O que é isso, papai?

Sempre ouvi falar que crianças eram verdadeiras “maquininhas” de perguntas. Mas afirmo-lhes: só quem já vivenciou essa experiência em casa, pode dizer o quanto é emocionante sermos desafiados várias vezes por minuto, por alguém com pouco mais de dois anos de vida, a definir tudo o que existe no mundo.

Minha pequena Catarina, que nesta semana completou 2 anos e três meses está nesta fase. É “o que é isso?”, tocando em minha gravata, segurando em um pequeno objeto de cozinha, e muitas vezes apontando para algo que também não sei o que é. Afinal, não sou São Tomé, ou seja, para crer, não preciso ver, mas para ver preciso tocar. Acreditem: esses são os melhores momentos, pois brincamos juntos, porque na verdade, enquanto ela tenta descrever o que vê, me ajuda a contar a ela o que é a nova descoberta.

No último mês, montamos em casa uma grande árvore de Natal. Durante o processo, foram dezenas de perguntas sobre o que eram as bolinhas, enfeites, arranjos, e por fim, a grande questão: Eu disse: “é uma árvore de Natal!”, e logo: “Natal, o que isso, Papai?”.

Já pensou como você responderia? Pensei, quase que por impulso, em dizer: “é aquele dia bacana em que trocamos presentes”. Mas vamos combinar, não seria justo uma definição tão capitalista para uma data de  tamanha importância espiritual. Arrisquei então uma resposta que foi pelo seguinte caminho: “é o dia em que comemoramos o nascimento de Jesus Cristo, filho do Papai do Céu”. Ela, então, me perguntou sorrindo com uma sabedoria única de criança: “amém, Papai?”, fazendo uma correlação aos momentos em que rezamos juntos em casa.

De repente, descobri que minha bela Tatá havia acabado de me dar uma bela aula sobre o que é de fato o Natal. Mais do que uma data comemorativa ou mesmo um momento que vivenciamos juntos em família, trata-se de algo que faz parte de nosso dia a dia. Se somos cristãos, vivemos o Natal a cada oração, a cada “Amém” como ela mesmo identificou de forma doce e bem-humorada. Se somos agnósticos, celebramos o nascimento de Jesus, em nossas condutas, inspiradas não pelos milagres e sofrimentos do Cristo canônico, mas pelos valores e atitudes do Cristo histórico, que independente de filiação ou do que tenha feito, já foi grande pelo que disse e pelo que lutou.

É compartilhando essas reflexões que creio ter tido oportunidade de crescer enquanto homem e como pai, que aproveito esse espaço para lhes desejar um Feliz Natal. Agradeço a meus alunos, parceiros que acreditaram em meu trabalho, companheiros de luta do movimento de pessoas com deficiência e da Assistência Social. Com carinho, também agradeço a meus familiares, amigos e a vocês, que me acompanham semanalmente no Blog, no Diário do Grande ABC, Jornais de Bairros Associados, e pelas redes sociais.

Que neste Natal, mais do que celebrar a data de nascimento do Cristo, possamos comemorar nosso projeto de vida para renascermos melhores em 2013. Com menos preconceitos e mais respeito à diversidade, com menos verdades absolutas e mais perguntas que confrontem nossas certezas, com menos culpabilização do próximo e mais responsabilidade sobre nossas escolhas, enfim, com menos resistência para vida e com mais vontade para viver.

Mil e quinhentos

É esse o número aproximado de participantes da III Conferência Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência. Já estão em Brasília mais de 250 pessoas com deficiência física, aproximadamente cento e cinquenta cegos, mais de 100 surdos, além de trabalhadores, estudiosos da área, familiares e gestores públicos.

A Conferência começou no último dia 03, em grande estilo, com direito à participação de Ministros de Estado e show com a banda Paralamas do Sucesso.

Mas a propósito: do que se trata essa tal de Conferência? Muitos do que me acompanham nesses diferentes espaços de mídia já sabem de longa data do que estamos falando. Contudo, peço licença para tentar explicar resumidamente o que é e qual a dinâmica desses eventos.

Primeiramente, é bom dizer que não estamos falando de algo novo. Já na década de 40, o Brasil realizou a I Conferência Nacional de Saúde. A novidade é o ressignificado histórico das Conferências no Brasil. Atualmente, elas se configuram em instâncias máximas de participação popular.

No ano de 2011, o Brasil realizou, somente em âmbito nacional, mais de 10 conferências. Cabe dizer, no entanto, que tudo começa no município. É lá que as pessoas se reúnem, elegem delegados para participar das conferências estaduais, que por sua vez definem aqueles que vão até a conferência nacional.

Saúde, educação, assistência social, além de políticas transversais como da mulher, da criança e do adolescente, idoso, enfim, são exemplos de conferências que a cada realização apontam maior sucesso.

Nessa semana, Brasília está botando o dedo na ferida quanto a seus problemas de acessibilidade. Não existem quartos adaptados em hotéis para cadeirantes, a cidade é totalmente desfavorável para se caminhar com uma bengala, além de grande parte de bares e restaurantes não contar com banheiros no piso térreo.

Escrevo essa coluna não apenas para noticiar a realização do evento. O objetivo principal é provocar você, leitor, a buscar se inserir em espaços de participação popular como conselhos, fóruns, e por que não, em conferências que serão realizadas no próximo ano em seu município.

A participação cidadã é um direito que só se pode exercer se decidirmos dar o primeiro passo. Assim, acredito que um lema que adotamos para o movimento de luta das pessoas com deficiência também pode ser de domínio de toda a sociedade: “Nada sobre nós sem nós”.