Ser Avapeano

Na vida nos acostumamos a assumir e exercer diferentes papéis. Somos filhos, primos, amigos, pais, profissionais. Durante toda a caminhada nos deparamos com os papéis por decorrência familiar, por escolhas ou às vezes falta delas, por conveniência, por mérito, por missão, convicção e em algum momento, inevitavelmente por paixão.

Aqueles colaboradores Volkswagen, que em 1982, decidiram empunhar uma nova bandeira por amor a seus filhos, irmãos ou outros familiares com deficiência, dando a luz à Avape, depararam-se  com um novo papel: o de ser Avapeano. Ser Avapeano então era sonhar. Acreditar que juntos poderiam lutar pela valorização, qualidade de vida e dignidade não mais dos que lhes esperavam em casa, mas de todo um segmento.

Vinte e sete anos depois, o sonho se tornou real. Avapeano de segunda geração, na tarde do último domingo disse a meu pai que iria tentar escrever sobre ser Avapeano. Conversamos muito sobre os momentos que antecederam a fundação da Avape e da luta dele e de tantos outros colegas para em meio ao trabalho duro na linha de montagem, buscar mais adeptos para aquele movimento que fazia seus corações baterem mais forte.

Futuramente, quem sabe, esse texto possa fazer parte de um grande livro. Digo isso porque ser Avapeano implica em sentir; em convicções filosóficas e concepções de gestão maturadas ao longo dos vinte e sete anos de consolidação da Avape Mãe.

Ser Avapeano significa compreender e valorizar cada pessoa a partir de suas potencialidades. Isso implica em um novo paradigma que deixa de amplificar as deficiências ou quaisquer outras limitações, em detrimento do indivíduo em toda sua amplitude.

O Avapeano atua em rede. Somando esforços individuais e institucionais, com foco em entidades fortes que tenham em sua concepção de gestão, o protagonismo dos usuários, a auto-sustentação e a luta por direitos.

Temos a certeza de nossa importância no exercício do controle social, na construção de políticas públicas e na caminhada em busca da verdadeira inclusão.

Assim nosso movimento tem se fortalecido, contagiando usuários, colaboradores, gestores, voluntários e tantas outras organizações que por meio de seu corpo associativo tem se juntado a nós, agregando cada vez mais sentimentos diferentes que produzem um efeito sinérgico na construção desse novo momento.

Avapeanos de bombacha, comendo pato no tucupi, tomando tererê, dançando forró ou presos no trânsito paulistano, estão construindo um novo país. É um Brasil diferente, preocupado com o meio ambiente e com a garantia de direitos. Um Brasil das parcerias onde Estado, mercado e sociedade civil andam juntos, sem se preocupar com quem deve ter a primazia do poder.

Se você se identificou com esse texto, sorriu, sentiu o coração bater diferente, sonhou ou ficou com vontade de escrever, procure-nos e faça parte dessa jornada, pois esses são sintomas seriíssimos de que você está se tornando  Avapeano.

O paradigma da bondade

Nesse último mês nos deparamos em uma reunião do Conselho Nacional de Assistência Social, com um exemplar da Revista Filantropia, que trouxe na capa, “A busca pelo pote de ouro”.

Estava ali uma clara confusão entre a profissionalização da captação de recursos e gestão das entidades, e a mercantilização dos serviços por elas oferecidos.

Convidado por meus colegas de conselho a escrever sobre o tema, pensei por alguns dias e assumi como desafio trazer algumas reflexões sobre o paradigma da bondade. Digo desafio, pois não pretendo partir de nenhuma premissa filosófica, psicanalítica ou religiosa, mas sim dos resultados / efeitos sociais, produzidos pelo ato de fazer o bem.

A bondade há alguns séculos poderia ser praticada sob a ótica de alguns, inclusive sacrificando vidas, ou por meio da exclusão do convívio social.

Com o amadurecimento das relações sociais, consolidado por inúmeros conflitos e consensos, em determinado momento a bondade se materializou enquanto paradigma único de garantia de “dignidade”. Dar o que comer a quem tem fome, abrigo a quem tem frio, lar aos abandonados, afeto aos renegados. A bondade então foi por tantos outros séculos a única resposta aos “desvalidos” sociais.

Com o fim da Segunda Guerra Mundial o mundo se repensou. Inúmeros segmentos até ali, “invisíveis” ou não reconhecidos, se organizaram tomando por base suas conquistas históricas e reprimidas ganhando força e reconhecimento a partir de suas lutas por direitos.

Negros, homossexuais, pessoas com deficiências, mulheres, índios, ambientalistas, trouxeram suas bandeiras, simpatizantes, amigos e familiares para o debate.

O paradigma da bondade então tomou novos contornos. Fazer o bem passou a ser um compromisso para além das organizações religiosas ou pequenos grupos de abnegados. A bondade se aliou à consciência política, e ganhou além do amor ao próximo, conforto espiritual, da compaixão, outros ingredientes como a competência, o respeito, a equiparação de oportunidades e a garantia de direitos.

Os movimentos e organizações então se modernizaram. Buscaram mecanismos de gestão e de execução de suas ações que contemplassem todas as demandas sociais apresentadas a partir de suas bases.

No Brasil estamos testemunhando nos últimos anos a construção de um novo paradigma da bondade. Com a conquista na constituição cidadã de 1988, da assistência social, com status de política pública, direito do cidadão e dever do estado, a bondade se materializa por meio da garantia de direitos.

Assim, devemos repensar toda nossa postura e linguagem enquanto atores que lutam dentro de movimentos, organizações sociais e na gestão pública. . É no mínimo desrespeitosa a idéia de captarmos recursos a partir do discurso da comoção. Tocar o coração de um doador reafirma a proposta  de uma ajuda que lhe dará o reino dos céus ou o conforto de uma postura de Pilatos diante das desigualdades sociais.

Os direitos sócio-assistenciais não podem ser comercializados, e pior que isso tendo como atores de peças publicitárias, pessoas expondo suas histórias de vida marcadas por um sofrimento, boa parte das vezes provocado por ausência de ações  do estado ou da participação efetiva social.

Podemos e devemos contar com movimentos e entidades cada vez mais fortes. Gestão compromissada com a qualidade e com a participação efetiva dos usuários. Criação de produtos e serviços, alinhados com princípios éticos que viabilizem o cumprimento de sua missão. Identificação dos serviços e das bandeiras com base na construção coletiva.

Deixemos o pote de lado e partamos juntos em busca de um país de ouro. O Brasil das olimpíadas e paraolimpíadas de 2016 e da Copa de 2014, caminha para ser também o Brasil de um povo cidadão. Consciente de seus deveres e direitos, e sabedores de que a bondade é um paradigma, que pode se bem praticado provocar a grande revolução social necessária para construção desse novo país.

Cara de gringo

Após anotar o pedido de um chopp, uma porção de mandioca com carne seca (jabá com aipim, charque com macaxeira), o garçom perguntou: E ele? Vai querer o que? A resposta de meu amigo então me surpreendeu, ao ser transformada em pergunta: “ele tem cara de gringo”? Sorrindo ele continuou afirmando, “o cara fala português!”. A provocação um pouco criativa, ou para alguns um tanto mal educada, foi por incrível que pareça bastante pedagógica.

O Justino, nome do rapaz que descobri alguns pedidos mais tarde, de repente acordou. Sorrindo ele imediatamente se dirigiu a mim perguntando com total espontaneidade: “o que o senhor vai beber”?

A postura do Justino, infelizmente ainda é algo comum em restaurantes, aeroportos, lojas e tantos outros estabelecimentos comerciais. O atendente recebendo duas pessoas, uma cega e outra que enxerga, conduz o diálogo como se a primeira não falasse a sua língua, tratando toda a negociação com aquele que enxerga, o transformando em um tradutor intérprete.

Estranhamento, medo, excesso de zelo, desinformação, preconceito ou todo o conjunto da obra, podem ser respostas cabíveis que venham justificar nossa transformação de clientes em meros expectadores. Todavia essas situações devem ser enfrentadas de frente e encaradas como um problema que demanda urgente solução.

Vivemos no Brasil – “Um País de Todos”! Aqui conquistamos uma legislação que garante a qualquer cidadão, acessibilidade a espaços físicos, veículos de informação, meios de transporte e serviços, ou seja, são necessárias ações que vão para além da eliminação das barreiras físicas. Se queremos nos transformar como nação temos que preparar nossa mão-de-obra para atender as diferenças. O que em tese seria o mais fácil mostra-se como nosso maior desafio, a mudança de atitude!

Com certeza estamos no caminho certo. Espero em um curto espaço de tempo ser surpreendido por outros Justinos, que com o mínimo de informação se dirija a mim ou qualquer outro cliente com deficiência  com naturalidade e em bom português, mesmo porquê de gringo eu só tenho o sobrenome, que cá para nós, já ta pra lá de nacionalizado!