Brincadeira de mau gosto

Alguém uma vez me disse que a inveja está entre os sete pecados capitais. Dado o assunto em questão, penso, porém que serei perdoado.

Escrevo aqui para tratar da venda de Jesus. Pois é, mas como eu disse a idéia não foi minha. Quem trouxe o assunto à baila, foi aquele cara que tem sido tratado sem discriminação alguma por políticos do centro, da esquerda e da direita, com a mesma qualidade que estes cuidam de suas cidades. Isso mesmo Danilo Gentili do CQC! (http://danilogentili.zip.net)

Ele postou em seu blog um texto delicioso sobre o lançamento de uma linha de bonecos religiosos pela Tales Of Glory. A empresa foi ousada, e não sei como se deu a contratação, o fato é que o astro principal da nova linha de brinquedos é Jesus. Como diria o Craque Neto, “é brincadeira!”

Já imaginaram em meio a provocações infantis, o amiguinho de seu filho com Jesus na mão cantando para o coleguinha: “Eu tenho, você não tem!, após a missa ou o culto de domingo? Nesse caso uma simples brincadeira, poderia transformar-se em um grande conflito religioso e filosófico, plantado entre pais e filhos, tendo em uma ponta os mistérios da fé e em outra a voracidade do capital.

Se a moda pega fica aqui algumas perguntas, que confesso não ao brinquedo, mas a você caro leitor, ainda não tenho respostas. Com os bonequinhos em mãos quais possíveis brincadeiras a garotada poderia criar? E quanto ao Satanás, será que vai ser lançado na próxima temporada? Vai custar mais ou menos, que o lançamento atual? E por fim, o pai sem condições de comprar o Jesus oficial para o filho, terá um “piratinha” para não ver seu filho chorar? A propósito, será que comprar o “piratinha” nesse caso vai ser pecado?

Gostaria que isso fosse apenas mais uma brincadeira do Gentili, mas infelizmente o assunto é sério. Vou então até a loja mais próxima comprar um bonequinho, ler o manual e tentar identificar o botão que se aperta para que ele opere um milagre e acabe com tanto absurdo.

Segundo tempo

Em época de Copa do Mundo toda analogia com o futebol sempre é bem-vinda, e em nosso caso, conselheiros da sociedade civil  reconduzidos para o segundo mandato no Conselho Nacional  de Assistência Social, penso que a comparação   acaba caindo sob medida.

No campo da luta pela Política Pública de Assistência Social, podemos comemorar um primeiro tempo que terminou com uma goleada contra o assistencialismo, tendo uma defesa segura e efetiva do protagonismo dos usuários e dos direitos sócio-assistenciais.

O CNAS em parceria com a sociedade brasileira e os poderes legislativo e executivo, deu cartão vermelho ao modelo cartorial que pautou durante anos o controle social no âmbito da assistência, botando em campo o debate sobre  a política.

O time que teve na garantia da paridade e no comprometimento  conjunto entre seus membros da sociedade civil e representantes governamentais, uma de suas principais características, obteve conquistas históricas  como a aprovação da  tipificação dos serviços sócio-assistenciais, e a resolução que define os parâmetros nacionais para inscrição de entidades de assistência social nos conselhos municipais.

Tenho orgulho de ter feito parte dessa jornada, coordenando a comissão de acompanhamento de conselhos e o grupo de trabalho que propôs uma política de comunicação para o Conselho Nacional.

Neste segundo tempo os desafios são enormes. A NOB-SUAS 2010, a luta dos  trabalhadores da Assistência Social e ampliação da participação dos usuários nos conselhos, são exemplos  de desafios que não são só do CNAS, mas de toda a sociedade brasileira.

Bola pra frente que esse jogo só acaba com o Brasil Campeão.

Na cadeira do barbeiro

Aqui no bairro a gente ainda vai ao barbeiro. Dentre os bons da região tinha o Zezinho que já morreu, o Mamedi da frente do condomínio e o seu Luís que fica próximo ao rio.

Não tem pesquisa de marketing que explique, nem trabalho de propaganda que justifique. Os caras estão simplesmente lá para atender, e como se fosse pré-estabelecido por norma legal, ninguém questiona – cresceu o cabelo, voltamos lá e cortamos.

Mas acho que entender esse fenômeno é prosa para outro texto. Hoje quero falar de Futebol.

Na semana de estréia da seleção brasileira na Copa do Mundo, fazendo o pé de cabelo com a velha navalha, não deixou de me chamar a atenção a indignação das pessoas com o time do Dunga. Todo mundo se culpando por não se empolgar com os defensores da pátria na África do Sul. Que sentimento maluco, o dever de torcer por um time que frustra paixões de décadas.

Não é a primeira vez que um técnico contraria a opinião popular. Aliás, isso é praticamente uma regra. Por outro lado, como alguém já disse “nunca na história desse país”, uma seleção menosprezou tanto o apoio de sua torcida.

Grupo fechado, caras fechadas, treinos fechados. Ficamos aqui de fora, todos nós brasileiros torcendo em meio a respostas mal-humoradas, gol da Tanzânia e ataques da Coréia do Norte.

Sentimentos à parte, pergunto aos profissionais especialistas do assunto: E o produto futebol? Essa maravilha que mobiliza a economia, gera empregos, e enche de gás as almas e corações de toda a nação, por que despreza tanto as predileções de seus espectadores?

Não tenho dúvidas que o país inteiro está torcendo. Também não tenho medo de afirmar, que boa parte torce pela farra, por amor ao Brasil, ou pior, até por obrigação moral com seu compromisso com a pátria. Fica então a pergunta: será que alguém está torcendo pelo motivo mais óbvio, ou seja, o futebol?

A MARMITA E A BALANÇA

Certa vez, nos aposentos das quinquilharias, bem aos fundos do antigo asilo de velinhos, ouviu-se uma conversa:

“O Cê tomem trabaiava com comida?”

“Sai pra lá! Tenho horror só de ouvir falar nessa coisa, mesmo porque minha escrava sofria e chorava muito sempre que comia”.

“Uai, mais vai entende quanta história isquisita! O Cê tinha escrava que chorava pra não comer, já eu tinha dono que ria, agradecia e olhava pro céu quando me abria e lá tava eu: cheia de arroz, feijão e das veis arguma mistura”.

“Foi por causa da comida que um dia ela me deixou pra traz. Se rebelou e disse que não queria mais saber. Disse que iria comer o que quisesse e só ser feliz. Foram anos de submissão rígida a meus ponteiros, sem deixar escapar gramas se quer, para de repente fugir da verdade!”

Ironia do destino ou simplesmente coincidência, o fato era que os dois objetos que agora conversavam esquecidos, um dia já haviam sido elementos centrais na vida de duas pessoas pelo mesmo motivo, ou melhor, motivos: comer e não comer.

Rita era escrava da velha balança. Sonhava com uma vida nas passarelas, ou mesmo em ser atriz e apresentadora de programa infantil.

Um dia, visitando a tia Lurdinha, ela conheceu Ronaldo: rapaz forte, bonito, que encantou a vaidosa moça do Ipiranga com sua simpatia e história fascinante de menino que veio do interior, como ajudante de pedreiro e agora construía imóveis para locação e vendas. O encanto se transformou em amor e dois anos depois já casados, os dois se organizavam para mudar para a nova casa, separando o que poderia ser doado.

Ronaldo contava com os olhos marejados e a marmita nas mãos, inúmeras histórias já vividas com sua velha companheira de trabalho:

“Um dia ela abriu no trem. Foi garfo e faca pra um lado e comida para todo o canto. Quase chorei de ver aquele desperdício, sem contar que não teve mais nada para comer até chegar em casa as onze horas da noite”.

Rita ouvia a história e não conseguia controlar a emoção em ver o marido com pena de se desfazer daquele objeto hoje sem importância, mas com tanta história pra contar. O rapaz estava decidido:

“Vou doar, um dia ela vai ser útil para alguém”.

Já Rita, não tinha remorso algum, pelo contrário fazia questão de mandar embora a velha balança:

“Fico até envergonhada em te ouvir. Fui escrava dessa porcaria durante anos, maldizendo cada refeição quando me deparava com qualquer mudança que ultrapassasse os cinqüenta e cinco quilos”.

A ditadura da beleza e a luta contra a fome são fenômenos que provocam um perverso paradoxo dos dias atuais. Anorexia e desnutrição, dietas de alto custo com teto calórico e restaurantes populares com refeição a “Um Real”, configuram um cenário difícil de ser explicado.

Se pensarmos no que escreveu o consagrado escritor e ator italiano, Luciano de Crescenzo: “Hoje, setenta por cento da humanidade ainda morre de fome… e trinta por cento faz dieta”. Talvez perdemos o apetite não apenas de comer. Se se alimentar é um direito humano, é triste constatar que uma pequena parte das pessoas simplesmente abre mão dele, em nome de um padrão de beleza. Por outro lado, a coisa fica ainda mais feia, quando vemos que boa parte dos seres humanos vivos nesse planeta, ainda não tem acesso a esse direito.

Com certeza no mundo da ficção, a marmita e a balança ainda têm muita conversa para por em dia. Já aqui no piso concreto da realidade, não podemos simplesmente nos omitir diante da loucura que direta ou indiretamente, também fazemos parte. Desperdício de comida, indiferença, ou pior, a negação diante dos danos provocados pela fome, nos torna cúmplices desse problema mundial. Também ajudamos a reforçar a idéia de beleza padronizada, com piadas, comentários irônicos, ou as tradicionais promessas de dietas a partir de segunda-feira.

Assim, Rita e Ronaldo viveram felizes para sempre. Já eu vou ficando por aqui, na torcida de que esse texto possa quem sabe servir como um tempero, para apimentar a troca de idéias em seu próximo encontro com amigos, colegas e familiares.

Bom apetite!