Medo do escuro!

Quem já não teve medo da noite ou, à noite? Talvez tenha sido em um momento enquanto criança, ou quem sabe até hoje todo dia, ou melhor, toda noite na hora da volta para casa naquela rua mal iluminada.

Provavelmente pela falta de luz, ou pelos bem contados “causos” de assombração que sempre aparecem na memória nos momentos mais indesejáveis. Pode ainda ser por uma constatação pragmática da violência, o fato é que ã noite para além de seus encantos, segredos e paixões, traz consigo uma cota de medo a ser vivenciada tanto por aqueles que a amam, ou mesmo por aqueles que simplesmente dormem.

A propósito, e quem dorme tendo por único teto aquela que substitui o dia? Ah, esses com certeza tem muita história pra contar, e não serei eu que vou escrever. Gostaria sim, de falar sobre aqueles que por maldade, deformação de caráter ou qualquer outra condição que ultrapassa a compreensão humana, aterrorizam seres humanos. Acrescentam a noite uma dose de medo alem da natural e por meio de suas ações transformam o terror em realidade.

Certa vez um companheiro de luta, que viveu por muito tempo na rua me contou sobre um grupo de jovens, que depois de uma “balada”, buscavam se divertir urinando em quem dormia ali por perto. Felizmente os que dormiam reagiram. . O triste, porém, é que o agressor em um caso desse, por muitas vezes ainda se coloca como vítima.

Índio queimado, cidadão espancado, pintado, subjugado. Muitas vezes quem lê uma notícia dessas não se espanta mais. Não cai a ficha que alguém com direitos assegurados, teve sua dignidade violentada.

Mas nada como um dia após o outro. Felizmente esse segmento no Brasil tem se organizado. Eles sabem que devem ser protagonistas de sua própria história, e tem se mobilizado para demarcar seu espaço de direito dentro da construção de políticas públicas.

É chegada a hora da sociedade abrir os olhos para o óbvio e perceber que direitos não se dá quando possível; se garante! Assim, o direito de ter medo à noite como todo o cidadão comum também deve ser assegurado para

quem vive na rua. O terror então deve ser combatido, punido e seja dia ou seja noite, filhos de réu ou de juiz,  os responsáveis colocados atrás das grades

Sinal vermelho

A boa educação de trânsito nos diz que é hora de parar. Não simplesmente pelo fato em si, mas para dar passagem a pedestres e outros motoristas, assegurando assim um código ético, que efetiva a garantia de direitos e deveres no ato de ir e vir. À propósito,  paradoxalmente é também nesse momento que temos cada vez mais nas grandes cidades, o exercício da cidadania degradado. São assaltos e seqüestros relâmpagos, um bombardeio de panfletos indesejáveis e um número interminável de pedintes que trazem em sua abordagem, motivos e histórias que competem em uma disputa perversa, onde ganha quem consegue comover mais.

Vidros fechados, olhares mal-humorados e por vezes um “palavrão” da moda profanado em tom firme e condenatório, são algumas das reações que também fazem parte desse cenário. Moedas para espantar, rádio auto e postura indiferente, também são estratégias que acabam se manifestando, diante do caos social que cresce a cada sinal fechado.

Mas será que dá para ser diferente? Ontem conversando com um amigo, falávamos sobre o que estamos alimentando com ações tão carregadas de intolerância. É fato que existe o medo, o stress, a insegurança, mas também é verdade que do lado de fora do carro estão seres humanos, que podem dentre tantas outras coisas, estar buscando acertar.

Ele me falava da reação dos vendedores de bala, dos garotos do rodinho muitas vezes em hora errada, diante de uma gentileza. Um sorriso seguido de um “bom dia de trabalho” provoca nessas pessoas uma reação diferente. Faz com que se sintam  cidadãos reconhecidos, parte efetiva de uma  sociedade que eles poderão ajudar a construir.

Acredito que precisamos dar sinal verde para condutas mais nobres e positivas, diante de problemas sociais.

Não serão posturas truculentas ou caridades por conveniência que alimentarão uma sociedade mais afirmativa. Para comprovarmos isso, é preciso praticar, então até o próximo sinal vermelho!

UM DIA NO BURACO

Quem já não se sentiu assim? Há uns vinte e oito anos, eu e meus pais morávamos no Jardim Santa Bárbara, que por sua vez ficava em São Mateus. Santos à parte, ali não era um lugar que pudéssemos chamar de céu, mas era nosso! A falta de asfalto, água encanada, luz, familiares e amigos por perto, não fizeram com que meus pais desistissem do sonho da casa própria. Assim veio o terreno financiado, o mutirão nos finais de semana para a construção, a furação de um poço e finalmente nossa mudança.

Saímos de um quintal compartilhado entre irmãos, perto de um mercadinho, um ponto de ônibus, a uns trinta minutos da escola, para uma realidade repleta de mato por todos os lados.

O então Santa Bárbara estava em formação, e pouco a pouco, fomos aprendendo a viver por ali. Penso que foi um dos momentos que estivemos  mais juntos, mesmo porquê eram poucas as alternativas encontradas no local. Descobrimos vizinhos amigos, vizinhos fofoqueiros, um depósito de materiais de construção que vendia sorvete, e um circo que vez ou outra chegava por lá como grande atração da região.

Certa vez fiquei sabendo que teríamos novidade em casa. Era um fogão novo, que chegaria no dia seguinte. Santa Bárbara que não nos ouça, mas penso que até ela ficou ansiosa.  Os preparativos foram grandes, primeiro no sentido de dispensar o então ultrapassado azulzinho de quatro bocas já com morte decretada de seu forno e de um dos fogareiros. Depois uma redefinição do layout da cozinha, ou como diríamos naqueles tempos, um empurra- empurra de móveis para caber o novo. Por fim, foi só deitar e esperar que logo chegasse amanhã.

Aliás amanhã lá, sempre chegava cedo, anunciada por uma multidão de pássaros e galos pontuais, além   de meu pai em pé as quatro da manhã para chegar até as vinte para cinco no ponto e pegar o fretado para a Volkswagen. Pedi a benção e tentei voltar a dormir, mas a chegada do novo morador não deixou que o sono voltasse. Entre cochilos e modas caipiras que tocavam no meu pequeno rádio de pilha, as horas passaram, até que minha mãe veio me avisar que iria até a rua de cima, esperar o caminhão já que até ali ele não chegava. Novamente pedi a benção, mas passados alguns minutos de sua saída decidi ir atrás.

Eu estava acostumado a andar ali pelo entorno de casa. Mesmo enxergando apenas vultos conseguia me orientar bem, e vez ou outra saía para procurar caninho de um mato que não lembro o nome, mais era bom para fazer bola de sabão. Até a rua de cima eu nunca tinha tentado ir, mas imaginei que não seria difícil. Peguei meu gorro vermelho e decidi ir ao encontro de minha mãe e seu fogão.

De repente algo deu errado. Como se fosse por um passe de mágica, o chão desapareceu, e quando tentei tatear para os lados só sentia paredes de terra. Levantei as mãos e mesmo nas pontas dos pés, para onde quer que eu colocasse as mãos não havia possibilidade de sair dalí. Era um grande buraco, quer dizer suficiente para caber e deixar preso, um aventureiro garoto tecnicamente cego de seis anos.

Gritei por minha mãe, chorei, e até esqueci do fogão. O dia passava, pois o sol começou a ficar mais quente, com calor de meio dia, e depois mais suave com jeitão de hora do café.

Tudo o que eu queria era minha mãe, e sair dalí parece que só tinha sentido se fosse através dela. De repente ouvi sua voz ao longe, e a palavra Carlinho em tom desesperado confirmava que o socorro estava chegando. Felizmente o gorrinho vermelho foi fácil de avistar, e como um desejo realizado por fadas, senti as mãos de minha mãe e sua voz me dizendo para voltarmos para casa.

Quase trinta anos depois não dá para deixar de se emocionar quando lembro tudo o que passamos. Um vendaval que destelhou toda a casa, os três ônibus para ir e mais três para voltar da escola, sem contar os quarenta minutos de caminhada no barro e no asfalto, foram capítulos de uma história que não tenho dúvidas nos tornou mais fortes.

Na semana do Dia das Mães, longe de casa e da família, escrevo para saldar a todas aquelas, que sempre estendem as mãos para seus filhos, sem questionar como e porque foram se meter em algum buraco.

Domingo estarei por lá, aliás estaremos. Eu, meu pai, minha mãe e minha esposa, que como futura mamãe, tornará a comemoração ainda mais especial. Na casa grande e bem situada, conquistada depois de muitos anos de luta de meus pais, vamos lembrar do passado, celebrar as conquistas e sonhar com o futuro. Em meio ao churrasco, ao macarrão e as histórias, com certeza o principal tempero será o sabor de mais um ano juntos.

Feliz Dia das Mães!