Eu estive lá

Com certeza todos vocês já viveram um momento, estiveram em algum lugar, protagonizaram algumas situações, que lhe fazem pensar e afirmar com orgulho “eu estive lá”.

Foi esse sentimento que vivenciei no último sábado a noite. É importante dizer que acabamos valorizando aquilo que se alinha com nossa história, ou seja, que reforça, aqueles valores que constituímos desde a infância, seja em virtude dos suportes e aprendizados que recebemos por parte da família e  amigos, seja por conta de nossas paixões, essas frutos de sentimentos inexplicáveis que fazem com que nossa alma sorria diante de fenômenos simples, porém para nós, únicos.

Minha relação com o esporte paraolímpico é fruto de uma dessas paixões sem explicação, mas extremamente prazerosa que se renova a cada oportunidade de acompanhar uma competição. No sábado, o que ocorreu foi a abertura das terceiras paraolimpíadas escolares. Imaginem mais de 1000 jovens com diferentes tipos de deficiências, oriundos de vinte e cinco estados brasileiros, prontos para superar todos os limites em suas modalidades esportivas.

Ali a cidadania e a equiparação de oportunidades, foram o casal da noite. Ninguém estava preocupado se determinada pessoa tinha deficiência A ou B. As conversas eram todas no sentido de se buscar a melhoria do tempo, o melhor golpe dentre os adversários do peso ou mesmo a artilharia no campeonato.

A banda para os que não puderam ver era composta por quatro cegos, e fez com que todos dançassem, cada um à sua forma, antes, durante e depois do evento.

Costumo dizer que o esporte paraolímpico produz a magia da inclusão às avessas. O ídolo então não necessariamente é o mais forte, o perfeito, o inquestionável, se é que essas figuras realmente existam. Assim, pudemos viver no Brasil momentos em que toda a população pode vibrar com as medalhas de Antonio Tenório, o tetracampeão de Judô cego, que não precisou enxergar para ser exemplo, para milhares de crianças das mais diversas classes sociais.

Nesse dia trinta de agosto, será o encerramento do evento. Conheceremos os estados vencedores, e mais uma vez o ambiente de festa tomará conta da competição. Muitos atletas, aliás, a maioria não estará entre o hall dos principais vencedores. Todos, no entanto, sairão de lá com a sensação clara de missão comprida.

É fato que ninguém gosta de perder, e que esse sentimento no esporte é ainda mais reforçado. A diferença nesse caso, é que todos os envolvidos tem a clareza de sua contribuição, para que no final das contas o vencedor principal seja a sociedade como um todo. Uma sociedade mais justa, menos preconceituosa, mais respeitosa e menos excludente. Uma sociedade verdadeiramente campeã.

A diferente história de Juca Quitute

Foi a sábia parteira Jacinta, mulher de voz e olhar triste que disse: “o neto herdeiro de nome, do finado Jucelino Cabaça chegou cedo duas vezes”. Primeiro porque a mãe de catorze anos, ainda não havia conseguido sequer ninar as bonecas que não existiam de verdade no mundo real, mas que nunca desistiam de aparecer em meio aos sonhos coloridos, repletos de fantasia. Segundo porquê, apesar de dezoito horas de parto, nove meses era o tempo que se tinha como certo; sete parecia mau presságio, sem contar que tal nascimento  por aqueles dias, não estava nas previsões  nem da tia Lurdinha, mulher que todos afirmavam tinha poderes únicos para enxergar  o futuro.

Houve muitos na época que culparam a velhinha futuróloga pelos “defeitos” com que vieram o moleque. Seu Raul da mercearia jurava de pé-junto que isso era praga da “velha bruxa”, cliente antiga, com dívidas em atraso na caderneta, diante da raiva de não ter acertado a data do parto. “Maldade pura”, afirmava irritado o Dr. Jordão, único médico da redondeza, desde muito antes de que pensassem em  nascer a mãe e  as avós do prematuro bebê. Com um olhar consternado, o doutor não cansava de se culpar, por no dia não ter acompanhado o parto. Dizia ele que a deficiência do menino deve ter sido causada em virtude de falta de oxigênio na hora do nascimento.

Em meio a benzeduras, promessas, banhos de ervas, e degustação de todo o tipo de  beberragem, o “diferente”  garoto, filho do quituteiro que por uma noite prometeu o mundo à sua mãe, a bela e jovem Tininha, falava com dificuldades, não tinha os movimentos exatos em todo o seu lado direito, e  para ele o que era pior, só restava do pai um sobre nome dado não por reconhecimento, mas por piadas maldosas, daqueles que encaravam como sendo culpa da jovem menina o desaparecimento repentino do homem que encantava a todos com suas cochinhas, croquetes, pamonhas e tantas outras delícias. Para a jovem só ficou o gosto amargo do abandono, mas mesmo assim ainda havia pessoas como Dona Rita da farmácia que não cansava de repetir: “quem mandou ela ficar grávida”? Ainda com veemência falava para quem quisesse ouvir: “e o pior, nem fez o menino direito”!

 

Nesse pequeno causo de algum canto do Brasil, muito pode se encontrar de diferente. Talvez o jeito de se contar; deve-se ressaltar a inexperiência de quem vos escreve, em a partir do que não aconteceu tratar do que tanto acontece. Logo também é diferente a estratégia!  Geralmente busco em minhas colunas partir do real para tratar dos absurdos provocados pela falta de informação e muitas vezes pelo preconceito construído graças a estigmas reforçados e valorizados, ao longo de décadas. Hoje foi diferente; fiz o caminho inverso, para pensarmos juntos no dia a dia de milhões de brasileiros colocados a margem em nome de verdades que não existem reforçadas sabe-se lá porquê.

Assim a história de Juca Quitute não é nada diferente, no que tange a exposição de diversos públicos vulneráveis, frente a mitos, crendices e principalmente a desinformação. No Brasil milhares de pré-adolescentes ficam grávidas e são abandonadas. Também por aqui, temos um incontável número de crianças ainda adquirindo deficiências ao nascer por conta de falta de cuidados mínimos ou ações preventivas simples, mas que fazem a diferença!

A boa solução do Dr. Problema

Aconteceu, não faz tempo, e também não vem ao caso contar o nome da empresa. Lá trabalhavam muitos, e não foi por acaso que em pouco tempo de contratação do Senhor “Problema” também passou-se a  contratar muitas. O apelido dado a Paulo foi sempre tido como injusto por parte dos que já estavam e por tantos que chegavam e o conheciam, mas era assim que Jair, um dos três irmãos sócios herdeiros, gostava de chamar o jovem gestor.

Juvenal, o mais velho dos três donos, como ele mesmo se intitulava, era um empolgado defensor do moço contratado para repensar a gestão de pessoas da tradicional metalúrgica. Havia sido uma decisão colegiada, apoiada pelo conselho de administração, e se Jair via em Paulo um problema, isso não era lá grande coisa diante da expectativa gerada por todos diante do que entendiam ser uma grande oportunidade para uma velha organização que optou em se ressignificar a partir do investimento no capital humano.

A sociedade já durava trinta anos, e nasceu sem que os “Irmãos J” pudessem sequer se preparar. Tudo se deu por conta do falecimento precoce do então fundador, um italiano simples, porém bastante empreendedor conhecido por funcionários e clientes por seu Tito. Seu Tibério chegou ao Brasil com os pais fugindo da guerra, e nem em seus melhores sonhos havia imaginado construir algo tão grande. Tratava-se de uma fábrica com 2300 funcionários, líder em seu segmento, e até a recente globalização, fenômeno que infelizmente seu Tito não pode vivenciar, não havia sequer boatos de ameaça da concorrência.

O cenário atual, porém, era totalmente diferente e incerto. Produtos chineses invadindo o mercado, clientes antigos e certos, agora ameaçados, pois passavam a exigir em um curto espaço de tempo a “tal da ISO” e uma série de outras normas que ninguém até ali havia se preocupado sequer em conhecer.

Coube ao irmão do meio, o Sr. Justino acompanhar os resultados de uma proposta implementada pelo Dr. Problema, quer dizer pelo Paulo; tratava-se do que ele batizou de humanização organizacional e produtiva com base na gestão da diversidade. Logo seu Juvenal, um bem humorado eterno batizou a iniciativa de “confusão positiva”. Em resumo o projeto, trazia a idéia de se implementar um programa gradativo de recrutamento e seleção dos novos colaboradores, tendo por norte o privilegiamento da diversidade.

Assim, em um curto espaço de tempo faziam parte do quadro de colaboradores da indústria dos três irmãos, idosos, pessoas com deficiência, homossexuais, jovens aprendizes, e um grande contingente de mulheres. Paulo afirmava que a “confusão positiva”, era uma solução para trabalhar velhos paradigmas e costumes enraizados, como intolerância, preconceito, medo do novo e comodismo.

Para encurtar e contar toda a história, não foi fácil para Jair agüentar o velho Juva se vangloriando diante do sucesso da tal confusão, que agora passava a se tornar modelo replicável para tantas outras empresas. Justino escreveu após concluir seu relatório de acompanhamento: “a diversidade se tornou um valor estratégico para a gestão, assim como tem sido um valor essencial para o bom convívio em sociedade”.

E você? Como tem trabalhado sua relação com a diversidade na vida pessoal e profissional?

Escada não!

Se a conversa fosse referente a um novo empreendimento imobiliário, ou quem sabe um novo espaço público, e porque não privado, estaria eu lá, pronto para defender o argumento. Mesmo acreditando que se tivermos nesses casos alternativas de acesso que suplantem as limitações impostas pelos degraus, já estaríamos alcançando o objetivo. Mas a conversa segundo o que me contaram era outra. Todo o protesto se deu, em meio a uma reunião. Na fala do expositor havia uma representação gráfica que trazia a evolução dos dados em uma escala simbolizada por uma escada, o que causou indignação imediata do(a)  “incansável defensor(a)”  da acessibilidade. “Esse gráfico deveria em respeito a todos nós ser pensado na perspectiva de uma rampa”. Não foi o primeiro caso que já ouvi ou presenciei protagonizado pelos que chamo de ”CSB” (“chatos sem barreiras”).

Parentes distantes dos “eco-chatos” que se ploriferaram lá pelo meio da década de noventa, os CSB, confundem luta por direitos, com luta pela luta. Com o objetivo de se manterem no “combate”, consciente ou inconscientemente buscam sempre a garantia de estarem evidência. Emuma jornada dura, onde a união de todos se torna fundamental para darmos pequenos passos na conquista de mais aliados na luta pela acessibilidade, pode-se dizer que eles não são de todo ruim. Acontece, porém, que acabam se auto-destruindo,e perdendo força com justificativas incoerentes, e propostas descoladas da realidade.

Acreditem, já testemunhei um “CSB” daqueles empolgados defendendo mapas em Braille nas saídas de incêndio. Já imaginaram a situação? Eu lá em meio ao fogo com medo, tentando respirar, mais com a grande missão de identificar no mapa as melhores alternativas de fuga.

Um outro CSB, tentou me convencer em meio a um discurso inflamado, da importância de termos uma lei que assegure nos estádios de futebol, um serviço de descrição do jogo, transmitido  em fones a serem distribuídos para espectadores com deficiência visual. Perguntei a ele “mas e o rádio”? Não tenho dúvidas que os narradores de futebol que trabalham nesse veículo, estão entre os  profissionais mais competentes para  traduzir não apenas para cegos, mas também para o  público em geral,  todas as  emoções que transcorrem durante uma partida!

Mas você pode me perguntar, e como diferenciar um CSB de um grande militante da causa?  A primeira dica é fácil, tente discutir com ele os efeitos transformadores de suas propostas. Pergunte então, quais grandes impactos suas bandeiras poderiam provocar na vida das pessoas?

Também cabe perguntar, se tudo aquilo que se está defendendo são pleitos identificados e defendidos pelo segmento, ou apenas uma impressão pessoal, transformada em convicção / discurso.

Por fim verifique se você está discutindo com alguém com opiniões fortes e bem fundamentadas, ou detentor de verdades inegociáveis descoladas de qualquer norma legal, literatura ou fruto de grandes discussões democráticas. Contudo respeitemos os chatos sem barreiras. Eles também tem sua importância na consolidação da certeza cada vez maior de como já foi dito em uma canção, “é possível, é possível, fazer o mundo mais acessível”!