Copo Sujo

Essa, sem dúvidas, é daquelas expressões que dá nó na cabeça de qualquer gringo bem esforçado que venha tentar aprender o português. Isso porquê trás consigo a descrição de um comércio longe dos padrões de limpeza e qualidade, contudo remete também para muitos, a ideia de um lugar simples, agradável, enfim, um lugar bom de se ir.
Convenhamos que esse paradoxo linguístico, funciona bem mais lá pelos lados  da boa conversa. Na prática, independente do gosto mais simples ou refinado, as pessoas buscam sempre um padrão mínimo de higiene para suas refeições, happy hours, ou quaisquer outros derivativos de caráter “butecológicos”.
Neologismos à parte, como bom amante dos simpáticos copos sujos espalhados pelo país, escolhi esse exemplo para trazer para essa conversa um assunto bem mais complexo., porém não menos instigante. A propósito daria um bom bate-papo de mesa de bar, discutir, os  avanços das políticas públicas na regulação das  relações entre estado e sociedade. Calma, calma, que não bebi, e rapidamente você vai perceber o que esse belo tema tem haver com os  deliciosos torresminhos e  cervejas   geladas  vendidos aos montes nos espaços que cederam o nome para nossa coluna semanal.
Com maior ou menor grau de conhecimento sobre a relação entre estado e sociedade,  independente do viés ideológico, qualquer cidadão brasileiro hoje consegue perceber onde  a regulação estatal  chega. É claro que a limpeza, o capricho, a cara do negócio, ou seja,  toda essa formatação que se dá independente do ramo de atividade, depende de uma série de concepções e convicções de seus fundadores proprietários. Contudo a vigilância sanitária, as fiscalizações organizadas a partir do município,  a regulação das coisas e do jeito de fazer,  cada vez tem sido um fenômeno mais presente na vida das empresas e das pessoas.
Infelizmente no Brasil, muita dessa estrutura cresceu  desacreditada, em virtude de  um comportamento recorrente de comerciantes e  fiscais que por muitas vezes substituiu um avanço civilizatório pactuado por arranjos com propinas e favores ilícitos. Como podem perceber não aponto aqui culpados para os acidentes éticos que vivenciamos até aqui Para que avancemos na construção de uma sociedade com valores éticos mais  republicanos é necessário que essa seja uma escolha, ou melhor um opção das massas, que em síntese são organismos que dão vida ao país.
Com o ˜copo sujo pela metade˜, sendo visto pelos otimistas como quase cheio e pelo pessimistas praticamente vazio, o fato concreto é que hoje não se fuma mais em lugares cobertos seja na periferia ou nos jardins. Se encontramos um cabelo, ou mesmo não estamos satisfeito com determinada comida não é necessário brigar, podemos reclamar, pois já internalizamos isso como direito.
Enfim, os nossos queridos Copos Sujos, seguem cada vez mais caminhando para ascenderem o status de patrimônio de nossa história e cultura, porém a sujeira, antiga , inimiga da saúde pública, a cada vez mais vai se transformando em um velho e simpático adereço de decoração simbólica e semântica.

Oficialmente “ex”

Todo mundo um dia já foi ex. Ex-marido, ex-funcionário, ex-parte de algo. Pessoalmente, compartilho com vocês minha experiência histórica de oficialmente me tornar nesse dia onze de junho, o ex-presidente do Conselho Nacional de Assistência Social (CNAS).
Se a responsabilidade de ter estado nessa condição foi grande, tenho a convicção de que passar a “ser” tem igual significado, visto que entendo que “estar” é provisório, porém “ser” ex nos coloca em uma condição histórica irrevogável.
Sendo assim, nesta nova perspectiva, venho reafirmar junto a você, que sempre me acompanhou nesse espaço meu compromisso público com o SUAS e a Política de Assistência Social. Mais do que um discurso, essa manifestação deve se traduzir em ação, e sendo assim, que seja enquanto professor universitário, seja por meio da Federação Nacional das Avapes, ou mesmo a partir da ONCB, Organização Nacional de Cegos do Brasil, vou continuar desenvolvendo um trabalho voltado ao fortalecimento da participação popular e do controle social.
Nosso encontro semanal, faz parte desse movimento, e saibam que cada e-mail ou mesmo comentários presenciais que recebo, referente aos temas que abordo por aqui é fundamental para a qualificação de minha atuação.
Tenho a convicção que só vamos avançar na propositura de um novo jeito de fazer política, na medida em que pautarmos nossa atuação com vistas a um processo de escuta e de devolutiva do que fazemos nos espaços em que nos mobilizamos
Hoje, com essa prosa mais curtinha, me despeço, reforçando o convite para que você interaja com esse espaço, para que a cada dia façamos da troca de ideias um movimento consistente e crescente, tendo por norte a luta pela cidadania.

Nós+20!

Há pouco menos de uma semana do início da Rio+20, pensei ser oportuno que pudéssemos fazer uma reflexão sobre como caminhamos nesses últimos 20 anos, no que se refere ao tripé da sustentabilidade, que norteará os debates nessa próxima conferência realizada duas décadas depois da Eco 92. Primeiramente é importante termos claro o que atualmente se entende por sustentabilidade e para tal resgato uma definição muito feliz do jornalista Joelmir Beting, diz ele: “Sustentabilidade é nossa capacidade de atender plenamente as necessidades humanas no presente, podendo garantir plenamente as necessidades humanas do futuro, a partir das análises dos erros cometidos nesse sentido, pela humanidade no passado”.
A proposta da Rio+20, então, será debater com a presença de milhares de pessoas dentre os  quais mais de cem chefes de estado, como caminharmos para viver em um planeta sustentável, considerando as vertentes ambientais, econômicas e sociais.  Enquanto o evento não começa,  proponho que possamos  aproveitar nosso encontro semanal para  fazermos uma conversa, sobre como temos sido nós, de 92 até aqui.
Em tese penso que se a pergunta chegasse de bate-pronto, creio que a resposta deveria ser que, nós+20, temos na média nos preparado para viver como cidadãos mais alinhados com esse mundo novo. Contudo é fato também que se fizermos uma análise mais detalhada veremos que essa média anda bem justa, sendo fortemente tensionada pela incoerência entre nossos discursos e nossa prática cotidiana.
Comecemos a pensar sobre os aspectos ambientais. Se por um lado melhoramos nosso entendimento quanto a necessidade de cuidar do planeta, produzindo menos lixo, emitindo menos gases na atmosfera, cuidando sempre de nossos diversos recursos naturais, também devemos reconhecer que nosso nível de “lixobilidade” nunca esteve tão alto. Tive que enventar essa palavrinha para traduzir nosso  enorme potencial  de descarte, seja por conta dos eletro-eletrônicos que não usamos mais, das embalagens cada vez mais  sofisticadas e desnecessárias dos fast-foods, ou em virtudde dos   infindáveis números de descartáveis, cada vez mais eleitos por nós como imprescindiveis no dia a dia.
Essa situação por si só, já nos convida a pensar sobre que tipo de economia queremos  ter  para nós, nossos filhos e netos. Governos do mundo todo, buscam no crescimento  do PIB a única resposta para os problemas de desenvolvimento. Recorrendo     sempre a estratégia de estímulo ao consumo, indiscriminado, acabam criando para o planeta uma armadilha, que se traduz em uma simples equação de primeiro grau: solução é igual a problema, ou  problema sem solução é igual a única solução  possível. Felizmente  desde a Eco 92 o mundo tem encontrado verdadeiras luzes verdes no fim do túnel. Podemos celebrar iniciativas fantásticas, pautadas pelo crescimento sustentável. Pensar em  movimentar  a economia a partir da redistribuição de renda, além do estímulo a alternativas de consumo que privilegiem produtos e serviços concebidos na lógica do respeito ao meio ambiente. Esse cenário não é mais para nossa geração apenas um norte a ser seguido, ou seja, nesses últimos vinte anos, vimos o discurso da sustentabilidade se tornar a única alternativa possível para evoluirmos enquanto sociedade.
Assim concluo afirmando que Nós+20,  não evoluímos tanto quanto deveríamos, em relação a nossas condutas para com o meio ambiente. Também não adquirimos a consciência necessária para de fato termos de imediata uma economia alinhada com as necessidades do novo milênio, mas como a esperança é verde, o caminho está aberto e cheio de alternativas graças a um rearranjo de nossa sociedade, que nos permite vislumbrar num curto espaço de tempo a superação das questões econômicas e ambientais.