além do necessário. Isso aconteceu em uma entrevista que dei ao Beercast Brasil, melhor podcast do país quando o assunto é cerveja.

Se você ainda não sabe o que é um Podcast, trata-se de uma espécie de programa de rádio, com o diferencial de poder ser ouvido e baixado a qualquer momento desde que se esteja conectado na internet. Ter a oportunidade de participar do Beercast e poder falar como o primeiro cego cervejeiro do Brasil (ao menos até onde me consta) foi fundamental para que eu pudesse contribuir para desmistificar um pouco sobre as limitações das pessoas cegas e sobre as inúmeras possibilidades abertas pela cultura cervejeira.

Falar de inclusão no mundo do trabalho, na escola e ambientes públicos é relativamente simples para nós militantes com tanto tempo de caminhada. Agora contar um pouco sobre as pequenas coisas que podem nos oportunizar grandes transformações no cotidiano, é sempre um grande desafio, pois imaginem só; para muitos, em uma sociedade ainda extremamente desinformada e por vezes preconceituosa, as palavras cego e cerveja não podem estar no mesmo espaço. Não podem porque, para muitos, ser cego é estar doente, logo quem está com alguma doença não bebe. Para outros a cegueira pode elevar o ser humano a uma posição quase de super-herói ou mesmo reduzi-lo à casta dos muitos pobres coitados, logo quem é herói e/ou coitado também não pode beber.

Há fora isso, ainda vivemos em um país que a cerveja é considerada pela maioria algo banal. Uma coisa que se bebe aos montes para extravasar, festejar, e o que vale mesmo é descer pra dentro. O país agora começa a descobrir aos poucos, que falamos de uma bebida com milhares de anos, de grande influência para enormes transformações culturais, tecnológicas, econômicas e sociais, vivenciadas ao longo da história da humanidade.

Falar como cego cervejeiro, apesar de ir na contramão do que costumo praticar,  me permite abordar uma série de questões urgentes e importantes para a sociedade. Os cegos podem ser mais do que o personagem Jeremias que pedia esmolas em Roque Santeiro, podem ser menos que Stevie Wonder e seu super ouvido absoluto, podem ser sim cidadãos com hobbies e atividades pouco tradicionais.

Para vender e falar de cerveja não é necessário transformar mulheres em objetos sexuais portadores de mensagens subliminares que se propõem serem mais eficientes do que o sabor e/ou toda a experiência em ter contato com a bebida. Beber cerveja pode ser sim algo saudável e diferente do que se tem convencionado os grandes meios de comunicação e o inconsciente coletivo.

Tenho certeza que assim, muito rapidamente quem ouviu ou ouvirá o Beercast, logo perceberá como tantas outras pessoas com quem interajo que a cegueira e a cerveja podem ser enxergadas a partir de perspectivas bem mais bacanas e complexas.

Te convido a visitar o link abaixo para que possamos em meu blog e nas redes sociais continuar esta conversa. Um brinde a novas possibilidades de enxergar a vida.

Segue o link: http://www.beercast.com.br/programas/um-papo-com-carlos-ferrari-beercast-114/

Depois da festa, a ressaca com sabor amargo dos vetos…

LBI

Posicionamento Institucional da Organização Nacional de Cegos do Brasil com respeito a Vetos praticados pela  Presidência da República a dispositivos da Lei Brasileira da Inclusão, também denominada Estatuto da Pessoa com Deficiência

Desde a redemocratização do país e da promulgação da Constituição Cidadã de 1988, o Brasil tem avançado na conquista de melhores e maiores patamares de civilidade. As leis orgânicas da Saúde, da Previdência e da Assistência Social, o Estatuto da Criança e do Adolescente, a Lei de Diretrizes e Base da Educação, o Estatuto do Idoso, dentre tantos outros  diplomas legais, tiraram milhões de brasileiros e brasileiras da invisibilidade, assegurando à essas pessoas a condição de sujeitos de direito.

O segmento das pessoas com deficiência vivenciou e atuou de maneira substantiva durante todo esse caminho, fazendo do lema Nada sobre nós sem nós, um princípio estruturante de todas as lutas encampadas pelo segmento. Nestas últimas décadas, muito se avançou, e hoje podemos ver por meio de adequações arquitetônicas, comunicacionais e atitudinais, uma série de pequenas grandes transformações fruto da implementação de leis como 10.098 – Lei da Acessibilidade e da Convenção Internacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência, documento que no Brasil ganhou força de emenda constitucional.

Ter um estatuto, com a prerrogativa de consolidar, e trazer tantos outros direitos até aqui negligenciados e violados, há muito tem sido  uma perspectiva  debatida pelo segmento, que foi ganhando corpo a partir de um Projeto de lei apresentado pelo Senador Paulo Paim em 2003.

De lá para cá, câmaras técnicas foram constituídas, grupos de trabalho criados, e uma série de encontros  setoriais nas cinco regiões do Brasil foram organizados. Os esforços dessa construção trataram desde a nomenclatura do futuro documento até as tantas demandas e possibilidades que se poderia inserir em uma lei com essa envergadura.

O resultado desta construção culminou em uma aliança suprapartidária que mobilizou parlamentares da Câmara e do Senado em torno da aprovação do PL, sinalizando para os mais de quarenta e cinco milhões de brasileiros(as) e seus familiares, um grande salto no sentido de resgatar perdas históricas resultantes de enorme exclusão social.

No último dia 06 de julho em meio a uma grande celebração, a Presidenta da Republica sancionou o documento que recebeu do legislativo. Contudo, apontou vetos que nos faz lamentar e se posicionar para que futuramente consigamos ter tais conquistas de alguma forma asseguradas por lei.

Essa manifestação não tem por intuito ofuscar o brilho de uma conquista com tamanha relevância. Trata-se de um chamado para que possamos nos mobilizar diante da perda de avanços civilizatórios que já dávamos como certos.

Vetar artigos de uma lei encaminhada para o executivo é direito constitucional da Presidência da República e alguns pontos, inclusive, reconhecemos como legítimos. Contudo, é inaceitável retrocedermos diante de ações afirmativas já pactuadas e amplamente discutidas pela sociedade, principalmente se considerarmos os motivos apontados para tanto. Abaixo apontamos os vetos com os quais discordamos, os motivos apontados pelo governo e pequenas  considerações que entendemos poder explicar o porquê dessa manifestação.

Veto de todo o Art. 29:

Art. 29. As instituições de educação profissional e tecnológica, as de educação, ciência e tecnologia e as de educação superior, públicas federais e privadas, são obrigadas a reservar, em cada processo seletivo para ingresso nos respectivos cursos de formação inicial e continuada ou de qualificação profissional, de educação profissional técnica de nível médio, de educação profissional tecnológica e de graduação e pós-graduação, no mínimo, 10% (dez por cento) de suas vagas, por curso e turno, para estudantes com deficiência.

  • 1º No caso de não preenchimento das vagas segundo os critérios estabelecidos no caput deste artigo, as remanescentes devem ser disponibilizadas aos demais estudantes.
  • 2º Os cursos mencionados neste artigo não poderão excluir o acesso da pessoa com deficiência, sob quaisquer justificativas baseadas na deficiência.
  • 3º Quando não houver exigência de processo seletivo, é assegurado à pessoa com deficiência atendimento preferencial na ocupação de vagas nos cursos mencionados no caput deste artigo

Razões apontadas para o veto:

“Apesar do mérito da proposta, ela não trouxe os contornos necessários para sua implementação, sobretudo a consideração de critérios de proporcionalidade relativos às características populacionais específicas de cada unidade da Federação onde será aplicada, aos moldes do previsto pela Lei no 12.711, de 29 de agosto de 2012. Além disso, no âmbito do Programa Universidade para Todos – PROUNI o governo federal concede bolsas integrais e parciais a pessoas com deficiência, de acordo com a respectiva renda familiar.”

Nossas considerações:

Estamos tratando aqui de uma ação afirmativa que amplia sob maneira as possibilidades de acesso de um público historicamente excluído dessas formações. Pessoas com deficiência para ingressar em um curso profissionalizante e em formações em nível superior, precisam de acordo com o atual cenário, superar um vácuo histórico de ausência do Estado em toda sua formação. Não temos escolas acessíveis, não existem materiais didáticos adaptados do tamanho da demanda, nem tão pouco suportes específicos como cuidadores e professores especialistas que possam atender às demandas de alunos no ensino fundamental e médio.

Vetar o artigo 29 significa fechar as portas para uma oportunidade histórica, que faria das instituições de ensino superior, ambientes mais diversos, plurais e inclusivos. Conquista semelhante já foi assegurada por companheiros do movimento negro, e claramente podemos perceber os ganhos proporcionados por essa vitória.

(Veto do inciso II do Art. 32):

Art. 32. Nos programas habitacionais, públicos ou subsidiados com recursos públicos, a pessoa com deficiência ou o seu responsável goza de prioridade na aquisição de imóvel para moradia própria, observado o seguinte:

II – definição de projetos e adoção de tipologias construtivas que considerem os princípios do desenho universal;

Razões apontadas para o veto 

“Da forma ampla como prevista, a medida poderia resultar em aumento significativo dos custos de unidades habitacionais do Programa Minha Casa, Minha Vida, além de inviabilizar alguns empreendimentos, sem levar em conta as reais necessidades da população beneficiada pelo Programa. Além disso, no âmbito do próprio Minha Casa, Minha Vida, é previsto mecanismo para garantia da acessibilidade das unidades habitacionais, inclusive com as devidas adaptações ao uso por pessoas com deficiência.”

Nossas considerações

Colocar o aspecto custo como sendo motivador para vetar tal inciso é reafirmar a ideia de que o que se destina para acessibilidade é gasto e não investimento. Ter casas projetadas na perspectiva do desenho universal significa não apenas qualidade de vida digna para seus moradores com deficiência e/ou mobilidade reduzida. Também se trata da possibilidade de melhor acolhida de familiares nesta condição, além é claro de se ter um ambiente adequado para eventuais limitações de curto prazo,  as quais todos brasileiros(as) estão sujeitos.

Atualmente os atuais mecanismos pensados a partir do programa minha casa minha vida, são paliativos que estão longe de contemplar verdadeiramente as  necessidades vivenciadas pelas pessoas com deficiência e seus familiares.

Veto No Art. 101 do Estatuto, em que propõe modificações na Lei 8.213,  o Art. 93, caput e incisos:

“Art. 93. As empresas com 50 (cinquenta) ou mais empregados são obrigadas a preencher seus cargos com pessoas com deficiência e com beneficiários reabilitados da Previdência Social, na seguinte proporção:

I – de 50 (cinquenta) a 99 (noventa e nove) empregados, 1 (um) empregado;

Razões apontadas para o veto

“Apesar do mérito da proposta, a medida poderia gerar impacto relevante no setor produtivo, especialmente para empresas de mão-de-obra intensiva de pequeno e médio porte, acarretando dificuldades no seu cumprimento e aplicação de multas que podem inviabilizar empreendimentos de ampla relevância social.”

Nossas considerações

Cabe lembrar que atualmente a Lei 8213 assegura a contratação de pessoas com deficiência e reabilitados pelo INSS por empresas com quadro a partir de cem funcionários. Ampliar essa obrigatoriedade para empresas com quadro a partir de cinquenta funcionários, significaria uma possibilidade de triplicar o pouco mais de um por cento de pessoas com deficiência em condições de trabalho,  que hoje conseguiram acessar o mercado formal. Em nossa visão, pior que o veto é a justificativa, que coloca pessoas com deficiência como sendo um fardo para empreendimentos de ampla relevância social.

Veto do Art. 106 do Estatuto, refere-se à isenção do IPI na compra de veículos:

Razões apontadas para o veto

“A medida traria ampliação dos beneficiários e das hipóteses de isenção do Imposto sobre Produtos Industrializados – IPI, o que resultaria em renuncia de receita, sem apresentar as estimativas de impacto e as devidas compensações financeiras, em violação ao que determina a Lei de Responsabilidade Fiscal.”

Nossas Considerações

O veto acima relatado desmonta a concretização de um direito há muito pleiteado por pessoas surdas. Se pessoas com outras deficiências já tem esse direito, a lei traria uma correção histórica de uma violação de direitos de um segmento legítimo da sociedade Brasileira. A justificativa apoiada unicamente nos aspectos econômicos reafirma uma postura totalmente alheia a compromissos históricos firmados por esse governo e afronta mais de 9 milhões de pessoas deste país.

Veto do Art. 109 do Estatuto, referente às modificações do Código Nacional de Trânsito,  a proposta de acréscimo de parágrafos no Art. 154 do CNT:

“Art. 154. ……………………………………………..

  • 1º ………………………………………………………
  • 2º O Centro de Formação de Condutores (CFC) é obrigado, para cada conjunto de 20 (vinte) veículos de sua frota, a oferecer 1 (um) veículo adaptado para o aprendizado de pessoa com deficiência.
  • 3º O veículo adaptado deverá ter, no mínimo, câmbio automático, direção hidráulica, vidros elétricos e comandos manuais de freio e de embreagem.” (NR)

Razões apontadas para o veto

“As regras relativas a carros adaptados para fins de aprendizagem e habilitação devem acompanhar as necessidades reais da população, assim como os avanços técnicos. Desta forma, é mais adequado deixar que tal matéria seja regulada pelo Conselho Nacional de Trânsito – CONTRAN, nos termos do que prevê o art. 12, inciso X, do Código de Trânsito Brasileiro.”

Nossas considerações 

Com essa justificativa o poder executivo demonstra desconsiderar todo o debate construído com vistas a que se qualifique a habilitação de motoristas com deficiência. Empurrando a questão para o Contran se protela uma questão que há muito já poderia ter sido observada.

Muitas pessoas com deficiência física, em todo o território nacional, deparam-se com a seguinte dificuldade: para obter a isenção do ICMS na compra de um veículo adaptado, necessita comprovar sua habilitação de condutor. Por outro lado, para obter sua Carteira Nacional de Habilitação, ao se dirigir a um Centro de Formação de Condutores, não consegue se submeter aos testes práticos se não possuir veículo adaptado, pois os CFCs não dispõe de veículo adequado a sua deficiência.

Assim, esse público não consegue adquirir um veículo adaptado com a isenção do tributo por não possuir CNH e também não consegue obter sua CNH por não possuir o veículo adaptado.

Brasília, 08 de julho de 2015

Prof. Ms. Carlos Eduardo Ferrari

Secretário geral da ONCB e conselheiro nacional de saúde

Colapsocracia – O embate entre “vilões” e “mocinhos” na terra onde sempre a culpa é do outro…

brasil nova ordem mundial

Redução da maioridade penal, reforma política, ajuste fiscal, perda de direitos trabalhistas. O Brasil assiste de arquibancada, um duelo entre os poderes constituídos da República, onde a única certeza é que a coerência, o respeito às instituições, e o futuro do país, se mostram como questões secundárias para uma maioria esmagadora de agentes públicos que nitidamente elegeram como prioridade de atuação, vencer uma guerra cujo motivo, parece que boa parte deles nem lembra mais qual é.

Procurei batizar este texto com um termo que pudesse em boa medida traduzir como percebo o momento político em que vivemos. Sem respostas diante de inúmeras tentativas, me arrisco a inventar algo, e desde já deixo os haters à vontade para despejar suas verdades e fúrias incontidas, pois como alguém resignadamente um dia afirmou, “faz parte”. Com a expressão “colapsocracia”, pretendo conversar com vocês não sobre as consequências, mas sobre algumas das possíveis causas, de enormes retrocessos que temos testemunhado atônitos quando o assunto é defesa e garantia de direitos.

Assim, trago um termo que objetiva designar, a crise, a paralisia, e a total desorganização institucional, como sendo os ordenadores e detentores do atual poder vigente no país. Na contramão dos discursos de     muitos companheiros de luta e caminhada, me recuso a atribuir a um segmento específico ou a determinadas pessoas tamanha responsabilidade, até porque os apontados da vez, em minha opinião, não têm conteúdo e consistência para tanto.

Vejo por exemplo, Eduardo Cunha, atuando com enorme coerência, se considerarmos a postura e os compromissos firmados por ele, diante daqueles que o levaram a chegar onde está. Os eleitores do Presidente da Câmara e de outras centenas de parlamentares que se alinham com ele, são a prova viva de que nós, movimentos sociais, falhamos diante do desafio em avançar para além da promoção de acesso a renda e a determinados serviços públicos, pois valores que verdadeiramente poderiam transformar o país, talvez tenham sido apenas proclamados em artigos científicos, discursos rebuscados, ou mesmo em conversas e debates feitos de nós para nós mesmos.

Enquanto milhões de pessoas se sentem representadas e defendidas por seus parlamentares de discursos alimentados pela intolerância, pelo senso de vingança e por tantos outros princípios ultra-conservadores, outros tantos milhões se sentem traídos, pois seus eleitos fazem da prática política a negação  tácita de compromissos e discursos históricos recorrentemente firmados.

É preciso compreender que as disputas que acompanhamos em Brasília na verdade partem de nosso cotidiano. Se não conseguimos falar de verdade e principalmente com verdade, para ressignificar ideias que percebemos como equivocadas, verbalizadas por aqueles  que convivemos e até amamos, não é justo simplesmente apontar para um ou mais culpados, tirando dos ombros o peso da responsabilidade que sim, também  é nossa. Mudar o avatar no facebook é muito pouco para se superar a intolerância histórica contra grupos com orientações sexuais distintas. Se posicionar contra a redução da maioridade penal é importante, mas muito pouco, diante de um problema de segurança pública crônica que até hoje não mereceu atenção de qualquer dos eleitos desde a redemocratização do país. Fazer defesa intransigente de direitos trabalhistas conquistados é bacana, porém falta dizermos com maior clareza quais as propostas concretas que defendemos para a retomada do crescimento econômico e sustentável do país.

Enquanto nós, lideranças de movimentos sociais não percebemos que o lado negro da força é apenas uma questão de ponto de vista, e que discursos como “é culpa da imprensa e das elites“ já estão para lá de cansados, teremos que assistir pastores representantes de um Deus que queima demônios para plateias lotadas, militares detentores de um discurso cuja síntese é “bala em vagabundo” e donos de representantes de grandes conglomerados econômicos, votando e aprovando leis que versarão sobre o futuro do Brasil e claro o nosso.

Com isso reafirmarão seus compromissos de campanha e logo serão reeleitos trazendo ainda mais pessoas alinhadas com suas “propostas de mundo” e de relações sociais.

Este é um manifesto contra o MIMIMI e a choradeira recheado de esperanças, pois acredito que diante da analogia que nos apresenta um cenário com a água subindo e batendo muito acima da cintura, possamos decidir voltar a nadar.