Mais fácil aprender japonês em Braille

Esse trechinho da bela canção Se, de Djavan, sempre é relembrado por um amigo ou outro, quando estamos diante de algo difícil. Vem sempre a pergunta bem humorada, “Mas e aí, é mais fácil aprender japonês em Braille?” Sempre respondo que o Braille ocidental eu já conheço bem, ao contrário de nosso grande poeta Alagoano. Agora em se tratando de japonês em Braille; realmente tenho que admitir que ele foi muito feliz na identificação de uma analogia que traduzisse bem a sensação de estar diante de algo difícil.

Assim nesse espaço faço um convite a refletirmos sobre o cuidado que devemos ter quando queremos comunicar algo a alguém. Quero tratar de cuidados relacionados à acessibilidade comunicacional, preocupações que muitas vezes não entram nas dicas básicas de oratória, e por conta disso, trocam o dito por algo não entendido para o receptor da idéia; trazendo à tona o velho pensamento popular, ”trocando o dito pelo não dito”.

Vejam o caso do grande conferencista, em uma fala para um publico diverso.  O profissional tratava de questões relacionadas a aspectos sociais, à medida que projetava seus slides, dizia “de acordo com o gráfico projetado, mais especificamente nas marcações em vermelho, podemos verificar o enorme potencial de inclusão de pessoas cegas”. A notícia não poderia ser melhor, se o conceituado profissional, descrevesse o gráfico, já que ali poderiam ter pessoas que não enxergam e tantas outras que talvez não teriam domínio de uma leitura gráfica.

Saber onde está o palestrante também é importante. Muitas vezes o expositor se encontra à esquerda da platéia, e todo o sistema de som é montado a direita do mesmo público. Assim, alguém que não enxerga pode imaginar estar se dirigindo à mesa, quando na verdade está virado para as caixas. Recomenda-se então um cumprimento apenas fora do microfone antes do início da fala.

Contratar interprete de libras, há muito tempo deixou de ser apenas uma preocupação daqueles que organizam eventos relacionados à pessoa com deficiência.

Surdos vão a lançamentos de produtos, show de humor, apresentações sobre meio ambiente, cerimônias religiosas, palestras de auto-ajuda, espetáculos teatrais. Pergunto então aos que estiveram em alguns desses eventos recentemente, se já viram algum intérprete de libras por lá?

Como diz o poeta, autor da bela canção que empresta um pequeno trecho ao título dessa coluna, “você disse que não sabe se não, mas também não tem certeza que sim”!. Inclusão e cidadania não se faz dessa forma. Existem leis, conquistas históricas que não nos permite mais fazer as coisas pela metade, até porquê como cantaram os Titãs: a gente não quer só comida, a gente quer comida diversão e artes!

Argentina e Brasil

São esses dois países e mais os outros dezessete de toda América Latina, que estão reunidos aqui em Mar del Plata, para celebrar os vinte e cinco anos da União Latinoamericana de Cegos.

É um desafio traduzir em palavras a emoção que vivemos aqui lembrando líderes brasileiros que se foram nesse ano de 2010; Prof. Adilson Ventura e Professora Dorina Nowill. Nosso país através dessas duas personalidades, e mais tantas outras ainda atuantes, tem contribuído para a construção de um movimento de luta forte e com conquistas efetivas.

A delegação brasileira aqui está representada por mim enquanto vice-presidente da Federação Nacional das Avapes e membro do Comitê Técnico Científico da ULAC, Edivaldo Ramos, Presidente da Associação Brasileira de Educadores de Deficientes Visuais – ABEDEV e responsável por políticas de prevenção a cegueira da ULAC, Volmir Raimondi segundo vice-presidente da ULAC, Mizael Conrado responsável por políticas de trabalho e emprego da ULAC e Karolline Sales representando o segmento de mulheres cegas brasileiras e a área de recursos de acessibilidade da Avape.

Todo esse time tem a responsabilidade de trazer para âmbito latino-americano, os avanços identificados no Brasil, bem como aprender as experiências bem sucedidas dos países irmãos.

Atualmente apesar de todas as dificuldades, o Brasil é referência internacional no que se refere à questão da deficiência, se considerarmos nossa legislação e nosso amadurecimento político.

Temos em nosso país a Lei de Cotas, n.o 8.213, que determina que empresas com mais de cem funcionários contratem pessoas com deficiência. Dá orgulho de contar por aqui, como temos avançado nesse sentido. Por outro lado também sabemos o tanto que ainda temos que caminhar, e por isso toda mobilização de estado e sociedade faz-se necessária para atendermos uma demanda de dezessete pessoas com deficiência por vaga no Brasil.

No que se refere a nossa força político-institucional, mostramos aqui o quanto nosso país tem caminhado a passos largos, quando o assunto é protagonismo das pessoas com deficiência. Estamos à frente de conselhos de políticas e de direitos; de associações antes apenas comandadas por pessoas sem deficiência; e em empresas ocupando cargos de destaque.

Hoje à noite as seleções de Brasil e Argentina entram em campo, para mais um clássico do futebol mundial que mesmo sendo amistoso leva todo mundo para frente da TV. Por aqui vou me despedindo dizendo que independente do vencedor no futebol os dois países fecharão essa semana felizes por terem marcado um golaço pró-inclusão.

Ser cego ou não ser, eis o cifrão!

Acordar e dar uma verificada na hora para poder ficar um pouco mais na cama. Finalmente levantar, subir na balança e conferir o peso para uma manhã saudável de prática esportiva. Escolher as roupas da cor preferida de acordo com o humor do dia. Ler o jornal e a revista da semana. Navegar um pouco na internet, twittar, pesquisar no Google e mandar as novidades bacanas aos amigos por torpedo no celular.

Quantas atividades das acima mencionadas, um sujeito cego, poderia realizar só, sem qualquer tipo de apoio de outra pessoa. Respondeu certo quem afirmou que todas elas. Relógios e balanças falantes, identificadores de cores, leitores de tela e softwares que tornam o celular totalmente acessível fazem parte do hall de uma infinidade de ajudas técnicas, que vem relativizando o conceito de autonomia. Ser mais ou menos independente, não é mais uma situação que pode ser medida apenas observando-se a deficiência do indivíduo, pois também se deve considerar como seu meio social têm se transformado para recebê-lo.

É claro que o título dessa coluna é uma grande brincadeira. É fato, porém, que quando saiu de casa com uma bengala dobrável resistente e leve, ou mesmo um cão-guia bem treinado alimentado e cuidado, já estou pronto para caminhar em qualquer rua de São Paulo, Paris, Santo André ou Xangai. Se somado a isso, tenho ainda condições de ligar meu GPS, programar a rua em que vou pegar o ônibus, e o local exato em que quero descer, continuo tranqüilo, com bem mais autonomia. Chegando ao trabalho, posso ligar meu notebook em um datashow, e apresentar minhas idéias de forma interativa, garantindo que quem possa ver ou não, consiga entender a fala.

Para que essas possibilidades sejam cada vez uma realidade mais presente na vida de mais pessoas com deficiência no Brasil, faz-se urgente um movimento por todo o país de estímulo a pesquisa, desenvolvimento e produção de ajudas técnicas em âmbito nacional. Também, precisamos desonerar a carga tributária de equipamentos com essa tecnologia, e por que não garantir renúncia fiscal as empresas diretamente proporcional a seus investimentos nesse sentido, que em grande parte dos casos se dá na perspectiva de geração de novos empregos para os usuários desses recursos.

Um dia, lá pelo ano de 1982, para que eu pudesse estudar com qualidade, meus pais foram até o programa povo na TV, que passava nas tardes de segunda a sexta no SBT, pedindo a doação de uma máquina Braille, visto que mesmo meu pai sendo metalúrgico de uma grande multinacional, os recursos ainda não eram suficientes para importar a tal maravilha. Felizmente dei sorte, e acabei ganhando a máquina que com certeza facilitou minha vida no antigo ginásio, depois também no falecido colegial, no cursinho, e no primeiro ano de faculdade. Precisamos, no entanto, que ter acesso a ajudas técnicas e serviços de habilitação e reabilitação, não dependa da sorte do usuário ou do coração de quem oferta, mas sim de políticas públicas voltadas a garantia de direitos e a equiparação de oportunidades!

Bengala: todo mundo tem as suas!

Bengala: todo mundo tem as suas!

Com catorze anos, penso que entre tantos desejos pré-adolescentes o que sempre fica em comum é a sede de liberdade. Isso então se manifesta nas vestimentas ousadas sempre prontas para afrontar qualquer tipo de questionamento, na bicicleta motorizada que pode ir mais longe e mais rápido,  nas atividades  artísticas como  música e dança onde sentimentos e emoções viram obras vivas à espera de aplausos e seguidores.

Foi nessa idade que decidi entrar em uma banda de heavy metal, deixar o cabelo crescer e como dizem atualmente dar uma repaginada no visual. Nessa idade eu quis começar a trabalhar, afinal de contas junto com o ímpeto de comprar novos instrumentos, discos das bandas preferidas, enfim conquistar a “independência financeira juvenil”, tinha comigo a clareza de que aquele era o momento, pois sempre aprendi com meu pai, através de suas histórias de vida que o homem precisa começar a trabalhar cedo, até porque com ele tinha sido assim, aliás bem antes dos tais catorze anos.

Se essa idéia é certa ou errada, já é tema para outras reflexões. O fato é que para mim, cego total, trabalhar com aquela idade, precisava ter autonomia para ir de casa para o trabalho e vice-versa. Tinha que me preparar para o uso da bengala longa, tecnologia básica, porém fundamental para o deslocamento de qualquer pessoa com deficiência visual, pois mais do que uma ferramenta de orientação, também serve como meio para identificação daquele individuo que muitas vezes precisa ser percebido como tal, para que as pessoas possam oferecer ajuda, por exemplo, para a travessia de uma rua.

Pegar, aceitar, enfim conviver com a bengala não foi nada fácil. Já tinha uma faz tempo em casa; havia ganhado de um amigo e saber que ela estava lá significava grande expectativa de liberdade e de um futuro repleto de passeios e possibilidades. Todavia, no momento do uso veio junto um constrangimento bobo, inexplicável, pois ficava pensando o que vão dizer quando me virem usando isso. Os colegas de escola, os vizinhos; os amigos de banda e de balada! Todos esses poderiam achar estranho, sentir pena, ou até quem sabe fazer comentários sobre o assunto sem que eu viesse a saber. Mas enfim, era a bengala e junto o primeiro trabalho, os primeiros passeios totalmente independentes, ou deixar para lá e ficar tudo como estava.

Passaram-se alguns dias e defini por buscar na gaveta a velha bengala, e  fazer a matrícula no curso de orientação e mobilidade, o que algum tempo depois ficou sendo para mim algo como tirar a carteira de motorista.

Já pensaram quantos de nós passa a vida com medo de aceitar as   tantas bengalas que podem verdadeiramente significar a conquista da liberdade? O medo do que vão dizer, do que podem pensar, muitas vezes acaba inibindo o grande profissional a tomar coragem, pedir demissão e mudar de emprego. Em outros casos o casal já desgastado pelas brigas, porém acomodado pelos domingos em família e receosos de perderem os amigos e eventos comuns, deixam para amanhã a possibilidade de recomeçar uma nova história.

Fica aqui um convite para que possamos fazer um balanço de quantas bengalas temos deixado para traz, escondidas em gavetas e armários de nossa história, por medo do que possam dizer, ou pela comodidade de não se enfrentar o novo. Feito isso, vamos então começar a construir um processo de transição, uma mudança que nos prepare e encoraje para pegar aquelas bengalas, que como a minha a vinte anos significou o maior  símbolo de autonomia  e transformação de vida de minha história até aqui..