A cura

O título é de mini-série global, a temática, no entanto, tratada aqui se localiza distante da ficção, pois são lembranças de pedaços de minha história de vida, que penso ilustrar bem um contexto ainda pouco debatido por nossa sociedade.

Eu tinha por volta de seis anos e aquela não era a primeira tentativa de solução, ou resposta. Chegamos cedo e ficamos lá todo o dia. Junto com o cansaço chegava a noite, mas da mesma forma um fio de esperança não deixava meus pais desistirem. Eles queriam que eu fosse visto por Lengruber, uma espécie de super curandeiro midiático, que alcançava bons pontos de ibope no programa popular que passava todas as tardes, O povo na TV, programa inclusive que por outros motivos marcou minha história mais tarde. A fila, se é que podíamos chamar assim, aquela multidão de desesperados com doenças, limitações e angústias de toda ordem, diminuía em um compasso imperceptível, visto que todos ali dependiam da disponibilidade do tal homem de super poderes. De repente em meio a um somatório de sentimentos impossíveis de traduzir aqui, meu pai tomou uma decisão, me pegou nos braços, rompeu uma espécie de bloqueio que tentava organizar todo aquele caos, pulou um muro, e conseguimos finalmente chegar até o todo poderoso da TV. O cara me olhou, perguntou para meu pai qual era o problema, bateu na minha testa e disse: “pode ir embora, ta curado!”

Além das quarenta cirurgias realizadas em um hospital conceituado da capital paulista, foram muitos benzimentos, simpatias, sem contar os convites que até hoje recebo por alguém que me ajuda atravessar a rua ou esperar o ônibus, para ir até a igreja ou templo mais próximo, adivinhe para que?

Felizmente em uma manhã, nos bastidores do mesmo programa O Povo Na TV, onde eu aguardava com minha mãe para conseguir a doação de uma máquina Perkins, para escrita Braille, naquele momento um equipamento importado e totalmente distante de nossas  possibilidades, encontramos o médium Chico Xavier. Minha mãe foi até ele e pediu que ele pudesse me ver. Solícito e depois de alguns segundos com as mãos em meus olhos, ele disse a ela que eu não ia enxergar. Dentre muitas belas palavras, ele apresentou a minha mãe e por conseqüência a toda minha família, um entendimento mais amplo sobre deficiência, enchendo o coração daquela mulher simples, de esperança, quanto as possibilidades de futuro do filho.

Decidi resgatar essas memórias, pois ainda vejo presente um forte entendimento da população, independente da condição econômica ou intelectual, que vincula a idéia de deficiência com doença. Boa parte das pessoas não consegue diferenciar  a patologia que provocou a limitação, do fato em si. Essa leitura equivocada, muitas vezes produz uma série de sentimentos preconceituosos como a piedade e o estranhamento,  a partir de um raciocínio focado na idéia de que a única solução para aquela pessoa com deficiência é a cura.

As artes, o esporte paraolímpico e os infindáveis exemplos de sucesso de profissionais com deficiência em um mercado ultra-competitivo, mostram que esse paradigma tem sido quebrado, e já que estamos falando em cura, não tenho dúvidas em afirmar que o principal remédio para sanar essa situação é a  informação: deficiência não é doença, divulgue essa idéia!

 

Brasil: nosso diferencial é essa sinergia!

Não têm quem já não participou involuntariamente ou de forma entusiástica de alguma discussão que acabasse em tratar do papel do estado diante de determinada situação problema.

Mesmo sem saber que estava falando do assunto, há já quem tenha dito: “isso é culpa do governo”, ou mesmo: “esses políticos não fazem nada!” Existem também outros tantos que bradam com discursos inflamados, “a única solução é um estado forte, que responda por todos os clamores do seus filhos, mesmo tendo que se erguer contra a voracidade do capitalismo selvagem!” Confusões conceituais e pontos de vista divergentes à parte, o fato é que especialistas e leigos, militantes de “direita ou “esquerda”, acabam idealizando um estado maior ou menor, criando expectativas em torno de possíveis responsabilidades a serem assumidas seja por parte da união, seja a partir dos estados, ou mesmo dos municípios.

Contudo em meio a tantos olhares, um fato real mais do que nunca, não deve ser deixado de lado. As tragédias provocadas por catástrofes ambientais em diferentes estados do país mostraram a importância de preservarmos, valorizarmos e reconhecermos como fundamental a parceria entre estado e sociedade. Organizações muitas vezes discriminadas e jogadas na vala comum, do que alguns chamam de pilantrópicas, estão mostrando que a grande maioria do terceiro setor brasileiro é movido pela solidariedade e pelo compromisso incondicional com uma sociedade mais humana e fraterna.

Voluntários oriundos de todas as camadas sociais e com diferentes níveis de formação intelectual, mostram a todo minuto que o importante é ter um compromisso com o país e com o próximo.

Assim é chegada a hora de darmos um basta em discursos preconceituosos que muitas vezes tentam desqualificar o trabalho de organizações e movimentos sociais, chegando em alguns momentos a defender  a idéia de que o estado deve e pode ser o responsável absoluto por todas as demandas da população. Se buscarmos compreender de forma simples, o efeito sinérgico, chegaremos a uma idéia de que a qualidade provocada pela soma das partes produz um todo maior do que a lógica matemática. Nesse caso, um mais um fica maior que dois! Então  juntos, todos nós podemos constatar  Em meio a tantas lágrimas e  destruição que mais uma vez o Brasil aprende e ensina para o mundo. A única saída para se fazer um grande país se dá por meio de uma porta aberta para o resgate da cidadania e da dignidade, por meio de uma união entre estado e sociedade civil organizada, que produz o nosso grande diferencial: sinergia!

 

 

Bons exemplos

Essa série de textos não vem apenas para apontar problemas. A luta do movimento das pessoas com deficiência e uma consciência social cada vez mais voltada para essa temática já tem produzido resultados importantes, e não tenho dúvidas em afirmar que esse é  um caminho sem volta.

Uma rede de fastfood, com dois segmentos de negócios, comida árabe e comida italiana, já tem em todas as suas lojas cardápios em Braille, permitindo as pessoas cegas definirem o que vão escolher com total autonomia. Isso acontece também em vários outros estabelecimentos menores sensibilizados pela legislação local, e em outros casos pela percepção da oportunidade de atender um novo público.

O Braille também aparece nas embalagens da famosa rede de fastfood americana de sanduíches, o que reafirma a idéia de que esse é um fenômeno global. Além de boas alternativas de comer bem, nesse verão as pessoas cegas também poderão acompanhar alguns filmes e peças teatrais com bem mais independência. A áudiodescrição é um recurso que consiste na descrição clara e objetiva de todas as informações que compreendemos visualmente e que não estão contidas nos diálogos, como, por exemplo, expressões faciais e corporais que comuniquem algo, informações sobre o ambiente, figurinos, efeitos especiais, mudanças de tempo e espaço, além da leitura de créditos, títulos e qualquer informação escrita na tela.

As cidades também começam a se preparar. No interior de São Paulo a cidade de Socorro é um exemplo premiado e reconhecido de acessibilidade. A cidade em parceria com o Ministério do Turismo, a Avape – Associação para Valorização de Pessoas com Deficiência- e outros tantos atores locais, têm trabalhado para adaptar todos os seus espaços, hotéis, pousadas, farmácias, espaços públicos, enfim buscado uma reconstrução não apenas de caráter arquitetônico, como também dos serviços prestados, o que têm demandado um grande esforço para a qualificação da mão-de-obra local. Assim por meio do programa Aventura Segura, Socorro se consolida nacionalmente como uma referência no turismo de aventura para pessoas com deficiência.

As praias também têm se mostrado bem mais possíveis e acessíveis para usuários de cadeira de rodas. Alguns projetos tem sido desenvolvidos por governos estaduais como o do Rio e de São Paulo oferecendo toda a infra-estrutura, o que compreende cadeira anfíbia, e profissionais qualificados para que o banho de mar seja cada vez mais “democratizado”. Infelizmente ainda esses são pilotos que esperamos um dia sejam uma realidade em qualquer praia do país.