Você faz parte da solução

Por Carlos Ferrari - Atualizado em: terça-feira, maio 8, 2012

Lembro bem do saudoso vice-presidente José Alencar, levando toda a imprensa a loucura com suas contundentes falas sobre os altos juros praticados pelo Brasil a partir das decisões de nosso Banco Central. Com muita habilidade política e principalmente uma visão de dar inveja a doutores em economia, o então presidente Lula administrava o problema deixando claro seu desconforto com o cenário, mas sua convicção de que o remédio amargo era mas que necessário para que conquistássemos as importantes reservas cambiais, e reposicionassemos o Brasil no mapa econômico mundial rompendo de vez com o fantasma da inflação. É fato concreto que apenas os juros altos não foram isoladamente a alavanca que fez com que hoje nos posicionemos não mas como uma promessa mas sim, como uma realidade dentre os principais mercados do mundo. Também agora podemos constatar que a busca pela “soberania sócio-econômica” é uma luta que demanda sempre novos cuidados e estratégias. Assim os juros altos que pagamos durante anos para fazer frente a crises e as nossas próprias fragilidades, agora já podem começar a cair em nome do crescimento do consumo interno, da redução da dívida pública e da necessidade urgente de estimularmos o surgimento de cada vez mais investimentos no país.

Essa análise que não é minha mas sim de nossa presidenta, permite a todos os Brasileiros vislumbrarem no curto prazo, uma perspectiva totalmente nova de acesso ao crédito. Aliás devemos lembrar que independente da qualidade, o acesso a essas novas possibilidades de são bastante recentes. Com o crescimento do emprego e com a decisão do estado em estimular a inserção das classes C e D cada vez mais no mercado de consumo, foram desenvolvidas campanhas e mecanismos que permitissem pessoas passarem a poder sonhar com o primeiro carro, um novo eletrodoméstico e até com a primeira casa.

Agora o debate é em torno da qualificação desse crédito. O discurso preconceituoso e mal-intencionado de se manter juros altos em nome da grande inadimplência, tem perdido a força, e a agiotagem oficial de juros que chegam a mais de 200% ao ano parece estar com os dias contados.

Para que possamos futuramente poder celebrar mais esse salto de “qualidade de vida, financeira” dois fatores são fundamentais. Primeiro é claro o compromisso seguido de ações efetivas dos bancos públicos. São eles que poderão dar o choque de realidade que o mercado obviamente não quer ver. Na outra ponta estamos nós; esse é o momento que cada correntista deve se manifestar e se posicionar como consumidor, exigente e sabedor das novas possibilidades de mercado. Ligar para o gerente, negociar novas taxas, buscar outros bancos. Fazer os juros caírem na ponta, passa pela necessidade de um tensionamento na relação entre oferta e procura.

Assim teremos que ser fortes e resistentes diante das negativas e inúmeras desculpas com aquela linguagem técnica e pesada, excelente para desanimar qualquer cristão ou ateu. Cidadãos brasileiros também para avançar terão que ter claro que crédito não é favor de banco, e pode sim ser questionado.

Com esse texto não quero chamar para nós consumidores a responsabilidade de mudar uma lógica perversa que se perfaz por décadas nesse país. Seria uma visão ingênua e até injusta, para com quem até hoje foi vítima de um processo aparentemente sem solução. O que afirmo aqui é que temos a oportunidade de fazer parte da conquista dessa mudança, e que essa transformação poderá não só significar a solução de um problema pessoal, mas melhor que isso, pode significar a construção de histórias de vida com roteiros bem mais felizes.

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Das bielas ao picadão

Por Carlos Ferrari - Atualizado em: sexta-feira, abril 27, 2012
É bacana quando olhando pra casa a gente consegue ver exemplos que nos permitem refletir sobre as grandes transformações vivenciadas por nós ao longo de nossa história. Geralmente acaba não sendo assim; acabamos não percebendo enormes revoluções por nós protagonizadas, tal é o ritmo acelerado que vivemos.
Mas como disse, posso nesse texto trazer um exemplo concreto, que me permitirá conversar com vocês, sobre a revolução pela qual temos passado no mundo do trabalho.
Compartilho então nesse espaço um pouco da história de meu pai. O menino de família pobre que veio do interior de São Paulo na tenra infância, e que junto com os pais e irmãos desde então nunca mais deixou de trabalhar. Entregar marmitas, atuar como auxiliar de pedreiro, padeiro, até a contratação pela Volkswagem em 1971. A partir daí foram vinte e três anos na profissão de metalúrgico, e  pelo  que lembro quando eu era criança isso se  traduzia como fazer bielas.
Meu pai aposentou em meio a toda transformação do grande ABC. Fábrica dando lugar a shoppings e universidades, o setor de serviços tomando corpo paradoxialmente ao produtivo que sofria grande encolhimento por conta das novas tecnologias e da globalização. Contudo meu pai não quis deixar de trabalhar. Trocou as grandes máquinas por uma Towner coreana, onde montou uma pequena linha de montagem de cachorro-quente.
O negócio bem sucedido, foi vencido pelo cansaço e por alguns assaltos, também oriundos dos tempos modernos. Meu pai de novo não desistiu. Foi trabalhar em um restaurante de meu tio, também ex-metalúrgico e gostou tanto da coisa que me convidou para ser sócio de um empreendimento próprio. Nasceu o restaurante Bom de Garfo, atual paixão do seu Sebastião, o Rei do Picadão.
Contei essa historinha para conversar com vocês sobre a importância de ressignificar nosso entendimento quanto ao mundo do trabalho. Já vivemos a era de que se entendia o trabalho como algo ruim, depois tivemos conviver com os trabalhadores compulsivos que achavam que a qualidade de seu trabalho estava ligada ao número de horas por dia trabalhadas, e agora dentre outras coisas podemos celebrar a possibilidade de contemplarmos o ócio.
Isso mesmo! Não trabalhar pode ser uma excelente estratégia para poder trabalhar melhor. Pensar em novas profissões, em novos espaços de atuação, enfim em novas formas de geração de renda, e outras possibilidades de fazeres, deve ser um desafio constante para cada um de nós. Assim, também são repensadas as motivações e estratégias para contratação.
Aquela empresa que deixava de contratar alguém por conta de uma tatuagem, pela cor da pele, pela condição sexual, por uma deficiência, ou até mesmo pela idade, está morrendo pois sua postura preconceituosa, tem lhe tapado os olhos para novas oportunidades de mercado.
Estamos em meio a era do conhecimento e da informação, e a cada dia mais do que fazer muito, somos chamados a fazer bem. Na semana do dia do trabalho, celebremos nossos novos desafios e contemplemos o ócio quando possível com a dignidade de grandes trabalhadores do novo tempo.
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Da filantropia ao direito

Por Carlos Ferrari - Atualizado em: quarta-feira, abril 25, 2012
Esse foi o tema de uma fala que fiz hoje pela manhã na FAPCOM, Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação.  O tema inquietante e provocativo, fez parte de uma série de ações promovidas pela PIA São Paulo em parcerias com atores como a Sedesc, Secretaria de Desenvolvimento Social e Cidadania da Prefeitura de São Bernardo do Campo, no sentido de qualificar os debates e a formação no âmbito do SUAS, Sistema Único de Assistência Social.
Quando comecei a trabalhar na montagem da apresentação, percebi as inúmeras facetas, das quais poderia partir para desenvolver o tema. Por exemplo, poderia traçar um conjunto de reflexões em torno do conceito de filantropia, começando pelo significado da palavra oriundo do grego, “O Homem amigo do Homem”, até uma série de considerações a cerca do atual Terceiro Setor. Seguindo essa linha na mesma fala, poderia eu trazer algumas leituras  do que poderia se entender por direito, e dos riscos em se relativizar a compreensão  em relação a essa questão.
Trabalhando no texto percebi no entanto que em se tratando de Assistência Social, as reflexões mereceriam para esse momento um outro contorno. Desisti da ideia dos slides e fui para a palestra com o espírito de um contador de histórias. Tive claro, pensando no assunto, que mais do que problematizar a partir de conceitos, o importante neste caso é resgatar momentos da história do Brasil, falando deles sem medos nem preconceitos.
Comecei então lembrando que durante muitas décadas no Brasil e no mundo foram as organizações filantrópicas, as responsáveis por atender demandas de públicos vuneráveis esquecidos pelo Estado. Idosos, pessoas com deficiências, crianças em situação de abandono, dentre tantos outros, não eram reconhecidos por nossa legislação enquanto cidadãos detentores de direitos. Assim gestores públicos e abnegados dirigentes de entidades só tinham como possibilidades de ofertas de serviços essenciais como saúde, educação, apenas dois caminhos: o reconhecimento dos que pagavam para tal, diretamente para prestadores de serviços ou indiretamente via impostos, e por outro lado os desprovidos de qualquer proteção, socorridos pelas ajudas das entidades.
Com o advento da Constituição de 1988, o legislador botou na Carta Magna Brasileira, a Seguridade Social, considerando como direito de todos a saúde, a Previdência e a Assistência Social. Desde então sociedade civil organizada, e o Estado Brasileiro passaram a discutir o que de fato cabe a cada política pública, e estratégias de estruturação de redes para atendimento das demandas a serem atendidas.
Com isso fazer filantropia ganhou um novo significado, assim como ser secretário da pasta de assistência Social ou  área responsável, também passou a exigir novas competências. O vereador simpático e falante, amigo do prefeito, que sempre ganhou voto conseguindo caixão e roupinhas para recém-nascidos, pode continuar amealhando votos, porém não atinge o perfil mínimo para poder ser nomeado comandante de uma política que agora tem fluxos e protocolos. Saímos da era favor e adentramos na era do direito.
Nesse espaço  infelizmente não vou poder compartilhar todas as  idéias que  trabalhei na Paulus hoje pela manhã. O mais importante creio contudo que deva ficar registrado; vivemos um momento que faz-se fundamental a articulação entre a rede estatal e não estatal, rompendo com a lógica que sataniza as organizações não-governamentais colocando todas na vala comum de  pilantrópicas. Por outro lado não podemos ser ingênuos ao ponto de acreditar que a sociedade civil, dará conta sozinha das demandas sociais. Como está escrito na Lei Orgânica de Assistência Social, a política pública é um direito do cidadão e um dever do estado, e em assim sendo todos devem juntos trabalhar na perspectiva de que ao final das contas, o paradigma em torno dessa questão seja reconstruído, e o usuário da política, o principal beneficiado.
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