Um dia chega O DIA.

Nessa semana comemoramos o Dia Nacional de Luta das Pessoas com Deficiência. São vinte e sete anos de envolvimento de cada vez mais pessoas e segmentos organizados na luta pela garantia de direitos e por uma sociedade realmente de todos que dela fazem parte.

Hoje temos muito o que comemorar e muitas lutas a serem empreendidas.  Chegamos ao mercado de trabalho, às universidades e aos órgãos públicos. Tivemos inúmeras conquistas junto aos poderes legislativo, executivo e judiciário.  Levamos o Brasil ao status de signatário da Convenção Internacional da ONU, e caminhamos para a consolidação do país como potência paraolímpica.

Nossa luta então toma outros rumos. Nossos desafios agora são por dias que tenhamos a inclusão compreendida para além dos discursos. Talvez seja o momento de refletirmos o quanto caminhamos no campo das idéias, deixando para trás ações e ferramentas fundamentais para o dia-a-dia de milhares de pessoas com deficiência. Incluir uma criança no ensino regular sem o Braille, por exemplo, significa artificializar um discurso produto de tantas lutas históricas.

Buscamos agora dias em que seremos respeitados enquanto consumidores, tendo produtos pensados não por uma pretensa ação de responsabilidade social da empresa a ou b, mas sim por coerência mercadológica.

Nossa luta é pela cidadania nas horas vagas. Pelo dia que teremos teatros, cinemas e programação televisiva com libras, áudio-descrição e bares e baladas, prontos para receber sem barreiras arquitetônicas e atitudinais.

Um dia chega o dia em que nosso dia de luta será o dia de luta do Brasil. O dia em que todo brasileiro saberá da importância dessa causa e valorizará a história daqueles que garantiram nossos direitos até aqui.

Carta a São Tomé

Prezado Amigo Santo; (ou com o perdão da liberdade, meu velho santo amigo!)

Escrevo-lhe notícias que confesso, apesar de conhecer toda a sua fama, penso que mesmo vendo, vossa santidade não acreditaria. Não sei a quanto tempo o senhor não vem por essas bandas, portanto cabe informar que o Brasil não é mais uma monarquia. Isso mesmo! Não temos mais reis, hoje “o cara” é o presidente. É esse mesmo o nome que se dá. Já digo que não tem nada a ver com aquele conhaque, fora o fato das más línguas dizerem que o homem é devoto do “Santo Mé”. Mas não faça cara feia, pois já se sabe que esse negócio de ser santo é coisa aí de cima.

Deixando a boataria de lado, acredite se quiser, mesmo não tendo mais reis, ainda por aqui se constroem castelos. Não se espante querido santo! Não estão fazendo um para cada família deste país, isso é privilégio de deputado.

Permita-me tentar explicar que ser é esse. Segundo estudos científicos faz parte da raça humana, e é eleito democraticamente pelos humanos para representá-los. O deputado ganha mais do que a maioria que o elegeu, sendo que boa parte deles trabalham infinitamente menos que seus quase santos eleitores. Deputados ganham bem, porém não o suficiente para construírem castelos! Mas se o amigo der um pulo em nossa querida terrinha, poderá ver e tocar em um construído lá nas Minas Gerais.

As notícias não param por aqui. Não que eu seja fofoqueiro, mas pergunte ao carteiro se não é verdade! Um casal que sempre trouxe histórias e mensagens aí de cima, conhecidos por bispo e bispa, andou transformando a bíblia em malote financeiro. Mais de cinqüenta mil meu santo. Diz a mídia que além das sagradas escrituras, o afortunado casal tinha dinheiro escondido no porta-cds, nas bagagens e Deus sabe mais onde, aliás dizem que quem sabe é o bispo.  A propósito, a paixão pelo cifrão tem levado pessoas a cometer loucuras. Teve gente até que transformou a cueca, isso mesmo, aquela peça íntima em cofre com dinheiro, sabe de quem? Dos tais eleitores!

Mas mudando um pouco o rumo da prosa, me permita falar de música. Não sou Nelson Mota, mas acho que dá para arriscar.

Santo do Céu, a coisa aqui feia ou como dizia o bom e velho Chico, a coisa aqui preta! Tem muita coisa boa, mas como me propus a te contar aquelas notícias de cair o queixo, se segura para não cair daí, afinal a altura deve ser grande.. A moda agora é o créu. É isso mesmo! Céu não, créu! Como sei que o amigo custa a acreditar, prometo me empenhar em mandar-lhe um e-mail com a obra aqui mencionada. Mas caso a mesma seja bloqueada pelo seu anti-vírus, segue abaixo um pequeno trecho da letra:

É créu!
É créu nelas!
É créu!
É créu nelas!
“Vambora, que vamo”!
“Vambora, que vamo”!

Então vambora. Antes, porém, preciso me despedir. Mas não sem contar a última do dia. Nunca na história deste país, o amigo ganhou tantos discípulos. O povo a cada dia mais quer ver para crer, desconfiado de tantas histórias mal contadas ou promessas não cumpridas. O triste, no entanto, ou porque não dizer bastante engraçado, é que às vezes o povo vê, e quando isso acontece, perplexo, prefere não acreditar!!!

Vamos buscar o dez!

Tenho dito em minhas tribunas, que a inclusão tal qual a cidadania demandam exercícios diários. Assim como no estudo de outra língua, no aprendizado de um instrumento musical ou no treinamento de uma modalidade esportiva; a persistência, a determinação, a paixão e muitas vezes o cansaço fazem parte desses exercícios.

Neste artigo proponho avaliarmos como tem se dado nossa prática dessas modalidades. Reconhecer nossas conquistas e desafios para a construção de uma sociedade mais justa, é ter claro onde estamos. Nenhum atleta bate um novo recorde se não souber qual o seu tempo atual e se não tiver a autoconfiança assegurada pelos seus êxitos já transformados em medalhas. O músico só busca novas habilidades quando se encanta com aquela canção que ainda não conseguiu tocar, mas tem sempre como principal motivo para continuar a alegria de poder executar com qualidade aquilo que já aprendeu.

Se pensarmos em uma escala de zero a dez, podemos perguntar como estamos então como consumidores. Conhecemos e exigimos nossos direitos? Consumimos com responsabilidade e respeito ao meio ambiente? Pagamos em dia e compramos de acordo com nosso orçamento?

A mesma escala pode ser bastante útil para medirmos nosso papel como moradores de nossas cidades. Cuidamos de nossas calçadas e fachadas? Participamos dos debates e das ações que definem o futuro daquela região? Administramos com clareza a destinação de todo o lixo que produzimos a partir de nossas casas?

Ainda de zero a dez podemos avaliar nossa contribuição enquanto pais, filhos, irmãos e amigos para multiplicar idéias que acreditamos e que sabemos, deixaram o campo dos discursos, para mudar a vida das empresas, cidades e pessoas.

Busquemos o dez com a tranqüilidade de saber que somos humanos. Erramos às vezes, cansamos e infelizmente em determinadas situações até desanimamos. O dez não pode ser uma obsessão do politicamente correto, mas sim, uma conseqüência da prática de nosso dia a dia.

A padaria que só fazia pães

Minha conversa com dona Cida no último final de semana, me fez lembrar do seu Nestor da oficina. Ela me procurou para falar de suas preocupações com o futuro da entidade que atua há mais de vinte anos: “Hoje a gente tem que escolher se é de educação, de assistência social ou saúde. Vamos ter que dividir todo o trabalho!”. A realidade não é bem essa, mas em momento de regulamentação da nova lei e de debates em torno da política nacional de assistência social, são comuns confusões, angústias e interpretações distintas do futuro.

Falando em futuro vamos voltar a seu Nestor. Lembrei dele, pois o homem gosta de falar do assunto. Às vezes com previsões catastróficas e pessimistas, às vezes maravilhado com as inovações tecnológicas, às vezes com um certo tom de saudosismo. Esses dias no botequim do seu Martinho ele falava sobre a nova padaria da Vila. “As padarias tão querendo ser até restaurante! Não bastava vender revista de fofoca de novela e de mulher pelada, e todas aquelas quinquilharias que não se achava nem no mercado, hoje, dá até pra pagar conta de luz!”.

Os comentários de seu Nestor sobre a padaria e as inquietações de dona Cida quanto ao futuro da pequena entidade de assistência nos mostra a necessidade de revermos os rótulos. A flexibilidade e o poder de adaptação e as inúmeras variáveis do dia-a-dia tem dado o tom para qualquer segmento de atividade.

Dizer com veemência que uma associação é de ou para, de atendimento ou de defesa, ou mesmo afirmar que não existem entidades mistas, é remar na contramão do que demanda a própria sociedade.

Muitas entidades que nasceram para atender, hoje têm à sua frente aqueles que ao longo dos anos se tornaram cidadãos autônomos e de direitos. Aquelas que poderiam ser chamadas de, para, por não ter pessoas com deficiência à frente da direção, hoje estão para lá de de, pois têm na construção da inclusão, pessoas com e sem deficiência carregando a mesma bandeira.

Seu Nestor hoje pega o ônibus todo dia de manhã para buscar pão no mercado. Não sei se rompeu com a padaria ou viu no passeio com tantos outros contemporâneos um meio para expor suas reflexões sempre tão contundentes.

Dona Cida continua na luta. Ela me disse que já sabe que seu trabalho não é caridade e sim um direito daqueles que recebem. Disse que, no entanto, o amor ao próximo e alegria de fazer o bem, continuam a fazer parte do seu dia-a-dia independente de qualquer projeto de lei.

À espera do ônibus

Recentemente voltando pra casa, ouvi uma pergunta, que me chamou a atenção, não pelo questionamento em si, mais pelo fato de frequentemente alguém me repetir a mesma questão, “Como você faz para pegar ônibus?”. Talvez por ser cego há tantos anos, essa para mim já é uma rotina quase automática, no entanto, acredito ser de grande importância, aproveitar esse espaço para tratar do assunto.

Muitas vezes esperar um ônibus para uma pessoa cega, acaba sendo uma situação muito mais complicada, constrangedora ou engraçada do que deveria. Ao chegar em uma parada de ônibus, a pessoa cega se utiliza de todos os sentidos para identificar se tem alguém para pedir informação. Um som de conversa, o toque com a bengala em alguém ou mesmo um barulho de sacola, são meios que fazem com que a pessoa cega perceba que não está só. Daí em diante é só pedir a gentileza de se avisar quando o ônibus x ou y chegar. Nesse momento, uma solução aparente pode se tornar um problema.

Não são raras as vezes que as pessoas se comprometem a avisar, porém esquecem de dizer que estão indo quando seu ônibus é o que chegou primeiro. O desconhecimento sobre como ajudar, e a falta de campanhas educativas neste sentido, provocam situações cômicas. Uma senhora uma vez me disse: “olha lá, seu ônibus está chegando, tá vindo, tá vindo, já foi! Uma outra me perguntou se eu conseguia identificar o meu ônibus pelo cheiro. Enfim, entre erros e acertos a presteza e o jogo de cintura do brasileiro, acabam tornando a situação na maior parte das vezes contornável. É fato, porém, que o grande problema a ser eliminado é a escassez de informações.

Tenho a certeza que vocês caros leitores se tornarão multiplicadores desse artigo, tornando muito mais tranqüila a espera por um ônibus de vários cegos daqui para frente. Esse desafio, no entanto, necessita de mais aliados para ser superado. Gestores públicos e a sociedade como um todo têm na informação a grande arma para quebrar ou reconstruir qualquer estereotipo. Agora torçam por mim, pois já estou indo pegar meu ônibus!