Seis, ladrão!

Não sei o que estava mais divertido: se a surra que estávamos conseguindo dar no trio adversário ou ouvir os sussurros de espanto quanto ao fato de nós cegos jogarmos truco. Ocasionalmente formávamos naquele momento um trio formado por dois cegos e uma pessoa sem deficiência, jogando contra três como dizia o Ramiro da pastelaria, perfeito das vista. O baralho também marcado em Braille e algumas estratégias de sinais com os pés por de baixo da mesa, tornava o jogo totalmente possível para todos nós, e a exclusão só ocorria para aqueles que perdessem três rodadas primeiro, já que deveriam dar lugar para outro trio na mesa.

O jogo de truco tem como principal charme a possibilidade de blefar. Se truca então, quando se tem carta boa para bancar a jogada, ou quando não se tem nada e a única alternativa é gritar para assustar o adversário. O risco nesse caso é se o opositor tiver alguma coisa, ou resolver fingir também pedindo seis, transformando assim o jogo em um grande teatro.

Em um dos momentos da noite que conto aqui, resolvi apostar em minha capacidade de interpretação. Sem carta nenhuma na mão, e já perdendo o jogo a alternativa foi pedir seis, como se diz no interior “seis ladrão”. Chamou-me então a atenção o aumento dos rumores de espanto daqueles que acompanhavam estarrecidos a novidade de cegos jogando truco. “Mas olha só, como pode? Ele teve coragem, ele trucou”!

Lembrando dessa ocasião, decidi escrever para convidar a vocês leitores, para em alguns momentos tentar pensar na inclusão como um grande jogo de truco. Sem muitas regras, medos, ou cerimônias, compreendendo que o que vale realmente é a sinergia produzida por todos envolvidos no processo. Ter coragem para trucar, para jogar, para da mesma forma estudar, trabalhar, são  todos pré-requisitos fundamentais para vivermos em sociedade.

Os caras que suspiravam com admiração, pouco tempo depois estavam na mesa jogando de igual para igual, sem qualquer tato ou cuidado com quem não enxergava. Havia ali um respeito mútuo e a vontade de simplesmente estar juntos para brincar como crianças despidas de qualquer preconceito.

Muitas vezes a sociedade acaba excluindo por excesso de zelo, colocando aquele com uma única limitação na condição de demandante de cuidados intermináveis. Assim, a discriminação manifesta-se não apenas em situações caracterizadas pelo desprezo, pela agressividade, ou pelas ironias. Também aparece no excesso de cuidados, na descrença diante de conquistas e na proteção desnecessária e gratuita.

Dia de luta

O dia 21 de setembro costumamos dizer que não é o Dia Nacional de Luta pelos Direitos da Pessoa com Deficiência, já que esse é todo dia, mas sim o dia em que paramos para celebrar todas as conquistas,  identificar os desafios e dar as mãos para mostrar juntos; familiares, pessoas com deficiência, profissionais da área, amigos e tantos outros, o quanto  que ainda precisamos caminhar. Curiosamente foi nessa semana que vivi uma das maiores violências de direito por mim já enfrentadas.

Sem medo de errar posso dizer que dia 17 de setembro desse ano, foi o dia mais especial de minha vida até aqui. Tudo começou bem cedo, visto que o grande momento estava agendado para as sete da manhã. Orações, abraços e um pouco de um monte de outras coisas foram acontecendo até as exatas sete horas e vinte e dois minutos, momento em que parece que o mundo inteiro parou para contemplar a chegada da doce e linda Catarina, nossa primeira filha.

Acompanhar o parto dentre tantas emoções, foi um momento daqueles que reservam espaço VIP na memória. O hospital e maternidade, referência para todo o ABC, me encheu de orgulho por ser de Santo André. Equipe, atenciosa e de profissionalismo inquestionável, para além de tudo o que já faziam com maestria, todo tempo se preocupou com a acessibilidade, descrevendo para mim os momentos e destacando pessoas para dar suporte durante todo o processo, incluindo a ida até o centro obstétrico, até o retorno de encontro às vovós ansiosas por notícias.

Às quinze horas então seria mais um momento único a ser registrado. A hora da emissão do primeiro documento, a certidão de nascimento, daquela que tenho certeza será uma grande cidadã. Fiquei feliz com a notícia de que esse serviço era oferecido na própria maternidade, visto que isso me permitiria ficar mais tempo acompanhando minha esposa ainda sob os efeitos de uma cesárea e minha menina, em suas primeiras horas de vida.

Dirigi-me até o posto avançado do cartório, acompanhado de minha mãe e de um primo, sabendo que pessoas cegas sempre que vão se utilizar desses serviços precisam fazê-lo com duas testemunhas. A alegria era tanta que isso naquele momento ao contrário de tantas outras vezes, nem me incomodava tanto.

Chegando lá, porém, me foi dito que eu não poderia assinar o termo de registro. Quem poderia reverter essa ordem era exclusivamente alguém que o atendente Marcelo, muito educado por sinal chamava de oficial. Segundo ele, era o único que tinha poder para tal.

Pedi então um documento que dissesse o motivo dessa proibição, e de novo recebi a informação de que o oficial apenas poderia tratar disso. Pedi então para que o atencioso rapaz ligasse para o tal homem detentores de tantos poderes para além da constituição. A resposta veio em alguns minutos acompanhada de uma pergunta: “sua esposa enxerga”? Após a afirmativa ele me disse que ela então poderia assinar o termo de registro.

Em meio aos efeitos da anestesia, enjoada e enojada por tanta agressão à cidadania, minha esposa nos recebeu no quarto, para que respeitássemos a alternativa posta pelo poderoso oficial. Se não fosse assim teríamos que ir até ele, afinal como pode-se ver não tínhamos alternativa.

Catarina hoje está devidamente registrada. É uma cidadã e será educada para ter em sua certidão de nascimento uma bandeira para combater atitudes como as que nortearam a emissão daquele documento.

Eu nesse espaço assumo o compromisso público de continuar lutando, e em breve espero trazer notícias de que outros Andreenses definitivamente estarão livres desse tipo de violência aos seus direitos.

Em tempos de cidadania, o crack é o pior do time!

Não faz muito tempo, a gente ficava assustado se ouvisse falar que alguém era maconheiro. Esse era um personagem que compunha o imaginário coletivo, e sendo assim, a ele se atribuía várias histórias, rótulos e comportamentos. Ninguém queria estar perto ou ter sua imagem vinculada a qualquer um daqueles que fosse identificado como tal, exceto aqueles que decidissem transgredir as regras sociais, assumindo assim para si e para o todo uma postura “marginal”.

Hoje, no entanto, a coisa é bem diferente, e já tem na TV, ídolo nacional dizendo que “continua queimando tudo até a última ponta”. Há quem diga que tudo isso é produto da evolução da sociedade, há também quem afirme que isso é fruto da banalização dos valores e dos meios de comunicação. Seja lá qual for a explicação, o fato é que vivemos em uma sociedade menos preconceituosa, porém longe de ter  sanado suas vulnerabilidades e distorções sociais.

Como disse um dia Belchior “o que algum tempo era jovem novo, hoje é

Antigo”. Esse dinamismo então nos convida a entender que  tão grande quanto os avanços, são os novos desafios que temos que vencer. Se nos orgulhamos por viver em uma sociedade mais cidadã que passa a reciclar lixo, convive cada dia melhor com as diferentes orientações sexuais e trás para seus debates assuntos referentes a o que até bem pouco tempo entendiam por segmentos dignos apenas de pena e ajuda, por outro lado não podemos jogar para debaixo do tapete fenômenos como o consumismo exacerbado,  a  violência urbana, os  índices crescentes de depressão, e o surgimento de novas drogas.

São inúmeras as reflexões e hipóteses apresentadas atualmente para esse momento, que tenho dito se apresenta como um paradoxo da evolução. Assim temos convivendo juntos a liberdade de expressão e o medo de sair nas ruas; a certeza de poder amar quem quer que seja e pessoas se sentindo cada vez mais sós; o aumento no poder de compras e a banalização das conquistas.

Nossos avanços, no entanto, devem ser valorizados e não identificados como culpados para nossos grandes problemas sociais. Muitas conquistas se perdem em meio ao discurso da turma do quanto pior melhor. Fica fácil então dizer, “se fosse como antigamente não teríamos esse problema”! Isso então se equivale a pensar que, “se eu pudesse continuar com meus preconceitos e discriminações a coisa não seria dessa forma

No fim das contas o fato concreto é que a contemporaneidade nos convida abrir mão de algumas de nossas convicções para enfrentar juntos, grandes inimigos comuns. Dentre tantos destaco o crack, droga barata que tem em seu nome uma palavra que soa equivalente a adjetivação que damos àqueles que se destacam em suas atividades. O crack no mundo das drogas se destaca pelo baixo custo para o cliente final, auto nível de dependência e poder avassalador na desconstrução de vínculos familiares.

Esse é o pior do time de tantas coisas ruins que assombram a sociedade em que vivemos. Assim estado e sociedade, precisam trabalhar juntos, entendendo que nesta guerra muitos já foram os mortos, e que em tempos de cidadania a responsabilidade deve ser compartilhada  por todos nós.

Feriado da Independência

Cento e oitenta e oito anos depois do dito grito de Dom Pedro I, já podemos nós, filhos da pátria, ver contente a mãe gentil? “Com certeza sim”, diriam muitos. “Hoje somos fortes economicamente, temos cinco copas do mundo de futebol, a soberania do vôlei, e em se tratando de música só para começar a conversa colocamos o mundo para sambar”; “Saímos sempre na frente, fosse com as aceleradas do inigualável Sena, ou com as atuais braçadas de Cesar Ciello”. Dentre tantos de seus filhos ilustres, o mundo pôde conhecer Portinari e Villa-Lobos, e se apaixonar pela eterna beleza da garota de Ipanema.

Já tantos outros dizem que nem tanto. “Distribuímos injustamente nossas riquezas, lotamos nossas salas de cinema para ver os lançamentos que 90% das vezes não são nossos, e americanizamos nossa língua com um inglês de significado desconhecido para boa parte dos que dele se utilizam”. Nosso sonho de consumo ainda é um luxuoso carro importado, o de nossos filhos é ir para Disney e sempre que alguém chega lá, quer fazer o brinde com um legítimo Champagne francês.

“Ora pois”, como diriam nossos colonizadores, quem está na verdade com a razão? Não há dúvidas que um país é fruto também, da forma pela qual é percebido por aqueles que o constrói. Por outro lado, nossas belezas e mazelas, conquistas e desafios, avanços e retrocessos, são fatos concretos muitas vezes ignorados por convicções políticas, desinformação ou por uma série de bloqueios de diferentes origens.

Pessoalmente sou daqueles que tendo o copo com água pela metade, entendo que ali temos um copo quase cheio, mesmo sabendo que muitas outras pessoas diriam que o mesmo copo está quase vazio. Sou otimista não apenas por uma opção gratuita, mas por convicção de que vivemos em uma sociedade que avança, mesmo tendo claro todos os obstáculos e as eventuais perdas ao longo do processo.

A independência para muitos cidadãos infelizmente ainda é um sonho, seja por uma limitação física, intelectual, sensorial, seja pela ausência de uma política efetiva de estado que assegure a essas pessoas meios de superar essas limitações. Quase duzentos anos depois de D. Pedro I às margens do rio Ipiranga, ainda neste país pessoas dependem de outras para saírem de casa, pois apesar de todos os gritos de movimentos organizados, existem calçadas e veículos utilizados para o transporte público que em sua grande maioria não foram  concebidos  para todos.

Em uma sociedade solidária é claro que vez ou outra dependeremos uns dos outros, seja de um apoio físico, emocional ou de qualquer outra ordem. Todavia, pensando, sonhando e escrevendo, fico aqui vislumbrando um feriado da independência com autonomia. Esse seria comemorado, no dia em que tivéssemos um sistema pleno de garantia de direitos, de acesso irrestrito ao espaço público, seja ele privado ou estatal, enfim no dia em que pessoas dependessem de um apoio após todas as possibilidades esgotadas, e não por ausência de um estado de fato, infelizmente erroneamente confundido por muitos como sendo o governo de A ou de B.