Máquina do futuro

É assim que por meio de uma ação publicitária, o Tribunal Superior Eleitoral, TSE, tem chamado as urnas eletrônicas, meio pelo qual manifestaremos nossa vontade política no próximo domingo. Para nós cegos, podemos afirmar que essa sem dúvidas é uma conquista do presente. Nos últimos dezesseis anos a tecnologia para o aprimoramento da acessibilidade nas eleições tem sido marcada por avanços significativos, e hoje todo brasileiro ao votar toca em uma tecla com a sinalização em Braille.

A comunicação sonora provida via fone de ouvido conectado na urna na hora do voto, também foi mais uma revolução, nos permitindo total autonomia e certeza de que todo o processo se deu sem erros de operação. Lembro bem das guias em Braille para cédulas de papel. Tratava-se de um gabarito, algo tipo uma máscara, preparada para se colocar em cima da cédula, permitindo aos eleitores cegos saberem quem estava nos quadradinhos para assim poder votar.

Há pouco tempo, menos de duas décadas íamos a locais específicos, o que era indicado para que pessoas com deficiência pudessem votar com total tranqüilidade. Não dá para negar que se tratava às vezes de uma situação bacana. Encontrávamos amigos de há muito, e a festa democrática tinha o seu brilho guardada às limitações tecnológicas e culturais do momento.

Hoje voto perto de casa e os pretextos e oportunidades para encontrar os amigos são outros bem mais legítimos e agradáveis. A eleição tem sido uma prova clara de que o desenho universal pode ser algo promovido sem que alguém tenha qualquer perda ou dano.

Nesta corrente, o Brasil que ainda não entende a importância das associações e movimentos, aquele país que muitas vezes ainda insistia em questionar a exeqüibilidade da garantia de direitos, a cada eleição vive uma aula prática de exercício da cidadania.

Nesse texto então não entro no mérito de qual cor possa ser melhor para a pátria, vermelho ou azul. Celebro aqui o fato de que ambos podem se posicionar livremente apresentando suas propostas e muitas vezes questionando os opositores. Muito menos permito-me tratar da questão de gênero. Neste sentido a realidade fala por si só, e quem sempre ganha é a pátria mãe gentil.

Caminhamos a passos largos para nos consolidar enquanto democracia referência para todo o planeta. Celebrar essa situação e fazer desse texto um meio de multiplicação dessa certeza é hoje o maior objetivo dessa coluna. Quem já comprou um congelado ou remédio com embalagem em Braille, se diverte tocando os pontinhos, e percebe ali um novo segmento sendo contemplado.

Nas urnas o fenômeno se repete e para quem ainda não prestou atenção, fica o convite. No próximo domingo ao digitar qualquer que seja o número, todos os brasileiros poderão voltar orgulhosos para casa por ter operado um equipamento acessível, preparado para qualquer cidadão independente de sua limitação.

Uma estorinha…

E os dois viveram felizes para sempre. Terminou assim. Quer dizer, talvez não tão felizes, e “para sempre” talvez seja um pouco de exagero. Mas com certeza viveram e um dia se conheceram.

O amor não foi à primeira vista já que um dos dois não enxergava, mas há quem diga que talvez tenha sido ao primeiro sorriso. Mateus e Julia, donos de nome da moda, poderiam ainda ser quem sabe João e Maria, Paulo e Cristina, enfim poderiam ser tantos outros casais anônimos com uma história parecida, se não fosse o fato de que uma das partes não podia ver a outra.

Nossos personagens se conheceram em uma festa, ou será que foi em um ponto de ônibus? Pensando bem deve ter sido em um cruzamento movimentado da São Paulo que nunca pára, ou bem provavelmente em meio a uma aula de história ou geografia. Mas como rolou a paquera se não teve troca de olhares. Calma, calma, caros leitores, não fiquem sem graça de fazer uma pergunta como essa! Tenha certeza: você não foi o primeiro ou primeira a perguntar.

Nossa estorinha traz o caso de um casal que se encantou e se apaixonou por tantas outras coisas que não foi necessário nenhuma piscadinha para que rapidamente pudessem estar juntos. O perfume dela, o jeito engraçado e às vezes decidido pelo qual ele se colocava; ela com aqueles cabelos longos e macios, ele com um tom de voz que dizia tudo sem precisar dizer quase nada. Aquela química no ar impossível de não ser percebida, tinha um poder a prova de qualquer preconceito ou do medo do que poderiam dizer mais tarde.

Como em toda história de amor, é claro que nem tudo foram flores para os pombinhos apaixonados. Praticar a diversidade pode causar estranhamento ou como se diz popularmente uma pequena torção de nariz de uma sociedade acostumada, sabe-se lá por quem, a esperar “casaizinhos padrão”. Sempre então, os dois da mesma idade, da mesma raça, da mesma classe social, só nunca do mesmo sexo. Surdo com surda, cego com cega, a gordinha com gordinho. Felizmente porém, nossos personagens além de muita paixão e amor,  também sempre tiveram muito bom humor, ingrediente indispensável nos dias de hoje, para entender muitas vezes uma sociedade em alguns casos ainda tão conservadora.

Nossa estorinha fala sobre conquista e sedução sem a necessidade do olhar. Fala da paixão e do relacionamento entre pessoas em condições diferentes. Enfim fala de coisas óbvias, porém ainda para muitos, possibilidades para lá do impossível.

Vivemos em uma sociedade cada vez mais pautada pelo visual e pela padronização. Muitos então desconsideram o fato de se sentir atraídos por outra pessoa, priorizando aquela que possa ser mais interessante para ostentar socialmente. Quem já não viu em uma roda de amigos uma piadinha, expondo ao ridículo aquele que saiu com a feia.

Certa vez uma amiga cega, na oportunidade grávida, estava no ônibus voltando para casa quando ouviu, “quem foi o cafajeste que fez isso com a moça”. Isto mostra que mais do que desconsiderar o amor construído a partir da diversidade, muitos ainda precisam  aprender que amar nunca é pecado!

Lado B

Quem já passou dos 30 certamente lembra dos bailinhos ou festas de família animados pelo som da velha vitrola. O ponto alto sempre se dava ao som de músicas que marcavam as paradas de sucesso e por conta disso abriam os charmosos Long Plays. Sempre estavam no lado A, e por vezes a empolgação era tanta que ninguém queria virar o disco, repetindo-se então até a exaustão o lado das músicas prediletas.

A revolução tecnológica transformou os discos de vinil em peças de museu, mandando as músicas para os CDS, e depois as transformando em bits, permitindo a qualquer pessoa salvá-las em cartões de memória, pen drivers, ou qualquer outro meio de armazenamento digital, podendo ser executadas aleatoriamente sem qualquer ordem pré-estabelecida.

Nunca tive dúvidas que nossa luta por direitos da pessoa com deficiência e tantos outros segmentos entendidos como minoritários, sempre foi encarada como o lado B no rol do repertório de prioridades de políticos, empresários e porque não dizer da sociedade como um todo. Fazer o necessário para depois resolver o problema sempre foi o que deu o tom dos discursos e das ações, nos colocando em posição de espera para quem sabe um dia ver a sociedade virar o disco.

Os movimentos amadureceram, se emponderaram ganhando maior espaço, força e voz. Fazendo uma analogia não vejo, porém, ainda como na lógica dos CDs e outros meios digitais, onde se quebrou o paradigma e atualmente se ouve músicas de forma aleatória, valorizando o trabalho de compositores e músicos como um todo, nossas demandas sendo ouvidas e pautadas na mesma perspectiva que aquelas tradicionalmente eleitas como mais importantes, garantindo assim nossa participação efetiva em uma sociedade que privilegie um debate voltado a equiparação de direitos e igualdade de acesso as oportunidades.

Crescimento econômico e social conjugados, desenvolvimento infra-estrutural pautado, a partir do desenho universal, estado forte alicerçado por ações de uma sociedade civil articulada e organizada, são propostas que a muito só tomavam forma a partir de lados distintos. Hoje, no entanto, essas bandeiras se apresentam como viáveis apenas se implementadas e defendidas em conjunto.

Em época de eleição é hora de trabalharmos para que nossas lutas históricas saiam do lado B. Na festa da cidadania onde as principais características do público convidado são a diversidade e o respeito às diferenças, lado A e lado B dão o ritmo da dança, numa multiplicidade harmônica de uma canção cantada e tocada por todos, eleita por aclamação como o grande sucesso do momento e da história. Seu nome está na boca do povo, independente de credo, raça ou classe social. Qual é a música? Ganhou quem disse com orgulho. A resposta é fácil e não poderia ser outra, trata-se da democracia.