Parabéns pra você!

Esta semana estive na comemoração de aniversário de dois amigos especiais. Ela nunca foi capa de revista e nem ele estrela global, mas ambos ao longo da vida tem se especializado em transformar a vida das pessoas.

Professora Glorinha e Dr. Moisés Bauer. Duas histórias que demandariam um livro cada. Resumindo cada uma delas, no entanto, nesse espaço de inclusão e cidadania compartilhado por todos, presto minhas homenagens e agradeço enquanto brasileiro  a esses dois companheiros de luta.

Dinamite e crianças. Foi graças a essa combinação infeliz, permitida pelo descaso dos gestores públicos de uma pequena cidade do interior de Santa Catarina, que o pequeno Moisés perdeu a visão e uma das mãos a pouco mais de vinte anos. Brincando em um terreno vazio próximo a sua casa, ele, o irmão e tantas outras crianças encontraram à disposição dezenas de dinamites deixadas pela prefeitura como se fosse pequenas partes de um brinquedo. Os garotos se sentiram atraídos pela forma estranha dos pequenos objetos e pensaram em fazer uma fogueira para brincar com a novidade.

Bem, o resto da história estaria no livro que falei agora pouco. Mais alguns pontos dá para contar por aqui. Dr. Moisés trabalha no Ministério Público de Porto Alegre, é conselheiro do Conselho Nacional de Direitos da Pessoa com Deficiência e vice-presidente da Organização Nacional de Cegos do Brasil.

O Babau como é conhecido pelos amigos do movimento de cegos, não precisou de dinheiro na cueca, nem de comprar panetones superfaturados para fazer política. Ele optou por ser protagonista de sua própria história.

Professora Glorinha. Quase quarenta anos de educação especial. Melhor do que eu, contaria sua história, dezenas de pais e mães de Brasília, que acreditaram e viram seus filhos saírem de casa e se tornar cidadãos a partir da força e encorajamento da incansável professora. Da sala de aula ao MEC, do DF para o Brasil e o exterior, Glorinha construiu sua carreira fazendo inclusão de fato, atuando sempre com amor e com a certeza de que é sempre possível ir além em se tratando de superação.

Enfim podemos comemorar. Apesar de Arrudas, que continuam pensando “Comigo ninguém pode”, tem muita gente boa soprando as velinhas

Como se fosse mágica…

Milhares de pessoas na avenida dando vida a sonhos impossíveis, resgatando a história, reverenciando ídolos e civilizações e como se fosse mágica se transformando em um corpo único. A mágica traz dos morros e da periferia milhares de anônimos para dentro da televisão e transgride qualquer lógica baseada em classes sociais ou qualquer outra forma de hierarquia.

É fácil saber que estou falando de carnaval. A vitória da escola de samba Unidos da Tijuca, que trouxe mágica em sua comissão de frente, convidou o mundo a pensar e porque não tentar entender a verdadeira mágica do carnaval: aquela que junta ricos e pobres na avenida, nos blocos de frevo, nos trios elétricos e nos bois. É assim que democraticamente todos são responsáveis pelo sucesso ou fracasso de seu agrupamento.

Não existe leis, nem chefes, muito menos policiais ameaçando prender ou prometendo soltar. Todos fazem aquilo que acreditam que devem fazer; se orientam pela paixão, pela alegria e pela identificação com a comunidade.

Que bom se vivêssemos o ano todo a lógica do carnaval. As pessoas estariam juntas não por um compromisso pré-agendado nem para fortalecer seu network. Estariam juntas pela alegria de estar, pelo orgulho em mostrar ao mundo aquilo que acreditam ser o mais belo.

Pagar mais caro em uma fantasia, estar em cima ou em baixo do carro alegórico, dentro ou fora do trio elétrico, isso tudo é detalhe para quem quer mesmo brincar a festa de Momo.

Escrevendo das cinzas que nos remetem de volta a vida real, fica aqui o convite. Pare um dia ou uma noite para brincar de sonhar; transforme sua vida em um grande carnaval. Imagine sua comissão de frente, aquela que abre ou fecha portas e que diz muitas vezes aquilo que você quer ou não realmente dizer; sua harmonia durante os anos de desfile pela vida até aqui, em relação aos diferentes grupos que se relacionam com você ou que por preconceito, medo ou intolerância você tem evitado se relacionar; o enredo de sua história contado por você ou às vezes mal compreendido por tantos outros, e principalmente, tente ouvir a bateria muitas vezes esquecida no peito, ou blindada a prova de colesterol e triglicérides. Pense nas tantas fantasias escolhidas, no entanto,  muitas vezes incoerentes com tudo aquilo por você dito, sonhado e defendido. Por fim pergunte-se como você e seus companheiros de desfile tem cuidado das alegorias e adereços, responsáveis por guardar e mostrar tudo aquilo de mais significativo para todos os envolvidos durante a caminhada.

Como se fosse mágica depois de setenta e dois anos a comunidade da Tijuca no Rio de Janeiro comemorou o título de campeã. Infelizmente, porém, muitas pessoas acabaram não vendo a mágica principal, que fez com que a comunidade trouxesse de geração para geração a alegria que deu o tom na avenida neste último domingo. Para chegar até aqui não foi preciso troféus, status, ou grandes glórias, mas simplesmente vontade. Muitos quiseram estar lá, independente do grupo de disputa, das condições de chegar ao topo, ou mesmo da opinião da maioria.

Como se fosse mágica estrale os dedos, dê um sorriso, coloque seu espetáculo na avenida. A Tijuca nos ensinou, vencer é só uma questão de tempo!