Um

A história confusa que se apresentou a partir do anúncio do novo técnico da seleção brasileira, me lembrou um romance bem bacana que li, ou melhor, ouvi, no final dos anos noventa, chamado Um, do escritor americano Richard Bach. Digo ouvi, pois não havia, ao menos que eu tivesse notícia, uma versão em Braille ou mesmo digitalizada. Tive acesso à história então por meio de várias fitas cassetes gravadas voluntariamente e disponibilizadas na Biblioteca Braille do Centro Cultural São Paulo.

Bem, mas esse é assunto para outro encontro nosso. Voltemos então ao livro e aos protagonistas do triângulo amoroso-futebolistíco, formado por CBF, Mano Menezes e Muricy Ramalho.

No livro os personagens vivenciam a experiência de se defrontar com mundos paralelos, que tomam forma refletindo suas decisões. Guardadas as proporções, a obra segue a linha do filme Efeito Borboleta, onde o personagem se vê diante de situações completamente diferentes, desencadeadas a partir de suas escolhas.

Os então treinadores de Corinthians (Mano Menezes) e Fluminense (Muricy Ramalho), talvez sós, ou quem sabe junto com familiares e amigos, provavelmente como Richard Bach, também conscientes ou não, brincaram com a ficção e experimentaram o exercício de projetar múltiplas histórias de futuro que afetariam suas vidas e a de tantos brasileiros, tendo por ponto de partida uma simples resposta, sim ou não, ao convite de Ricardo Teixeira, presidente da entidade máxima do futebol do país.

E nós? Será que temos visitado os possíveis mundos que viveríamos, construído por decisões diferentes tomadas pelos outros, ou aquelas mesmas, de nossa própria autoria?

Acho que a correria do dia a dia muitas vezes não nos permite tal viagem, e talvez por conta disso o livro me tenha sido tão marcante.

Na época a leitura me fez pensar no quanto foi importante a decisão de meus pais em definir que eu precisava estudar, e ao mesmo tempo, me levou a imaginar como teria sido ao contrário. A escolha por eles de uma escola comum, e junto com isso, a necessidade de que eu, uma criança cega e as outras, crianças sem deficiência, aprendêssemos a conviver, me emocionava e me fazia  refletir sobre o peso das decisões.

Um voto, um sim ou não a um chamado de um novo emprego, um pedido de casamento, uma recusa a um pedido de desculpas, uma oportunidade a uma jovem promessa; são exemplos de que em poucos segundos podemos mudar o rumo de um país, da vida de uma ou mais pessoas, ou de nossas próprias histórias.

Assim, fica a dica para ler o livro e para refletirmos. Será que nossas decisões têm contribuído para que tenhamos uma sociedade melhor e mais justa? Pode ser que  descobriremos que o sorriso em determinada hora teria sido melhor do que a cara feia ou a indiferença. Que a conversa, melhor do que as conclusões precipitadas, e principalmente que a busca pela informação sempre é mais edificante do que o reforço sistemático a múltiplos preconceitos.

Sucesso ao Mano na seleção, ao Muricy no Fluminense e a nós todos em nossas pequenas e grandes escolhas.

Com carinho

Está longe de acertar quem afirma que as condutas discriminatórias e preconceituosas para com pessoas com deficiências, são sempre exercidas de forma agressiva e truculenta. Boa parte das vezes o que acontece é exatamente o contrário! A voz doce ou mesmo as palavras carinhosas, traduzem muitos dos sentimentos daquele em tese “normal”, que se vê na condição superior, e, portanto trata o outro como alguém menor, mais frágil; ou seja, alguém que precisa de cuidado e proteção.

“Fica aí sentadinho que eu já volto viu!” “Cuidado, cuidado, assim não pode, você vai se machucar!”. Essas são algumas das frases que freqüentemente ouvimos, causando duplo constrangimento: o primeiro pela distorção dada a uma relação entre duas pessoas adultas. O segundo por termos que corrigir uma postura aparentemente inocente, o que no final das contas ainda nos garante o rótulo de mal educado ou mal agradecido.

Não defendo aqui aqueles que reagem a uma situação dessas, com agressividade ou ironia. Também ressalto a importância de contar com pessoas que possam auxiliar na travessia de uma rua, na espera por um ônibus, na leitura de um cardápio, enfim na superação das barreiras do dia-a-dia.

É tempo, porém, de repensar atitudes para garantir o exercício da cidadania. Somente séculos e mais séculos de preconceitos reforçados e acumulados podem explicar o fato de que alguém intuitivamente trate o outro que apenas não enxerga, não ouve, não anda ou apresenta qualquer outra limitação, como uma criança ou um incapaz! Com certeza, quem toma uma postura como essa geralmente quer dar o seu melhor e pode ser então alguém que também precisa de ajuda.

Quem enxerga naquele que lhe demanda algum apoio, alguém menor ou mais frágil, se sentirá da mesma forma quando necessitar. Se então lembrarmos que durante nossa vida, sendo pessoas com deficiência ou não, somos todos interdependentes, descobriremos que a gentileza e a solidariedade, devem ser exercitadas como alternativa para aprimorar as relações humanas, e não apenas como “boas ações” isoladas, muitas vezes erroneamente praticadas com o objetivo de abrandar um sentimento de culpa ou construir uma boa imagem social.

Respeitar o outro, independente de sua condição física, sensorial, econômica ou social, já se caracterizaria em uma grande revolução se praticada por todos. Assim, ajudar ou ser ajudado, ser gentil ou receber uma gentileza, são situações que com urgência precisam deixar o campo da exceção, do constrangimento e da benemerência, para se materializar enquanto condições básicas, fundamentais para a vida em sociedade.

Do que se trata isso?

Na última terça-feira fui eleito e tomei posse como Presidente do CNAS, Conselho Nacional de Assistência Social. Em meio a cumprimentos de familiares e amigos, algo no entanto me chamou bastante a atenção: “do que se trata isso mesmo?”, foi uma pergunta que dentre tantas outras falas que tratavam da importância do desafio e da responsabilidade do momento, me fez ter certeza da necessidade de escrever sobre o assunto para quem não conhece o assunto. Assim aos que já conhecem, peço não apenas a compreensão, mas ajuda para que possamos fazer com que cada vez mais brasileiros possam descobrir a importância de sua participação para o controle, a construção e a implementação das políticas públicas.

Os conselhos são espaços recentes, e como costumo dizer, filhos da constituição cidadã de 1988. São locais privilegiados de exercício da democracia e da participação popular. Ali o estado representado por seus órgãos gestores e a sociedade representada por seus diferentes segmentos, avaliam, discutem, acompanham e deliberam, sobre as principais políticas e demandas sociais.

A assistência social é uma política jovem, pois ganha esse status, a partir da já mencionada constituição de 1988, compondo o tripé da seguridade social juntamente com a saúde e a previdência. Cinco anos depois, com a aprovação de sua lei orgânica, a política teve nos conselhos municipais, estaduais e em âmbito nacional, suas instâncias máximas de deliberação, o que tem garantido grande participação popular tanto em  sua concepção  como também na   implementação  por todo país.

A assistência social tem por objetivos:

I – a proteção à família, à maternidade, à infância, à adolescência e à velhice;

II – o amparo às crianças e adolescentes carentes;

III – a promoção da integração ao mercado de trabalho;

IV – a habilitação e reabilitação das pessoas portadoras de deficiência e a promoção de sua integração à vida comunitária;

V – a garantia de 1 (um) salário mínimo de benefício mensal à pessoa portadora de deficiência e ao idoso que comprovem não possuir meios de prover a própria manutenção ou de tê-la provida por sua família.

Assim ser presidente do CNAS, significa poder servir ao povo brasileiro frente a instância máxima de deliberação da política de assistência social. Tenho claro que esse é um trabalho que só terá sucesso, se tiver bases sólidas e bem articuladas.

Então espero nesse espaço poder ter respondido àqueles que ainda não haviam entendido do que se tratava essa minha nova jornada, e da mesma forma encontrarmos tantos outros que lerão, colaboradores para que possamos juntos trilhar o melhor caminho para o país.

Os presidenciáveis no twitter

Neste dia seis de julho começam oficialmente as campanhas eleitorais. Digo oficialmente, pois todos os candidatos tem se articulado e buscado cada um à sua forma, alternativas que lhes dessem visibilidade.

Neste espaço de inclusão e cidadania, inicio nesta semana uma série de artigos onde abordo a partir de alguns indicadores escolhidos por mim, e outros que poderão ser propostos por você leitor, a participação dos três principais candidatos à presidência no twitter.

Para quem ainda não conhece o twitter é um serviço, onde as pessoas acabam formando uma grande rede, a partir de uma proposta de seguidos e seguidores. A coisa funciona da seguinte forma: qualquer pessoa gratuitamente pode entrar no site www.twitter.com e criar uma conta (um nome). Feito isto, a pessoa pode postar (escrever) mensagens de até cento e quarenta caracteres, e todos aqueles que a seguirem terão acesso a essas mensagens.

Não sou um especialista em informática, mais a idéia básica gira em torno disso. A coisa se tornou um sucesso, pois como se tratam de mensagens curtas, e simples de serem postadas, mesmo aqueles não tão familiarizados com as novas tecnologias tem aderido, e sem necessidade de assessoria twittam (escrevem no twitter), sobre os mais diversos assuntos e situações de seu dia-a-diia, dando aos membros dessa rede uma espécie de sensação de proximidade (relação informal) entre si.

As pessoas twittam não apenas no computador, mas também no celular, o que dá ainda mais velocidade e dinamismo à rede. Fiz um levantamento das postagens dos candidatos Serra, Dilma e Marina, de primeiro de junho até hoje seis de julho, quando inicio essa série de artigos.

Hoje vamos falar de alguns números que colocam o candidato Serra como o twitteiro mais ativo dentre os três. O tucano twittou duzentas e trinta e uma vezes, seguido por Marina Silva 185 vezes e Dilma cinqüenta e quatro vezes. No que se refere a número de seguidores o candidato do PSDB também aparece na frente, com duzentos e oitenta e um mil e oito seguidores, seguido por Dilma com cento e quatro mil, duzentos e oitenta e Marina Silva com oitenta e quatro mil, seiscentos e quarenta; dados de 6 horas e quarenta e cinco minutos do dia seis de julho de 2010.

É importante lembrar que esses números não têm nenhuma relação com desempenho eleitoral, já que Mano Menezes atual técnico do Corinthians, por exemplo, tem nessa mesma data e horário um milhão quatrocentos e cinco mil duzentos e vinte e sete seguidores.

Na próxima semana vamos conhecer o que chamo de nível de realidade, ou seja, como os candidatos twittam sem falar de política, como respondem a seus seguidores, e quais os principais assuntos abordados por eles. Contribua com essa pesquisa, você pode via blog, e-mail ou mesmo no twitter, dizer quais outros indicadores poderiam ser pesquisados.