Como escrever

Eu poderia apenas falar de sua importância para nosso acesso à comunicação. Escrevendo então minha coluna semanal, eu contaria que foi por causa de suas incansáveis lutas, que nós cegos passamos a ter contato com conteúdos publicados em jornais e revistas. Foi graças a sua convicção de que seria importante garantir o Braille como um direito, que desde muito jovem eu já recebia em casa, guardadas as limitações de produção da época, revistas e livros produzidos na escrita de seis pontos, que me faziam sentir parte de um mundo que a todo tempo se comunica por imagens, gráficos e outras estratégias visuais.

As novas tecnologias e o dinamismo das mídias contemporâneas também não a intimidaram. Por meio do trabalho da fundação idealizada por ela na primeira metade do século XX, cegos de todo o Brasil, e tantos outros fora daqui, também passaram a ter acesso a revistas faladas, livros em formatos digitais, e ao protocolo Daisy, o que trouxe não apenas a possibilidade de novas formas de leitura como também a praticidade para realização de pesquisas e desenvolvimento de trabalhos acadêmicos.

Escrevendo esse texto, não teria como eu, militante do movimento de pessoas com deficiência, deixar de compartilhar com vocês leitores, a importância daquela que foi a grande precursora do protagonismo efetivo de nós usuários de serviços e programas oferecidos pelo estado e pela sociedade. Dizia ela que nós poderíamos e deveríamos participar da concepção e da construção de tudo aquilo que nos diz respeito. Para além do discurso, nos deu o exemplo trabalhando efetivamente da organização nacional e internacional do movimento de cegos e de tantas outras áreas de deficiência. Com a defesa de um terceiro setor moderno e auto-sustentável, ela chegou a seus últimos dias de vida, com um discurso moderno e alinhado as novas demandas sociais.

Para além de colunista, e de militante ainda, não teria como eu terminar esse texto escrevendo como um cidadão convicto de que é momento de agradecer, reconhecer e continuar.

No último domingo faleceu A Professora Dorina de Gouveia Nowill. Aquela que junto com Maurício de Souza acreditou que por meio dos quadrinhos também poderia fomentar a inclusão. Foi sem dúvidas graças a seus sonhos que minhas conquistas e de tantos outros cegos puderam se tornar realidade.

Em seu aniversário de noventa anos, escrevi uma crônica que trazia por título “Um simples Obrigado”. Hoje, no entanto, escrevendo em um momento triste e oposto ao anterior, o nome dado a essa coluna traz consigo todo o sentimento de responsabilidade por mim manifestado diante da perda de alguém que fez tanto por seu segmento.

Professora Dorina tornou-se uma personalidade internacionalmente reconhecida. Dava orgulho ao Brasil sempre que se manifestava, e da mesma forma que lutava por acessiblidade se mostrava acessível a todos aqueles que lhe procurassem para perguntar, abraçar ou simplesmente como eu muitas vezes já fiz, manifestar seu carinho e admiração.

Fica-nos então a missão de continuar. Sem medo de errar ela nos pediria que deixássemos o luto por sua luta.

Os candidatos e as sandálias

A marca é famosa, das mais tradicionais quando se pensa em sandálias no Brasil. É daquelas que acabam dando nome ao produto, por conta de sua identidade com a cultura e a história do povo, se fazendo presente de geração em geração. Nas últimas semanas eles lançaram uma propaganda nova. Muito bem humorada e em linha com o que sempre fizeram para se comunicar com o público. Chamou=me a atenção, no entanto, o fato de que para que eu entendesse o sentido da cena, foi necessário casar um momento de que eu estivesse com alguém que enxerga junto para descrever as imagens, visto que só e sem enxergar, torna-se impossível entender a mensagem.

Em 2010 esse não seria um problema se a empresa se preocupasse com os diferentes públicos. Atualmente existe um recurso conhecido por áudio-descrição. Trata-se de uma tecnologia simples, onde se pode colocar uma voz descrevendo a cena, e caso o cego queira ter acesso, basta apenas pressionar a tecla SAP do controle remoto de qualquer aparelho de TV.

Se esse recurso fosse um direito assegurado por lei, as coisas ficariam ainda mais fáceis. Acabariam as desculpas de agências de propagandas e emissoras de TV, alegando desconhecimento ou mesmo impossibilidade de implantação dessa alternativa.

Acompanhando o processo eleitoral em curso, fico muito pessimista quanto a possibilidade de podermos contar com os futuros legisladores para que essa luta se transforme em conquista. Muitos dos pleiteantes a estarem nos representando no Congresso Nacional, não se preocupam sequer em dizer seus números para que possam ser votados. Esquecem os eleitores cegos, analfabetos, mas não deixam de prometer que farão tudo por todos.

Os candidatos e as sandálias são dois bons exemplos de que necessitamos no Brasil de um debate que traga a temática da acessibilidade para uma abordagem bem mais ampla e condizente com as múltiplas demandas. É então chegada a hora de buscarmos a inovação no curto prazo, nos diferentes processos comunicacionais, como meio de promoção e efetividade das ações de inclusão.

Lembre-se daquele último eletro-eletrônico que você comprou para casa. Chega ser desanimador pensar nos desafios impostos para uma pessoa com mais idade, ou mesmo sem tanta formação, para atingir um nível satisfatório de usabilidade.

Os candidatos e o fabricante de sandálias aqui trazidos como exemplos, precisam se calçar de uma comunicação realmente pensada para todos. Esse é um problema que infelizmente não se esgota nesses casos, o que aumenta a urgência de provocarmos e estimularmos esse debate em todas as instâncias que militamos.

Esqueceram do blind

A preocupação em não se pronunciar a palavra cego tem sido nos últimos tempos, objeto de muitas de minhas colunas já que isso geralmente é pensado como forma de oferecer um melhor serviço ou criar uma melhor interlocução com aquele que não vê. Assim, para muitas empresas e profissionais, o simples fato de tratar alguém por cego, pode se configurar em uma agressão ou mesmo em um jeito constrangedor de se referir ao cliente. Delta Vitor, DV ou somente blind, tem sido as opções que tenho visto por aí, quando a coisa me diz respeito.

Junto com a preocupação com a terminologia, em minha opinião desnecessária, já que somos cegos mesmos, e em português, entendo que deveria vir também a qualidade de atendimento como um todo. Quando lutamos por acessibilidade, aquela hoje felizmente assegurada por lei, não é apenas de adequações arquitetônicas que estamos tratando.

Também se faz necessário uma readequação de comportamentos e atitudes, tornando acessível os serviços e as relações sociais.

Recentemente um amigo em conexão de um vôo internacional foi esquecido no Rio de Janeiro. Seria cômico se não fosse trágico. Os funcionários, assustados com o erro que haviam acabado de cometer anunciavam pelo rádio que esqueceram do blind.

Não haviam esquecido então que não podia dizer cego. O blind estava internalizado em seu kit mental de boas maneiras. O atendimento, porém, infelizmente não foi modelado e trabalhado em sua amplitude com aqueles colaboradores.

Correndo, estressados, pressionados pela a loucura do dia-a-dia da profissão, muitas das vezes não são eles os culpados diretos pelas inúmeras falhas dos serviços. As companhias aéreas, hoje encaram tudo e todos como prioridades. Cliente com cartões das mais diversas cores e status, pessoas da “melhor” idade, pessoas com deficiência, gestantes, enfim; para estabelecer prioridades hoje em dia acaba-se não tendo nenhum critério.

O blind esquecido não recebeu qualquer indenização pelos transtornos e constrangimentos sofridos. Em uma conexão que seguia onze horas de vôo o jeito foi esperar a realocação em outra aeronave.

O que chamou a atenção além do absurdo já posto foi o posicionamento de um dos gerentes responsáveis. Ele disse que o blind estava sendo injusto, pois estavam fazendo de tudo para ajudá-lo.

No Brasil ainda confundem ajuda com direito. Apesar de ser cego, opa, blind, o cliente pagou a passagem, recolheu seus impostos e deveria ser tratado com o mesmo respeito que qualquer outro usuário da companhia.

Oferecer um suporte de qualidade então não se configura em nenhum favor da empresa, mas uma dentre tantas outras obrigações que sempre são indevidamente descumpridas.

Susto no paladar

Imagine você: com uma caixinha em mãos, canudinho já introduzido no orifício criado especificamente para tal. Agora é só saborear aquele achocolatado gelado, popularmente conhecido pelo nome de uma marca famosa, colocada no diminutivo, bem provavelmente com o objetivo de atingir o público infantil.

Pois bem, na primeira sugada, ao invés de achocolatado vem água de côco. Um susto no paladar! E em meu caso, que isso verdadeiramente aconteceu, uma agressão à cidadania.

Há algum tempo publiquei um artigo que contava minha experiência frente a um frigobar. Só, em um quarto de hotel, Eu e as latas, não podíamos nos comunicar, pois todas as embalagens foram concebidas sem qualquer diferencial tátil. Isso para uma pessoa cega impossibilita o exercício do direito de escolha. Refrigerante ou cerveja, ou quem sabe produtos da marca A ou B. Nada disso é possível devido à miopia de mercado daqueles que pensam as embalagens sem a preocupação com o quanto elas serão excludentes.

Felizmente essa não é uma realidade que prevalece em cem por cento do mercado. Já temos uma indústria de laticínios que traz em suas embalagens de congelados a indicação em Braille. Da mesma forma podemos verificar essa preocupação por parte de alguns fabricantes de medicamentos, cosméticos e até balas.

As caixinhas de água de côco, sucos e achocolatados, infelizmente continuam me pregando peças. E aí pergunto: a quem recorrer? Pessoalmente entendo que deveria ser ao bom senso daqueles responsáveis pela concepção e comunicação dos produtos.

O Brasil conta atualmente com mais de vinte e sete milhões de pessoas com deficiência. Trabalhadores, beneficiários do Benefício de Prestação Continuada ou mesmo pessoas sem qualquer tipo de renda, todos acabam sendo direta ou indiretamente consumidores.

Para além desse segmento ainda poderíamos falar nos idosos, analfabetos, dislexos, tantas vezes colocados de lado, quando são pensados produtos, com manuais indecifráveis, longos ou com letras microscópicas.

Sabemos que a cada dia os produtos são concebidos de forma a atender públicos específicos. Todavia, nunca nenhum princípio de marketing, trouxe a idéia que junto com a segmentação de mercado, deveria vir a exclusão sumária de consumidores.

Dois anos depois da publicação do artigo Eu e as latas, fiquei sabendo que um fabricante de cerveja vai inovar em sua embalagem. A novidade infelizmente restringe-se à mudança de cor.

Espero futuramente, escrever textos trazendo um mercado mais moderno e consciente de seus públicos. Por enquanto vou ficando por aqui, com uma caixinha em mãos para matar a sede, porém prevenido para uma pequena ou grande surpresa, já que não faço idéia do conteúdo.

À beira da represa

Dentre tantas coisas boas que nos dá prazer em morar no ABC, sem sombra de dúvidas não se pode esquecer das pescarias no Riacho Grande. Antes ou depois da balsa, dentro ou fora do pesqueiro, vindo para casa com o samburá cheio ou vazio, o bom da coisa é no final das contas o ritual da pescaria.

Nesta semana de dia dos pais, a um mês de receber em casa minha primeira filha, fiquei aqui por fora da barriga, lembrando dos momentos de pescador vividos com meu pai desde criança e da importância desses dias na formação de meu caráter.  Com tempos de vida virtual atribulada, substituindo as agendas infantis antes ocupadas por fubeca, amarelinha e pega-pega, acredito que muito do que vivi à espera dos peixes, poderia ainda hoje ser motivo de sorrisos largos de qualquer criança hi-tech.

Lembro bem, que tudo começava um dia antes. Tínhamos que arrumar a isca, decidir o que levar para comer e claro ajeitar toda a tralha de pesca, vara, anzol, chumbada e todo o resto. A noite demorava a passar, já que cada minuto parecia uma eternidade diante da ansiedade de que logo chegasse o momento de irmos para a nossa aventura.

Por a bota para andar no mato, aprender a por a isca, ter a vara preparada por meu pai sem bóia, facilitando assim que eu sentisse a fisgada do peixe. Tudo isso se traduzia em uma mensagem inconsciente, que dizia: você pode!  Transformando o fato de não enxergar em algo quase insignificante.

Faz um tempão que não vamos pescar. Um pouco por falta de planejamento, mas muito por conta da correria do dia-a-dia. As pescarias, no entanto, continuam sempre presentes na memória. As piadas, as histórias longas e bem contadas, as conversas de adultos que muitas vezes eu nem entendia, mas me sentia orgulhoso por indiretamente fazer parte delas, já que eu estava ali. Isso tudo foi inclusão na prática, promovida em casa, sem grandes técnicas ou artifícios. Chamo de inclusão feita a partir do amor. Para aqueles que têm dúvidas de como funciona a coisa, é simples: o amor vence o preconceito, vence o medo e vence a certeza imposta pelos estereótipos vigentes de que determinada situação não é possível.

Neste Dia dos Pais estou pensando em dar a Seu Tião, uma vara ou quem sabe um kit de pesca de presente. Mas talvez não seja essa uma boa idéia, já que ele no momento em que ler a coluna acabará por descobrir a surpresa.

Vou então guardar segredo, deixando por aqui meu abraço a todos aqueles que fazem do amor o grande instrumento de educação e de transformação da vida de seus filhos. Nesse próximo domingo, já na contagem regressiva para ter nos braços a pequena Catarina, não tenho dúvidas que o grande presente meu e de meu pai será a certeza de que de muito do que vivemos juntos contribuirá para a formação de alguém que já amamos, mesmo antes de nascer.