Das bielas ao picadão

É bacana quando olhando pra casa a gente consegue ver exemplos que nos permitem refletir sobre as grandes transformações vivenciadas por nós ao longo de nossa história. Geralmente acaba não sendo assim; acabamos não percebendo enormes revoluções por nós protagonizadas, tal é o ritmo acelerado que vivemos.
Mas como disse, posso nesse texto trazer um exemplo concreto, que me permitirá conversar com vocês, sobre a revolução pela qual temos passado no mundo do trabalho.
Compartilho então nesse espaço um pouco da história de meu pai. O menino de família pobre que veio do interior de São Paulo na tenra infância, e que junto com os pais e irmãos desde então nunca mais deixou de trabalhar. Entregar marmitas, atuar como auxiliar de pedreiro, padeiro, até a contratação pela Volkswagem em 1971. A partir daí foram vinte e três anos na profissão de metalúrgico, e  pelo  que lembro quando eu era criança isso se  traduzia como fazer bielas.
Meu pai aposentou em meio a toda transformação do grande ABC. Fábrica dando lugar a shoppings e universidades, o setor de serviços tomando corpo paradoxialmente ao produtivo que sofria grande encolhimento por conta das novas tecnologias e da globalização. Contudo meu pai não quis deixar de trabalhar. Trocou as grandes máquinas por uma Towner coreana, onde montou uma pequena linha de montagem de cachorro-quente.
O negócio bem sucedido, foi vencido pelo cansaço e por alguns assaltos, também oriundos dos tempos modernos. Meu pai de novo não desistiu. Foi trabalhar em um restaurante de meu tio, também ex-metalúrgico e gostou tanto da coisa que me convidou para ser sócio de um empreendimento próprio. Nasceu o restaurante Bom de Garfo, atual paixão do seu Sebastião, o Rei do Picadão.
Contei essa historinha para conversar com vocês sobre a importância de ressignificar nosso entendimento quanto ao mundo do trabalho. Já vivemos a era de que se entendia o trabalho como algo ruim, depois tivemos conviver com os trabalhadores compulsivos que achavam que a qualidade de seu trabalho estava ligada ao número de horas por dia trabalhadas, e agora dentre outras coisas podemos celebrar a possibilidade de contemplarmos o ócio.
Isso mesmo! Não trabalhar pode ser uma excelente estratégia para poder trabalhar melhor. Pensar em novas profissões, em novos espaços de atuação, enfim em novas formas de geração de renda, e outras possibilidades de fazeres, deve ser um desafio constante para cada um de nós. Assim, também são repensadas as motivações e estratégias para contratação.
Aquela empresa que deixava de contratar alguém por conta de uma tatuagem, pela cor da pele, pela condição sexual, por uma deficiência, ou até mesmo pela idade, está morrendo pois sua postura preconceituosa, tem lhe tapado os olhos para novas oportunidades de mercado.
Estamos em meio a era do conhecimento e da informação, e a cada dia mais do que fazer muito, somos chamados a fazer bem. Na semana do dia do trabalho, celebremos nossos novos desafios e contemplemos o ócio quando possível com a dignidade de grandes trabalhadores do novo tempo.

Da filantropia ao direito

Esse foi o tema de uma fala que fiz hoje pela manhã na FAPCOM, Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação.  O tema inquietante e provocativo, fez parte de uma série de ações promovidas pela PIA São Paulo em parcerias com atores como a Sedesc, Secretaria de Desenvolvimento Social e Cidadania da Prefeitura de São Bernardo do Campo, no sentido de qualificar os debates e a formação no âmbito do SUAS, Sistema Único de Assistência Social.
Quando comecei a trabalhar na montagem da apresentação, percebi as inúmeras facetas, das quais poderia partir para desenvolver o tema. Por exemplo, poderia traçar um conjunto de reflexões em torno do conceito de filantropia, começando pelo significado da palavra oriundo do grego, “O Homem amigo do Homem”, até uma série de considerações a cerca do atual Terceiro Setor. Seguindo essa linha na mesma fala, poderia eu trazer algumas leituras  do que poderia se entender por direito, e dos riscos em se relativizar a compreensão  em relação a essa questão.
Trabalhando no texto percebi no entanto que em se tratando de Assistência Social, as reflexões mereceriam para esse momento um outro contorno. Desisti da ideia dos slides e fui para a palestra com o espírito de um contador de histórias. Tive claro, pensando no assunto, que mais do que problematizar a partir de conceitos, o importante neste caso é resgatar momentos da história do Brasil, falando deles sem medos nem preconceitos.
Comecei então lembrando que durante muitas décadas no Brasil e no mundo foram as organizações filantrópicas, as responsáveis por atender demandas de públicos vuneráveis esquecidos pelo Estado. Idosos, pessoas com deficiências, crianças em situação de abandono, dentre tantos outros, não eram reconhecidos por nossa legislação enquanto cidadãos detentores de direitos. Assim gestores públicos e abnegados dirigentes de entidades só tinham como possibilidades de ofertas de serviços essenciais como saúde, educação, apenas dois caminhos: o reconhecimento dos que pagavam para tal, diretamente para prestadores de serviços ou indiretamente via impostos, e por outro lado os desprovidos de qualquer proteção, socorridos pelas ajudas das entidades.
Com o advento da Constituição de 1988, o legislador botou na Carta Magna Brasileira, a Seguridade Social, considerando como direito de todos a saúde, a Previdência e a Assistência Social. Desde então sociedade civil organizada, e o Estado Brasileiro passaram a discutir o que de fato cabe a cada política pública, e estratégias de estruturação de redes para atendimento das demandas a serem atendidas.
Com isso fazer filantropia ganhou um novo significado, assim como ser secretário da pasta de assistência Social ou  área responsável, também passou a exigir novas competências. O vereador simpático e falante, amigo do prefeito, que sempre ganhou voto conseguindo caixão e roupinhas para recém-nascidos, pode continuar amealhando votos, porém não atinge o perfil mínimo para poder ser nomeado comandante de uma política que agora tem fluxos e protocolos. Saímos da era favor e adentramos na era do direito.
Nesse espaço  infelizmente não vou poder compartilhar todas as  idéias que  trabalhei na Paulus hoje pela manhã. O mais importante creio contudo que deva ficar registrado; vivemos um momento que faz-se fundamental a articulação entre a rede estatal e não estatal, rompendo com a lógica que sataniza as organizações não-governamentais colocando todas na vala comum de  pilantrópicas. Por outro lado não podemos ser ingênuos ao ponto de acreditar que a sociedade civil, dará conta sozinha das demandas sociais. Como está escrito na Lei Orgânica de Assistência Social, a política pública é um direito do cidadão e um dever do estado, e em assim sendo todos devem juntos trabalhar na perspectiva de que ao final das contas, o paradigma em torno dessa questão seja reconstruído, e o usuário da política, o principal beneficiado.

Nossos brasis

Hoje escrevo-lhes de Manaus. Estou aqui presidindo a 199ª Reunião do Conselho Nacional de Assistência Social – CNAS.
Duas vezes por ano o conselho sai de Brasília e elege uma região do país para realizar sua reunião na perspectiva de dentre outras coisas fazer o debate referente a política pública, considerando as especificidades locais.
Talvez pra você que nunca tenha participado diretamente de um processo como esse, toda essa conversa possa parecer um tanto quanto estranha. Mas chamo a atenção para discutirmos  um pouco sobre a riqueza cultural, natural e demográfica que podemos encontrar em cada canto do Brasil.
Lembra de sua última viagem? O prato diferente, a arquitetura local, as  músicas e vestimentas preferidas da população daquela cidade.  Nós que vivemos na grande São Paulo não precisamos ir longe para já encontrar enormes diferenças.
Aqui no calor de Manaus, em meio a debates profundos sobre as mais diferentes necessidades identificadas por gestores, trabalhadores e usuários da política, também vejo as inúmeras riquezas, das quais nos enche de orgulho de viver em um país tão heterogêneo.
Um pouco antes de começar a escrever essa coluna, acabei de assistir um vídeo mostrando os esforços do governo do Estado para fazer com que as ações afirmativas, pensadas na perspectivas de garantir direitos possam chegar até o cidadão.
Barcos enormes vão aos mais longínquos territórios , permitindo a populações inteiras acessar direitos básicos, como por exemplo o documento de registro civil de nascimento. As pessoas ainda podem acessar aposentadoria, e demais direitos previdenciários, dar entrada em programas de transferência de renda como bolsa família, além de ter acesso ao crédito, para viabilizar pequenos negócios locais.
Aqui comemos tambaqui, pirarucu, e tucunaré. Ouvimos em cada canto a riqueza da musicalidade local, e esbarramos a todo momento com pessoas apaixonadas e orgulhosas pelos bois Garantido e Caprichoso.
No Amazonas é bom demais ouvir como seus moradores falam orgulhosos de seus rios, fauna e flora. Cantam o hino do estado e por vezes declamam poemas exaltando suas belezas.
Muitas vezes ainda não nos damos conta de nossos Brasis. Ainda ouvimos gente escorregando na repetição preconceituosa e autodiscriminatória de frases como: “Só pode ser coisa de Brasileiro”!
É claro que auto-crítica sempre é bom. Mas isso também significa reconhecer e valorizar tudo o que temos de bom. Assim fecho esse texto agradecendo a acolhida do povo Manauara, o carinho dos demais militantes da Assistência Social que chegaram aqui das cinco regiões do país, e principalmente a Deus pela dádiva de ser Brasileiro.

A voz de uma organização

Qual a última que você lembra? Falo da voz de uma empresa, de uma organização que você tenha ligado para reclamar, fazer um elogio, comprar, enfim fazer uma consulta. Talvez,  sua lembrança não seja nem de uma que você tenha ligado, mas aquela que tocou em seu telefone para oferecer uma promoção, fazer uma pesquisa, ou mesmo a divulgação “despretensiosa” de algum produto.
São inúmeras as possibilidades atuais de conversarmos com uma marca por telefone, e infelizmente nem sempre nossas recordações são tão boas. Aquela pessoa que te deixou esperando por uma eternidade e de repente deixou com que a ligação caísse por quatro vezes seguidas, tenho certeza nunca mais você esquece. Como também não dá para deixar de lembrar do bombardeio de palavras no gerúndio para expllicar o inexplicável, ou para vender o desnecessário. Fato concreto, os profissionais de contact center, bem ou mal, cada dia mais fazem parte de nossas vidas.
Por isso, a AVAPE, organização que faço parte da direção, e que da qual por muitas vezes já falei por aqui, decidiu buscar parcerias para estruturar uma forma de alavancar sua sustentabilidade, a partir desse segmento de mercado. A idéia era simples, estruturar um Contact Center, que pudesse gerar emprego em renda para pessoas com deficiências, “em linha com a missão da entidade”, também empregando mulheres, beneficiários de programas sócio-assistenciais, idosos, somando a isso uma alternativa de sustentabilidade para a organização e para a viabilização de outros programas ofertados por ela, sempre visando o cumprimento de sua  missão institucional. O sonho virou realidade, pois graças a uma parceria com o Banco Interamericano de Desenvolvimento, BID, conseguiu-se estruturar no Rudge Ramos, uma unidade com capacidade de capacitação  e geraçção de mais de seiscentos empregos.
O projeto que nasceu em 2007, tomou corpo e para além de todas nossas expectativas, foi nos mostrando que poderíamos para além dos objetivos já mencionados acima, também ressignificar a proposta de Call Center. Descobrimos que não necessariamente poderiam ser serviços ofertados por nós, apenas vendas, cobranças, enfim o que a população está acostumada a tomar contato. Também poderíamos ser a voz social de organizações públicas e privadas. Foi assim que iniciamos parcerias para a formatação de um serviço de suporte de acesso a  vagas de trabalho, em parceria com o Emprega São Paulo do Governo do Estado, com enorme sucesso e concluído superando todas as expctativas. Também consolidamos uma parceria com a Prefeitura Municipal de Santo André para atendimento aos munícipes, e com a defensoria pública de Guarulhos, com a filosofia de sempre trabalhar um atendimento humanizado, em um espaço estruturado para transformar  a vida das pessoas que atendem,  e que são atendiddas.
Por fim quero relatar nosso maior exemplo de sucesso. Trata-se do SAMU (192), Serviço de Atendimento Móvel de Urgência da Cidade de São Paulo. Ali pessoas com deficiências são responsáveis pelo primeiro atendimento dos mais de nove mil paulistanos que diariamente utilizam o serviço. No SaMU não apenas salvamos vidas que chamam do outro lado da linha, nossos colaboradores também ressignificaram  suas histórias quando nessa função, a cada mês têm melhorado os  índices de  eficiência do trabalho, colocando o SAMU da cidade de São Paulo, no nível de serviços de atendimento de urgências, de cidades do primeiro mundo.
Nossa diferença, é que uma deficiência não se torna empecilho para trabalhar, pois nesse caso, configura-se  em um  estímulo a mais para luta pela vida.

Fim das promessas

Todo mundo conhece alguém que no período de quaresma firma compromisso de alguma determinada privação.
Pessoalmente tenho um amigo que disse que depois do resguardo no  próximo fim de semana vai enfiar o pé na jaca. Também lembro bem do pai de um colega de escola que ficava os quarenta dias sem fazer a  barba e cortar  o cabelo.
Não tenho dúvidas que existem milhares de explicações para isso, com fundamentações baseadas na psicologia, antropologia, na religião e nas diferentes culturas de cada povo.
Sendo assim, não serei eu que vou tentar entender e nem explicar tais hábitos. Pretendo apenas aproveitar essa semana bacana que antecede a páscoa, para refletir  com vocês, como lidamos com a auto privação e com nossa satisfação pessoal.
Explico melhor! Convido-lhes a pensar, independente de qualquer viés religioso ou filosófico, como por vezes nos sacrificamos ou nos privamos, com a expectativa inconsciente de que isso venha como um remédio para eventuais problemas enfrentados no dia a dia. Vejam um exemplo que pode parecer óbvio, nunca você connheceu quem quer que seja, que prometeu fazer algo que adorava, seja para Deus, seja para si mesmo, se conseguisse alcançar determinado objetivo. Isso prquê a lógica pela qual nos condicionamos é exatamente oposta, isto é,  “me penaliso, e logo sou beneficiado”.
Em tempos de celebrar a ressurreição de Cristo, o renascimento, enfim, o início de um novo ciclo, lhes convido também a pensar na possibilidade de ressignificarmos nossos compromissos interiores. Já pensou por exemplo ao invés de deixar de comer aquele prato prefirido por dois meses caso venha a passar no vestibular,  em comê-lo uma vez ao menos por semana ao lado do melhor amigo ou da pessoa amada?
Assim, deixar de fazer algo que gostamos  pode ser uma escolha e não mais um culto ao sofrimento.