Mordi a maçã

Gostando ou não de tecnologia, todo mundo de alguma forma já ouviu falar dos brinquedinhos da empresa de Steve Jobs. Pessoalmente fiquei surpreso quando fiquei sabendo que eles haviam criado um sistema de voz que tornava boa parte de seus produtos acessíveis para pessoas cegas ou com deficiência visual.

Digo isso, pois a idéia parecia ser uma contradição, visto que todos os equipamentos trazem consigo a tecnologia touch screen, ou seja, telas sem qualquer referencial tátil, com ícones, números e letras, possíveis de serem identificados apenas visualmente.

O paradigma, no entanto, foi quebrado. A empresa que inovou trazendo para o mercado um novo conceito de celular, revolucionou com os tablets, e superou ainda todas as expectativas no que se refere à acessibilidade.

Com um sistema complexo de leitura de tela, integrado com sons e possibilidades de toques na tela com um, dois ou três dedos, pessoas cegas conseguem interagir não apenas com os utilitários básicos dos celulares e tablets, mas também com boa parte dos aplicativos desenvolvidos pela empresa e por seus parceiros.

No último sábado ainda com receio de não conseguir trabalhar com um celular tão complexo, decidi encarar o desafio. Três dias depois de tomar a decisão de compra, escrevo esse artigo sem qualquer tipo de intenção comercial.

Acredito que divulgar o que tem sido feito pela fábrica de Jobs, é questão de utilidade pública. Felizmente outros sistemas como o andróide também começam a ofertar possibilidades de acessibilidade na concepção de suas novas versões. Assim uma pessoa cega ou com deficiência visual já pode sair da loja com seus celulares ou tablets falando, prontos para uso como qualquer outro cidadão.

Infelizmente esses equipamentos ainda são de alto custo, e acessíveis para uma parcela restrita da população. Sendo assim divulgar ações como essa e falar da importância do assunto, talvez possa ser um caminho para conscientizar gestores públicos quanto à necessidade de desonerar e criar meios para que esses recursos possam chegar a cada vez mais pessoas.

Com os equipamentos vem a possibilidade de maior acesso à informação, já que cada vez mais jornais e revistas são disponibilizados em formato digital. Também as possibilidades de trabalho ganham outra perspectiva, pois com esses recursos pessoas cegas conseguem produzir documentos, enviar e receber emails, além de equipararem seu nível de conectividade com qualquer outro cidadão sem deficiência, participando de redes sociais e de fóruns e comunidades virtuais.

Espero que conceber produtos com possibilidades de uso para todos se torne uma tendência. Assim em um futuro próximo não vou mais ter que pedir para alguém acessar os menus da televisão para melhorar a qualidade do som, muito menos ter que depender de outra pessoa para acessar os recursos do home theater ou do micro-ondas.

 

Uma estória que entrou pra história

Para um corinthiano, há quem diga que essa não é lá uma semana muito boa para se falar de futebol. Já eu afirmo que isso é bobagem, pois para quem é apaixonado pelo esporte, ganhar ou perder, são justificativas mais que suficientes para se ler, comentar, falar e falar do assunto até que ocorra o próximo jogo. Hoje, no entanto, não vou falar do meu time de coração. Quero falar de uma história de vida que no último dia 12, definitivamente entrou para a história do futebol.

Ser ídolo não é uma tarefa simples. Implica em transformar-se em espelho de milhões de crianças, meninos e meninas que em muitos casos se agarram em um exemplo de sucesso para buscar forças frente às dificuldades de vida aparentemente intransponíveis.

Para imortalizar seu nome no museu do futebol ele também quando pequeno elegeu seu ídolo. Era Careca, centro-avante do São Paulo, Nápole e Seleção Brasileira. O garoto dizia que queria vir a São Paulo e um dia ser como ele. Sonho distante, em se tratando de uma criança pobre do interior do Mato Grosso, porém impossível aos ouvidos de tantos que escutavam tal desejo, diante de um “problema maior”: catarata de nascença, inúmeras cirurgias e um descolamento de retina aos nove anos de idade, que sinalizavam claramente uma cegueira total sem reversão.

Uma história de amor, felizmente não acaba assim, por causa de uma “dificuldade qualquer”. O menino Mizael e a bola se reencontraram rápido nas quadras do Instituto Padre Chico, escola para cegos localizada no bairro do Ipiranga, São Paulo. Foi amor ao primeiro gol, e daí rapidamente nasceram títulos e mais títulos, levando o filho de dona Maria e seu João, (in memoriam)  a ser  eleito aos vinte anos de  idade, o melhor jogador do mundo. Junto com a premiação veio também o campeonato mundial, depois veio o Bi e a realização de mais um sonho com direito a bis, com as medalhas paraolímpicas de 2004 e 2008.

Mizael venceu também fora das quadras. É advogado e vice-presidente do Comitê Paraolímpico Brasileiro. Prematuramente o jovem com pouco mais de trinta anos abandonou a prática esportiva para se tornar protagonista na gestão.

No último dia 12, Mizael se juntou a Garrincha, Rivelino, Leônidas da Silva, e tantos outros imortais, por meio do lançamento de sua biografia em formato ilustrado. É a coleção Pequenos Craques, uma proposta de Paola Gentile, que leva às crianças exemplos de ídolos que vão muito além da conquista de um título importante. O lançamento da obra não poderia ser em lugar melhor, a festa aconteceu no museu do futebol.  O ex-craque emocionou a amigos, autoridades, e familiares presentes no momento em que fez a doação de suas duas medalhas paraolímpicas para o espaço. Com certeza a partir daquele dia, o museu do futebol tem mais uma bela história a ser visitada, e todos nós um livro imperdível para presentear nossos filhos, primos, e tantas outras crianças em busca de um ídolo para inspirar suas histórias.

 

O Alfabeto da inclusão

Para quem gosta de brincar de escrever este sempre é um exercício bacana. Buscar em cada letra do alfabeto palavras que contribuam para o esclarecimento ou tradução de um determinado conceito, muitas vezes desgastado ou comprometido pelo abuso de interpretações oriundas do senso comum. Em se tratando de inclusão posso afirmar que daria para repetir a brincadeira ilimitadas vezes, pois são incontáveis as possibilidades de adjetivos, verbos e  substantivos que caberiam nesse quebra-cabeças. A, B, C, D, E, f, G. Com essas letras, começo conversando contigo para que possamos juntos alinhar o entendimento sobre essa temática, e a partir daí identificar caminhos para construirmos um Brasil verdadeiramente  inclusivo.

A – Acessibilidade: Uma sociedade só pode existir de fato caso prepare-se para que todos possam fazer parte dela.Ter dificuldade de mobilidade, de leitura ou de entendimento não pode ser motivo para impedir o acesso de quem quer que seja a vida comunitária;

B – Bom Senso: Não há lei que resista a falta dessa condição. Lembra daquele carro bonito parado na vaga de idoso saindo cheio de compras de roupas da moda, tendo como passageiros aquele casal jovem  prontos para pousar de modelos para uma propaganda de família feliz? Haja estômago!;

C – Coragem: Não se transforma uma sociedade se não houver essa força diante de obstáculos, como aquele discurso do seu chefe que diz “isso é impossível, essa coisa de contratar deficiente é só blábláblá. Eu não vou quebrar nada aqui pra ficar colocando “rampas”.

D – Direitos: Entender que a promoção de políticas públicas voltadas a inclusão não é um favor do estado, de empresas e de organizações não governamentais, é ter claro que  para que sejamos cidadãos de fato não é necessário um patamar mínimo de renda, um determinado nível de conhecimento, e muito menos uma ajudinha de alguém de bom coração. Precisamos apenas aprender a acessar e conhecer quais são  nossos direitos;

E – Educação: Ai ai ai o  casalzinho da letra B! Com certeza faltou muito disso pra eles. Não me refiro apenas ao ir à escola. Estou falando de educação enquanto um princípio fundamental de convivência, estimulada por campanhas, conteúdo de qualidade nas diferentes mídias, comprometido com uma  estruturação a  partir de múltiplas linguagens;

F Fraternidade: Liberdade e igualdade. Ideais que tem marcado as grandes lutas de nossa história recente, a partir de uma contradição baseada em perdas e ganhos sociais. Ver no outro um irmão, ou melhor, um aliado para as grandes caminhadas, talvez seja o que esteja faltando para criar um contra-ponto para uma sociedade cada vez mais individualista;

G – Gentileza: Um povo gentil não exclui ninguém, pelo contrário estende o tapete para o desfile de todas as diferenças. Dizia o profeta José Datrino “Gentileza era Gentileza”. A frase curta do também conhecido como José Agradecido, nos convida a pensar o quanto podemos transformar a realidade com uma simples atitude. Para quem duvida, não custa nada, é só fazer o teste!

 

O porquê damos a luz

Costumo dizer que quando nascemos também “damos a luz”. Essa reflexão se tornou uma convicção com o nascimento de minha bela Catarina.  Não é preciso enxergar para ver com emoção como os sorrisos  e até aquelas ações mais simples do dia a dia assumidas por minha esposa, ganharam muito mais luz e brilho.

Quero então contar como cheguei a essa conclusão “poética”, mesmo bem antes de ser pai. Minha mãe desde cedo com um carinho que só mãe sabe dar, sempre disse que eu era a luz que iluminava a vida dela e de toda a família. Vejam que mais do que um elogio que me fazia sorrir com orgulho e alegria, essa sempre foi uma forma sábia de ensinar com amor o quanto eu poderia ser importante na história daqueles que me deram a vida.

Com isso  na semana do dia das mulheres mais importantes de nossas vidas, podemos pensar o verdadeiro significado de nosso papel na história daquelas que nos trouxe ao mundo, já começando pelo primeiro choro, momento em que  de fato “demos a luz” a uma nova mãe. Essa luz então se intensifica quando aprendemos a dar o primeiro sorriso, ganha brilho, quando já interagimos com gargalhadas, e vai tomando força ao longo de nossa jornada a cada pequeno passo em que possamos expressar algum tipo de conquista, ou mesmo qualquer forma de felicidade.

Caros leitores, dias antes de comemorar com aquela que amamos a data especial reservada a ela para celebrar, cabe então pensar como é fácil e está em nossas mãos manter a luz que demos quando nascemos, acesa por toda vida. Nos basta apenas ser feliz e seguir em frente, sempre lembrando da importância de trazermos junto quem um dia nos trouxe para viver. Aproveitem  a data para lembrar daquelas boas histórias, como o puxão de orelhas pela nota ruim no boletim ou aquele presente simples mais esperado do dia das crianças. Também comemore pensando em novos projetos, como quem sabe uma viagem, uma pequena reforma, ou porque não a tão sonhada casa de campo.

No próximo domingo não estarei em casa para manifestar   presencialmente o meu amor a minha esposa Andréia que comemorará o seu primeiro dia das mães, e por Dona Néia, mulher guerreira e doce, a quem agradeço eternamente por nunca desistir do  filho que para alguns desavisados apenas por ser cego, não poderia seguir em frente. Estarão com elas meu pai, minha querida sogra a quem também cumprimento e nossa amada Catarina. Daqui do México, mando meus abraços com saudades, boas energias calientes e a certeza de em breve estar de volta com a missão profissional cumprida, encontrando aos que amo com saúde e repletos de felicidades