Vinte e nove anos

O tema de minha coluna dessa semana não poderia ser outro, pois a oportunidade de celebrar tantos anos de trabalho e de conquistas, deve ser sempre valorizada e reconhecida.

Apesar de serem quase três décadas, me lembro bem da empolgação de meus pais e tantos outros amigos, quando falavam da possibilidade de fundar uma associação que viria para lutar por novas oportunidades, e tantas outras coisas, que acreditem, acho que nem eles sabiam bem o que era, mas tinham a certeza de que havia muito o que fazer, e muitos por quem lutar.

Foi em vinte e cinco de junho de 1982, que os então 48 funcionários da Volkswagem do Brasil, concretizaram um sonho e fundaram a AVAPE – Associação para Valorização de Excepcionais.

Hoje estar à frente da vice-presidência dessa organização que se tornou referência no ABC, em São Paulo, no Brasil e no mundo, a mim é algo repleto de múltiplos significados. Digo sempre a meu pai que a responsabilidade é dobrada visto que temos que tocar em frente e cuidar de algo tão bem pensado  e  concebido.

A AVAPE cresceu, mudou sua Razão Social, e deixou de ser uma entidade voltada apenas para  cuidar das pessoas com deficiências, visto que são inúmeras as pessoas com deficiência que hoje também cuidam e lutam pela organização. Isto significa dizer que além da perspectiva de ofertar atendimentos, por meio de serviços, programas projetos, e benefícios, a AVAPE se tornou um forte instrumento para alavancagem do protagonismo das pessoas com deficiência.

No dia de São Pedro nos reuniremos, fundadores, parceiros estatais e não estatais, movimentos sociais, colaboradores, usuários e voluntários, para relembrar e comemorar muitos passos dados até aqui. Também estaremos juntos para sonhar mais, e identificar novas possibilidades para que possamos cada vez mais construir em conjunto.

Você pode se perguntar, “mas o que exatamente eles fizeram?”. Permitam-me então compartilhar algumas informações que nos enchem de orgulho, e claro de muita responsabilidade. Vamos começar pela participação cidadã; que sempre foi uma determinação histórica dos nossos conselhos deliberativos que a organização participa-se ativamente na formulação e construção de políticas públicas. Sendo assim, a AVAPE atua sempre em algum conselho municipal de política ou de direito naqueles municípios em que existe uma unidade. A propósito, existem unidades AVAPE em Santo André, São Bernardo, São Paulo, São José dos Campos, Tatuí, Taubaté, e Rezende. Estou falando apenas de unidades próprias, já que se falarmos de movimento Avapeano teríamos conversa para mais algumas colunas. No ano passado foram mais de 700 mil atendimentos e quase mil e quinhentas pessoas colocadas no mercado de trabalho.

É bastante coisa para contar, e se você quiser fazer parte dessa história, fica o convite para visitar o nosso site, www.avape.org.br, ou mesmo uma de nossas unidades. Aos Avapeanos e parceiros me despeço desejando muitos parabéns e um emocionado obrigado.

 

Festa no interior

Hoje o assunto não refere-se  às comemorações de Santo Antonio, São Pedro e São João. Trata-se, porém, de uma bela festa da democracia e do movimento de pessoas cegas do estado de São Paulo.

Aqueles que não acompanham a coisa tão de perto, devem então se perguntar “que tal movimento é esse, e como isso funciona”. Partindo desse princípio peço licença para antes de falar da festa que deu título a essa coluna, voltar um pouco no tempo e em algumas linhas contar rapidamente como tudo começou.

Não vou me ater a uma liderança ou a um momento histórico específico, para tratar do início da caminhada, quero, porém, dizer que ela se deu por meio de pessoas cegas e tantos outros familiares e profissionais envolvidos direta ou indiretamente com o assunto que tinham a convicção plena, de que esse segmento não poderia ficar a margem da sociedade. Olhando para história é possível afirmar que as coisas caminharam muito rápido.  As pessoas cegas que até a primeira metade do século passado tinham por perspectiva, salvo algumas exceções, apenas “a boa vontade”  de um ou outro gestor público, ou de grupos socialmente comprometidos, hoje se organizam tendo claro a importância de seu protagonismo nos debates das questões que lhes dizem respeito. Falo nesse texto do movimento de cegos, mas cabe ressaltar que em todos os outros segmentos de pessoas com deficiência esse fenômeno também aconteceu.

Voltando à festa; neste próximo dia vinte e dois começa na cidade de Itapetininga, interior de São Paulo, o II Fórum Paulista de Entidades de e para Cegos. Estarão lá aproximadamente quarenta organizações do estado discutindo em pleno feriado políticas públicas, que permitam cada vez mais ao segmento oportunizar a tantos historicamente excluídos, acesso a direitos, em sua boa parte já assegurados em nossa legislação, porém por boa parte das pessoas ainda desconhecidos.

O evento é mais uma iniciativa da Organização Nacional de Cegos do Brasil, entidade jovem, fruto da unificação de várias outras entidades nacionais que tentaram por muitos anos representar o segmento, porém, não obtinham sucesso, visto que não caminhavam juntas. O grande diferencial da organização de pessoas cegas no Brasil nos dias de hoje, é o envolvimento de todos em torno de objetivos comuns. A festa da democracia organizada para o próximo feriado só teve sucesso, porque também contou com o compromisso de entidades como a AVAPE – Associação para Valorização de Pessoas com Deficiência, e a Associação LARAMARA, que construíram estratégias e  buscaram apoiadores para que o evento  se efetivasse.

Estarei lá, e convido a todos para que estejam conosco. Você pode saber mais sobre o evento em: www.oncb.org.br.

 

Que saudade boa!

Domingo, como de costume, acordei cedo. Em parte porque em casa com criança com menos de um ano não se dorme mais do que até seis e meia, sete horas, mas também por conta de um hábito bastante agradável, que é acompanhar o programa Viola minha Viola, para mim um patrimônio da TV Brasileira. Nessa semana Enesita Barroso apresentou um especial sobre festas juninas, o que me fez viajar no tempo, e lembrar de Rubem Alves. Certa vez li em meio a uma de suas tão brilhantes crônicas que “A saudade é a nossa alma dizendo para onde ela quer voltar”.

Esse olhar positivo para a saudade, materializado pelo velho pensador, nos convida a olhar e falar sobre momentos bons já vividos sem remorsos, ou porque não dizer vergonha de receber o rótulo de nostálgicos e saudosistas. Concordando com o grande mestre em gênero, número e grau, posso afirmar que minha alma domingo de manhã transbordou de vontade de voltar aos bons tempos em que junho era mesmo para nós, habitantes de grandes cidades urbanas, mês de curtir as festas juninas. Assistindo o Viola minha Viola, com minha filha nos braços, acompanhei quase sentindo o cheiro bom de bolo de fubá e quentão que renasceram de algum ponto da memória, a apresentação de uma quadrilha. A tal dança francesa que se ¨abrasileirou¨ mais do que muitos produtos, frutos  aqui de nossa cultura local, foi para nós,  nascidos da década de setenta para trás, o principal evento organizado lá pelos nossos  primeiros anos de escola.

Alguém lendo esse texto pode dizer, “mas isso não acabou, conheço muitas escolas que ainda convidam os alunos a brincar de quadrilha”. Não querendo ser do contra, posso afirmar sem medo de errar, que festas juninas de verdade, só no nordeste do Brasil. Aqui nas grandes cidades, as casas encolheram e não sobrou espaço para fazer fogueiras, jogar biriba no chão nem acender os  buscapés. Soltar balão virou crime e fazer bolo de fubá tem se tornado uma habilidade cada vez mais escassa, visto que  tantas outras são cobradas das mulheres das novas gerações, por um mercado competitivo que diz que ao invés  de aprender fazer o tal prato caipira, melhor correr para se especializar em algum software ou no idioma do país tio Bush.

Sentir saudades de um tempo que já passou não necessariamente significa afirmar que o que se vive hoje é pior, ou seja, não trata-se portanto de um exercício de comparação. Por outro lado não ter amor por momentos que já vivemos, me parece tornar nossa história insignificante para nós mesmos.

Viver é um processo dialético, e como um dia perguntou Oswaldo Montenegro cantando sua bela A Lista; “Quantos defeitos sanados com o tempo eram o melhor que havia em você”? Nossa história é um bem precioso, que pode nos ensinar a consolidar valores,  preservar  nossa cultura e principalmente pode também quando reconhecida, nos dar a certeza de que a vida, quando olhada como um todo trata-se de uma fantástica  coleção de belos  momentos.

Zé relógio

O cara não ganhou esse apelido de graça. Diziam lá no escritório que o homem só não era digital nem tinha ponteiro, há fora isso, trabalhava vinte e quatro horas e era de uma pontualidade que fazia inveja até na rainha da Inglaterra. Foi uma pena que não teve jeito de dar corda, muito menos trocar a bateria no dia que o velho contador parou. Um infarto fulminante, veio pra justificar as estatísticas, e alertas que vez ou outra aparecem na mídia tentando abrir os olhos e ouvidos de workaholic desavisados

Zé relógio, no entanto, não aceitava o rótulo de trabalhador compulsivo. Gostava do nickname e repetia como um cuco, que só trabalhava o necessário. Adorava contar suas proezas de noites sem sono seguidas de dias inteiros sem uma parada para refeição sequer, e brincava afirmando que apesar de ter nascido na Paraíba, esse relógio era suíço e não quebrava nem com a peste.

Lembrei da história do velho homem relógio, que conheci lá pelo século passado, pois houve esses dias em meio a tantas conversas que rolavam em paralelo em uma loja no shopping, um garotinho perguntando ao pai porque ele trabalhava. O cara com voz de burocrata bem sucedido, disse com orgulho ao moleque perguntador: “para que a gente possa vir aqui comprar as coisas”!

Foi uma pena eu não ter podido escutar toda a conversa, porém me chamou muito atenção quando o menino disse: “mas a gente não precisa comprar tanto assim”.

Nem de longe quero comparar o velho Zé relógio, com o papai consumista do shopping da semana passada. Penso, porém que cabe sim pensarmos na pergunta da criança, tão simples e paradoxalmente tão profunda: por que trabalhamos?

Conheço milhões que ficariam um pouco sem saber o que responder. Mas quanto a esses, fica fácil olhar para suas histórias e já saber que o motivo infelizmente não é nada mais do que sobreviver.

Outros tantos se dizem apaixonados. Acho que inclusive estou nesse time, mais sempre fico atento para não cair na armadilha, pois já disse bem Nizan Guanaes, triste daquele que odeia segunda-feira, pois não é feliz com o seu trabalho, pior, porém, está aquele que não espera ansioso os sábados e domingos, este deve por certo, estar fugindo da família ou dos amigos.

Tem outra turma interessante. Os insubstituíveis. Esse rótulo é auto-aplicável e logo segundo os próprios, nada acontece sem que estejam presentes, sendo assim acabam tendo motivos de sobra para justificar toda e qualquer ausência.

Precisamos então responder com verdade a pergunta feita pelo garotinho alguns parágrafos atrás. Talvez muitos descobrirão que não são insubstituíveis, porém tem medo de delegar ou pior, enfrentam dificuldades de confiar determinadas funções, reconhecidamente impossíveis de serem acumuladas por uma só pessoa.

Outros mais assumirão que não é bem paixão, mais sim obsessão misturada com um comodismo massacrante, o que faz com que o sujeito entre no piloto automático, transformando o trabalho em um fim em si mesmo e não em um prazeroso meio para ser feliz.

Vale a pena pensar. Como Zé Relógio, todos nós um dia encontraremos nossa hora. Trabalhemos então para que quando isso acontecer, todas as voltas dos ponteiros de nossas vidas tenham valido a pena.