Mas você trabalha?

Faz uns cinco anos ou mais que ouvi essa pergunta em um trem lotado voltando da Vila Prudente. A senhora cheia de sacolas que acabara de me ajudar a entrar no vagão, mostrava na pergunta um tom de admiração e perplexidade.

Um cego voltando do trabalho em meio a tantos perfeitos sem trabalhar por falta de interesse ou oportunidade virou motivo de prosa para dona Assunta, que não sei se por pura coincidência com o nome, adorava puxar assunto com quem pudesse ou abrisse a guarda.

Confesso que aquele tipo de situação me incomodava um pouco. Trabalhar para mim, mais do que uma obrigação, foi sempre um prazer, uma conquista, enfim, um dos meios mais concretos de exercer a cidadania. Ser apontado como um exemplo por isso era no mínimo constrangedor.

Hoje, lembrando daquele papo de trem, escrevo esse artigo com muita alegria por constatar que cada vez mais deixa de ser novidade encontrar uma pessoa com deficiência, indo ou voltando do trabalho.

A lei de cotas, que garante até cinco por cento de vagas para pessoas com deficiência, em empresas a partir de cem funcionários, chegou aos dezoito anos com bastante maturidade.

Hoje estive no trem e confesso que depois de tantos anos não consigo deixar de me indignar, ao testemunhar a deficiência reafirmada como motivo de esmola em meio a pedintes e olhares piedosos.

Infelizmente os cantadores cegos, as pessoas com deficiências físicas que se apresentam como inválidos ou doentes, ainda reforçam estereótipos e fundamentam preconceitos. Tenho certeza que grande parte deles não gostaria de estar lá e que temos muito a caminhar. Por outro lado, é muito bom saber que a cada ano cada vez mais pessoas com deficiência, comemoram o feriadão do dia primeiro de maio depois de uma cansativa semana de trabalho.

Você trabalha? Fico feliz que sim! E espero que nós que já conseguimos ser assunto de tantas donas Assunta, possamos abrir portas para muitos outros, que infelizmente compõem uma regra, que tenho a certeza, caminha rapidamente para se tornar exceção.

Maringás

Nos municípios de Itatiaia no Rio e Bocaina em Minas Gerais, exatamente na divisa dos dois, você pode conhecer as duas Maringás. Uma no Rio e outra em Minas, as duas vilas são um excelente programa para o frio de julho. Música de qualidade, e uma gastronomia de cancelar qualquer dieta, são duas características marcantes do lugar. O paradoxo entre o requinte e a simplicidade também é outra condição quase que indescritível, já que ali dá para curtir esses dois extremos, sem qualquer forçação de barra.
Os pratos principais são à base de trutas, e considero como imperdível, a Truta defumada ao molho de alcaparras, que serve tranquilamente a duas pessoas. Você encontra essa maravilha no bar do mineiro, e come ao som de uma boa música ao vivo, que tem como repertório característico, Geraldo Azevedo, Djavan, Marisa Monte, em meio a clássicos da Bossa Nova.
O lugar é aquecido por lareira, e os pratos custam em média vinte e cinco reais.´
Para fechar, é indispensável durante o dia, um passeio pelas cachoeiras da região. Uma boa pedida é o aucantilado onde depois do passeio você pode tomar uma cerveja acompanhada por uma saborosa porção de pinhão temperado com orégano.
Maiores informações sobre pousadas, localização e passeios, acessem o site: www.viscondedemaua.com.br.
Se você conhece essa  dica, ou pretende aproveitar, não esquece de passar por aqui e postar sua opinião. Até a próxima.

De volta da festa

Hoje, dia 19 de agosto de 2009, logo cedo acordei feliz pronto para festa. Um dia histórico, o dia em que anos de lutas, sonhos, debates e ideais se transformariam em lei.

Vesti meu viajado terno, companheiro de conferências, tão criticado por aqueles que defendem usuários formatados em estereótipos por eles desenhados ou roupas que justifiquem sua representatividade.

O momento merecia toda preparação. O SUAS, Sistema Único de Assistência Social, construído durante anos, preconizado na Lei Orgânica da Assistência Social, e consciente ou inconscientemente esperado por todo brasileiro estava prestes a se tornar lei.

Cabe aqui caros leitores falar um pouco desse sistema, infelizmente ainda pouco conhecido em sua plenitude por toda a população desse país. O SUAS, Sistema Único da Assistência Social, materializa-se enquanto grande elo de ações isoladas, e como sustentáculo da garantia do cumprimento de responsabilidades quanto ao co-financiamento da política por cada ente da federação.

Trocando em miúdos, é a estrada que leva à Política de Assistência Social já contemplada no tripé da seguridade social em nossa constituição cidadã, a sua consolidação enquanto direito do cidadão e dever do estado.

Ainda não foi dessa vez. Os deputados pediram vistas adiando a aprovação do projeto que tenho certeza, provocará uma revolução silenciosa na vida da população brasileira.

Recentemente caros leitores, fui acusado por alguém que só tem olhos para suas vaidades pessoais e suas pequenas ambições mal resolvidas, de ser contrário ao SUAS. Hoje, saindo do Plenário 7, Anexo 2 da Câmara dos Deputados, lembrei da acusação que não teve olhos para meus anos de luta enquanto líder de movimento e usuário da política.

Cheguei à conclusão que era hora de escrever sobre o assunto. Dizer o que penso e dar minha contribuição para além dos debates já realizados no CNAS e nas conferências.

É chegada a hora de pedirmos vistas, olhos e corações para os milhões de brasileiros que anseiam por direitos. Na luta pelo SUAS nunca abri mão da coerência para defender o que acredito.

Defendo entidades de assistência social fortes, autônomas e sustentáveis. Luto por um sistema único, não contributivo que garanta os mínimos sociais, por meio da promoção e da proteção social. Acredito sim na parceria do estado e da sociedade civil, sem discursos extremistas que só cabem em uma folha de papel. Por fim, exerço e sonho com um protagonismo de usuários verdadeiro, sem a criação de personagens, ou discriminação de entidades de luta. Um protagonismo alicerçado pela qualidade do debate promovido por seus representantes e pelo crescimento político, social e pessoal dos indivíduos.

Termino esse artigo com um olhar otimista. Diante de um copo pela metade, existem aqueles que dizem que o copo está meio vazio e outros que afirmam que está meio cheio. Faço parte da segunda metade.

Espero que nos unamos pelo o que sempre buscamos. Não é hora de radicalismos nem de confrontos. É hora de lutarmos pelo SUAS, pelos direitos de quem tanto precisa, e pelo respeito a organizações e movimentos que por tudo isto sempre trabalharam.

O nó e a faca

Aparentemente os dois não têm nada em comum. Um tem a função de juntar, amarrar, prender, já a outra corta, divide, às vezes até feri. Mas quando alguém quer falar mal os dois recebem o mesmo adjetivo, o mesmo sobrenome, entram para mesma família. O nó cego e a faca cega formam um casal que representa o peso do estigma carregado pelo adjetivo cego.

Várias vezes, já me deparei com pessoas constrangidas ao se referir a minha deficiência. “Você … como posso falar, deficiente visual”? A sociedade brasileira ainda não descobriu que dizer que alguém é cego não se trata de uma ofensa e que todo o peso dado à palavra é o que cria o rótulo. A prova disso é que para se referir à inutilidade da faca as pessoas dizem que ela está cega! Alguns ainda desvalidos de um mínimo de informação ao se referir a pessoa cega, chamam pelo ceguinho, não importando o tamanho, a classe social, a religião ou a opção sexual do indivíduo.

Caros leitores, aquele que não vê nada, é cego sim, e qualquer outro termo utilizado reforça toda a carga já dada a esse adjetivo tão utilizado. O amor, cego de nascença segundo poetas, boêmios, amantes e despeitados, ainda não tem um laudo oficial que comprove tal deficiência. Há quem diga inclusive que o amor verdadeiro enxerga o outro em sua totalidade. Rico ou pobre, alto ou baixo, com ou sem deficiência, respeitando suas limitações e estimulando suas potencialidades.

Não sou adepto do politicamente correto a todo tempo e nem quero utilizar esse espaço para propor que fiquemos nos policiando diante de expressões e ditos populares. Amanhã é dia de branco, essa cadeira está manca, aquele é um homem de visão, dentre tantas outras, vez ou outra são motivos para polêmicas e questionamentos. Contudo tenho a certeza que o respeito e a informação, quando trabalham em conjunto desatam qualquer nó sem precisar de faca.

Eu e as latas…

Refrigerante ou cerveja? Com certeza dependendo do momento, do seu gosto pessoal ou até mesmo de um impulso, fica fácil para qualquer um fazer essa escolha em segundos. Pois bem caros leitores, sentei agora para escrever essa coluna. Estou em um quarto de hotel em Brasília, e neste momento estamos eu e as latas. Não sei quem é quem, coca-cola ou guaraná, bhrama ou antártica, e por isso acabei decidindo por conversar um pouco sobre isso com vocês.

A percepção da deficiência ao longo dos anos tem sofrido um constante processo de mutação. Da maldição até o inatingível, da inutilidade até os super-poderes; muitos foram os estereótipos construídos que de uma forma ou outra e de acordo com o senso comum, sempre afastou a pessoa com deficiência da condição compreendida pela sociedade como normal.

Assim pudemos assistir ao longo da história a caridade durante séculos como único meio para garantia de subsistência.

A transição desse cenário é relativamente recente, e tem se dado por meio da luta do segmento e da reconstrução do conceito de deficiência, que agora não mais somente considera a limitação do individuo, pois passa a correlacionar essas limitações com a desadequação da sociedade e seus espaços físicos, equipamentos, serviços, sinalizações e comportamentos.

Então é fato que quanto menor a adequação do mercado maior a deficiência do consumidor.

De acordo com a lógica capitalista, desprezar por volta de vinte e sete milhões de consumidores em se tratando de Brasil, caracterizaria uma estratégia suicida e nem um estudioso ou profissional de marketing consideraria essa hipótese como possível. As ações no entanto vão na contra-mão do que ditam as regras de mercado, excluindo um segmento que muitas vezes tem que brigar para ter o consumo como um direito, mesmo tendo o recurso financeiro.

A peça publicitária que tratava da venda da bíblia falada, gravada por Cid Moreira trazia um alento aquelas pessoas de religião que até então não podiam ler. Cegos, baixa visão, dislexos, idosos, comemoravam a novidade à medida em que uma voz animadora anunciava a boa nova. O fechamento no entanto seria cômico se não fosse trágico; “Ligue agora para o telefone que está em seu vídeo e adquira nosso produto”!

Você já pensou nas dificuldades de um cadeirante para experimentar as roupas em boa parte das lojas ou mesmo para adentrar em bares e restaurantes de qualquer canto deste país?

Pois é, estamos aqui eu e as latas, e vou buscar na sorte uma bebida gelada para matar a sede e renovar a esperança de termos em breve um mercado que não entenda essa questão como uma ação de responsabilidade social, mas sim do aproveitamento do potencial de consumo de um público que trabalha, que tem família ou mesmo recebe benefícios governamentais, enfim um público com poder de compra.

PAI – Por Amor Incondicional

Por vezes tenho ouvido alguns desavisados dizendo que o fulano ou o beltrano vai ser pai por acidente. Aproveito a semana do Dia dos Pais para descordar dessa afirmação. Mesmo ainda não sendo pai, não tenho dúvida em afirmar, que o ato de ser pai só se efetiva por amor incondicional.

O pai que muitas vezes é ofuscado pelo brilho indescritível e inquestionável daquelas que nos dão a luz, atua como um coadjuvante no espetáculo da criação dos filhos, muitas vezes exercendo papéis para lá de difíceis.

É ele o responsável pelo não, mesmo com o coração transbordando de sins. É aquele que representa a conversa mais dura, uma possível punição ou mesmo o que se encarrega de aplicar a velha terapia do chinelo.

O pai muitas vezes sofre vendo o filho torcer para o time adversário, e silenciosamente comemora quando vê o filho sorrindo com a conquista de um campeonato. O pai é super herói, mesmo morrendo de medo ao acompanhar o filho na montanha russa e nas tantas outras atrações tão desejadas pelo filho no parque de diversões.

Por amor incondicional, o pai trabalha pelo futuro dos filhos e sonha com a realização dos sonhos de cada um deles. O pai é o torcedor mais fanático do filho no futebol, no judô, na natação ou qualquer outro esporte mesmo desconhecendo boa parte das regras da modalidade. É o fã apaixonado da filha no balé, no piano ou mesmo nas apresentações escolares com passos da moda ou com a tradicional quadrilha de São João.

Para lá de enciumado o pai recebe o primeiro namorado da filha, e em meio a sua atuação de anfitrião, mais ou menos severo, sonha com a casa cheia de netos. O pai se alegra acompanhando o filho nos primeiros passos do barbear e nos primeiros passeios ao volante, e fica inquieto ao emprestar o carro para as baladas de sábado à noite.

Por amor e amizade, carinho e admiração, e principalmente para agradecer, homenageio o meu pai e tantos outros que por amor incondicional, verdadeiramente merecem e se emocionam sempre que são chamados de Pai.