Em discussão

Lembro que quando criança era comum ouvir, “política futebol e religião não se discute”. Em relação ao futebol quebrei a regra cedo. A paixão pelo Corinthians e pelo esporte em si, fazia do assunto o de meus prediletos, fosse na escola, nas brincadeiras com os colegas de bairro ou mesmo nas festas de família com os primos e tios mais velhos.

Quanto à política, meus familiares mostravam com freqüência que a regra também era equivocada. Bastava um aniversário, ou mesmo um encontro casual para que se tivesse debates intermináveis, quanto a melhor alternativa de voto ou mesmo de opção partidária.

A vida então me mostrou ao longo dos anos que o debate sem dúvidas é sempre melhor do que uma regra que nos dita o que devemos / podemos ou não discutir. Raul Seixas dizia que já aos onze anos de idade desconfiava da verdade absoluta, eu aos trinta e três só não afirmo com certeza que ela não existe, pois estaria construindo uma nova verdade.

Pensando em tudo isso decidi escrever sobre o que tenho chamado dos direitos que viraram deveres. O tema é complexo e com certeza não será em um artigo que avançaremos na questão. Por outro lado não tenho dúvidas que algumas questões podem nos levar a refletir e apimentar alguns debates.

Comecemos pelo voto. Muitos antes de nós abriram caminho para que pudéssemos conquistar o direito de votar e assim levar ao executivo e legislativo nossos legítimos representantes. Direito conquistado, dever instituído! Assim nosso direito de escolha foi imediatamente caçado, pois alguns pensaram, “todo cidadão que atinge a maioridade deve votar, e isso não se discute”!

Podemos ainda falar de educação inclusiva, um tema para mim bastante presente, já que além de cego e militante do movimento de pessoas com deficiência, também sou produto desse modelo de ensino. Essa sempre foi uma bandeira de todos nós. Pais, educadores, alunos e muitos gestores governamentais hã anos tem buscado esse horizonte, para que possamos ter na escola um ambiente efetivamente propício a receber a diversidade. Mas e o ensino especial? Em nome da luta pela inclusão, alguns passaram a denominá-lo ensino segregado; e o que para muitos era a única alternativa diante do nível de complexidade de deficiência de seus filhos, hoje é rechaçado em nome de um direito. Então sinaliza o MEC aos pais de crianças com deficiência do Brasil: incluam seus filhos, queiram os senhores ou não, isso não se discute!

Convido a você a lembrar e discutir, com amigos, alunos, familiares e colegas de trabalho quantos direitos lhe são impostos. Em nossa atual democracia, conquistada com muita luta, sangue e grandes discussões, precisamos abrir os olhos e não permitir que em nome de verdades absolutas, sufoquemos qualquer debate. Discutir é um direito, e nesse caso ainda felizmente temos assegurada a possibilidade de exercê-lo ou não. A escolha é sua!

Um BBB Diferente.

Nesta terça feira dia 12, a rede Globo deu início à décima edição do Big Brother Brasil. O programa foi ao ar, logo depois de um dos principais produtos da emissora, a tradicional novela das nove, que atualmente tem como uma de suas protagonistas uma personagem tetraplégica interpretada por Aline de Morais.

O questionado realit show, que teve em seu primeiro dia uma proposta clara: trazer à tona a diversidade. Assim em sua primeira prova pela disputa da liderança, a casa foi dividida em tribos, deixando clara a idéia da emissora em contar no programa com representantes de diversos segmentos da sociedade brasileira, que ali poderão romper ou quem sabe reafirmar, inúmeros estereótipos a eles atribuídos.

O gay, a lésbica, a filha de político tradicional, o ex morador de favelas, o advogado, o judeu, a policial e a intelectual foram alguns dos personagens que marcaram a estréia dessa proposta. Infelizmente o segmento de pessoas com deficiência mais uma vez ficou de fora. O excelente serviço prestado por Manuel Carlos na novela aqui já mencionada, poderia ganhar uma bela doze de realidade, se a emissora resolvesse ir além. Ousar na adequação das provas, na preparação da casa e principalmente na proposição de um desafio a todos os participantes em ter ali uma pessoa com deficiência, fosse ela cega, surda, cadeirante, ou outra qualquer, definida pela direção do programa, disputando em condições” de igualdade”, o prêmio de um milhão e meio de reais.

É fato que lá a igualdade é um paradoxo, visto que a diferença é o ingrediente preferido pelo público; Por outro lado, todos iniciam com chances iguais, e muitas vezes acabam surpreendendo inclusive rompendo tendências.

Fica então o desafio. A Globo já disse em um de seus slogans: “Globo, a gente se vê por aqui”. Ontem com tristeza, não vi nosso segmento de pessoas com deficiência no BBB. Mas ainda dá tempo. Dá tempo de fazer um Big Brother inclusivo, onde a equipe e o público terão que pensar em detalhes de acessibilidade vinte e quatro horas por dia. Muitas vezes, descobrirão no próprio relacionamento entre os participantes alternativas interessantes ou absurdas, e na proatividade da pessoa com deficiência, inúmeras possibilidades de inserção social.

Alguns podem questionar: “mas o fato de ter uma deficiência não colocaria o competidor em vantagem”? “Não daria a ele a simpatia, ou pior a compaixão do público”?

Afirmo sem medo de errar que isso não aconteceria. A realidade traz a pessoa com deficiência para o mundo da “normalidade”. Ninguém é vítima, ou passível de admiração vinte e quatro horas por dia. A deficiência, como costumo dizer, no dia a dia se torna um detalhe diante de tantas outras limitações e potencialidades desenvolvidas pelo indivíduo.

Assim, esse artigo traz uma proposta clara. Vamos pedir a rede Globo mais ousadia no BBB da Diversidade. Ainda dá tempo nessa edição; É com você Bial!

BRASILEIROS V. 2010

Esse ano ser brasileiro é especialmente desafiador. Digo isso, pois desafios todo ano têm, e construímos nossa Pátria acreditando sempre em nossa condição de superar, e como já se disse em uma campanha publicitária: “Eu sou brasileiro e não desisto nunca”!

O país viu a chegada de 2010, em meio à comoção e a solidariedade de todos para com as vítimas de cidades como: São Luis do Paraitinga, Cunha e Angra. A tragédia mobilizou milhares de voluntários e mesmo nos fazendo chorar com aqueles que perderam seus entes queridos, nos levou a refletir o quanto nosso povo pode se mobilizar e nos trouxe mais uma vez o debate quanto aos cuidados que devemos tomar em nossa relação com o meio ambiente.

É chegada à hora de colocarmos em nossas metas de ano novo, o quanto reduziremos em nossa capacidade de produzir lixo; o volume de nossas participações na construção dos rumos de nossos condomínios, bairros, cidades e do país; em fim aumentarmos nossa carga de exercício da prática da cidadania.

É ano de copa. Patriotismo na frente da TV, em bares, nas ruas, no rosto do povo, nas bandeiras e na vestimenta de crianças, jovens e adultos.

É ano de eleição. Oportunidade única de olharmos para todos os desafios já superados e aproveitar a paixão pela seleção Canarinho, “unanimidade nacional”, para a construção de uma consciência mais ampla.

Quem torce pelo Brasil, não pode marcar gol contra! Votar sem conhecer a história do candidato, ou pior lavar as mãos diante das urnas fazendo de conta que não tem nada haver com isso.

É fato que devemos investir em nossos “hardwares”. Mudar o visual, perder ou ganhar peso, trocar de carro, de casa ou de emprego. Mas também podemos fazer um belo upgrade em nosso “software” lutando contra a incompatibilidade de discursos e atitudes.

Se somos realmente um “povo solidário”, não podemos omitir diante da demanda escandalosa de bancos de sangue e de medula óssea; Se somos contra qualquer tipo de preconceito, devemos antes de mais nada avaliar nossos conceitos já a muito pré-estabelecidos; e se falamos tão mal dos políticos, é talvez momento de nos perguntar se temos sido realmente eleitores de verdade, ou seja, cidadãos que tem claro a responsabilidade de escolha, e de seu papel em um processo eleitoral.

A “versão Brasileiros 2010” está em nossas mãos. Somos responsáveis por nossas condutas, e não dependemos de plano econômico, de sorte ou de qualquer outro fator externo para conquistar o plus. Somente nossa vontade e muita disciplina nos farão ler mais, refletir mais, amar mais, e assim também fazer um Brasil novo: o Brasil v. 2010.