Camila e José

É bom demais podermos olhar para os pequenos e grandes fenômenos de nosso cotidiano com a consciência de que somos testemunhas legítimas da história. A rotina, o cansaço, os problemas e até mesmo o relaxamento – fruto de situações agradáveis –, acabam na maior parte do tempo fazendo com que nos esqueçamos dessa nossa significativa condição, e talvez por conta disso, acabamos nem percebendo o tempo passar.

Existem porém, aqueles momentos especiais que nos fazem despertar. É como se acordássemos por um chacoalhão, desligamos o piloto automático que nos conduz ao longo dos dias, e por alguns minutos ou horas, nos colocamos atentos, fazendo com que nosso cérebro registre, analise, enfim, dialogue com aquela situação que a partir de então ganha local privilegiado em nossas memórias.

Assim foi para mim o casamento de minha prima Camila, com o agora também primo, José. Me preparei para a cerimônia ainda com o piloto automático do cotidiano ligado.

Sabe como é: acordar, tomar banho, escovar os dentes, escolher uma roupa bacana, tomar um cafezinho, e pronto, só faltava colocar a filhona na cadeirinha do carro e encarar a manhã chuvosa de domingo para acompanhar a celebração agendada para as onze horas.

Já na chácara, preparado para ouvir o padre, o pastor (ou sei lá quem sabe até o juiz de paz) dar início aos trabalhos, vi de repente meu cérebro despertar para uma novidade que merecia atenção. Quem dava início à celebração era uma mulher, que se apresentando como mestre de cerimônia, anunciava a entrada do noivo ao som de uma deliciosa música do Sambô, uma banda que mistura rock e samba com muito swing.

Criou-se, como que por um passe de mágica, uma atmosfera de alegria e informalidade para aquele ritual, digno de um momento pensado para ser único e marcar a história de duas pessoas que se amam.

A mulher soberana e reconhecida pelo casal como autoridade legítima para conduzir cada passo, que marcava a união dos dois protagonistas daquela manhã, brindou a todos nós com um jeito diferente, porém não menos belo de celebrar um matrimônio.

O casamento dos jovens cheios de amor, que se conheceram por meio de um amigo comum que os apresentou em um bate-papo pelo messenger, me fez pensar e me instigou a compartilhar nesse espaço uma experiência de vida, que devemos ter claro que será cada vez mais frequente. O velho Marx dizia que: “A revolução é o motor da História”. Logo re-evoluir significa encontrar novos meios e possibilidade do “fazer” e do “viver” em sociedade. Trata-se da construção dialética, produto das convergências e incongruências resultantes das interlocuções entre o velho e o novo.

Há dez anos também casei em uma chácara, tendo entre os padrinhos, os queridos Roberto e Nice, pais da noiva que inspirou essa coluna. A celebração foi revolucionária, mesmo tendo padre, marcha nupcial e daminhas de honra, pois para os padrões da época, sair do local formal para tal ocasião já era uma grande novidade.

E será assim: a cada dia a vida nos convidará a revisitar nossas tradições, e mergulhar  em meio ao mar das inovações. Felizmente, o que nunca muda e o que nos faz humano é nossa capacidade de amar.

Assim, me despeço desejando muito amor e sorte aos dois jovens que motivaram nossa conversa da semana.

Santa Renúncia

Confesso-lhes que pensei algumas dezenas de vezes antes de decidir, de fato, que trataria desse assunto. É um belo desafio escrever sobre determinada situação que nas últimas duas semanas, de alguma forma, pôde ser discutida por um grande percentual dos seres humanos vivos do planeta. Paradoxalmente, falar da renúncia do Papa com conhecimentos específicos sobre o tema é condição para poucos, e mesmo aqueles que se sentem ou se colocam habilitados para tal, tratam da questão sempre se cercando do maior número possível de cuidados e variáveis para que, no fim das contas, nem um equívoco seja cometido.

Contudo, concluí que se omitir por completo nesse momento, sem qualquer tipo de trocadilho infame, seria um pecado para com a história. Bento XVI foi o 265º Papa e neste contingente apenas o sétimo a se colocar diante do mundo com a coragem suficiente para comunicar a decisão de renunciar. Fora isso, a última vez que a humanidade testemunhou uma situação equivalente foi em 1415, isso mesmo, há quase 600 anos.

Tais elementos nos chamam para a responsabilidade de sermos, antes de mais nada, testemunhas conscientes de um fato que jamais se repetirá. Muitos outros papas poderão vir a comunicar que não seguirão em frente. Porém, este foi o primeiro a tomar tal atitude em um mundo online, onde todas as informações são de domínio público, quase em tempo real.  O próprio Papa, ao tornar pública sua escolha, considerou em seu pronunciamento esse novo mundo, tão dinâmico, complexo, enfim, um mundo que, dentre infinitas possibilidades, também pode comportar a grandeza de quem opta por renunciar. Disse Bento XVI: “no mundo de hoje, sujeito a rápidas mudanças e agitado por questões de grande relevância para a vida e para a fé, para governar a barca de Pedro e anunciar o Evangelho, é necessário vigor, tanto do corpo como do espírito, vigor que, nos últimos meses, diminuiu de tal modo em mim que devo reconhecer a minha incapacidade de administrar bem o Ministério a mim confiado “.

Desde vinte e oito de fevereiro vivemos em um mundo sem Papa e acompanharemos por nossos televisores, smartfones, tablets, jornais e revistas impressas, um conclave sem luto.  Independentemente da confissão religiosa, como diz a garotada: “é  impossível não cair a ficha” diante do cenário proporcionado por Bento XVI.

Mas então, o que fazer diante de tudo isso?

Proponho que, como tantas outras situações que já vimos e vivemos com intensidade,  neste caso também possamos esgotá-la, buscando escrever, discutir, e pensar sobre todos os aspectos do fato que em cada um possa provocar reflexões.

A mim chamou a atenção a renúncia propriamente dita. Falo do ato de “coragem” ou de “covardia”, dependendo do “entendimento” de cada cidadão, mas que, em síntese, trata-se de uma decisão solitária. Assim, ao final das contas, renunciar é ter clareza que junto vem o julgamento indiscriminado, que tem por base apenas o  juízo de valor de cada um. Renunciar pode ser mais um montão de coisas, mas gosto em particular de uma frase do grande Fernando Pessoa: “A renúncia é a libertação, não querer é poder”.

Peça com moderação

Um dia, assistindo a novela Chica da Silva, antiga produção da então TV Manchete, ouvi uma frase que chegou como uma daquelas que a gente corre para escrever, tenta arrumar um lugarzinho privilegiado no cérebro para guardá-la, e depois de tudo isso feito, vez ou outra a visitamos para compreender qual o seu real significado para nossas condutas e história, com base nos diferentes momentos de vida que  acabamos construindo.

A personagem, uma freira austera, cujo local na trama se perdeu em meio aos entulhos de minha memória, mais de uma década depois, disse a seu interlocutor com altivez: “cuidado com o que você pede para Deus, um dia ele pode te dar”. Com certeza, um pensamento de tamanha profundidade não deve ter sido gerido e proferido pela primeira vez em uma novela do velho canal 9, sem qualquer menosprezo à bela obra. Digo isso, pois imagino que tão profunda reflexão pode ter origem em algum dos tantos livros da Bíblia, ou quem sabe veio ao mundo em meio à avalanche de sabedoria deixada como legado pelos grandes filósofos gregos, cuja produção, em pleno século XXI, nos serve de sustentáculo para qualificar e entender nossas relações e comportamentos em sociedade.

Seja lá qual for a fonte, convido-lhes a olhar para a grandeza atribuída pela frase às nossas responsabilidades, perante as escolhas que fazemos quando decidimos que queremos algo. A fala  trata de pedidos para Deus, mas não é difícil entender que ela nos pode servir sempre, independente de credos ou convicções ideológicas, visto que seu intuito, de fato, é nos dar uma bela sacudida, para pensarmos com maior clareza “no que” e “para que” queremos.

Este texto, com uma pitada de introspecção, escrito no dia em que completo trinta e sete anos, pretende ser um pequeno presente às tantas mentes atentas e questionadoras que por anos tem me acompanhado nos diferentes espaços que busco fomentar a boa troca de ideias com foco na inclusão e no exercício da cidadania. Provoco-lhes então a conversar com amigos, familiares, ou consigo mesmo, buscando as respostas que apontam, o que cada um tem pedido ou desejado com toda energia, a partir das raízes mais profundas de suas vontades.

Quem já não viveu a situação, ou conheceu alguém que queria muito poder comprar aquele carro. Foram noites de sono perdidas, sonhos recorrentes e por fim, o surgimento da oportunidade que concretizou a compra. Para alguns, tal resultado foi inúmeros finais de semana felizes, com passeios agradáveis e até boas horas de distração para lavar o possante. Para outros, a vontade a todo custo e mal resolvida, tornou-se um “problemão”, falta de dinheiro para o combustível, local impróprio para estacionar e o pior, nenhuma reserva para manutenção e seguro.

Há muito que acredito no dito popular que afirma sem qualquer constrangimento, “querer é poder”, mesmo já tendo lido calhamaços de textos e frases que afirmam o contrário. Com base nessa certeza, creio que devemos cuidar de tudo o que desejamos, com o mesmo zelo e ritualidade daquele que sabe e aprecia um bom prato ou bebida.  Assim, muitas vezes a satisfação virá por conta da qualidade do que queremos e não graças ao volume que alcançamos. Notem, que não falo de deixarmos os sonhos e ambições de lado, pelo contrário, proponho que os tratemos considerando toda a importância de seus futuros impactos e resultados para nossa felicidade.