“Black Fraude”

Foi assim, com muito bom humor e criatividade que muitos brasileiros batizaram nossa Black Friday tupiniquim.

            A propósito, você sabe, de fato, o que é a tal da Black Friday? Vamos lá, tentando resumir e explicar com a relativa grandeza que o assunto merece, trata-se de um dia no ano, onde lojas de todos os segmentos de mercado abrem suas portas nos Estados Unidos, para realizar grandes promoções, com vistas a dar vazão a seus estoques, e claro, reorganizar suas contas. Pois é, a ideia é sair do vermelho, e lá eles não entram no azul, por isso ao invés de Blue friday, é Black friday.

Mas voltando aqui para o Brasil, é claro que nossos lojistas tentaram entrar na onda. Aproveitaram o fenômeno da globalização, que faz com que grandes momentos locais se transformem em notícias mundiais, para também aumentar suas vendas e tentar contagiar o consumidor do país do Neymar.

Não preciso nem dizer que a ideia, que não é nova, esse ano mais do que nos outros, teve um grande sucesso. Contudo, muita gente percebeu que por aqui a promoção só ficou nos anúncios bem feitos, e nas expectativas de compradores ansiosos por uma “boquinha”.

A propósito, nunca me esqueço do dia em que cheguei em um supermercado, onde já muitas pessoas se mobilizavam a partir de uma fala empolgada de um locutor com voz forte. Ele dizia que em 8 minutos teria início a “promoção relâmpago” do mês. A coisa continuou, foi uma contagem regressiva minuto a minuto. Não era dito qual seria o produto e nem qual seria o preço, simplesmente se fazia pública a notícia de que naquele local teria um grande “raio promocional”. Chegou a hora, o locutor contou empolgado que a partir daquele momento, por 4 minutos, baldes plásticos estariam custando R$ 1,20 e cada pessoa só poderia levar cinco unidades.

Naquele momento um cenário se mostrou assustador. Todo mundo que estava no mercado saiu em desespero para ter direito a compra do balde.

Tanto a Black Friday quanto minha história dos baldes nos convida a refletir sobre nosso comportamento atual de consumidor. “O que?” e “por que compramos?” são perguntas que devem pautar nossas reflexões.

Se quisermos um país socialmente mais justo, devemos em primeiro lugar dar atenção às nossas pequenas atitudes. Quando compramos mais do que nos encanta e nos envaidecemos com nossa nova aquisição, precisamos saber o aporte social por trás daquele produto. Podemos perguntar: tem compromisso com a acessibilidade? Ou seja, foi pensado para qualquer pessoa, independente de ter ou não alguma deficiência? Tem compromisso ambiental? Ou seja, foi produzido e funciona em uma perspectiva que considere as questões relacionadas à preservação do planeta? Tem compromisso social? Ou seja, foi produzido valorizando a qualidade de vida e o direito dos trabalhadores envolvidos em toda cadeia produtiva, bem como as comunidades do entorno?.

Não é difícil. E fazendo isso, além de fazer uma compra com grande prazer, não permitiremos que, quem quer que seja, possa vir a fraudar o exercício de nossa cidadania.

O porquê do feriado

Já pensou se o seu filho ou sobrinha mais nova lhe fizessem tal pergunta? A conversa seria longa, até porque, essa semana, em muitas cidades, teremos – em menos de sete dias –, duas datas importantíssimas da história do país para comemorar.

Tenho certeza que responder tal questionamento não seria simples. Faz-se necessário bom conhecimento da história, e mais do que isso, de elementos antropológicos que fundamentem a ideia de pararmos para celebrar. Por outro lado, infelizmente, nem sempre as conversas vão por tais caminhos. Quem já não ouviu alguém dizer: “é um absurdo tanto feriado, não serve para nada!”

O que botei acima, entre aspas, pode sim ser a opinião de qualquer brasileiro livre, que felizmente, graças à luta de muitos personagens históricos, hoje pode se manifestar, independente da cor de sua pele, de sua condição econômica, sua confissão religiosa, enfim, o que vale é ser cidadão. O lamentável, no entanto, é vermos fora das conversas de botequim, dos fuxicos nos salões de beleza, das esperas em filas de banco e ponto de ônibus, as contradições e avanços de nossa história republicana, somados à importância da consciência negra para uma transformação de realidade de relações em âmbito nacional. Não é o caso de conversas rebuscadas, mas da necessidade de olharmos para nosso cotidiano, sem esquecer que temos, sim, uma bela história.

Nossos pequenos “brasileirinhos” merecem, quando nos questionar, uma resposta um pouco melhor pensada. Não falo que devamos dar aula para a garotada, até porque, infelizmente, a grande maioria dos pais e mães não teve a oportunidade de conhecer, com a qualidade necessária, os diferentes períodos da história desse país.

O porquê do feriado pode ser como escalação de nossa seleção de futebol, ou seja, cada um dos cento e noventa milhões de brasileiros pode ter seu olhar, seus motivos para fundamentar seu entendimento. Contudo, vale a pena olhar para nossa jovem república e refletir sobre tantos momentos já vividos. Do Estado Novo ao impeachment do ex-Presidente Collor, da Constituição da Mandioca à Constituição Cidadã. Tá tudo na Internet, conteúdo em grande escala, de linguagem fácil, bom para ler e pensar.

Quando passarmos a conversar sobre o porquê do feriado, mais do que ensinar ou aprender, estaremos nos preparando para melhor pensar no país que temos e no futuro que queremos.