Com outros olhos

Uma troca de olhares, mais um pouco e de repente uma história. Bem provavelmente esse não será o final feliz de um casal, onde uma das partes seja cego ou cega. Digo bem provável, visto que, não podemos prever as relações em sua totalidade, quem sabe, algum dia em algum lugar, uma troca de olhares involuntária independente de ver ou não ver, possa ter sido decisiva para uma bela história de amor.

O fato concreto, no entanto, é que pessoas cegas, principalmente aquelas que nunca enxergaram ou há muito não vêem, tem algumas dificuldades na comunicação não verbal. Como já nos mostrou um best seller internacional, “O Corpo Fala”. E a dificuldade para se expressar a partir de outras alternativas para além da verbal  vai variar muito do histórico de vida, de oportunidades de interesse, e porque não dizer de assimilação de cada sujeito.

Essa análise pode se dar a partir de vários aspectos, começando por exemplo pelo mais básico, ou seja a  forma de se vestir. O fato de não enxergar, não deixa livre ninguém, para se vestir, desconsiderando ambientes, situações e possibilidades de combinação de cores. Muitos confundem o que digo com a condição financeira, o que de fato acaba sendo uma desculpa  frágil, tendo em vista, que todos os dias encontramos pelas ruas pessoas, bem ou mal vestidas independente do poder aquisitivo. Neste debate também não podemos esquecer as preferências individuais de cada um, logo poderemos ter pessoas enxergando ou não com vestimentas exóticas, fora do padrão de normalidade, por escolha, excentricidade ou qualquer outro nome que queira se dar, mas nunca por descuido ou desaviso.

Um outro aspecto que também deve ser considerado são as expressões faciais. Alguém me disse uma vez que pessoas cegas acabam de repente, saltando de um sorriso para uma feição bastante séria sem que nada aparente possa ter ocorrido. Nesta oportunidade a conversa foi muito interessante, pois argumentei que essa situação talvez ocorresse por conta da diversidade de assuntos, ou seja, quem não enxerga acaba mudando as expressões à medida que muda o “rumo da prosa”, sem construir consciente ou inconscientemente uma transição facial, o que em tese visualmente possa vir a parecer meio estranho. Outras situações ainda são bastante comuns, como esquecer de abrir os olhos, cacoetes de movimentos com a cabeça ou com as mãos, e desvio do olhar.

Como eu já disse anteriormente esses déficits são produtos de inúmeras variáveis, que acredito possam ser em boa parte sanadas, caso se tenha um conjunto de esforços para tal. Ao contrário do que muitos possam acreditar, falar diretamente com a pessoa sobre suas dificuldades não é necessariamente uma atitude ofensiva. Diferente disso, essa pode ser uma primeira possibilidade encontrada pelo individuo para trabalhar suas dificuldades, muitas vezes desconhecidas por ele.

Por fim é importante deixar claro que essas habilidades podem sim ser melhor desenvolvidas, porém  dificilmente estejam no know-how das grandes virtudes adquiridas por qualquer pessoa cega. Isso, no entanto, não deve ser um pretexto para que uma decisão seja tomada, e essa questão passe a ser vista com outros olhos!

Muito que comemorar

A cada ano, o dia vinte e um de setembro ganha mais espaço na agenda política brasileira. Trata-se do Dia Nacional de Luta das Pessoas com Deficiência, e ano a ano, junto com as lutas que tomam sempre novo significado, na medida em que avançamos, também podemos comemorar novas conquistas.

Neste 2011, sem dúvidas o saldo positivo é bastante significativo e por isso, busquei para o dia de hoje elencar alguns pontos que merecem ser celebrados, e mais do que isso,  lembrados como marco histórico de nossa   caminhada.

Inicio destacando a sanção presidencial das leis, 12435/11 e 12470/11.  A primeira trata do reconhecimento legal, e da instituição do Sistema Único da Assistência Social, SUAS. Falamos então do reconhecimento pelo estado brasileiro de uma rede de acesso a direitos, composta por equipamentos estatais e não governamentais, articulados na perspectiva de acolher e empoderar aqueles ainda em condição de vulnerabilidade social, e/ou pobreza extrema. A segunda, trata da ressignificação do Benefício de Prestação Continuada BPC. Esse que por muito tempo foi entendido equivocadamente como uma aposentadoria automática, apenas pelo fato da pessoa ter alguma deficiência, agora teve seu verdadeiro significado resgatado por lei. O benefício não é mais suspenso, quando o individuo passa a trabalhar, passa a ser apenas cessado, e pode ser retomado de imediato no momento em que a pessoa sai do emprego. A mesma lei ainda assegura que esse benefício possa ser acumulado com a remuneração de aprendiz, caso o sujeito opte pela inserção nessa modalidade.

As duas leis mencionadas acima tem ainda o reforço do BPC Trabalho. Trata-se de um piloto do governo federal em parceria com a FENAVAPE, Federação Nacional das Pessoas com Deficiência, que articula, a expertise das afiliadas da federação, e toda a capacidade estatal em identificar os usuários do benefício, e articular ofertas das demais políticas que possam ser compreendidas como fundamentais para seu processo de habilitação e reabilitação.

Ainda em âmbito nacional pudemos finalmente este ano, ver a Televisão Brasileira dar os primeiros passos para implementação da áudio-descrição, recurso que permite pessoas cegas acompanhar com autonomia toda a programação ofertada com esse recurso. Trata-se de um serviço que pode ser ativado pelo usuário por meio da tecla SAP, nesse momento ele passa a receber informações sobre tudo o que ocorre para além dos diálogos, cenas puramente visuais.

Já no estado de São Paulo podemos destacar a forte articulação da Secretaria Estadual dos Direitos da Pessoa com Deficiência. Neste sentido o estado avançou assegurando em lei a construção de 100% de casas populares com acessibilidade, a produção de livros didáticos totalmente acessíveis, além de realizar o maior evento paraolímpico para jovens do mundo.

Neste ano foram mais de mil atletas envolvidos com uma infra-estrutura de primeiro mundo, e grande cobertura midiática. Posso dizer com alegria que o espaço é pequeno para contar o grande conjunto de novidades que testemunhamos, fruto de anos de luta.

Prioridade virou produto?

Jamais eu ou quem quer que seja, seria capaz de imaginar que a empresa que ficou conhecida por estender o tapete vermelho para o cliente, e chegou à liderança de mercado sempre tendo por uma das principais  características a gentileza tão marcante de seu saudoso fundador, fosse protagonizar tamanha indelicadeza. Não caberia tratar do assunto nesse espaço, se tal situação se caracterizasse um fato isolado. O que ocorre, no entanto, é que a falta de bom senso transformou-se em um produto.

Vamos ao fato. Refiro-me à venda dos assentos da prioridade por uma companhia aérea brasileira, que é claro não vem ao caso citar o nome nesse momento. Essa semana ao embarcar, pude confirmar pessoalmente o que muitos amigos já haviam me relatado. A atendente do check in no momento da reserva da cadeira, pergunta sobre alguma preferência, apresenta algumas alternativas, porém não fala do óbvio, ou seja as primeiras vagas, reservadas para gestantes, idosos, aqueles em condição de mobilidade reduzida, e o meu caso, pessoa com deficiência. Diante da situação perguntei “mas e a prioridade”? A moça então disse constrangida que esse agora era um produto vendido. “O Sr. tem direito, porém a moça que lhe acompanha caso queira sentar ao seu lado deverá pagar mais R$ 20,00”.

Por princípio quando me vejo frente a um absurdo, tento verificar de fato se ele existe. Com calma então ponderei com a profissional que a moça que me acompanhava tratava-se de minha assessora e que estava ali justamente para me dar suporte dentre outras coisas também dentro do avião, logo não seria lógico sentarmos em fileiras diferentes. Um pouco mais constrangida a colaboradora da companhia disse que não havia o que ser feito, o que me fez então pedir para falar com sua supervisora. Um minuto, dois minutos, três minutos, e chegou finalmente Milena. Pedi seu nome completo, e ela disse que não era autorizada pela empresa a fornecer tal informação. “Posso lhe dizer apenas, sou Milena, Supervisora de Congonhas”. Quando questionada sobre o problema, a austera e fiel trabalhadora, disse essa é uma norma interna. Já cansado então solicitei a tal resolução por escrito, o que também de imediato foi negado. “Não podemos fornecer qualquer norma por escrito, mas posso lhe afirmar ela existe”.

Quase perdendo o vôo 3708 das 13:42h, lembrei de minha agenda intensa em Brasília, agradeci a obstinada guardiã das normas e a sua colega atendente Marion, também com sobrenome sob censura, por parte de seus empregadores e segui para o avião. Sentei e fiquei aguardando meus companheiros de prioridade, agora negociada, porém para minha surpresa os outros 5 acentos da primeira fileira seguiram vazios.

Viajei então pensando: “Realmente comprar prioridade é estranho demais, é algo mais ou menos parecido como comprar um objeto que não lhe pertence”. Sentar ali, porque ninguém mais que necessite tenha solicitado, como até hoje foi feito me parece bastante razoável. Diferente disso, independente de legislações, normas secretas, voracidade capitalista, ou qualquer outra justificativa, me parece antes de qualquer outra coisa, uma imensa falta de bom senso.

Despeço-me por hoje, cumprimentando aqueles que não compram prioridade, até porque sabem; este não é artigo que está à venda.

Um dia de D. Pedro

Há muito tenho dito, não haver dúvidas, ser o sete de setembro uma das datas comemorativas mais bacanas de nosso calendário histórico. Primeiro por ser de fato o dia que marca em nossa memória cultural, em nossos arquivos e documentos oficiais, nos livros e na boca do povo, a conquista da independência pelo Brasil. Segundo, por trazer uma série de controvérsias, dúvidas, e uma sede de saber histórico, fazendo com que muitas pessoas contestem o já posto, e se reencontrem com a memória de nossa pátria mãe.

Não vou aqui entrar em qualquer das polêmicas ligadas ao tema, mesmo porquê tem muita gente boa já fazendo isso por aí, vale a pena por exemplo ler, 1822 de Laurentino Gomes.

Meu objetivo hoje é fazer um convite: que tal experimentar viver um dia de D. Pedro? Tranqüilize-se quanto à indumentária, não será necessário comprar fantasias, muito menos repaginar o visual. Também, não estou lhe convidando para viver um dia de Imperador! Logo, esqueça os compromissos com os ritos e formalidades, até porque se sabe que essa não era muito lá a cara de nosso primeiro rei.

Meu convite então nada mais é do que viver um dia de grito pela liberdade, pela independência, com uma pequena diferença, o território em questão agora será nada mais e ninguém menos, que você. Assustou? Não creio que seja o caso, todos podemos nos preparar para tal, definir que é chegada a hora de dizer não, gritar “independência ou morte”, para o domínio de velhas idéias, vícios, relacionamentos. Acredito que independência neste caso signifique a morte de muitas “verdades e compromissos confortáveis”, em nome do nascimento de decisões bem mais desafiadoras, porém infinitamente mais alinhadas com o um verdadeiro projeto de vida.

Recentemente estive com um amigo que declarou independência do cigarro. Ouvi atentamente ele contando as suas estratégias pensadas para romper com o cilindro de papel, que em seu caso não se tratava de um hábito agradável, passível de dispensa no momento em que lhe fosse conveniente. Ele tinha claro que estava colonizado pela nicotina, e só uma atitude revolucionária o levaria a se livrar desse inimigo que a cada dia botava sua vida mais em risco.

Mas como já foi dito neste texto, não só os vícios podem ser vencidos por um grito ávido de liberdade. Você também pode declarar independência de velhos preconceitos, de um casamento desgastado, ou mesmo daquele carro velho que insiste em dar manutenção, e sabe-se lá porque, algum dia você se convenceu que tinha uma relação de afeto com aquele amontoado de lata, peças e parafusos. Como dizem os cariocas “vamos combinar”, que tem muita coisa melhor para que possamos dedicar nosso carinho e nossas paixões.

Pessoalmente, decretei já faz algum tempo o meu feriado pessoal, no dia em que declarei independência, “das verdades”. Isto não significa que a partir dessa data eu passei a abrir mão de minhas certezas / convicções. O que passou foi que desde aquele momento percebi que melhor do que lutar por minhas verdades, é respeitar e confrontar opiniões. Aprendi com Rubem Alves que “todas as palavras tomadas literalmente são falsas. A Verdade mora no silêncio que existe em volta das palavras”.  Provocador como sempre, ele ainda afirma, “Cuidado com a sedução da clareza, cuidado com o engano do óbvio”!