Brasil disputa mais uma medalha

São sempre inevitáveis as tais comparações dos feitos de atletas olímpicos e paralímpicos por parte da mídia e de tantos outros formadores de opinião de nossa sociedade. Pessoalmente, acho que isso é feito de maneira injusta, e até um pouco cruel, visto que sempre se atribui culpa àqueles que não venceram, deixando uma mensagem implícita de que faltou vontade, superação e tantas outras coisas que a gente sabe que eles têm de sobra.

 

Mas, já que se gosta tanto de comparar, quero conversar com vocês um pouco sobre como nós, brasileiros, acabamos fazendo nossas leituras. Primeiramente cabe dizer que, de fato, o esporte paralímpico nacional trata-se de uma potência mundial, e deve estar entre os sete melhores do planeta ao fim das disputas em Londres.

 

Contudo, se pudéssemos medir o número de vezes que se escreveu e verbalizou a frase que dá título a essa coluna durante os jogos olímpicos, fazendo um comparativo com o período de realização nos jogos paralímpicos, mesmo com um quantitativo de medalhas infinitamente maior, não tenho dúvidas de que, em termos de mídia e de espaço nas conversas populares, o esporte paralímpico ainda ficaria em grande desvantagem.

 

E qual seria a explicação para tal desequilíbrio? Sem qualquer pesquisa em mãos, até porque nesse sentido ainda não temos praticamente nada, me arrisco a levantar algumas hipóteses. Comecemos pelo fato concreto, de que somente agora a população brasileira começa a reconstruir seu olhar em relação à pessoa com deficiência. Até outro dia éramos percebidos como dignos de pena e agora passamos a ter heróis nacionais  “medalhados”.

 

Também precisamos falar de gestão. As conquistas não brotam do nada, ou seja, o País precisa fazer justiça a um Comitê Paralímpico Brasileiro, internacionalmente reconhecido por sua capacidade administrativa, técnica e política. Todo esse sucesso é fruto de planejamento, pesquisas científicas, transparência na gestão, e uma boa pitada de ousadia.

 

Nesta semana, começam as competições. A bandeira brasileira já está hasteada na Vila Paralímpica e agora é hora de torcer, de se emocionar e multiplicar essa informação para aqueles que ainda têm uma compreensão equivocada em relação à questão da deficiência.

 

A TV fechada transmitirá os jogos em detalhes. Você também pode acompanhar seguindo pelo Twitter @cpboficial, ou no Facebook https://www.facebook.com/ComiteParalimpico ou pelo site oficial: http://www.cpb.org.br/

 

Nas quadras, nas pistas, nos campos e nas piscinas. No mar, nos velódromos, individualmente ou em equipe, vai ter Brasil para todo lado. Nossa delegação de 182 atletas já está contagiando toda a terra da rainha, desde o dia 13 de agosto, quando chegou em Manchester para aclimatação.

 

Por aqui, estarei torcendo muito e daqui duas semanas escreverei sobre o assunto novamente para compartilhar com vocês tantas emoções!

Meu professor é cego

Disse ela que o assunto entrou lá pelo meio do almoço de domingo. A conversa era sobre ensino, e a família – apesar de ter na jovem a primeira da história a ingressar em um curso superior –, agora também cogitava a possibilidade de Osnildo, o primo de mesma idade, seguir o mesmo caminho.

Quem me conhece pessoalmente sabe que corro dessa história de ser “exemplo de vida”. Esse é um adjetivo que nós, com alguma deficiência, recebemos carinhosamente das pessoas, por acreditarem ser algo grandioso em nossas conquistas, tendo em vista a realidade concreta, fruto de nossas limitações. Bem, muitas delas realmente são. Porém, digo que não sou muito afeito a tais elogios, visto que creio não ter feito mais do que a obrigação, dado o apoio que recebi de meus pais, e talvez até menos do que deveria para viver em uma sociedade estruturada a partir de valores que exaltam a competitividade e a busca pela “perfeição”.

Mas tenho que dizer que o papo do almoço relatado por minha aluna, uns dois semestres atrás, no fim de uma aula sobre “Fundamentos de Gestão de Pessoas” já com a sala vazia, me fez pensar um pouco sobre essa ideia de ser exemplo.

Não tenho dúvidas: nós, que assumimos alguma função pública, ou mesmo um cargo de liderança, acabamos sendo referência, verdadeiros espelhos para aqueles que admiram não necessariamente a nossa pessoa, mas muitas vezes a função que exercemos.

Na macarronada de minha aluna, a notícia de que havia na Universidade um professor cego rendeu para lá da sobremesa. “Mas como o cara faz para falar?; Para saber quem está lá? Perguntava, indignado e confuso, o tio mais velho da garota, que já não gostava muito dessa ideia dela fazer um curso que ele já disse várias vezes que não  entendia para que servia. Fiquei verdadeiramente emocionado com a percepção da menina sobre meu jeito de trabalhar: “para ensinar, não precisa ver. Ele conta casos práticos, coisas que acontecem nas empresas e no dia a dia. Conversamos muito, e com um computador que fala, ele consegue trabalhar todo o conteúdo da disciplina, sem qualquer dificuldade”.

Sem saber, minha aluna estava falando com a família sobre tecnologia assistiva, inclusão social, quebra de paradigmas, novas possibilidades de ensino e aprendizagem. Descobri com ela,  que mesmo nunca tendo abordado esses conteúdos em sala, ser um professor cego é sim um diferencial que acaba me permitindo levar, mesmo que de forma  silenciosa, essas temáticas para reflexão dos alunos.

 

Osnildo, depois do macarrão, do pudim de leite, e do bate-papo sobre o professor da prima, decidiu estudar pedagogia, pois já pensava em trabalhar com crianças com  deficiência, mas até um pouco antes desse momento, ainda tinha um pouco de medo.

Decidi contar essa história depois de algum tempo, pois acredito que todos nós podemos fazer, de nossas histórias, bons exemplos, para que tantas outras possam ser escritas e reescritas.

Dia dos Pais antecipado

Sabem que nunca gostei muito daquele “clichezinho”: “dia de determinada coisa ou determinado alguém, é todo dia!”. Por outro lado, não se pode ignorar a sabedoria do povo, já que com o clichê vem a ideia de que todo dia pode ser sim um momento possível para se homenagear alguém ou determinada situação. Mas como eu ia dizendo, para mim, esse quase dito popular sempre me soou um pouco equivocado, visto que, vejo com enorme importância os elementos simbólicos que permeiam essas celebrações.

Ter uma data reservada no calendário para reverenciar aquelas pessoas, ou momentos, que para nós são especiais, significa ter a oportunidade de fazer algo maior  do que geralmente já fazemos com amor. E mais: vivemos aqueles minutos e horas, com uma intensidade merecida, porém, negligenciada graças a uma rotina impelida a nós por um piloto automático, que assumimos sem perceber, fruto de um atribulado cotidiano.

Por conta dessas e de outras, que fazem com que muitas vezes percamos o controle da própria agenda, acabei tomando a decisão de antecipar o Dia dos Pais.

Tenham a certeza que não se tratou de medida pretensiosa, muito menos revolucionária. Tal decisão se deu, pois já havia comprometido a data, meses antes, com um compromisso de ministrar uma capacitação para dirigentes de Ongs no Estado de Goiás, e então, o jeito foi antecipar em uma semana a celebração.

Nesse último domingo, começamos a “festar” logo cedo. Seguimos, eu, minha esposa e filha, para a Cidade da Criança, localizada no município de São Bernardo do Campo. Acreditem, a escolha não poderia ter sido melhor. Não só pude me deliciar vendo minha bela Catarina, descobrindo em meio a sorrisos e uma pitada de medo cada atração, como também fiz uma viagem pessoal pelo tempo, lembrando de minhas idas frequentes àquele Parque quase trinta anos antes.

Na parte da tarde foi a vez do churrasco em família. Minha filha – que havia chegado para o almoço e dormido em nossos braços depois de tantas brincadeiras –, em poucos minutos já corria para todo o canto, ganhando doces dos avós e tentando contar, com poucas palavras que já aprendeu, suas aventuras no velho Parque, apresentado minutos antes por nós.

Além de meus pais estavam Beto e Nice, um casal de primos queridos, tão presente em nossas vidas e memórias em outras datas especiais, como por exemplo, no dia de nosso casamento, assumindo a enorme responsabilidade de serem testemunhas daquele momento de nossa história. Também estavam lá o meu padrinho, Tio Bilo, com sua esposa Edna e seu filho Danilo, rapaz de ouro, que no início da juventude me deu a honra de poder crismá-lo e tê-lo, a partir de então como afilhado.

Compartilho esses nomes e momentos simples como forma de chamar a atenção para a grandeza dessas datas. Seja por meio de um abraço ou uma oração ou de uma brincadeira no quintal, ou algumas lágrimas de saudade. Estando perto ou longe, Domingo é dia de reverenciar a grandeza de ser Pai.

Pessoalmente, mesmo estando longe e já tendo antecipado a festa, já vou deixar  agendado com meu pai um brinde à distância com uma boa cerveja gelada. Já com minha bebê, o jeito vai ser segurar a emoção com um telefonema pela manhã e comermos juntos uma gigante barra de chocolate “online”.

Carminha e as Olimpíadas

Se tivéssemos instalado, lá pelos lados da Avenida Paulista, um “boatômetro” nacional, ou mesmo se houvesse “conversímetros” espalhados pelos corredores de escritórios, filas de bancos, mesas de bares, velórios e parada de ônibus, aposto sem medo de errar que os tais fictícios equipamentos, caso reais fossem, estampariam um placar totalmente favorável à novela das 9h00, no “pseudoranking” de assuntos tratados pela população como um todo em um eventual exercício de comparação com o que se fala sobre os jogos de Londres.

Também tenho a impressão que apareceria entre os Top 10 dos “papos-cabeça” da semana, a culpabilização da Rede Globo pelo baixo índice de conversa fiada sobre o desempenho dos atletas olímpicos e suas respectivas competições.

Como parte integrante dessa sociedade conversadeira, seguidor frequente das novelas globais, e igualmente apaixonado por esportes, venho trazer nessa semana um pouco de pimenta para essa prosa sobre mídia e conteúdo.

Primeiramente, mesmo reconhecendo o enorme poder da toda poderosa TV das novelas, do Didi e do Faustão, começo perguntando: onde fica, nessa nossa análise, o gosto popular?

Trago aqui uma reflexão do dramaturgo italiano, Carlo Goldoni, que certa vez afirmou: “Discutir gostos é tempo perdido; não é belo o que é belo, mas aquilo que agrada”.

Não pretendo simplificar um debate que sabemos que é para lá de complexo, mas sim dialogar com alguns discursos prontos, que a pretexto de erguerem bandeiras em defesa de um país melhor, acabam reforçando preconceitos e estigmatizando nosso povo e cultura. Quem já não ouviu aquela conversinha terrível, que começa com seu interlocutor afirmando que só podia mesmo ser brasileiro para acompanhar tanta porcaria. O tal “diferenciado” geralmente conhece todo o conteúdo de novelas e Reality Shows e se diz vítima do controle remoto, “só vi mesmo, pois estava passando de canal.”

Voltando às Olimpíadas, cabe dizer que, se podemos lamentar a postura da TV do PLIN PLIN, que não informa o que se passa na terra da rainha, com a mesma intensidade que faria nos tempos em que era detentora dos direitos de transmissão, também devemos assumir que somos um país de cultura “monoesportiva” e, eventualmente, dividimos nossa audiência com outra modalidade desde que ela se traduza em Brasil no Pódium.

Então, nem tanto ao mar nem tanto à terra. Antes de encontrarmos culpados, e julgarmos a qualidade do conteúdo que recebemos, talvez caiba pensar um pouco na coerência daquilo que falamos e defendemos.