PORTA

Não costumo nesse espaço tratar de ações específicas dos movimentos que milito. Todavia, dado a grandeza revolucionária da proposta, o momento histórico que vivemos e a multiplicidade de atores envolvidos, seria um pecado deixar de compartilhar tal experiência.

Vamos então por partes. Falo de grandeza revolucionária, pois quando tratamos do PORTA, apresentamos uma concepção de qualificação dos serviços sócio-assistenciais, a partir do estabelecimento de  parâmetros de qualidade para a oferta, monitoramento, e acesso a Programas Orientados para Reabilitação, Trabalho e Acessibilidade. É isso mesmo, PORTA é uma sigla, e abrir portas foi o jeito encontrado pela Federação Nacional das Avapes para, a partir de uma perspectiva civilizatória e republicana, assegurar direitos, e produzir uma grande transformação na articulação e empoderamento de entidades de pessoas com deficiência de todo o Brasil.

Quanto ao momento histórico, tenham a certeza, não trata-se de exagero, ou preciosismo com a retórica. Na semana que comemoramos o Dia do Trabalhador olhamos para o futuro e vislumbramos para o Brasil, a recepção de grandes eventos esportivos internacionais, dentre eles uma paraolimpíada; um crescimento econômico atrelado a um compromisso  com as classes sociais menos favorecidas, e enormes alternativas  de recursos naturais ainda não aproveitados. Estamos diante de uma determinação pública de nossa presidenta, de erradicação da extrema pobreza, e com possibilidades infinitas de intervenção direta junto aos mais pobres a partir da consolidação do  Sistema Único de Assistência Social, articulando a rede de equipamentos estatais e as organizações não governamentais. Abrir milhares de PORTAs no Brasil então, não é uma opção de uma organização ou movimento, mas sim uma estratégia proposta diante do chamamento recorrente  feito  pelas diferentes e múltiplas vozes do país até a tão pouco, ainda não escutadas.

Por fim a multiplicidade de  atores aos quais me refiro, são aqueles que até aqui já tanto tem contribuído para que o Brasil tenha em suas estatísticas  alcançado quase trezentas mil pessoas com deficiência colocadas no mercado formal de trabalho. Sindicatos patronais e de trabalhadores, empresas, centrais, membros do poder executivo, legislativo e judiciário nas três esferas, além de entidades de pessoas com deficiência de todo o país, têm se juntado à FENAVAPE para viabilização de PORTAs em todo o território nacional.

Mais do que um dia de festa o primeiro de maio pode ser um momento de reflexão. Aproveitemos para trazer para o debate mais gente comprometida com o Brasil e com as prioridades eleitas pela população como as mais importantes. Enquanto avapeano convido a todos a participar ativamente enquanto protagonistas nessa jornada para abertura de PORTAs por todo o país.

Carta ao coelho

Caro “ovíparo” de ocasião

 

Calma, calma, não precisa se ofender. Digo isso, pois tu sabes bem de sua fama de grande reprodutor, pai de família com filhos incontáveis, por isso sei bem que mesmo gostando da brincadeira, o senhor das cenouras jamais permitiria que essa história de ovos estendesse-se para além daqui da data da páscoa. Fiquei sabendo de sua enorme dedicação para dar conta do crescimento econômico e voracidade de consumo vigente aqui pelo nosso país emergente; mas conta bem a “boca pequena” o quanto ficas indignado ainda por saber que muitos chegam a adoecer por ter os olhos maior que a boca diante de seus ovos enfeitados, enquanto tantos outros ainda choram por não poder  ganhar no domingo de páscoa um ovinho de coelho se quer.

Não quero deixar-te com o belo pêlo macio arrepiado, nem com os olhos vermelhos de indignação, porém nesta carta para o amigo não posso deixar de contar-te as notícias que tanto nos entristecem, mesmo nos momentos belos e mágicos, como os que se dão nos segundos repletos de sorrisos de crianças desembrulhando ovos feitos por ti, com aquela habilidade característica, de quem se prepara para fazer algo bom, mesmo tendo claro que será apenas uma vez ao ano.

Infelizmente a má distribuição per capta de chocolate não é o único problema que lhe trago nesta carta. Ainda mesmo envergonhado como humano, membro dessa sociedade cheia de avanços e contradições, tenho que dizer a ti, esperto e veloz representante dos animais “irracionais”, que o problema de razão por aqui é que anda grande. Chegaremos aos vinte e um anos do Estatuto da Criança e do Adolescente, longe de erradicar a violência infantil. Sei que você jamais admitiria aí em sua fábrica, mass saiba que temos e não é pouco, apesar de todos os esforços, meninos e meninas trabalhando, fora da escola, e acredite ainda fazendo parte daquela estatística que já falei nesta correspondência, ficarão  no dia da distribuição de sua produção, a margem sem se quer poder sonhar com o que encontrariam como surpresa, dentro  de ovos que  sabem,  não vão chegar.

Prezado herbívoro por convicção. Não fico constrangido em tratar do assunto, pois sabes, sua vida é curta, e talvez por isso a aproveite de forma tão saltitante e ativa.  Falo de tempo, pois para ti, que vive em média dez anos, acredito que como diria Belchior, “viver é melhor que sonhar”. Então eu mesmo sabendo não ter o poder das crianças, humildemente lhe peço que nos traga escondidos,  em meio a bombons e chocolates, bons sentimentos e força  para construirmos uma sociedade menos dura e mais doce, à altura daquelas crianças que como você, mesmo atentas ao futuro que logo vem por aí, por hora só pensam em correr, sorrir e brincar.

Sábado é dia de feira

Sempre gostei de feiras. Pastel, caldo de cana, brinquedos baratos e a oportunidade de ajudar minha mãe a empurrar e encher o carrinho com delícias que logo se tornariam bolos e sucos. Em meio a toda essa festa, no entanto, havia alguém que parecia transformar todo o ambiente.

Uma moedinha pro ceguinho, uma esmola pelo amor de Deus para quem não tem o dom da luz do dia! O homem de voz doída e verdadeira, com uma tristeza disciplinadamente presente, fazia ecoar alto o som da piedade alheia, à medida que cada contribuição batia no fundo duro de seu pote de pedir. Ele estava ali, todos os sábados, e ficava acho que, entre a barraca de correias para chinelos, e do tio que arrumava panelas.

Aquela cena me parecia sempre algo muito assustador, mesmo ouvindo de familiares e professores que bastava estudar para vencer na vida. Por outro lado, o dono da voz triste que pedia como o maior dos necessitados da terra, era bem mais convincente; ele não dizia que seu problema foi a falta de escola, mas sim o fato de não enxergar.  Crianças não fazem análises conjunturais, e o que ficava para mim, quando passava pelo barulho do pote, era a correlação cego / esmola.

Confesso que hoje ainda, quando me deparo com situações como essa fico balançado, e me fica claro o quanto temos a fazer e a avançar, diante de um histórico de ausência do estado, e de preconceitos e estigmas sociais, que deixaram à margem milhões de pessoas apenas por serem diferentes. Por outro lado é muito bom ver e se constatar alguns símbolos que construímos e conquistamos em pouco mais de uma década. Dentre eles eu destaco nesse texto a Reatech, para quem ainda não sabe o que é, trata-se da Feira Internacional de Tecnologias em Reabilitação, Inclusão e Acessibilidade, no Centro de Exposições Imigrantes (Rodovia dos Imigrantes, km 1,5), em São Paulo. É a segunda maior do mundo, e reúne profissionais, pessoas com deficiência, familiares, enfim, todos aqueles que de alguma forma se relacionam com o assunto.

Falo em símbolo, pois não discuto aqui a qualidade dos stands, os produtos vendidos, o layout do espaço. Detenho-me ao fato de termos uma feira onde crianças com suas cadeiras de rodas, bengalas e tantas outras ajudas técnicas, se vêem como cidadãos. Encontram ali, pessoas na mesma condição que a sua, que venceram diante de desafios profissionais e construíram uma vida pessoal.

De quinta a domingo, você pode visitar a feira. Independente de ter qualquer relação com o assunto acredito que valha a pena ir até lá e conhecer trabalhos de organizações não governamentais, empresas, e de instâncias estatais. Alguns poderão escrever, “ora mais a feira ainda é excludente, pois a maior parte dos equipamentos ainda são caríssimos”, outros ainda dirão, “mas é um absurdo uma feira para pessoas com deficiência, deveria haver uma feira para todos!”. Em meio a esses discursos recalcados, não tenho dúvidas em dizer que é muito bacana ter uma feira economicamente forte voltada aos interesses do segmento. A sociedade brasileira passa a reconhecer seus paradigmas e passo a passo, reconstruímos a idéia do pedinte carente de favores, para o contribuinte e cidadão detentor de direitos.

Você não imagina

Saí do banco e ela me perguntou se queria ajuda. Fomos até a calçada e me chamou atenção o comentário, “deve ser terrível viver na escuridão”! De repente me senti o Conde Drácula, e deu uma vontade enorme de rir, mas pensei então que talvez seja por essas e outras, que a leitura sobre as deficiências pela sociedade ainda acaba sendo tão deturpada. As pessoas partem do seu referencial para entender uma situação difícil para não dizer impossível de se compreender, sem que se tenha vivenciado. Vivência aqui não se trata do uso de uma cadeira de rodas ou de vendas que privam do sentido da visão momentaneamente. Essas práticas podem ser interessantes para trabalhar alguns conceitos junto a professores, ou mesmo promover dinâmicas abordando alguns valores. Cabe ressaltar, no entanto, que não se consegue com isso traduzir para quem venha a participar dessas atividades, as sensações de um indivíduo nessa condição real.

Não há dúvidas que uma pessoa sem deficiência, pode sim falar e até lutar contra os inúmeros problemas enfrentados pelos diversos segmentos de PCDs, e cabe lembrar que temos exemplos brilhantes nesse sentido. Isto não significa, porém, que seja lá qual o nível de experiência e contato com a causa de quem quer que seja, lhe permitirá  se quer imaginar a  idéia do que significa por exemplo não ouvir ou não enxergar. Muitas vezes a deficiência acaba sendo um problema maior para quem faz a leitura do fato, do que para quem está na condição

Tratar então, com uma pessoa que nunca enxergou sobre a luz e as trevas, é milhares de vezes mais subjetivo, do que discutir sobre a qualidade do transporte público da capital paulistana,  com a Paris Hilton.

Avançamos muito ao longo do tempo, e a construção de estratégias inteligentes de descrição, viabilização de processos metafóricos, e correlações, que permitem a educadores, familiares, enfim a sociedade em geral, caminhar junto com as pessoas cegas que nunca enxergaram, pelo mundo das cores e de tantas outras coisas e situações que não podem ser tocadas, é cada vez mais bacana e repleta de criatividade. Acredito que esses exercícios tem grande contribuição para com o processo de inclusão, pois garantem ao indivíduo seja ele cego ou não, o direito de tratar do que quiser e com quem quiser,  obviamente a partir de sua perspectiva.

Contei para a simpática moça que conversou comigo no dia do banco, que mesmo já tendo enxergado, hoje o que tenho a frente dos olhos não é claro nem escuro, é simplesmente ausência de cor. Assim não tenho problemas de viver na eterna escuridão, e também não preciso conviver com outra condição que seria igualmente assustadora, ou seja, a iluminação eterna. Imaginem o problemão que seria na hora de dormir, ou mesmo na naqueles momentos bons que a gente quer fugir para o escurinho.