A Sensibilidade

A palestra já passava de duas horas e por conta do grande número de perguntas e reflexões já havia se transformado em um maravilhoso bate-papo. Falar de acessibilidade sempre foi extremamente gratificante para mim, pois a partir desse assunto podemos entender toda a questão da deficiência sob um olhar moderno e esclarecedor. O que era até a alguns anos encarado como uma patologia, praticamente institucionalizada como doença, atualmente toma outra dimensão, a de uma limitação que pode ser maior ou menor de acordo com as barreiras de caráter social e ambiental.

“Então, em muitos momentos a sociedade também se mostra deficiente?” Essa pergunta veio como um presente, porque me permitia dar uma série de exemplos da inadequação de nossa sociedade para os indivíduos que fazem parte dela. Pensei alguns segundos e devolvi a pergunta para o grupo. O resultado não poderia ter sido melhor. Em poucos minutos foram dados exemplos de barreiras impeditivas não só a deficientes físicos, sensoriais, e ou intelectual, como também a obesos, idosos, gestantes, anões enfim, a constatação de que o desenho social a cada dia exclui mais.

Desta forma ficou fácil mostrar o grande paradoxo em que vivemos. Estamos na era da segmentação, produtos dirigidos para mercados específicos. As ferramentas de marketing a cada dia nos oferecem maiores subsídios para conhecer o segmento adequado para um produto específico e vice-versa. No entanto, ainda nos deparamos com uma pessoa com deficiência com dificuldades na hora de definir um pacote turístico, ir ao shopping, ou mesmo fazer compras pela internet. Neste caso quem é deficiente, o consumidor ou o mercado?

Felizmente, a luta de movimentos sociais organizados, somada a uma sofisticação na legislação e ao esforço de algumas iniciativas no setor privado têm mudado rapidamente este cenário. A desmistificação da acessibilidade como um problema de caráter exclusivamente arquitetônico, fez com que, a preocupação com a informação e a ambientação entrasse para esse debate.

Nas palavras de Barton, o isolamento das instituições constitui a mais mortal de todas as deformidades (Barton, 1996). Um cadeirante impedido de acompanhar um espetáculo teatral, um cego sem alternativas para operar um terminal bancário, um surdo sem possibilidades para acompanhar um filme, são exemplos claros dessa violência institucional.

Por fim, a pergunta que deu origem a esse artigo, uma senhora responsável por um museu me questionou, “além de todos os aspectos técnicos e das leis relacionadas a acessibilidade o que mais você destacaria como importante para inclusão de pessoas com deficiência?” Nesse momento creio que falou mais alto toda a minha história e as pessoas que fizeram parte dela, sem dúvida a resposta era simples, a sensibilidade. A expressão que soa muito parecido com acessibilidade, com certeza, foi alicerce de muitas de nossas conquistas.

A sensibilidade do médico que contou aos pais sobre a deficiência do filho, mais soube também dizer “vá em frente”, ele pode e o senhor e a senhora podem; a sensibilidade de tantos que contrataram não pela lei, mas pela certeza do talento e pela responsabilidade enquanto empregador; a sensibilidade de amigos, maridos e esposas que amaram incondicionalmente, além das limitações, as potencialidades.

A sensibilidade abre caminhos e faz com que toda a beleza de Monet possa ser admirada por cegos. Faz com que surdos dancem com toda a leveza da primavera de Vivaldi, e que cadeirantes emocionem o mundo com seu basquete mágico.

Então fica aqui a minha proposta. Transformemos a sensibilidade em lei! Não temos a necessidade de ir ao congresso, fazer plebiscito, ou pedir ao Presidente que edite uma medida provisória. Para que ela entre em vigor faz-se necessário muito exercício. Podemos começar olhando para nós mesmos e percebendo o quanto somos e podemos ser diferentes. Quantas limitações colecionadas e não percebidas ao longo dos anos! O próximo passo é olhar para o outro, entendo o quando podemos nos completar superando limites e identificando potencialidades. O exercício pode ser repetido freqüentemente e, em questão de dias, a lei passa a vigorar em caráter irrevogável.

A Grande Alavanca

EEPG Professora Inah de Mello, segunda-feira à tarde, hoje o dia está ensolarado… Foi assim, que comecei uma jornada que transformaria minha vida. A maquina Braille Perkins, emprestada pela escola e uma sala lotada de crianças “normais” faziam parte de um cenário sonhado por mim e principalmente pelos meus pais, que acreditavam que o estudo era a única “cura” para qualquer problema e principalmente para minha deficiência.
Meu pai, Sr. Sebastião, então metalúrgico, cursou só os quatro primeiros anos e foi diplomado, segundo ele diante de uma grande comemoração de toda a família, regada de Mortadela e Tubaína.
Minha mãe dona Climéria, dona de casa, infelizmente teve que parar antes. Porém as escolas entraram definitivamente em sua vida, logo em meu primeiro ano de vida. Como uma heroína, ela lutava por minha educação incansavelmente, na busca por livros em Braille, pela doação da máquina Perkins, pelo espaço nas diferentes escolas que estudei. Os dois repetiam sempre: filho, se quiser vencer tem que estudar e estudar em uma escola normal!
Assim foi feito. E além de português, ciências, matemática, e outras disciplinas, tínhamos aulas diárias de inclusão. Essa disciplina, não tinha professor definido e nem era parte do currículo da escola, foi descoberta por nós crianças que entre brincadeiras, pequenas brigas e muitas perguntas encontrávamos respostas que talvez resolvessem problemas gigantescos de caráter social.
Uma das principais lições que todo ano era reforçada e hoje enquanto professor e ainda faço questão de sempre exercitar, é o potencial das limitações.
Descobrimos que quando se tem alguma deficiência, se tem a vantagem de lembrar-se disso o tempo todo. Não dá para esquecer ou jogar de baixo do tapete e aí, é transformar isso em uma grande alavanca ou em uma grande cortina.
A alavanca faz com que cada limite se transforme em meios para alcançar potencialidades escondidas e a cortina serve como esconderijo dos desafios que a vida pode nos trazer.
Com a ajuda de meus pais, professores e de todos os colegas de escola, escolhi a alavanca!  Ainda me lembro como jogávamos bola depois da aula. De início, fui eleito técnico do time da terceira série A, pois todos queriam que eu estivesse no jogo de alguma forma. Mesmo sem enxergar nada, o jogo era narrado por um jogador que ficava no banco. Cada substituição ou idealização de um novo esquema tático era respeitada e cumprida por todos. Depois descobrimos a possibilidade de brincar com uma bola ensacada em uma sacola de supermercado. Isso logo se tornou uma nova brincadeira realizada logo depois os jogos que eram realizados após as aulas. A bola fazia barulho e jogávamos “Gol a Gol”, onde o potencial do chute era valorizado.
Minha limitação em copiar matéria da lousa, também fez surgir um novo personagem em sala de aula. Era o aluno que ditava. Quase todos se candidatavam a uma função, que além de ser valorizada pelas professoras, ainda garantia a possibilidade de conversar um pouquinho, mas sem nenhuma punição.
O aluno com deficiência, inserido em uma sala de aula, infelizmente acaba sempre herdando algum rótulo, que vai do super aluno, até o de coitado, incapaz de realizar as tarefas solicitadas.
Sempre estive na primeira condição, e ao longo dos anos isso passou a me incomodar. Vinha junto, o medo de ser rejeitado pelos colegas, ou mesmo de ser obrigado a sempre ir bem. A solução que alguns diriam inconsciente para mim, foi clara e pragmática. Eu tinha que não ser tão bom! Essa solução acabou sendo extremamente divertida. Ruim para meus pais, que começaram a ser chamados pelas professoras que diziam que eu era responsável pela organização da bagunça em sala de aula, porém saudável na construção de um aprendizado natural. Pontos negativos, advertências e uma recuperação, que veio como uma catástrofe se misturavam com boas notas e com a participação em cada vez mais espaços dentro de todas as atividades escolares.
Foram muitas conquistas. Minha esposa, que conheci no cursinho pré-vestibular há 15 anos, no início apenas uma colega de sala, que em meio a muita leitura de romances e contos passou a fazer parte da minha história. O amigo e padrinho de casamento Marcio, ex companheiro de banda de heave metal e atual sócio em uma consultoria, fruto de uma amizade de quase 20 anos, além de muitos professores e escolas por onde passei, fazem parte de um conjunto de tesouros impossíveis de contabilizar.
Hoje sou professor universitário, na área de administração. A inclusão em sala de aula, desta forma, acaba sendo de novo para mim, um aprendizado constante.
Neste contexto, posso afirmar com certeza, que o convívio com o diferente precisa ser estimulado e praticado em todos os níveis de formação educacional.
Nossa sociedade carece de advogados, arquitetos, médicos, policiais, dentre outros profissionais, que a compreenda como um meio de diversidade.
Por fim, esse relato não pode ser entendido como uma bandeira. Não devemos transformar o debate em torno da educação inclusiva em uma batalha de dois lados, os que defendem e os que são contra.
Tenho certeza da importância das escolas e institutos especiais. Precisamos nos unir e construir um país, que verdadeiramente seja de todos.
A construção desse novo país depende de um trabalho conjunto, onde toda a sociedade utilize suas limitações como alavancas de seus potenciais. Milhares de livros são vendidos dizendo você pode, você é um vencedor, o sucesso depende de você.
Proponho que escrevamos livros sobre nossos limites, precisamos enxergá-los e encará-los frente-a-frente. Só assim, poderemos transformá-los nas grandes alavancas que resgatarão a auto-estima e a real capacidade inerente a todos de ir além.