Discurso Naftalina

Preciso antes de qualquer coisa, dizer: esse não é um texto ofensivo ou tão pouco persecutório; as simpáticas bolinhas que deixam cheiro de guardado. Apenas recorro a elas para qualificar um tipo de discurso presente na vida de todos nós. Falo daquelas tais falas recorrentes, repetidas, aquelas que acabam se configurando como a marca registrada de muitos de com os quais temos contato, e que se fôssemos parar para entender o porquê de tamanha insistência na mesma tecla, talvez nem o dono da velha falação não saberia explicar a causa de tantas vezes resgatá-la do  baú.
Exemplificando melhor, lembra aquele amigo que você só encontra em festa de criança ou em velório de parente distante? Junto com o rosto inevitável de não se lembrar diante de tal indicativo, com certeza deve vir junto batendo fundo lá em sua memória auditiva, aquela história que tal figura sempre te conta como se fosse a primeira vez. Bem, mas até aí pode ser que seja justificável, ou melhor fácil de se explicar, afinal são meses ou até anos sem se ver, é natural que a velha história seja sempre repetida não por persistência do velho conhecido, mas quem sabe por esquecimento!
Outros casos, no entanto, nem Freud explica. Aproveitando que estamos chegando as vésperas de eleição, olha só para alguns de nossos conhecidos candidatos. Resgate suas últimas falas, em um período de uma ou duas décadas. É assustador o grande desperdício de gravador, estúdio e cordas vocais! Dada a insistência com o conteúdo, bastaria ter gravado uma vez, pois as mesmas ideias e colocações, sempre voltam como que se tal pretenso futuro eleito, não tivesse nada mais a dizer.
Problematizo tais situações, pois penso que os discursos recorrentes, em muitos casos não são uma escolha consciente. Trata-se de um comodismo verbal e porque não dizer retórico. Contudo paradoxalmente vivemos na era da inovação. Buscamos novos modelos de automóvel, novas possibilidades de energia, novos meios de comunicação. Assim não inovar na conversa pode significar no curto prazo enorme risco, para aqueles que buscam ser ouvidos.
Não digo com isso que devemos abrir mão de nossas convicções e velhas bandeiras. Mas sem dúvidas acredito, que podemos defendê-las e apresentá-las, com novas palavras e argumentos.
  Ouvindo esses dias Max Guerenger, conceituado pensador de questões referentes ao mundo corporativo, me peguei surpreso com um dado que deu corpo a uma de suas colunas. Ele dizia que 94% dos brasileiros se colocavam como insatisfeitos com o seu trabalho. Pensando então sobre o assunto, e sobre os tais discursos naftalinas, me questionei se essas pessoas realmente estão descontentes com seu atual emprego, ou se tal reclamação não se manifesta como mais uma das tantas coisas fáceis de se repetir. Tentei aqui destacar dentre um possível ranking dos 10 assuntos que mais protagonizam as velhas ladainhas, ao menos cinco que acabamos nos deparando cotidianamente.
1. Lamentações sobre o Brasil, sempre somadas a críticas ao povo e fechando com a frase, é por isso que o Brasil não vai pra  frente!;
2. Relatório sintético das últimas dores e doenças, podendo ganhar uma reclamaçãozinha adicional caso o interlocutor esteja também apresentando seu relato de sofrimento;
3. Culpabilização de alguém ou de algo, por determinado fracasso pessoal e/ou profissional. As autocríticas quando vêem apenas se dão na seguinte perspectiva: ˜Mas eu fui o maior culpado, fui bom demais, me doei demais, fiz o que ninguém jamais faria!”
4. História que trás como enredo principal as principais qualidades do contador, ou aquele grande feito que ele fez e que infelizmente ninguém nunca valorizou;
5. Teorias políticas que explicam todos os problemas da humanidade, daquelas do tipo, é culpa do neo-liberalismo, dos comunistas, dos petistas e dos tucanos.
Como falei no início estamos todos sempre correndo o risco de nos tornar repetitivos, portanto antes que eu incorra nesse erro é melhor dizer até logo, e como alguém um dia já falou, virar o disco…

Uma fração de agradecimentos

Chegando ao momento da realização da 200ª Reunião Ordinária do CNAS, que também marca a conclusão de um ciclo para mim enquanto conselheiro nacional e presidente desse colegiado, me decidi manifestar da forma que penso conseguir traduzir melhor os meus sentimentos. Como costumo dizer, escrevendo acredito poder esculpir idéias por meio de palavras. Para tal gostaria de aproveitar o número histórico de reuniões para duzentas vezes poder agradecer, e refletir sobre tantos momentos vividos nessa jornada, mas pensando melhor cheguei à conclusão que fracionando esse número pela sua vigésima  parte, chegaria a um texto bem menor e quem sabe merecedor de uma pequena parte de seu  tempo. para leitura.
Começo agradecendo os conselheiros nacionais que hoje compõem esse colegiado e tantos outros que passaram por aqui, com os quais tive o privilégio de conviver. Com eles não apenas aprendi muito sobre a Política Pública de Assistência Social. Foram grandes aulas sobre articulação política, comportamento humano, defesa de concepções e compromisso com os princípios da democracia participativa. Ser resiliente, sem em alguns momentos deixar de ser firme na luta por direitos, trabalhar com bom humor  sem esquecer  a importância  de valorizar os ritos que tanto qualificam as discussões desse pleno, ser líder nunca esquecendo da necessidade de que essa liderança seja compartilhada; foram lições que cada conselheiro nacional contribuiu para que eu podesse aprender e me ressignificar enquanto agente público nesses quatro anos de CNAS.
O segundo público ao qual me dirijo são os conselheiros estaduais e municipais que pude conhecer nas dezenas de viagens que fiz por vinte e cinco estados desse   país. Na pessoa de cada um, agradeço a cada brasileiro que em sua cidade sempre me recebeu com tanto carinho. Tenham a certeza que cada abraço apertado, retrato tirado,  bate-papo, discussão em plenária; têm um espaço guardado em minha  memória. Aprendi chegando em cada município a ser mais brasileiro. Com suas músicas, danças, comidas e estratégias de gestão pública e de controle social, pude vivenciar de fato um Brasil em transformação e o melhor, tendo a clareza  que fazemos parte dessa revolução.
Continuando minha lista, falo agora com os trabalhadores do controle social. Mais a frente me dirijo aos trabalhadores da política como um todo e não posso deixar de dizer que tenho convicção que estes também fazem parte desse coletivo. Faço essa distinção, no entanto, visto que por mais que tenhamos avançado, ainda não está claro nem para muitos que militam na política, a importância desse segmento, e a necessidade de se demarcar esse lugar. Secretários(as) executivos(as) e demais trabalhadores da equipe técnica dos milhares de conselhos desse país, não são trabalhadores da gestão, portanto devem ter assegurada sua autonomia para assessorar conselheiros, dando subsídios para que eles potencializem sua atuação, independente de que esta seja favorável ou contrária aos que estão no poder. Encontrei nas cinco regiões desse país, profissionais apaixonados e comprometidos com o SUAS, muitas vezes colocando em risco sua própria condição profissional em nome da política pública. Felizmente em âmbito nacional temos no CNAS uma equipe que representa com competência e comprometimento, toda essa rede de trabalhadores do controle social, e não tenho dúvida em afirmar que boa parte do sucesso de meu trabalho, nessa instância de deliberação, deve-se ao apoio desse time. Na pessoa da competente profissional, Mercês, agradeço a todos de coração.
Sem qualquer ordem de prioridade eleita por mim para elencar os públicos com os quais quero conversar, chego ao quarto dentre os dez trazidos nesse texto. Nas pessoas do amigo Renato Francisco dos Santos Paula e da Exma. Ministra Tereza Campello, agradeço a acolhida e me arrisco a dizer a tolerância de cada membro desse governo para comigo nos inúmeros debates realizados por nós nesse período.  Dirijo-me então a todos que fazem parte do governo federal e digo isso, pois cheguei nesse espaço sem a qualificação técnica necessária, para poder participar das discussões com o mesmo nível de preparação daqueles que aqui já estavam e que tanto trabalharam para a implementação dessa política. Por conta disso muitas vezes travamos discussões aparentemente equivocadas, mas que foram fundamentais para que eu buscasse em um menor espaço de tempo possível, me apropriar dos conteúdos e dar uma contribuição a altura de um SUAS que o Brasil merece. Aprendi, a partir de então, que governo e sociedade civil não estão em lados opostos. Muitas vezes pensamos diferente, porém nosso compromisso comum com a democracia nos leva a construir consensos. Quero dizer que cada momento que tensionamos além de nos ofertar um aprendizado comum, teve como grandes beneficiados, os usuários dessa política.
A propósito, usuários do SUAS, agora me dirijo a vocês escrevendo e lembrando de quando cheguei no CNAS. Já no dia da posse, senti o impacto das falas que traziam como pano de fundo a idéia de que eu não representava nosso segmento. O anseio por qualificar a participação popular, fez com que alguns buscassem em esteriótipos ou símbolos, uma alternativa para validar seus discursos, infelizmente tão preconceituosos e excludentes quanto as posturas anteriores que por décadas mantiveram a margem dos debates políticos aqueles que deveriam ser de fato, os principais atores. Contudo avançamos. Pude mostrar minha história e apresentar  a organização a qual represento.  Dessa maneira consegui não apenas no Conselho Nacional, mas por todo país no  segmento ao qual represento, o principal aliado para qualificar meu discurso e ter sempre boas devolutivas baseada em uma leitura crítica referente a forma que atuei nesse espaço. Somos cada vez mais de fato protagonistas dessa política, e precisamos avançar para que essa seja uma realidade de todo o sistema independente da esfera de governo ou do porte do município.
Inicio a segunda metade desse documento falando com os fóruns. Alternativa moderna, inovadora, e mais, sem medo de errar, afirmo ser a principal forma de oxigenação da participação popular no Brasil. Tive a honra de ver nascer o Fórum Nacional dos Trabalhadores do SUAS, de poder trabalhar pela qualificação da relação entre CNAS e FONACEAS, e de ver o Fórum Nacional de Assistência Social se reorganizar,  trazendo para o debate boas e novas bandeiras. Participei e aprendi muito com reuniões de fóruns regionais, estaduais e municipais e saio daqui convicto de que devemos lutar pela constituição do Fórum Nacional de Usuários do SUAS.
Entidades e organizações de Assistência Social, penso que antes de manifestar qualquer menção de agradecimento, devo parabenizá-las. Não tem sido fácil a caminhada desse segmento que hoje avalio pessoalmente, acabaram (não vem ao caso o motivo), sem ter nesses sete anos de implementação do SUAS, um olhar para suas demandas, do mesmo nível em que demos para a rede estatal. Contudo agradeço a essas organizações que independente de quaisquer cenários, tem lutado e contribuído para que pudéssemos dentre outras coisas celebrar o reconhecimento do SUAS em lei. Saio deste conselho com a impressão de que um momento novo se avizinha, e me parece que existe por parte da Secretaria Nacional de Assistência Social, a sensibilidade e a determinação para capitanear uma grande ação nacional junto às trës esferas de governo, envidando esforços para corrigir esse equívoco histórico.
Agradeço ao FONSEAS  e CONGEMAS: o aprendizado que tive com seus representantes no plenário do CNAS, me permitiu compreender de maneira ampla a complexidade de nosso pacto federativo,  tendo claro a necessidade de construirmos parâmetros nacionais, sem perder de vista o reconhecimento irrestrito da  autonomia dos entes federados.
Perto de concluir esse texto como já havia dito, que faria, dirijo-me agora aos trabalhadores do SUAS. Penso que se fosse dar uma marca para minha gestão na condição de Presidente do Conselho Nacional, esta sem dúvidas estaria diretamente ligada às conquistas desse segmento. Saio com a expectativa de poder celebrar em breve a instalação da mesa nacional de negociação e o reconhecimento dos trabalhadores de nível médio da política.
Por fim abraço os futuros conselheiros. Desejo-lhes sorte e agradeço a eles e suas organizações, por acreditar na importância do controle social, se dispondo a doar seu tempo e conhecimento, para avançar nos próximos dois anos na consolidação do SUAS. Espero que consigam superar desafios infelizmente ainda não suplantados por essa gestão, dos quais destaco:
O resgate da autonomia da gestão dos recursos financeiros destinados a esse colegiado por meio da Ação 8249;
Lutar pela melhoria dos espaços físicos, dando maior qualidade de trabalho aos servidores, ao público que acompanha as reuniões,  aos   conselheiros, membros da CIT, FONSEAS e outros atores que se reúnem nesse plenário;
Conquistar junto ao legislativo brasileiro a inclusão das despesas da assistência social na lei de diretrizes orçamentárias.
Com certeza mesmo tomando por estratégia subdividir tantos amigos e segmentos importantes da política pública em dez grandes grupos, não fez com que eu conseguisse atingir a universalidade dos atores que tanto contribuiram para que eu chegasse até aqui com a sensação de dever cumprido. Sendo assim nas pessoas de inúmeors professores doutores oriundos de Universidades, institutos de pesquisas e outros espaços de produção de conhecimento sempre tão importantes na construção dessa política, agradeço  a parceiros do legislativo, do judiciário, e tantos outros fundamentais para escrevermos essa parte da história.
Despeço-me abraçando aos mestres com carinho e deixando a todos um até breve.

Você faz parte da solução

Lembro bem do saudoso vice-presidente José Alencar, levando toda a imprensa a loucura com suas contundentes falas sobre os altos juros praticados pelo Brasil a partir das decisões de nosso Banco Central. Com muita habilidade política e principalmente uma visão de dar inveja a doutores em economia, o então presidente Lula administrava o problema deixando claro seu desconforto com o cenário, mas sua convicção de que o remédio amargo era mas que necessário para que conquistássemos as importantes reservas cambiais, e reposicionassemos o Brasil no mapa econômico mundial rompendo de vez com o fantasma da inflação. É fato concreto que apenas os juros altos não foram isoladamente a alavanca que fez com que hoje nos posicionemos não mas como uma promessa mas sim, como uma realidade dentre os principais mercados do mundo. Também agora podemos constatar que a busca pela “soberania sócio-econômica” é uma luta que demanda sempre novos cuidados e estratégias. Assim os juros altos que pagamos durante anos para fazer frente a crises e as nossas próprias fragilidades, agora já podem começar a cair em nome do crescimento do consumo interno, da redução da dívida pública e da necessidade urgente de estimularmos o surgimento de cada vez mais investimentos no país.

Essa análise que não é minha mas sim de nossa presidenta, permite a todos os Brasileiros vislumbrarem no curto prazo, uma perspectiva totalmente nova de acesso ao crédito. Aliás devemos lembrar que independente da qualidade, o acesso a essas novas possibilidades de são bastante recentes. Com o crescimento do emprego e com a decisão do estado em estimular a inserção das classes C e D cada vez mais no mercado de consumo, foram desenvolvidas campanhas e mecanismos que permitissem pessoas passarem a poder sonhar com o primeiro carro, um novo eletrodoméstico e até com a primeira casa.

Agora o debate é em torno da qualificação desse crédito. O discurso preconceituoso e mal-intencionado de se manter juros altos em nome da grande inadimplência, tem perdido a força, e a agiotagem oficial de juros que chegam a mais de 200% ao ano parece estar com os dias contados.

Para que possamos futuramente poder celebrar mais esse salto de “qualidade de vida, financeira” dois fatores são fundamentais. Primeiro é claro o compromisso seguido de ações efetivas dos bancos públicos. São eles que poderão dar o choque de realidade que o mercado obviamente não quer ver. Na outra ponta estamos nós; esse é o momento que cada correntista deve se manifestar e se posicionar como consumidor, exigente e sabedor das novas possibilidades de mercado. Ligar para o gerente, negociar novas taxas, buscar outros bancos. Fazer os juros caírem na ponta, passa pela necessidade de um tensionamento na relação entre oferta e procura.

Assim teremos que ser fortes e resistentes diante das negativas e inúmeras desculpas com aquela linguagem técnica e pesada, excelente para desanimar qualquer cristão ou ateu. Cidadãos brasileiros também para avançar terão que ter claro que crédito não é favor de banco, e pode sim ser questionado.

Com esse texto não quero chamar para nós consumidores a responsabilidade de mudar uma lógica perversa que se perfaz por décadas nesse país. Seria uma visão ingênua e até injusta, para com quem até hoje foi vítima de um processo aparentemente sem solução. O que afirmo aqui é que temos a oportunidade de fazer parte da conquista dessa mudança, e que essa transformação poderá não só significar a solução de um problema pessoal, mas melhor que isso, pode significar a construção de histórias de vida com roteiros bem mais felizes.