Fernanda, Breno e Clarinha

Fernanda me entrevistou há mais ou menos dois anos. Foi um papo agradável com perguntas inteligentes e descontraídas em meio a uma feira lotada de gente, muito barulho, o que naquele momento exigiu um bom jogo de cintura para fazer com que a entrevista fluísse com qualidade e tranqüilidade.

Falando em jogo de cintura e habilidade, já posso aproveitar o gancho para falar de Breno. Faixa preta de Judô, campeão europeu e mundial de Judô paratodos. Chamou-me muito a atenção, uma fala dele em  um vídeo que vi na internet, “para ser campeão não adianta só ralar, treinar, é importante principalmente a família e as amizades”.

A personagem Clarinha, trazida pela novela Páginas da Vida de Manoel Carlos, trouxe com muita qualidade  esse debate para a sociedade brasileira. Quando a família e os amigos querem, se unem e acreditam, os problemas adiquirem  uma dimensão de resolutividade infinitamente maior e mais palpável.

Na semana em que comemoramos o Dia Internacional da Síndrome de Down, resolvi escrever, lembrando dessas três  histórias da realidade e da ficção, que sem dúvidas tem, graças a seus protagonistas, quebrado paradigmas, e desconstruído preconceitos, pois trazem consigo mensagens e exemplos concretos de que para pessoas com Down, as perspectivas a serem alcançadas são muito maiores do que pessimistas e preconceituosos de plantão jamais imaginaram.

Cabe registrar que a síndrome de down é uma condição genética  causada pela presença extra, total ou parcial de um cromossomo 21. Pessoas com Down têm características físicas  comuns e um relativo comprometimento cognitivo. Todavia, também é importante sabermos, que a síndrome independe de classe social, credo ou etmia. Assim, por conta de um alto índice de incidência, e uma conscientização social maior, é cada vez mais comum pessoas com essa condição, trabalhando, casando, vivendo, enfim superando.

Fernanda Honorato é uma reporter que pode estar longe de atender as espectativas que permeiam a construção do perfil de jornalista ideal de acordo com o padrões midiáticos atualmente vigentes. Por outro lado ela está muito perto do que espera uma sociedade que ver crescer  em seus mais diversos segmentos, a presença de atores sociais convíctos de que são infinitas as possibilidades de se comunicar e informar, tendo claro a necessidade de se buscar alternativas de estímulo à democratização do acesso à informação.

Breno Viola é um campeão de direito e de fato. Além de vencer no tatame competições onde participaram outras pessoas com deficiência, ele tem contrariado a idéia de fragilidade e limitação que muitos ainda tentam associar às pessoas com Síndrome de Down. O atleta fala com orgulho do caminho suave, tradução da palavra judô para o português, e com simplicidade e alegria, faz questão de mostrar a importância da filosofia de Gigorokano no seu cotidiano.

Clarinha foi interpretada por uma garotinha com Down. Ela encantou o Brasil, superando as limitações e ajudando muitas famílias a buscar coragem para lutar por direitos e construírem caminhos para uma inclusão cada vez mais plena de seus filhos.

Nesse espaço quero cumprimentar e abraçar a cada brasileiro envolvido com essa Luta.  Avançamos muito e os próximos passos com certeza serão ainda melhores.

Acreditar dá samba!

Quem em algum momento já pensou em desistir de um sonho, quando toma contato com histórias como a do maestro João Carlos Martins, retoma o fôlego e a força. O pianista mundialmente reconhecido, com vinte e seis anos viu sua carreira ameaçada após uma lesão sofrida na mão em meio a uma partida de futebol. Sem nem pensar em desistir, o então pianista se recuperou depois de alguns anos e voltou a se emocionar e emocionar-se com seu público em um concerto para um Carnegie Hall lotado.

A história que parecia ter tido um final feliz estava apenas começando. Um AVC afastou novamente João Carlos Martins dos palcos, e mais uma vez acreditar foi fundamental para que ele pudesse retornar, anos depois.

Muitos desafios ainda estavam por vir. Foi em um assalto na Bulgária seguido de agressão com uma barra de ferro que comprometeu de vez os movimentos da mão direita do pianista, o que em tese decretaria o fim da carreira de um gênio que sempre encantou o mundo dando vida às obras de Bach.

De novo o pianista acreditou e dando as costas para qualquer possibilidade de desistir, encheu os olhos, ouvidos e corações de pessoas do mundo todo tocando apenas com a mão esquerda.

O que transformou de vez a vida do gênio foi um tumor que comprometeu por completo os movimentos da mão esquerda decretando assim o fim da carreira de pianista, abrindo as portas para um caminho que levou anos depois graças a muitos estudos e dedicação, João Carlos Martins a iniciar sua carreira como maestro.

Mais do que homenagear, a Escola de Samba Vai-Vai, aprendeu com o homem que desistiu de desistir, a importância de acreditar, e com muito ritmo, cores, harmonia e união da comunidade, levou para o sambódromo do Anhembi e para o mundo, a história daquele que transformou cada obstáculo de vida em um grande recomeço repleto de beleza, aplausos e música

A escola cantou pela voz de seus milhares de integrantes: “E assim na sua força de superação, buscou a verdadeira vocação.”

A música venceu na Avenida, e na vida de João Carlos Martins. Sua escolha por sempre seguir em frente, mais do que um conjunto de conquistas pessoais, transformou-se em um exemplo prático de estilo de vida. Um estilo que despensa, autopiedade, a idéia de sempre ver os problemas como sendo culpa do outro, e a vontade de se acomodar diante daquilo que parece não ter solução.

Não deixemos então só para os dias de folia a mensagem trazida pelos foliões do Bexiga. Aproveitemos a vitória da música na festa do samba para conquistarmos muitas vitórias nessa bela festa que é viver. Independente do que apareça pelo caminho a gente pôde comprovar que acreditar dá samba!

 

O ippon que virou troféu

Para quem me conhece pessoalmente ou por alguma foto recente, pode parecer improvável, mas acredite, em um passado não muito distante já tentei ser atleta.

A coisa começou a acontecer por conta de minha proximidade profissional com o esporte. Trabalhei na então ABDC – Associação Brasileira de Desportos para Cegos, e depois assumi o desafio de presidir o CESEC – Centro de Emancipação Social e Esportiva de Cegos, uma das entidades mais tradicionais da prática paradesportiva do segmento no país.

De início treinar judô, foi uma alternativa que me pareceu interessante para perder peso e entrar dentro das  estatísticas daquelas pessoas que diante de tantos conselhos médicos e convite de amigos acabam por aderir ao esporte.

Depois veio o prazer de treinar e de estar junto com todo o povo da academia não só durante o treino, mas também em competições, e na costumeira “cervejada” para hidratar depois de tanto esforço físico. Rapidinho o esporte que veio para emagrecer, tornou-se mais um motivo para ida à churrascaria, festas, enfim para estar com os amigos.

Passaram-se os meses, e a vontade de competir veio naturalmente. Como um aluno de música que aprende a tocar e logo quer fazer shows para mostrar sua arte, aderi à rotina de tentar ficar no peso de minha categoria, a cuidar das dores de pequenas lesões, enfim lá estava eu federado e pronto para o combate.

Minha carreira como judoca, no entanto, foi curta. Rapidamente percebi que não levava muito jeito para coisa, e dentre lutas com um certo equilíbrio, e algumas derrotas, teve aquela que veio para decretar minha aposentadoria. Do outro lado estava um grande atleta, faixa preta com currículo respeitado internacionalmente. Foram uns 14 segundos de luta e um ippon que mais pareceu uma trombada de caminhão. Dores no corpo por dias, e uma total sensação de impotência diante do adversário, me fizeram ver que não seria nos tatames que eu seria um campeão.

Alguns anos passados, olho para toda essa história e vejo naquele ippon uma grande vitória. Deixando a frase feita de lado, daquelas que falam que o que importa é competir, o fato é que foram momentos bacanas vividos com amigos, onde aprendi a admirar a modalidade e trazer para minha vida pessoal muito da filosofia de Jigoro Kano.

Aprendi dentre muitos ensinamentos que tanto no judô como na vida, mais importante do que derrubar alguém é saber cair. Não importa o nível do adversário, o importante é o preparo físico e mental para a  queda, seja ela provocada por um golpe mais simples ou  por um super opositor. Entendendo esse olhar, qualquer que seja o resultado final, sempre estaremos prontos para levantar e seguir em frente!

 

Aos quase trinta e cinco

De acordo com a linguagem futebolística, ainda faltaria uns dez para o final do primeiro tempo. Também poderia eu recorrer a um clichê mais que batido que diria que em breve vou colher mais uma flor no jardim da vida. Enfim, o fato é que no próximo dia cinco de março celebro mais um ano por aqui, e para alguém como eu, que adora olhar para o mundo e “bater retrato” com palavras, esse é um prato cheio para mais um texto!

Nessa caminhada de três décadas e meia, em meio a constatações, frustrações, realizações e decisões, contemplo a vida com paixão, na condição privilegiada de quem acredita que há muito ainda por ser feito e vivido, e principalmente com o orgulho de ter sido protagonista de tantas conquistas, lutas e por que não perdas até aqui traduzidas pelo paradoxo da existência, sempre materializado em transformações.

De bebê recém-nascido e filho que ainda sou, virei também  pai de bebê, e descobri que tanto o  choro quanto o riso não tem idade; as lágrimas e as gargalhadas vêm sempre que lhes damos  ou nos dão motivos. De postulante ao mercado de trabalho e empregado que hoje ainda sou, também virei patrão, e descobri que o volume de trabalho e a paixão pelo que se faz independe da condição que assumimos nas relações trabalhistas; O respeito ao próximo e as escolhas que fazemos são e sempre serão o nosso principal diferencial profissional. De criança curiosa e aluno apaixonado por pesquisa que sou e espero ser sempre independente de uma matricula formal junto a um estabelecimento de ensino, também virei mestre e professor e descobri que aprendemos e ensinamos sempre independente do papel que assumimos; a busca pelo saber e o desejo de transmitir conhecimento são os principais motores e combustíveis para uma sociedade mais justa e igualitária.

Nós, filhos da década de 70, como cantou Renato Russo somos também filhos da revolução. Vimos nossos pais celebrando a redemocratização, acompanhamos a queda do Collor, e fomos testemunhas vivas e economicamente ativas dos governos Lula e FHC. Assistíamos o Bozo, o Balão Mágico, e meia dúzia de outros programas para crianças que disputavam o  público da época. Ouvíamos discos de vinil e no momento de mais alta tecnologia de nossa infância conhecemos o Atari. Comíamos pastel de carne, queijo, bauru ou pizza, e morríamos de dúvida diante de tantas opções para escolha.

Somos agora a geração das redes sociais. Contamos sobre nosso cotidiano no twitter e no Facebook. Temos endereço residencial e eletrônico. Vivemos uma vida real, e outra virtual, as duas bastante atribuladas, com agendas, amigos, oportunidades e problemas. Corremos pela manhã, Almoçamos no fast food, lavamos o carro no lava-rápido e lá pelo fim do dia damos uma “descansada” rapidinha.

Enfim, aos quase trinta e cinco, tenho a certeza de que viver é uma dádiva, e agradecer deve ser sempre uma prática. Então a todos que me acompanham, a meus familiares e a amigos, e principalmente a Deus, mais uma vez: obrigado!