O sim a um homem sem fé

Um verdadeiro plebiscito. Os textos apaziguadores e muitas vezes desfocados de Pedro Bial, não foram suficientes para apagar o clima de embate ideológico criado nas conversas de bares, academias, universidades e parques de todo o país. O reality show questionado por intelectuais e formadores de opinião de todo o Brasil, teve sua importância elevada, a partir de um ingrediente novo colocado em meio a diversidade proposta pela emissora nesta edição.

Marcelo Dourado entrou depois na casa, e trouxe consigo uma proposta clara de enfrentamento. O ex-participante do programa, de início rejeitado pelo público, por em tese levar vantagem de uma participação anterior, acabou angariando simpatizantes, de sua proposta subliminar que confrontava a força e a delicadeza, a intolerância e a liberdade de opção sexual.

Dourado marcou sua participação buscando polarizar o debate com Angélica, lésbica  bem resolvida, que fez com que o Pitboy declarasse em rede nacional em determinado momento sua vontade de agredí-la. “Eliminada” sua primeira adversária, Dourado buscou polarizar com Dicesar, maquiador e dragqueen que nunca escondeu sua homossexualidade, e a palavra utilizada pela emissora nunca ganhou tanta força. A legião de fãs do lutador não queria apenas sua vitória; o objetivo principal passou a ser ELIMINAR seus opositores.

O paredão entre o lutador e o gay que transbordava sentimentos aconteceu no sábado, e não bastasse a eliminação que indignou o país, Dicesar ainda teve que se submeter a uma cena patética provocada pelo apresentador do programa, cumprimentando seu carrasco.

Dois dias antes do primeiro de abril, infelizmente a vitória de Dourado se tornou verdade. As vésperas do trinta e um de março, que marcou o país por anos de ditadura e intolerância a liberdade de expressão, foi dito sim ao homem que tem tatuado no braço, a frase Sem fé.

Fica a pergunta, quem disse o sim? No país de todas as raças, ritmos e amores, só se ouve nas ruas indignação e a pergunta, “quem votou pra esse cara”? Felizmente, a proposta preconceituosa do machão de Boninho e Bial, só ganhou apoio de votos sabe-se lá de quem.

Por outro lado fica o alerta. Propostas plebiscitárias como essas, coloca o país diante de um sério risco. A televisão forma ídolos e opiniões, assim a sociedade brasileira por meio de seus mecanismos legais, não pode permitir que outros embates como esses sejam fomentados.

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Estressados de plantão

Tem algumas cenas que a gente testemunha e não acredita. Depois quando lembra, acaba tendo maior sensação de indignação. São momentos que parecem desconectados da realidade humana, e talvez por isso, tão difíceis de digerir.

Recentemente tive a infelicidade de ser testemunha auditiva de uma dessas situações. Não foi necessário enxergar para ter a sensação completa de indigestão diante do absurdo consumado. Um cara enlouquecido gritava diante de uma atendente do cheki n de uma companhia aérea, por conta de um atraso em seu vôo.

Realmente a qualidade dos serviços dessas companhias no Brasil, também são de causar náuseas, e inquestionavelmente abaixo de qualquer expectativa positiva do consumidor. Todavia, tratar mal e expor a constrangimento seus colaboradores com certeza está longe de ser uma alternativa para o problema. O “bravão”  do chek in se dizia poderoso, afirmava que a atendente não sabia quem ele era e que isso não iria ficar assim.

Aquela gritaria despropositada tinha mais do que falta de educação. Ali havia alguém que acreditava que em virtude de sua condição econômica, social, intelectual, ou quem sabe “política”, se valia da prerrogativa de melhor atendimento e de gritar e mal tratar sempre que quisesse.

Esse personagem que sempre se repete nos aeroportos, aparece nos super-mercados, se utilizando de vagas reservadas para idosos e pessoas com deficiência. Em outros momentos, os encontramos estacionando em filas duplas, ou fazendo ultrapassagens pelo acostamento. Outras vítimas dos estressados de plantão são garçons, que dão a infelicidade de atrasar um pedido ou errar na arrumação da mesa ou na entrega de uma bebida. Nesse momento eles mostram aos colegas de mesa, e aos azarados do em torno toda sua fúria. Quem teve a infelicidade de sentar do lado, acaba tendo o momento sagrado da refeição transformado em um espetáculo dantesco de indelicadeza e desrespeito ao próximo.

Os estressados de plantão são inimigos da cidadania. Confundem reivindicação com abuso da melhor condição. Transformam a luta por direitos e pela qualidade nos serviços e atendimentos, em um exercício de falta de educação.

Ser cidadão dentre outras coisas também significa exercitar a gentileza e a relação respeitosa com quem quer que seja. Reclamar e muitas vezes se indignar é sim um direito. Manifestar esses sentimentos é uma questão de cidadania. Contudo, o mau exercício dessas situações nos leva de volta aos tempos da intolerância e do quem pode mais chora menos! Como diz a boa e velha musica caipira “Ta nervoso? Vai pescar!”

Salve, salve Manuel!

Foi impossível conter a emoção ao acompanhar Luciana, interpretada por Aline Moraes na novela Viver a Vida, tendo acesso pleno a uma praia do Rio de Janeiro, por conta da implementação de um programa voltado a garantia de acessibilidade nesses espaços.

Emoção pela abordagem da temática, emoção pela conquista de programas como esse, emoção pela sutileza da cena. Luciana tem encantado o Brasil e promovido a “inclusão às avessas”. Esse foi o termo que encontrei para definir, esse processo invertido, onde a sociedade é convidada a descobrir e conviver com a deficiência, e não apenas o contrário, tido quase como regra em nosso cotidiano.

Luciana tem arrebatado fãs de todas as idades, com e sem deficiência. A personagem tetraplégica de Manuel Carlos rompe todos os dias com estereótipos construídos ao longo de dezenas de anos pela teledramaturgia Brasileira.

Luciana não é totalmente boa, (heroína) e nem coitadinha, merecedora de toda a pena do mundo. Ela compartilha seus medos, seus desejos e sonhos  de mulher, e às vezes fraqueja e chora como tantos outros nesse país, independente de condição física, econômica ou social. Manuel Carlos então presenteia o Brasil, trazendo para tela uma representação real dentre tantas outras possíveis, que simboliza vinte e sete e meio por cento da população.

Essa não é a primeira vez que o autor aborda a temática. Em Páginas da Vida, Clarinha uma garota com Síndrome de Down, também convidou a sociedade brasileira a refletir, sobre como crianças diferentes poderiam crescer e aprender juntas.

Traduzir o preconceito é outra grande contribuição de Manuel. Ingrid, mãe de dois jovens irmãos apaixonados por Luciana, traz falas preconceituosas, porém não diferentes do que boa parte da população desinformada poderia produzir em situação semelhante. Ingrid não é má, mas simboliza o produto de décadas de idéias estigmatizantes, mal discutidas e abordadas pelas diferentes mídias no Brasil e no mundo.

Saudações então ao autor da inclusão fácil e invertida. Que Manuel faça escola, e quem sabe um dia personagens como Luciana, deixem o campo das novidades, invadindo seriados, reality shows, programas infantis, dramas e comédias.