É bonita ?

Como eu havia prometido neste espaço na última semana, venho trazer informações sobre o concurso de Miss Deficientes visuais que aconteceu em  Natal no dia 23 de julho. Quem conhece meus textos, sabe, porém, que só informar não faz parte do estilo. Quero então, convidá-los a pensarmos juntos sobre “o ver” e “o belo”.

Já escrevi algumas coisas sobre o assunto, porém no dia do concurso me chamou a atenção a conversa que ouvi na mesa do lado. Um cego  perguntou durante o desfile: “E essa? É bonita”? O amigo que estava junto demorou alguns segundos e perguntou: “mas como você sabe o que é ser bonita?”

O papo descontraído me fez pensar que talvez essa seja uma pergunta de boa parte da sociedade. Já vi gente dando alguns palpites; certa vez alguém ma ajudando atravessar a rua perguntou se eu sabia quando uma pessoa era bonita  através do tato. Já ouvi também outros tantos que me  perguntaram se era através da voz.

Não tenho dúvidas que o belo têm para a sua concepção uma grande dimensão visual. Todavia tenho claro também que é não necessariamente é a única, e sendo assim podemos afirmar que cada pessoa pode ter a sua definição de padrão de beleza, independente de ver ou não.

No concurso pude comprovar com satisfação que essas várias concepções se encontraram. Pessoas cegas e videntes (não cegas), discutiam juntas  com base em  trocas de opiniões, quem deveria ou não ganhar.

A locutora descrevendo cada participante, foi uma novidade que também contribuiu para o maior envolvimento de quem não estava enxergando. A empolgação das torcidas, e o comprometimento dos organizadores do evento, fizeram com que  a questão da deficiência ficasse para muito além do segundo plano.

Para tristeza do Rio Grande do Norte, foi o Rio Grande do Sul, quem ficou com a coroa, a lição porém que tivemos naquela noite fez com que todos saíssem vencedores.

Ali se rompeu um paradigma que para muitos distanciava beleza de deficiência. Foi com muita descontração, emoção e envolvimento de todos, que as mulheres cegas que participaram saíram convictas de sua importância histórica para tantas outras jovens com deficiência, ainda  com a auto-estima muito comprometida e  pouco  confiantes quanto ao seu potencial feminino.

Vou postar no meu facebook algumas fotos para dividir com vocês alguns momentos bacanas do evento. Entrem lá e comentem: Carlos Ferrari.

Maratona no nordeste

Hoje embarco para o Recife levando na bagagem grande expectativa, de momentos inesquecíveis não apenas para minha história de militância, como também para aquela região.  Nesse dia 20 de julho de 2011, tem início a Conferência Municipal de Assistência Social daquela capital. Isto significa dizer que nesses próximos três dias, trabalhadores, entidades e usuários da política vão deliberar sobre as necessidades da cidade, identificar o que está sendo ou mesmo o que não está sendo feito, e determinar estratégias para o futuro.

Será minha primeira conferência de capital nesse ano, e mesmo já com toda a experiência, sempre fica uma grande ansiedade, visto que nesses momentos a gente não apenas contribui com uma palestra, mas também ganhamos muito com o aprendizado fruto dos debates e reflexões trazidas para aquele espaço.

Terminada a conferência, não mais representando o Conselho Nacional de Assistência Social, sigo no próximo dia vinte e três para Natal. Lá será eleita a Miss Brasil 2011 do movimento de pessoas cegas e com deficiência visual. Quando fiquei sabendo do evento achei a idéia meio estranha, porém refletindo depois, acabei entendendo a grande importância social de um evento como esse.  Infelizmente para o senso comum, a relação entre o belo e a deficiência, nunca foi lá algo muito possível, se pensarmos então em beleza e sensualidade nem se fala. Assim mulheres com deficiência, muitas vezes, são vistas pela sociedade apenas como pessoas com deficiência, deixando todo o seu lado mulher de lado. Assim, um concurso como esse envolvendo a sociedade, as pessoas com deficiência e a mídia tem a grande missão de começar a desconstruir um paradigma reafirmado por décadas. Na próxima semana trago mais notícias sobre o evento.

Por fim de Natal vou a João Pessoa. Lá participo de um encontro nacional que discutirá a Convenção Internacional da ONU. Essa convenção tem poder de emenda constitucional, e ratifica uma série de direitos já conquistados pela pessoa com deficiência no Brasil.

O documento tem sido uma verdadeira revolução para muitos dos países signatários, com uma legislação bastante frágil no que se refere ao segmento. No Brasil, no entanto, além de se configurar em uma grande conquista, a convenção também se apresenta como um grande desafio, visto que há muito ali escrito, ainda passível de regulamentação.

Essa agenda repleta de coisas boas para o Brasil, nos convida a refletir que nem tudo é apenas notícia ruim. Acabamos nos acostumando a sentar diante da TV e contemplar de forma quase que indiferente, tragédias, crimes, e escândalos políticos e financeiros. Conta a história que certa vez o falecido proprietário do grupo Bandeirantes de comunicação chegou em meio a uma reunião de pauta de sua equipe de jornalistas e diante de tanta coisa negativa perguntou “Escuta, mas não nasce uma flor?”.

Assim com o texto de hoje espero não só informar, mas também renovar os sentimentos de esperança e de convicção de que é possível sim um país mais justo e cidadão. Sigamos em frente!

É dia de agradecer e reafirmar compromissos

Hoje, dia 13 de julho de 2011, recebo com honra e senso de imensa responsabilidade a missão de por mais um ano presidir o Conselho Nacional de Assistência Social – CNAS. Cabe-me de início, agradecer a todos que confiaram em mim até aqui. Começo então por todos os conselheiros e militantes da FENAVAPE e suas federadas; na pessoa do presidente Marco Antonio Gonçalves, fica meu agradecimento pela confiança em representar um movimento jovem, porém convicto de suas lutas e compromissos junto à organizações de assistência social e pessoas com deficiência.

Igualmente quero saudar e agradecer a todos os conselheiros nacionais, pela confiança e apoio, sem o que não seria possível estar à frente de tal instância de participação. Gestores municipais, estaduais, representantes do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate
à Fome e demais ministérios, usuários da política, entidades de assistência social, e um especial agradecimento ao segmento dos trabalhadores que compõem esse conselho, os quais faço questão de tendo em vista o momento histórico em que se encontram, destacar o fundamental apoio político, que marca uma aliança estratégica entre usuários e os mesmos, no ano em que são eles, trabalhadores do SUAS,  que assumem a centralidade dos debates no temário das conferências municipais, estaduais e nacional. Assim, obrigado a FENAPSI – Federação Nacional dos Psicólogos, CNTSS – CUT – Confederação Nacional dos Trabalhadores da Seguridade Social, CTB – Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil, FENATIBREF – Federação Nacional dos Empregadosem Instituições Beneficentes, Religiosas e Filantrópicas, OAB – Ordem dos Advogados do Brasil e CFP – Conselho Federal de Psicologia.

Ainda agradecendo, quero registrar a importância da Secretaria Executiva do CNAS e de minha assessoria nessa caminhada. Também tem sido fundamental a compreensão e o carinho de amigos e familiares, que mesmo sabendo do nível de envolvimento necessário para o sucesso dessa representação, têm sempre me manifestado apoio total e irrestrito.

Por fim agradeço a você leitor, que me acompanha no blog e aqui no jornal, sempre contribuindo com idéias, críticas e sugestões. Fica aqui então meu compromisso de trabalhar sempre pelo respeito às instâncias de controle social no âmbito do SUAS,  sempre com vistas a assegurar sua autonomia política e administrativa. Reafirmo minha convicção de que só avançaremos se consolidarmos uma parceria entre estado e sociedade civil organizada, dando ênfase a participação cada vez mais efetiva dos usuários da política e a valorização de seus trabalhadores. Assim torna-se fundamental a consolidação de uma rede articulada composta por organizações não governamentais, movimentos sociais, universidades, centrais sindicais e conselhos de classe, somada ao compromisso do estado brasileiro por meio de seus entes federados, para constituir uma grande rede de proteção social não contributiva e verdadeiramente voltada à construção de um Brasil sem miséria.

O SUAS é nosso!

Como notícia boa não se guarda nem se espera acontecer, assim que fiquei sabendo, já vim para o computador com o objetivo de compartilhar com vocês, que têm me acompanhado e caminhado juntos, nessa jornada que com certeza só está chegando a um final feliz por conta da mobilização de tantos brasileiros verdadeiramente comprometidos com a transformação do país.

Aliás, pensando melhor, falar em final feliz não é adequado, visto que o que está por vir, marca o início de um novo momento legal para uma política pública que apesar de jovem tem em sua construção uma história repleta de lutas e conquistas.

Para quem me acompanha semanalmente já deu para perceber que estou falando de assistência social. Pois bem, acabei de receber um telefonema confirmando a assinatura do projeto que transforma o SUAS – Sistema Único de Assistência Social em lei pela presidenta Dilma Rousseff.  A mudança na Lei Orgânica de Assistência Social, sancionada pelo recém-falecido Senador Itamar Franco, em sete de dezembro de 1993, traz para essa política pública, a ratificação da primazia do estado, por meio do reconhecimento de equipamentos como os Centros de Referência de Assistência Social – CRAS e os Centros de Referencia Especializados de Assistência Social – CREAS. Esses equipamentos foram pensados na perspectiva da oferta de proteções sociais, divididas em básica, média e alta-complexidade.

A nova lei também traz o vínculo SUAS, reconhecendo a importância histórica e estratégica da parceria entre estado e sociedade civil organizada, dando as entidades de assistência social, uma nova perspectiva de reconhecimento e relação com o estado Brasileiro.

O SUAS, foi pensado e construído a partir da participação popular, e tem como uma de suas principais características a descentralização da gestão. Nesse sentido podemos comemorar a aprovação de uma lei que chama a união, estados e municípios para que juntos possam de forma planejada e participativa conduzir e operacionalizar a política de forma a atender aqueles que dela realmente necessitam.

Por fim, quero ressaltar, que a nova lei fortalece e ratifica a importância do controle social, ou seja, da participação conjunta entre estado e sociedade civil na construção, na fiscalização e na propositura de novos caminhos para a assistência social no Brasil.

Parabéns a todos os militantes, gestores, trabalhadores, entidades, legisladores e a presidenta Dilma Rousseff por mais esse grande passo que será dado no dia 06 de julho, as onze da manhã no Salão Oeste, 2 andar do Palácio do Planalto.