Que cor que é?

Particularmente me chamou a atenção, aquele garotinho cego de seis anos de idade, que perguntava à mãe que cor era o carrinho de brinquedo que trazia nas mãos. O garoto nunca havia enxergado, e a pergunta do menino me fez pensar em uma questão que vez ou outra alguém me traz: “como os cegos lidam com as cores?”. Sempre respondi que por ter tido contato com elas até meus sete anos, pude construir uma memória visual, uma espécie de arquivo que sempre que demandado, me socorre, trazendo cores bem provavelmente desatualizadas diante de tanta cor de nome novo que não deu para eu ver, mas bastante úteis para que eu possa opinar na escolha de alguma roupa, ou até mesmo na decoração de casa. Recentemente por exemplo, quando minha filha nasceu, propus a minha esposa que pintássemos o quarto de nossa princesinha de “Rosa Danoninho”, isto porquê era o rosa mais rosa que me tinha sobrado na memória.

No caso de quem nunca viu, a coisa, no entanto, é bem diferente. Para eles cores não são vistas, mas sim ditas e ouvidas. São palavras que somadas a um número infindável de sensações e percepções, os permite criar uma concepção única, porém não menos intensa,  para dizer o que para eles  pode vir a ser belo.

Falo disso com tranqüilidade, visto que muitas das coisas que compõem meu cotidiano para mim só se apresentaram enquanto palavras, pois entraram em minha história  depois de eu já não mais ver nada.

São novos modelos de automóveis, objetos de decoração, embalagens, enfim um mundo de possibilidades, que não deixam de ser belas ou às vezes para lá de feias, de acordo com o conjunto de critérios que pude construir ao longo dos anos para tal.

O belo para o cego é diferente. Pode nascer da sensibilidade com que muitos organizam as palavras, em poesias, canções, e porque não dizer na forma de se colocar. Tudo isso pode ganhar ainda mais brilho se vier acompanhado de um tom de voz envolvente, seguro e de preferência afinado. A beleza para quem não vê é altamente atrelada ao sinestésico, e pode encantar a partir de perfumes,  um abraço, um beijo, enfim um jeito diferente de tocar.O belo pode ser visto por quem não enxerga, quando a natureza se manifesta; o calor do sol,  a irreverência e  espontaneidade das chuvas,  ou simplesmente a leveza de ventos carinhosos e da brisa do mar.

Não tenha medo de falar de cores, ou tratar do lindo e do feio da próxima vez que conversar com uma pessoa cega. Vai ser uma troca de experiências única, sem certo nem errado,. Você poderá pensar, “mas nossa só pode ser cego mesmo para achar isso bonito”! Por outro lado talvez seu interlocutor possa dizer para si mesmo baixinho, “nossa como pode, a pessoa enxerga tudo mais não viu nada”! Cultivemos todos então a beleza da inclusão.

Um novo CONADE

Hoje tomam posse os novos membros do Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência – CONADE. É com muito orgulho que farei parte desse grupo juntamente com o amigo Marcos Gonçalves, representando a Federação Nacional das Avapes.

Estou em Brasília desde o último dia catorze, data que nos reunimos com a atual Ministra de Direitos Humanos, Maria do Rosário.  Na fala de todos, fica claro a vontade de mudar. Dar ao CONADE mais autonomia e fazer com que efetivamente possamos avançar na interlocução com os gestores das mais diferentes políticas públicas.

Tomam posse hoje pela sociedade civil:

ASSOCIAÇÃO NACIONAL DOS MEMBROS DO MINISTÉRIO PÚBLICO DE DEFESA DOS DIREITOS DAS PESSOAS IDOSA E COM DEFICIÊNCIA – AMPID;

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE AUTISMO – ABRA;

ASSOCIAÇÃO DE PAIS, AMIGOS E PESSOAS COM DEFICIÊNCIA, DE FUNCIONÁRIOS DO BANCO DO BRASIL E DA COMUNIDADE – APABB;

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE RÚGBI EM CADEIRAS DE RODAS;

CONFEDERAÇAO BRASILEIRA DE DESPORTO DE DEFICENTES VISUAIS – CBDV;

CENTRAL ÚNICA DOS TRABALHADORES – CUT;

CONFEDERAÇÃO NACIONAL DO COMERCIO – CNC;

CONSELHO FEDERAL DE ENGENHARIA, ARQUITETURA E AGRONOMIA – CONFEA;

FEDERAÇÃO NACIONAL DAS ASSOCIAÇOES PESTALOZZI;

FEDERAÇÃO NACIONAL DAS APAES – FENAPAE;

FED. DAS ASSOC. DE RENAIS E TRANSPLANTADOS DO BRASIL – FARBRA;

FEDERAÇÃO BRASILEIRA DAS ASSOCIAÇÕES DE SÍNDROME DE DOWN;

FED.NAC. DE EDUCAÇÃO E INTEGRAÇÃO DOS SURDOS – FENEIS;

FED. DAS FRATERNIDADES CRISTÃS DE PESSOAS COM DEFICIÊNCIA DO BRASIL;

FEDERAÇÃO NACIONAL DAS AVAPES – FENAVAPE;

MOVIMENTO DE REINTEGRAÇÃO DAS PESSOAS ATINGIDAS PELA HANSENÍASE – MORHAN;

ORGANIZAÇÃO NACIONAL DE CEGOS DO BRASIL;

ORDEM DOS ADVOGADOS DO BRASIL – OAB;

UNIÃO BRASILEIRA DOS SERVIÇOS DE REFERÊNCIA EM TRIAGEM NEONATAL CREDENCIADOS – UNISERT;

Como se pode ver, estarão no Conselho, organizações do movimento de luta por direitos da pessoa com deficiência, organizações de trabalhadores, empregadores, arquitetos, além de representantes da OAB, do Ministério Público e da comunidade científica. Com esses atores e com vontade política poderemos avançar em âmbito nacional em debates que nos permitam cobrar o cumprimento de legislações conquistadas ao longo dos anos, como, por exemplo, a lei 10.098, popularmente conhecida como lei da acessibilidade.

Espaços públicos acessíveis, políticas de trabalho e emprego concretas que estimulem a inserção da pessoa com deficiência no mercado de trabalho, educação inclusiva respeitando as demandas de cada um, não podem mais ocupar em nossas mentes o espaço de bandeiras de lutas a serem defendidas. Isto porque temos hoje no Brasil uma legislação que traz todas essas demandas para o campo da realidade, configurando-se em direitos assegurados constitucionalmente.

Desejo que todos nós tenhamos sucesso em mais esse desafio, e espero poder a partir desse espaço trazer boas novas que confirmem essa expectativa.

 

Um sonho pegando fogo

Foi triste demais acompanhar no início desta semana as notícias que deram conta do incêndio ocorrido na Cidade do Samba no município do Rio de Janeiro.

Mais triste ainda foi ouvir e ler de alguns segmentos da imprensa e da própria população, que se estava dando muita importância a algo secundário. Vimos alguns mais exaltados que cometiam a insanidade de comparar o ocorrido com a tragédia que se deu na região serrana do Estado, tentando atribuir valores a cada desgraça, como se isso fosse possível.

Isso me fez lembrar de muito do que vivi nessa caminhada de luta por direitos, a partir do movimento de pessoas com deficiência. Já cansei de ouvir em discursos vazios que tomavam por mote a inclusão que nossas lutas não eram importantes. Recentemente, tivemos um exemplo concreto disso, com o fim da Secretaria Nacional de Educação Especial. Com a desculpa de se defender um movimento inclusivista, o MEC caminha para a desconstrução de um espaço importante, com potencial viabilizador de conquistas e de ações efetivas. Antes disso já vimos inúmeras políticas sociais importantes, com enorme impacto transformador sendo descontinuadas, por conta de uma leitura pessoal de alguém que um dia acordou acreditando que aquilo a partir de então deixou de ser importante.

Olhar para as demandas do outro e dizer com base em juízo de valor ou convicções pessoais que aquilo não é lá algo tão significativo, mostra uma enorme falta de respeito para com o próximo. A idéia de praticar a todo tempo a empatia, isto é, se colocar no lugar daquele que vive a situação, pode ser uma excelente estratégia a ser adotada por todos nós, para evitarmos cair nessa armadilha.

Voltando ao Carnaval, é fato que independente de gosto musical, preferências de entretenimento ou quaisquer outras convicções, trata-se de um momento que movimenta a economia, resgata a auto-estima de uma parte importante da população, e o mais bacana, configura-se e mais uma oportunidade que tantos brasileiros tem de sonhar.

Tratar as lágrimas de tantos que trabalharam, e de que viam em tudo aquilo o que foi construído, uma manifestação de orgulho e reconhecimento de suas comunidades, como algo fútil e menor, não pode ser considerado algo normal. Ver um sonho pegando fogo jamais pode servir como estímulo para uma postura de desdém, pois por traz disso sempre vem junto o sofrimento de alguém. Manifesto aqui minha solidariedade aos milhares de anônimos, que ainda sofrem com as perdas, mais já sonham com o momento em que levarão para a avenida, toda a sua alegria, arte, beleza, e agora mais que nunca sua capacidade de superar.

 

Primeiro Encontro

Objetividade e segurança para tratar de assuntos relacionados a idéias complexas como a erradicação da pobreza e a consolidação da política pública de assistência social. Esta foi a percepção que tive de nossa nova Ministra de Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Tereza Campelo.

Confesso que quando soube da nomeação, fiquei reticente visto que foram excelentes os trabalhos anteriores capitaneados por Márcia Lopes e Patrus Ananias. Esses dois conseguiram dar corpo à Política Pública de Assistência Social, por meio da implementação do SUAS, Sistema Único de Assistência Social, além de transformar o programa Bolsa família em uma proposta que desmistificou a transferência de renda no país, sendo defendida por entusiastas de diferentes cores partidárias.

Neste último dia 31 de janeiro, na condição de presidente do Conselho Nacional de Assistência Social – CNAS, tive o primeiro encontro com a nova ministra. Na oportunidade pude tratar com ela dos desafios enfrentados atualmente pelos conselhos de assistência social, e falamos muito da importância estratégica de termos, Estados e Sociedade Civil organizada, atuando como parceiros.

Economista de Formação, Tereza Campelo se mostrou totalmente familiarizada e comprometida com o que foi conquistado até aqui, deixando claro, porém, a necessidade de avançarmos muito rápido em outras frentes. A ministra mostrou austeridade ao tratar de gastos públicos, e ao mesmo tempo sensibilidade diante das demandas a ela apresentadas, como, por exemplo, a necessidade de democratizarmos o acesso às reuniões do Conselho Nacional de Assistência Social, por meio da transmissão online.

Nesse espaço sempre trago reflexões e experiências muito próximas de nosso dia a dia. Assim talvez o texto de hoje, possa parecer um pouco diferente de meu estilo. Penso, no entanto, que apresentar Tereza Campelo a vocês leitores, é algo fundamental, visto que ela é a mulher que assumiu o desafio dado por nossa nova presidenta de capitanear as ações de enfrentamento à pobreza no Brasil.

Aprendemos com as recentes crises econômicas internacionais que com o crescimento social vem junto o econômico. Neste sentido, tratar de erradicação da pobreza significa pensar em uma transformação na vida de todos os brasileiros, independente de classe social. Felizmente a idéia de fazer o bolo crescer para depois dividir ficou para traz, pois descobrimos que o bolo só será grande à medida que envolvermos cada vez mais cidadãos em sua produção!

 

Inserro esse nosso encontro manifestando meus votos de sucesso a nova comandante do Ministério de Desenvolvimento Social e Combate a Fome já com a certeza de que pelo o que pude perceber na última conversa, vontade e conhecimento não vão faltar!