O que é importante?

Nossa conversa dessa semana foi inspirada por um tweet da sábia louca rainha do Rock, ou como ela mesmo gosta de se intitular, da “véia” Rita Lee. Ela manda bem demais no Twitter e se você quiser começar a seguir o perfil é @litaree_real.

Na última semana, escreveu a “Ovelha Negra” da família, em sua timeline “se for importante você acha um jeito, se não for, você acha uma desculpa”. Mais do que provocativa, a reflexão nos convida com uma sutileza avassaladora a pensar sobre nosso julgamento do que pode ser considerado como importante, ou nem tanto.

Imagine só o exemplo daquele casal em lua de mel que conseguiu pela primeira vez fazer uma viagem à França. Ele, apaixonado por vinhos; ela, por obras de arte. Já perto de retornar para casa, surge um convite conseguido por uma velha amiga da dupla de turistas. Tratava-se de um par de ingressos para o último dia daquela exposição que só era real até ali para a culta noiva, apenas em seus sonhos mais distantes. Ao saber da notícia, a moça falava com a voz embargada,  “não dá para acreditar que em breve poderei estar tão próxima de grandes patrimônios culturais da humanidade”.

Para a mesma data e horário, o somelier do casal já havia comprado e conseguido reservar um ano antes, diretamente do Brasil, um jantar romântico, a ser servido no principal restaurante de Paris, onde seriam disponibilizados, para degustação, os melhores vinhos da França, Itália, Espanha e Portugal.

Para o fim dessa história, ou melhor para o próximo capítulo, já imaginei inúmeras possibilidades, mas deixo para você pensar como seria. O fato é que, se ele ou ela pensassem apenas no que era importante para si mesmo, encontrariam infinitas desculpas e jeitinhos que sustentariam seu egoísmo. Também da mesma forma, se por amor se preocupassem apenas com o importante para o outro teriam de sobra , jeitos e desculpas para justificar tal altruísmo.

A terceira possibilidade seria uma conversa franca. Uma busca conjunta de uma solução real, que auxiliasse aos dois, identificar o que era de verdade importante para o casal.

Talvez a solução não aparecece, como de fato muitas vezes fica difícil de se encontrar. Mas o que é importante, com certeza seria ressignificado para os pombinhos.

Ainda buscando inspiração em grandes nomes de nossa MPB , em meio a emoções, nos disse o rei Roberto Carlos, “se chorei ou se sorri, o importante é que emoções eu vivi”. Já a roqueira baiana Pitty, não teve dúvidas em cantar: “o importante é ser você, mesmo que seja estranho”.

 

Nossa decisão quanto ao que é importante pode nos tornar mais justos, democráticos, mesquinhos, ou até expor velhas incoerências indesejadas. Achar um jeito, uma desculpa, ou uma boa solução a partir dessa perspectiva, pode ser muito mais fácil, e às vezes, porque não dizer   menos doloroso.

Discursos perigosos

Você já deve ter se deparado com aquela figura que adora contar sobre o que tem feito de bom por seus próximos, pela humanidade como um todo e até pelo planeta.

Geralmente, são pessoas acima de qualquer questionamento e fáceis de encontrar       em festas, velórios, filas, ou que até mesmo acabamos conhecendo em meio a um compromisso de trabalho, mas o fato que sempre se repete é que tal personagem fala com a propriedade de quem é, nada mais nada menos, do que, o fã número 1 de si mesmo. Até aí, nenhum problema, mesmo porque está na moda se dizer e cantar, “esse cara sou eu”.

Mas esquecendo um pouco do ingrediente (alto nível de autoestima), tem um outro aspecto nessa história que infelizmente, na maior parte das vezes, acaba passando desapercebido. Refiro-me aos discursos, que mais do que uma atitude que possa ser questionada ou até mesmo considerada pedante ou engraçada, traz uma série de  equívocos e preconceitos, que reforçam paradigmas totalmente adversos a uma sociedade mais justa, solidária e verdadeiramente democrática.

A ideia de trazer para nossa conversa tal reflexão, não tem por objetivo culpabilizar portadores de tais discursos, mas sim, discutir os danos que tais falas repetidas podem produzir em nossa caminhada para conquistarmos melhores patamares de cidadania.

Comecemos tomando por exemplo aquele seu amigo que sempre fala de peito estufado, mais alto do que de costume, para que ninguém possa deixar de ouvir: “eu não jogo lixo pela janela do carro, e na praia, eu posso dizer com orgulho que jamais deixei qualquer tipo de sujeira”.

Também tem aqueles, que a cada encontro, não perdem a oportunidade de relembrar as velhas boas ações. Contam de novo a história do dia que ajudaram aquele “ceguinho” a atravessar a rua, e do momento da abdicação do lugar no assento do banco de ônibus para aquela gestante que ninguém havia notado.

Compartilhar o que temos feito de bom é sempre muito bom, porém o problema pode estar na forma de fazer isso. Tais colocações, por vezes,  transformam obrigações básicas de um cidadão em grande virtude a ser exaltada.

A mídia em geral replica tal postura, por vezes reverenciando determinadas personalidades públicas, como artistas, políticos, empresários, pelo simples fato de terem uma conduta honesta em seu ramo de atividade.

Nesta linha temos como exemplo, parlamentares que participam assiduamente de suas atividades. Vejam que além da justa remuneração e do previlégio de terem sido reconhecidos e eleitos como representantes legítimos por seu povo, pelo simples fato de não se ausentarem com frequência do trabalho, acabam entrando em rankings de conceituadas revistas e jornais, que colocam o cumprimento de tal dever como grande  diferencial.

Os discursos que exaltam obrigações básicas não são danosos apenas pela confusão que transforma compromissos de cidadania, em virtudes classificadas como raras. Tais falas também atentam contra o espírito de solidariedade, essencial para que possamos atingir avanços na conquista de níveis cada vez mais elevados de civilidade.

Há quem diga que em dias de tanta notícia ruim, cabe sim exaltarmos boas atitudes. Pessoalmente concordo, porém talvez nos esteja faltando ressignificar nossos critérios, afinal de contas chega a ser piegas ouvir uma empresa aérea se vangloriando por cumprir o horário em boa parte de seus vôos.

Celebremos grandes feitos, e contemos com naturalidade nossas boas histórias do dia a dia. É sempre bacana lembrar de Sêneca que nos brindou com a seguinte reflexão, “A virtude, embora oculta, deixa seus vestígios para quem dela é digno”.

Para onde correr?

Não gosto do discurso daqueles que não perdem a oportunidade para dizer: “Só podia ser brasileiro”, tão pouco dos apegados ao trágico, quando surge alguma conversa sobre Copa do Mundo, Olimpíadas / Paralimpíadas e outros grandes eventos internacionais que serão realizados por aqui.

A retórica de que o problema do Brasil é o povo, ou mesmo de que o país é que é um problema por si só, é ultrapassada, preconceituosa e totalmente incoerente com os avanços sociais e econômicos que testemunhamos nas últimas duas décadas. Isto posto, já posso compartilhar um pouco de minha perplexidade ou talvez angústia, diante de tanta notícia ruim que recebemos diariamente. Elas chegam em volume e nível de gravidade tão absurdamente elevados, que nos têm calejado a alma, sem tempo sequer para que   possamos assimilar, chorar ou, minimamente, tentar refletir sobre o ocorrido.

Não entendam esse texto como um papo de pessimista. Aliás, creio que seja exatamente o contrário. Sou um otimista confesso, porém, creio que precisamos  pensar sobre como conduzir nossas vidas, a partir de um bombardeio diário de tragédias que subliminarmente nos faz uma pergunta silenciosa sobre quem será o próximo.

Há os que digam que o melhor é fugir dos noticiários pautados por sangue e enchentes, mas infelizmente já foi o tempo em que a carga de notícias ruins eram privilégios de programas sensacionalistas de fim de tarde. Outros afirmam que a barbárie sempre esteve aí, aliás, em outras épocas, talvez em proporções bem maiores. A novidade é que agora temos meios e estratégias de comunicação que nos faz saber cada vez de mais coisas em menos tempo.

Diante de um cenário tão complexo, que nos faz ter medo de sair com os amigos para fazer um happy hour em local aberto, pois podemos ficar expostos a atiradores sem motivos ou identidades aparentes; que nos choca diante de uma casa noturna incendiada com mais de duzentos jovens mortos, pois não tinham para onde correr, talvez a pergunta que nos resta é: “e nós, para onde corremos?” Podemos, quem sabe, correr para as ruas, protestar, pedir mais segurança e menos impunidade. Se quisermos parar, podemos  correr para dentro de nós mesmos, rezando, tentando entender, lendo pensadores antigos ou prognósticos de futuro, que nos permita se situar diante do mundo que temos para viver.

Por mais que nos sintamos frágeis e vulneráveis diante de um caos aparentemente sem saída, em alguma medida, por estarmos aqui, temos responsabilidade com a nossa história e com o futuro de nossa gente.  Alguns de vocês leitores, talvez ao ler este texto pensem: “mas, na maior parte das vezes, não temos muitas escolhas”, o que realmente é verdade. Aproveitemos, então, as oportunidades que nos surge, para de verdade decidir: sejam nas pequenas situações, onde dá para sorrir ou fechar a cara; sejam nas grandes situações, onde se pode votar ou simplesmente anular em protesto.