Três passos e uma longa caminhada

Em nosso primeiro encontro falamos sobre o poder de compra  de milhões de pessoas com deficiência no Brasil, na maioria das vezes desconsiderado ou melhor dizendo desprezado  pelos provedores de serviços nos segmentos do lazer, entretenimento, artes, esportes, dentre tantos outros atores  de nossa economia, ávidos por consumidores nesse período de férias.

Nessa segunda parte quero convidar você a refletir sobre como podemos diretamente contribuir para a transformação dessa realidade.

Entendo que o primeiro passo se verifica na medida em que atuamos enquanto agentes provocadores do debate. Levar essa temática para as conversas de botequim, para o churrasco com os amigos, para o salão de beleza, para as igrejas, enfim para o cotidiano, significa nos posicionar como multiplicadores de informação, que verdadeiramente tem se mostrado como o  principal antídoto  contra o preconceito e a discriminação.

O segundo passo é dado quando tomamos a consciência de que nossas pequenas ações são fundamentais e indispensáveis para a construção dessa nova realidade que queremos. Essa revolução dá-se de forma silenciosa, porém só se concretiza com comprometimento e efetividade. Respeitar as vagas de estacionamento reservadas em shoppings, supermercados e demais espaços públicos, olhar para o calçamento de nossas casas e estabelecimentos comerciais com a preocupação de que ele seja realmente possível para a passagem de qualquer pessoa, cuidar da destinação do lixo,  entendendo que dali podemos gerar emprego e renda, e não meios transmissores de doenças, são exemplos simples do quanto podemos fazer.

O terceiro passo configura-se na compreensão clara dessa caminhada. Nos enxergarmos enquanto agentes protagônicos e efetivos de uma jornada que não começou agora, e nem tem data para acabar, permite compreender a   importância exata de nosso papel. A inclusão é uma via de mão dupla, assim a problemática deve ser entendida não apenas como uma responsabilidade do indivíduo excluído, mas sim da sociedade como um todo.

Plagiando o presidente Lula  faço uma analogia com o futebol, já que aprendemos com ele que essa pode ser uma das formas mais simples para explicar ou tentar compreender os fenômenos mais complexos. Assim afirmo que olhar para 2010 e nos perguntar quantos desses passos já foram dados, pode ser nessa altura do campeonato um gol decisivo para que possamos virar  e ganhar  o jogo em 2011!

Muito chopp e nenhum banheiro

Um amigo me contava esses dias de uma surpresa desagradável que teve logo no início das férias quando foi a um bar onde a promoção era daquelas de não recusar. Tratava-se do chopp em dobro, ou seja, o popular “paga um, mas toma dois”. A noite seria bem agradável, não fosse o fato do estabelecimento não ter se preparado para receber alguém de cadeira de rodas. Meu amigo foi então informado por um dos garçons que “banheiro só no segundo andar”.

Durante todo esse ano tenho nesse espaço tratado de desafios que enfrentamos no dia a dia, e trazido algumas reflexões sobre como vejo e compreendo, as possibilidades que nos aproximam ou afastam de um país mais inclusivo e cidadão.

Quero nessas próximas quatro semanas trazer essas reflexões pensando nesse momento. O Brasil que cresce e aparece no cenário internacional, tem no turismo, e nas alternativas de entretenimento grandes impulsionadores da economia. Não podemos então no momento em que boa parte da nação pára para descansar, deixar que a inclusão também saia de férias.

Após seis anos da assinatura do Decreto Presidencial 5296, que regulamenta as Leis 10048 e 10098, que estabelece normas gerais e critérios básicos para a promoção da acessibilidade das pessoas portadoras de deficiência ou com mobilidade reduzida, podemos afirmar que passou da hora, de vermos proprietários de bares, lanchonetes, restaurantes, e tantos outros estabelecimentos, independente do tamanho do negócio, passarem a verdadeiramente se preocupar com o assunto.

O Brasil tem avançado a passos largos no que se  refere a construção de instrumentos normativos que garantam às pessoas, independente de suas limitações físicas, intelectuais ou sensoriais, ter acesso aos diferentes espaços públicos. São normas técnicas, leis e mais recentemente a ratificação da Convenção Internacional da ONU, iniciativa que garante a este documento status de emenda constitucional.

Infelizmente muitas vezes, empreendedores do mais diversos segmentos acabam entendendo que esse não é o caso de seu negócio. Quando a coisa se refere a lazer então, isso passa a ser muito pior. Assim, não apenas a infra-estrutura física acaba deixando de ser pensada para todos, mas também as atitudes tornam-se muitas vezes um forte fator de exclusão, quando não o maior.

No dia do chopp em dobro, meu amigo e outras catorze pessoas que o acompanhavam para beber e celebrar a amizade, desistiram de ser cliente do bar com banheiro no andar de cima. Isso nos leva a concluir que não se preparar para atender à diversidade, além de colocar qualquer que seja o negócio na contra-mão da lei, vulnerável a multas e autuações, também significa uma postura equivocada diante de um mercado com cada vez maior poder de compra!

Catarina e o presépio

Há pouco mais de duas décadas e meia havia terço duas vezes ao ano. A família toda se reunia em junho para celebrar São João e todos os outros santos da época, e novamente em dezembro, todos nós, tios, primos, irmãos, pais e mães rezávamos o terço na noite da véspera de natal.

Confesso que quando pequeno não via a hora de chegar ao último mistério gozoso, o que sinalizava que em breve a reza terminaria, e lá íamos todos para a festa; se junina à beira da fogueira, se de Natal, para a troca de presentes de amigo secreto.

Das festas juninas lembro pouco. Havia um mastro, fogos, muita comida gostosa, pinhão, milho assado, batata doce e um simpático jardim que minha avó mantinha sempre belo e colorido.

Com a perda da avó Caína nos meados dos anos oitenta, foi-se também o terço e a festa de meio de ano. Ela era matriarca de oito irmãos, e uma espécie de pilar que simbolizava toda uma união que parecia jamais ter fim, ao menos no que dependesse dela.

O presépio montado logo no começo de dezembro na casa da tia Luzia, (tia Zia) como gostamos de chamar, no entanto, até hoje é construído do mesmo jeito. Bambus, serragem, vaquinhas, os reis magos e todo o contexto do nascimento do menino Jesus, se configuram em um cenário que por si só anuncia que dia vinte e quatro tem terço, trazendo a cada ano a mensagem clara de que a festa tem que continuar.

Além da avó Caína, mais alguns já se foram.

Graças ao milagre da vida, muitos outros estão chegando, e esse ano  espero apresentar o presépio a minha recém nascida  filha Catarina. Não tenho dúvidas que vou me emocionar, como tantos outros familiares que fizeram o mesmo a seus filhos. Juntos: eu, minha esposa, meus pais, e todos os outros, vamos oferecer a ela um momento único, somente possível de se repetir até então graças a um amor incondicional, consolidado e reafirmado de geração para geração.

Compartilho esse momento pessoal que aguardo com ansiedade e alegria, como forma de desejar a todos um Feliz Natal e um grande 2011. Também esse é um jeito simples, porém sincero, de dizer obrigado a todos aqueles que tem acompanhado e apoiado minha caminhada até aqui. Alunos, leitores, colegas de trabalho e de movimentos de luta, conselheiros, familiares, amigas e amigos.

Desejo um 2011 com menos shopping e vitrines, e quem sabe mais piqueniques e passeios no parque. Menos silêncio coletivo em frente à TV, e mais bate-papo na cozinha ou em qualquer outro espaço bom de jogar conversa fora.

Podemos ter um ano verdadeiramente novo, com menos intolerância e mais respeito às diferenças.

No meu primeiro natal como papai, peço ao também Papai Noel, que nos traga saúde, paz e energia para continuarmos a construir um mundo mais justo e verdadeiramente humano!

Boas festas!

Zé e José

Esse é o título de uma das mais belas canções de um grande poeta das Minas Gerais, como ele mesmo se define com um pé no mato e um pé no Rock. Trata-se de Zé Geraldo, que conta a história de dois amigos que cresceram juntos, mas com rumos e opções de vidas diferentes.

Dizer aqui do que conta e canta a canção não é o objetivo, até porque tiraria o charme da descoberta, oportunidade que cada um de vocês leitores terão de buscar e conhecer a bela música que fala sobre como ser feliz incomoda aos que são amargos.

Por outro lado, refletir aqui sobre como pode se dar duas possibilidades de vida diferentes, pautadas pela condição, opção ou até quem sabe por oportunidades, me parece bastante desafiador.

Temos no Brasil milhares de Zés e tantos outros Josés, que sintetizam por meio de suas histórias um país infelizmente ainda longe do cumprimento de suas responsabilidades para a garantia da equiparação de direitos. Também vivemos aqui o fato concreto de sermos um povo forjado a partir de uma cultura que traduz como base de seu sucesso, a mobilização de ações criativas, perseverantes, mas acima de tudo ousadas.

Por isso conhecemos histórias lindas de empreendedores anônimos, que transformam suas realidades, sempre acreditando que é possível ir além. Somos um país repleto de bons exemplos de Zés, totalmente excluídos, até bem pouco tempo às margens da sociedade, que se tornaram juntamente com tantos outros Josés, cidadãos de fato, graças ao exercício freqüente de suas potencialidades, e principalmente acreditando em um país melhor.

Devemos lembrar que o Brasil trouxe para o centro do debate político, múltiplos grupos de interesses a séculos esquecidos pelo estado. Gays, lésbicas, pessoas com deficiência, idosos, índios, quilombolas, dentre tantos outros brasileiros

Há muito por vir e por fazer. Por outro lado precisamos reconhecer nossas conquistas, e a importância de nossas lutas, para o novo país que vivemos. Falamos do Brasil que tem uma lei aprovada garantindo a acessibilidade. O local da América do sul que vai receber a Copa e as Olimpíadas, trazendo para si a responsabilidade de ser a referência do entretenimento desportivo desta década.

Somos o Brasil da Conferência Mundial de Seguridade Social, evento que reuniu na última semana 98 países em Brasília para discutir sistemas públicos universais, na perspectiva de assegurar acesso a direitos fundamentais.

Esse é o Brasil do Zé e do José, país que mostra ao mundo com orgulho que independente da história de cada um, pode se orgulhar de que cada cidadão é responsável pela construção de sua história.

Dia três de dezembro

Você já caiu em alguma peça, ou mesmo já contou alguma mentirinha inocente e depois se divertiu desfazendo a travessura lá pelo dia primeiro de abril? Imagino que sim, aliás, as datas acabam tomando sentido em nossas vidas e dando certo tempero fazendo com que possamos registrar na memória capítulos importantes muitas vezes separados por esses tais dias eleitos como mais ou menos importantes de acordo com o entendimento de cada um.

Algumas datas, no entanto, acabam chegando perto da unanimidade ganhando forte adesão popular. Pensemos no dia dos namorados: o pretexto para estar junto de quem se ama ou quem sabe apenas se deseja, dando e recebendo presentes no quase sempre frio dia 12 de junho, é visto por boa parte da população como um momento indispensável do calendário.

O que dizer então do carnaval: amantes de samba ou mesmo tantos outros que rejeitam a música e a folia, aproveitam os quatro dias para se esbaldar ou se retirar, tornando a data uma parada quase obrigatória para milhões de pessoas.

Mas e o dia três de dezembro? Apesar de sua importância essa data ainda não consta da agenda da maioria das pessoas, mesmo sendo muitas delas ligadas direta ou indiretamente a esse momento. Trata-se do Dia Internacional da Pessoa com Deficiência, data que chega a sua maioridade em 2010, dezoito anos depois da 37ª Sessão Plenária Especial sobre Deficiência da Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas, realizada em 14 de outubro de 1992, em comemoração ao término da Década.

O estado de São Paulo esse ano toma uma postura ousada e promove a primeira virada inclusiva. Assim o poder público em parceria com a sociedade civil organizada convida toda a população para experimentar eventos e ações articuladas, que tornam a cidade mais justa e acessível para todos.

Isto significa dizer que não se trata apenas de um dia importante para determinado segmento da sociedade. Dia três de dezembro celebraremos a possibilidade de um mundo construído e concebido a partir de um novo olhar, mais alinhado e coerente com a sociedade que hoje habita o planeta.

Um dia que nos leva a refletir quanto ao dado concreto que nos mostra que todos têm em determinado momento da vida uma limitação, devendo a sociedade pensar alternativas em conjunto com o demandante para suprir suas necessidades.

Será um dia de festa e sem dúvidas, marcado por milhões de pessoas; cegos, cadeirantes, surdos, paralisados cerebrais, deficientes intelectuais, familiares, e tantos outros cidadãos do mundo, com e sem deficiência, tomando as ruas para celebrar a diferença e a beleza de viver a diversidade.