Bom Começo

Pela terceira vez tenho o prazer de retornar das  férias, tendo  por primeiro compromisso da agenda, a participação no Fórum Social Mundial. Neste dia vinte e quatro de janeiro começamos aquiem Porto Alegreas atividades, como de costume fazendo uma grande marcha onde diferentes atores que aqui participam, sob as mais diversas formas de expressão mostram para o mundo as bandeiras que aqui vêm defender.

No fórum o idioma oficial é o grito pela garantia de direitos e a equiparação de oportunidades. Assim, independente do país de origem, todos sabem que nesse espaço a luta é por um mundo mais justo, com maior transferência de renda, com uma economia solidária e com o reconhecimento de diversos segmentos que por séculos tem vivido na invisibilidade.

Represento nesse evento o Conselho Nacional de Assistência Social, e com mais nove companheiros daquele colegiado, vamos trazer para Porto Alegre o debate sobre a participação popular e o controle social das políticas públicas.

Participaremos de uma oficina conjunta com o Conselho Nacional de Saúde, onde discutiremos o controle social no âmbito da seguridade social. Isso nos permitirá provocar, uma grande discussão em torno dos desafios que enfrentamos para promover a intersetorialidade entre assistência social, previdência e saúde.

Também faremos uma outra oficina com o Conselho Nacional das Pessoas com Deficiência, para discutir o papel dos conselhos de políticas e de direitos, buscando mostrar ao mundo como temos evoluído no Brasil, e os desafios que temos enfrentados para a consolidação desses espaços de participação.

Infelizmente, mesmo contando com a participação de chefes de estados e lideranças políticas de diferentes tendências, o fórum acaba ocupando pouco espaço na mídia, o que deixa milhões de brasileiros alheios a esse movimento que ocorre no país. Precisamos, por isso, fazer um movimento contrário; dar visibilidade ao fórum, significa  direcionar os holofotes para  as lutas sociais e a um chamamento para um mundo onde cada vez mais pessoas deixam sua condição de subalternidade social, para o exercício de um protagonismo efetivo na construção dos rumos da sociedade  em que vivem.

Convido você a acompanhar pelas redes sociais, pelo jornal, enfim por meio dos espaços que venham a produzir informações sobre tudo o que vai acontecer por aqui até o dia vinte e nove. Pessoalmente estarei mandando notícias telo twitter, @blogdoferrari e facebook no endereço facebook.com/professorferrari.b

Pequenos Trechos – Parte Final

Conforme prometido na última semana, continuo a compartilhar um pouco do que tenho lido nessas férias. Reafirmo que não há nenhuma pretensão de se fazer com essas reflexões qualquer tipo de crítica literária ou análise dos textos aqui citados. O que pretendo de fato é trocar ideias, na perspectiva de dividir um pouco de minhas impressões, e com isso mostrar como procuro construir minhas opiniões a respeito de assuntos tão diversos, que acabo tratando nesse espaço ao longo do tempo.

 

Quero começar essa segunda etapa de nossa conversa pelo primeiro poema escrito por Alberto Caeiro, heterônemo de Fernando Pessoa. Trata-se do texto “Guardador de Rebanhos”, escrito em 8 de março de 1914,  e segundo o próprio Fernando Pessoa, dia mais triunfal de sua vida. Curto, porém com um riquíssimo conteúdo, o poema nos convida a olhar o mundo  buscando sempre a beleza única de cada momento, enxergando cada coisa com a  surpresa de uma criança que acaba de nascer. Escreveu Caeiro: “O mundo não se fez para pensarmos nele (pensar é estar doente dos olhos)”. Mais do que  buscarmos a todo tempo entender as coisas, o “mestre” de Pessoa, como ele certa vez mesmo afirmou, nos convida a viver e ver o mundo como ele de fato se apresenta!

 

Também nessas férias tive o prazer de conhecer Mia Couto. Moçambicano, nascido em 1955, reputo como imperdível para quem gosta de um bom texto. Em meio a romances, crônicas e contos, ele nos permite ter contato com um português diferente, fácil de ler e desafiador pelo ineditismo. No conto “Conversas em Camponês”, ele fecha o texto com a frase: “Feliz é a vaca que não pressente que, um dia, vai ser sapato”. Com bom humor e um requinte natural, ele nos convida a pensar sobre a  “alienação / irracionalidade”, como quase um bálsamo para a  sobrevivência de determinados indivíduos ou grupos.

Mesmo não destacando trechos específicos, não poderia deixar de falar sobre minha releitura de “Leite Derramado”, de Chico Buarque. Tanto na primeira vez que li como agora, acabei começando e terminando o livro no mesmo dia, pois a sensação ao ler foi  quase que de impotência, diante da possibilidade de interromper a leitura. A história de um velho homem, contada por seus delírios e lembranças à beira da morte, em um leito de hospital, nos faz viajar e conhecer uma vida de glamour, a decadência e a incredulidade do personagem diante de sua situação atual. O livro nos convida a pensar que nossos momentos felizes, mais do que a alegria materializada no presente, também podem se manifestar no futuro, preenchendo vazios sob a forma de dor e arrependimento, ou mesmo como uma saudade boa, que buscaremos a todo custo cultivar, seja revendo fotos, falando sobre ou mesmo tentando reviver.

Pequenos Trechos – parte I

Nessas férias, como de costume, tenho dedicado boa parte do meu tempo a revisitar minha biblioteca. É engraçado pois mesmo cuidando desse espaço durante todo o ano e passando por lá por algumas vezes, tenho a impressão que é nesses dias de fato que tenho condições de me aproximar com liberdade de meus  livros.

Poder ler sem horário para parar, sem disciplina de escolha do conteúdo, ou mesmo, sem preocupação de ter que reservar aquele tempo para outras atividades, torna o encontro com quem quer que seja o autor escolhido bem mais agradável.

Esse ano, resolvi dividir um pouco de minhas explorações literárias com vocês. Falar então de inclusão e cidadania de forma indireta, trazendo pensamentos que tratam do todo, e que se discutidos ou quem sabe incorporados em certa medida, poderiam resultar em uma sociedade bem mais “humana”. Costumo dizer que ler sem compartilhar é como fazer churrasco para si mesmo, ou seja, não tem o menor sentido. Comentar com amigos, postar trechos em redes sociais, sublinhar trechos para relembrar posteriormente; essas podem ser algumas das estratégias para não represar tanta coisa boa que vamos encontrando pelo caminho. Por aqui, vou trazer em duas semanas o que mais me tocou, e espero que possamos por e-mail ou pelas redes sociais, continuar trocando ideias a partir também das impressões de vocês.

Inicio essa partilha dizendo que é impossível não se encantar e se transformar com o livro ‘O Amor que Acende a Lua’, de Rubem Alves. O livro de 1999 fala do amor, trazendo como pano de fundo coisas simples do cotidiano. Na obra, Rubem Alves reafirma o seu jeito genial de se fazer compreender por meio de uma escrita fácil, tratando questões profundas, com  as quais muitas vezes não queremos ou não temos oportunidade de dialogar. O livro traz um conjunto de crônicas, recheadas por muitas provocações e reflexões. Segue alguns pequenos pensamentos para quem quiser mergulhar depois na obra por completo: “Saber sofrer é parte da sabedoria de viver”; “Quem presta muita atenção no que é dito não consegue escutar o essencial. O essencial se encontra fora das palavras”; “Jesus ordenou ‘amar o próximo’. Porque é fácil amar o distante. O próximo é aquele que está no meu caminho, que tem o poder de me dizer não”.

Para encerrar essa primeira parte, quero deixar um pensamento de Cecília Meireles. Ainda não tinha lido com profundidade a autora que levou o nome do Brasil para o mundo com tanto brilhantismo. Minha paixão foi imediata, e melhor do que explicar o porquê, creio que seja resgatar um pequeno fragmento da crônica Compras de Natal. Vejam como, mesmo nos deixando há quase quarenta anos, a professora doutora carioca consegue ser tão atual e direta, sem abandonar a beleza de emocionar com palavras. Olhando para o ímpeto de consumo já vigente nos natais daqueles tempos, disse ela: “Presente é presente, isto é, um objeto extremamente raro e caro, que não sirva a bem dizer para coisa alguma. Por isso é que os lojistas, num louvável esforço de imaginação, organizam suas sugestões para os compradores, valendo-se de recursos que são a própria imagem da ilusão. Numa grande caixa de plástico transparente (que não serve para nada), repleta de fitas de papel celofane (que para nada servem), coloca-se um sabonete em forma de flor (que nem se possa guardar como flor nem usar como sabonete), e cobra-se pelo adorável conjunto o preço de uma cesta de rosas.”