La garantía soy yo

Lembro que era assim que falavam os sacoleiros, que lá pelo fim dos anos 90 realizavam os mais diversos sonhos consumistas, com suas super bagagens abarrotadas Made in Paraguai. De rádio-relógio a computador, de máquinas fotográficas a equipamentos de som. Tudo lindo, novo e desejado. O problema mesmo era só a garantia, e sorrindo, o povo dizia “la garantía soy yo”, ou seja, “deixa comigo”!

Há poucas horas, me preparando para escrever este texto, não pude deixar de rir diante do que veio à cabeça quando li o tema que havia marcado em meu bloco de notas, como sendo o desta semana. Estava escrito assim: “uma reflexão sobre as garantias que temos, enquanto eleitores, ao fim do segundo turno”.

Já imaginou o seu candidato eleito, com uma plaquinha na testa, aparecendo na urna após você ter teclado confirma, com os dizeres “la garantía soy yo?”. O duro é que não daria nem para reclamar ou tentar devolver, trocar. Votou, votado, não é? Creio que não deva, necessariamente, ser assim.

Democracia não tem prazo de validade, não acaba com o fim das eleições. Podemos continuar exercendo nossos direitos não só de eleitores, mas sim, direitos de cidadão. Podemos participar de conselhos de políticas e de direitos e podemos buscar o Ministério Público. Exatamente, você pode sim, acompanhar e cobrar aqueles eleitos com ou sem o seu voto.

No último dia 27, ouvi o podcast Café Brasil, do jornalista Luciano Pires, que coincidentemente também tratava sobre esse assunto. Ele trouxe para leitura um artigo do também jornalista Alexandre Pileje, que dizia o quanto seria bom se tivéssemos o código de defesa do eleitor. Um código que nos permitisse ter o voto de volta, tirando assim do poder aqueles que não foram honestos com os compromissos assumidos.

Brincadeiras e devaneios à parte, o fato concreto é que as garantias não são eles; a garantia é a nossa consciência cidadã. Temos responsabilidade com o futuro de nossas cidades, de nossos filhos e netos. A partir de agora é ficar de olho em quem ganhou no voto.

Acompanhem o trabalho das equipes de transição, a formação do secretariado. Depois, veja como anda o mandato, guarde as propostas e promessas que levaram os vencedores até lá, e periodicamente faça o check list, para ver se, de verdade, as coisas estão acontecendo.

É isso mesmo, democracia dá um trabalho enorme. Churchill dizia que “trata-se do pior regime, salvo as outras formas de governos existentes até então”. Acho que esse pior não pretendia depreciar, mas mostrar os desafios enfrentados pelo povo no poder.

Gosto muito de um pensamento de Goethe, que deixo para fechar nossa conversa da semana: “À democracia não corre, mas chega segura ao objetivo”.

Visão de Mercado

Essa expressão, utilizada por profissionais do marketing, estudiosos da área de negócios, e até por leigos, é, chutando baixo: desafiadora. Digo isso, não pensando nos aspectos eminentemente técnicos e conceituais que permeiam o assunto, mas na revolução social que vivemos nas últimas décadas, que dentre tantas provocações, nos convida a pensar: o que é esse tal “mercado”?

Alguns ainda insistem em enxergá-lo como algo soberano: aquele que resolve todos os problemas com base na relação de ofertas e demandas, provocando assim maior concorrência, produtividade, padrões de qualidade e possibilidades de escolha. Já vimos que esse olhar está meio desfocado, não é? Sabemos que o mercado, se não estiver bem regulado, pode ser excludente, ou pior, por vezes provocar uma inclusão perversa, fazendo com que as pessoas consumam, não para melhorarem suas vidas, mas sim para se sentirem parte de um “pseudomundo” de capazes para o ato de comprar.

“Nas arquibancadas opostas” tem a turma que vê no mercado o grande monstro da humanidade. É até uma turma de bom gosto, e acreditem, de grande potencial de consumo. O discurso, no entanto, é aquele de sempre. “Se choveu é culpa do mercado”. “Venderam carros demais, poluíram o planeta, desregularam o ecossistema, e é por isso que veio a chuva”. Mas se fez sol também dizem que o mercado vai se aproveitar disso, “fizeram promoções de pacotes turísticos, se valeram do sonho das pessoas, estimulando o consumo de roupas da época, organizaram baladas com músicas chiclete e ainda venderam bebidas e comidas totalmente carregadas de colesterol”.

Já deu para perceber que estou brincando um pouco com as duas turmas herdeiras dos discursos enfadonhos sobreviventes da Guerra Fria. Sei que os dois lados por vezes têm razão, mas proponho que, no momento, a conversa possa ser outra.

Esses dias, em meio a alguns chopps e um bom bate-papo depois de um dia de trabalho, chegou perto da mesa um cara fazendo barulho, com um monte de brinquedinhos bem provavelmente from China, tentando de alguma forma atrair nossa atenção enquanto consumidores. De imediato, lancei mão de uma velha técnica, que sempre me utilizei para encerrar o assunto e voltar a petiscar. “Não, campeão, obrigado, eu não enxergo”. Dizer isso, em 90% das vezes espanta qualquer vendedor. Isto porque o pequeno ambulante repete a lógica do mercado, que muitas vezes não enxerga milhões de consumidores, apenas porque têm alguma deficiência, por conta da cor de sua pele, ou até mesmo pela condição sexual.

A música da novela O Rei do Gado, de 1996, mostra como isso é forte na nossa cultura, quando conta o caso de um viajante que foi destratado e mal atendido em uma venda, após pedir uma pinga. Tudo porque estava presente no local alguém aparentemente com bem mais dinheiro. Era então o “rei do café”. O homem mal vestido não se abateu, disse quem era, pagou a pinga com um valor infinitamente maior e deixou o troco ir embora com olhar superior.

Daria para fazermos milhões de análises em torno da mensagem dessa música, ou mesmo em relação à minha técnica de autodestruição enquanto consumidor, diante das vendas de ambulantes em meio ao happy hour! Mas quero lhes dizer que o que me chamou a atenção foi uma visão diferente. O vendedor simpático disse: “você não enxerga, mas estou vendo que é casado, deve ter filhos, quer passar a mão e ver como funcionam os brinquedos que estou lhe oferecendo?” Me senti respeitado enquanto consumidor e cidadão. Isso havia acontecido apenas uma vez, em um bar de subúrbio no Rio de Janeiro. Na época, pensei em escrever sobre o assunto, mas acabou “passando batido”. Dessa vez foi diferente, comprei para minha filha uma florzinha vermelha que canta e dança quando se bate palmas. Porém, para além disso, trouxe para esse espaço uma provocação sobre visão de mercado.

Convido você, lojista, feirante, empresária, cabeleireiro, enfim, você que tem um negócio. Já parou para refletir em quantos momentos o preconceito tem lhe impedido de inovar e de vender? Quantos futuros clientes foram desperdiçados, por um olhar carregado de velhas ideias?

Passou da hora de se trocar as lentes para que se possa ver um mercado diferente. Substitua o preconceito pelo respeito à diferença, o desprezo gratuito pela crença no potencial do outro. Melhorando a visão, com certeza você enxergará muito mais clientes.

Dez dicas do que nunca fazer – Parte II

Continuando nossa conversa da semana passada, primeiramente quero agradecer aos e-mails, com sugestões de dicas ou mesmo com comentários sobre as cinco primeiras. Se você não teve a oportunidade de pegar essa conversa desde o início, convido-o a ler o texto publicado na coluna da semana passada. Só para lembrar: estamos trazendo dez dicas do que não fazer para que possamos ter uma relação mais respeitosa e cidadã entre as pessoas com e sem deficiências.

 

6. Não considere o óbvio: em se tratando de acessibilidade, infelizmente o que seria certo acaba dando lugar para o absurdo. Sendo assim, se for sair com um amigo (a), cliente, enfim, com uma pessoa com deficiência, procure antes buscar informações sobre o nível de acessibilidade do local ou do programa. Imagine convidar um cego para acompanhar um espetáculo de dança, sem qualquer recurso de audiodescrição. Ou mesmo convidar um cadeirante para tomar um chopp em um bar com o banheiro no segundo andar?

 

7. Não customize a prosa: o fato de alguém ter uma deficiência, não faz com que o tempo todo a conversa tenha que tratar de luta por direitos, problemas com acessibilidade, ou mesmo de pesquisas sobre células-troncos. Desapega. Já pensou que terrível para um alemão recém-chegado ao Brasil só falar sobre Chucrutes?

 

8. Não tome a decisão pela pessoa: o desafio para um “muletante” andar, ou mesmo para um surdo se comunicar, pode sim ser um dificultador para que eles participem de determinada atividade. A participação, no entanto, ocorrerá ou não, a partir da decisão deles. Sempre pergunte antes, dê a sua opinião, mas garanta a quem é de direito a palavra final.

 

9.Não “desexualize” a pessoa: a relação afetivo-sexual entre pessoas com e sem deficiência é algo que pode vir a ocorrer ou não, de acordo com a vontade das partes. O que não deve acontecer é ver na deficiência um fator que anule a vida sexualmente ativa de alguém. Já contei neste espaço, e no meu livro, o caso de uma colega cega gestante, que teve que ouvir em meio a uma viagem de ônibus: “sacanagem, alguém fez mal pra ceguinha”. Como ela mesmo diz: sinistro!!!

 

10. Nunca opte pelo não: ao analisar questões referentes à deficiência, sempre dê espaço para o “sim”. Costumo dizer que o impossível é apenas uma questão de ponto de vista e foi com base nessa certeza que pude chegar até aqui.

Dez dicas sobre: o que nunca fazer

Esses dias, em reunião com a equipe de comunicação da Organização Nacional de Cegos do Brasil, conversávamos sobre os tais textos que trazem dicas de “Como lidar com pessoas com deficiências”. Pessoalmente, me manifestei dizendo que não sou muito fã da ideia de saber que existem, espalhados por aí, “manuaizinhos” destinados à “operação de hardwares”, dentre os quais eu me incluo. Também ponderei, que não podemos desconsiderar a contribuição de tais textos, para melhorar ou mesmo, ressignificar o comportamento de inúmeras pessoas.

Chegando em casa, sentei para escrever e veio a ideia: Por que não pensar em dicas sobre o que não fazer? Creio que muitas delas até já estejam espalhadas nos tais “manuais”, mas mesmo assim me encorajei a apresentar a você ao menos dez, que garanto poder usar sem medo.

Para essa semana, seguem as cinco primeiras:

  1. Não se dirija às pessoas adultas como se fossem crianças. Cegos, anões, cadeirantes, dentre tantos outros segmentos de deficiências, crescem e amadurecem. Tratá-los como se fossem crianças, muitas vezes pode – mesmo sem intenção –, parecer uma postura de alguém que se sente superior, alguém que quer cuidar.
  2. Não banalize seu entendimento quanto à acessibilidade, às vezes, o que está bom para um pode não atender o outro. Cada área de deficiência acaba demandando eliminação de barreiras específicas. No entanto, sempre lutamos na perspectiva do desenho universal, ou seja, que tudo passe a ser pensado para todos. Contudo, na ausência dessas condições, para seguir tal dica, ninguém precisa ser expert no assunto, tente sempre recorrer ao bom senso.

Certa vez, um amigo deixou de fazer uma reserva em um hotel para mim, pois lá não havia banheiros adaptados. Notem que as adaptações em banheiros tem por principal objetivo atender às demandas de cadeirantes, ou outras deficiências físicas. Para mim, as principais adaptações em um hotel seriam cardápios em Braille, identificação dos andares no elevador e na parte externa, numeração em relevo nas portas dos quartos e arrumação padronizada.

  1. Não faça algo para alguém sem perguntar antes o que a pessoa deseja. Certa vez, eu estava aguardando um amigo em uma esquina da Rua Domingos de Moraes, em São Paulo e veio um cara me puxando pelo braço dizendo para correr, pois já dava para atravessar. A solidariedade de nosso povo faz de nosso país um dos melhores do mundo para se viver, mas não custa nada perguntar antes. Nããão é?
  2. Não desorganize o idioma em nome do politicamente correto. Um dia alguém me falou “vamos ouvir um filme”. Fiquei até comovido, a pessoa deve ter se desdobrado para ser mais “adequada”. Contudo tive que dizer que os filmes foram feitos para ser assistidos, ouvi-los seria, para mim, a forma pela qual poderia assistir. Esse assunto, assim como os outros, dariam separadamente um artigo, mas por hora, lembre-se: se for encontrar um cadeirante e estiver em cima da hora, não fique constrangido(a) em dizer que precisa correr para chegar logo no compromisso.
  3. Não ofereça ajudas vazias. Ajuda boa é aquela que realmente contribui, não é? Nunca vou esquecer de um dia em que estava em uma rua super movimentada com muito barulho de carro. De repente, ouvi ao longe “cuidado, cuidado, olha o buraco, vira pra lá”. Imaginem que simplesmente travei. Buraco? Pra lá!?. Informações totalmente irrelevantes para quem não está vendo. Se para lá é: esquerda ou direita.