Feliz com seu trabalho?

Pouca gente sabe, mas com certeza desconfia, pois não precisa ser um grande estudioso para confirmar os dados de pesquisas que nos mostram o elevado nível de insatisfação do brasileiro com seu trabalho. Atualmente, somos uma verdadeira potência quando o assunto é gente infeliz com o que faz. Por conta disto, tem uma grande quantidade de pessoas buscando respostas para entender quais os culpados de tanta insatisfação e, acreditem, tem muita coisa bacana para ler sobre o tema.

Os salários daqui da terra do samba e do futebol, mesmo não sendo um dos piores do mundo, acabam também aparecendo nas primeiras posições de níveis de insatisfação global, deixando claro para quem queira ou não ver que quando o assunto é trabalho a infelicidade do brasileiro é quase geral.

Decidi, nesta semana do dia primeiro de maio, trazer um pouco dessa conversa para nosso encontro, pois, como muitos sabem, sou liderança do movimento de pessoas com deficiências no Brasil, e hoje uma de nossas principais bandeiras de luta é, sem dúvida, a oportunidade por um espaço no mercado de trabalho. Para começar a prosa alguém poderia perguntar: “diante do problema exposto e do assunto luta das pessoas com deficiências trazido a baila, é correto afirmar que essas pessoas são mais satisfeitas com o que fazem”? Estudos realizados a partir de cases de colocação monitorados ou, até mesmo, de depoimentos de profissionais ligados à inserção de pessoas com deficiências no mercado apontam que sim. Muitas das falas que permeiam essa constatação indicam que a valorização da oportunidade é um dos principais elementos que mantém esses trabalhadores com pique na função.

Uma leitura rasa destas informações poderia levar a várias conclusões preconceituosas, como por exemplo:

  1. Pessoas sem deficiências são ingratas e não valorizam suas oportunidades de  trabalho;
  2. Pessoas com deficiências são pouco exigentes, logo o simples fato de estar trabalhando já lhes é suficiente.

Com certeza, temos muitas pessoas com deficiências também descontentes em suas funções. E o ponto crucial desse nosso bate papo é, sem dúvida, o nível de expectativa em torno do que nos propomos a fazer. Culturalmente fomos criados com a ideia de que trabalhamos para viabilizar nossas necessidades de consumo, ou mesmo para garantir nossa subsistência familiar. Dificilmente aprendemos, ou mesmo vemos ser exautados, os demais ganhos do trabalho como o fortalecimento da autoestima, o autoconhecimento e a ressignificação social diante de cada novo desafio. Assim é comum ouvir algum amigo dizer: “caso eu ganhasse na loteria, jamais trabalharia novamente”.

Infelizmente nossa insatisfação com o trabalho, além de todas as injuções decorrentes de um processo perverso de precarização da mão-de-obra, ainda é fruto de uma concepção equivocada desse conceito que consolidamos quase inconscientemente ao longo da vida. Voltando às pessoas com deficiências, muitas delas almejaram por anos uma oportunidade laboral. Com isso, acabaram descobrindo o trabalho como uma possibilidade de renascimento diante de sua família, da comunidade e, principalmente, de si mesmo.

Enfim, podemos passar a refletir sobre a qualidade de nosso trabalho, considerando não apenas as condições que nos são oferecidas em determinado momento, mas, principalmente, qual o significado de trabalhar e do que temos feito para a construção de nossa história.

Para terminar é importante dizer que este não é, necessariamente, um texto de exaltação ao trabalho, mas sim um convite a exercitarmos a boa e velha capacidade de análise crítica diante do que nos propomos a fazer e, melhor que isto, porque nos propomos a fazer.

Conveniência, coragem ou simplesmente amor

Em meio a piadinhas infames do inconveniente “humorista” Rafinha Bastos, até a coroação previamente anunciada como rainha da parada gay, que ocorrerá no mês de setembro em Salvador (BA), o casamento de Daniela Mercury com a jornalista Malu Verçosa resgatou a cantora baiana do ostrassismo midiático.

Como se emergisse das sombras das badaladas Claudia Leite e Ivete Sangalo, Daniela foi acolhida e aclamada com o glamour de excelência da comunidade LGBT e, de quebra, ainda se posicionou como uma antítese “perfeita” aos absurdos cometidos e profanados pelo bizarro deputado, Marco Feliciano.

A atitude de Daniela, compreendida por muitos como uma estratégia de marketing, por outros como uma postura corajosa, e ainda por tantos como um simples ato de amor, escancara para quem queira ver o novo lugar das minorias na pauta de prioridades do Brasil. Fica claro que avançamos na conquista e na garantia de direitos, e que condições humanas como orientação sexual, deficiências congênitas e adquiridas, dentre outras particularidades, um dia   compreendidas como “defeito”,  “vergonha”,  pela quase totalidade da população, hoje podem  significar como bem resolvidas, passaporte carimbado para um nível mais elevado de exercício da cidadania.

Não quero dizer, com tais afirmações, que os preconceitos acabaram, ou mesmo que seja uma vantagem ser parte de um segmento considerado “minoritário” dentro da sociedade brasileira. O que trago nesta coluna é o fato concreto de que hoje conseguimos fazer ecoar nossas vozes, e o melhor, com cada vez mais adesões dos diferentes segmentos sociais.

Adesões de ocasião e oportunistas de carterinha, por mais eficientes que possam parecer em determinado momento são danosos por excelência, pois trazem com sua falta de compromisso uma ameaça concreta para qualquer segmento que busca na efetividade de suas ações um dos principais sustentáculos na luta pelo reconhecimento de suas causas.

Não sei se esse é o caso de nossa cantora em pauta, e creio que não nos cabe  julgar. Por amor, por coragem ou por conveniência, ela tomou uma decisão.

Futebolisticamente falando, ela saiu, da “segunda divisão” de nossa nova MPB, para jogar ganhando de goleada, na linha de frente do time vencedor composto por aqueles que jogam contra a intolerância e o preconceito. Nesta turma, com certeza, a grande maioria é composta por idealistas, gente que já sofreu demais e sentiu na pele a ira daqueles que acreditavam que, por alguém ser diferente, não podia conviver em sociedade.

Com certeza, o jogo ainda está longe do fim. Por hora, nossa certeza é que o placar está a favor e que a vitória parcial foi conquistada graças a uma virada histórica, de um povo que como dizia Gonzaguinha,

“não tá na saudade e constrói

A manhã desejada

Aquele que sabe que é negro

o coro da gente

E segura a batida da vida o ano inteiro

Aquele que sabe o sufoco de um jogo tão duro

E apesar dos pesares ainda se orgulha de ser brasileiro.” 

Triste Feliciano

Mais do que um deputado teimoso, radical, ou seja lá quaisquer outros adjetivos que alguém possa de bate-pronto atribuir ao Pastor Marco Feliciano, a realidade nos mostra que tal situação se configura atualmente como um fato a ser compreendido, estudado e comentado.

Quero dizer com essa afirmação que quando me refiro à Feliciano, não estou tratando da pessoa, mas sim do fato histórico ao qual batizo com o nome do “protagonista”.

Aponto a seguir três características desse triste momento que acredito que devem ser destacadas e lembradas, para que nossa história não seja maculada novamente com tamanha excrescência política.

1. Mau uso da ideia de democracia

Quando o deputado diz que permanecerá no cargo se utilizando do discurso que chegou até ali democraticamente, ele não está mentindo. Contudo, acaba arranhando este conceito que é sagrado, repleto de valores pelos quais muitos deram a vida para lutar e fazer com que um dia pudéssemos viver livremente em um estado de direito com essa condição. Falar de democracia para justificar uma postura antidemocrática é uma estratégia perversa, que deve ser combatida e denunciada.

Alguém poderia relembrar ao deputado a famosa reflexão de Albert Einsten: “O meu ideal político é a democracia, para que todo o homem seja respeitado como indivíduo e nenhum venerado“.

 

  1.  Apologia ao preconceito e à discriminação

Não é difícil encontrar no Youtube falas preconceituosas e altamente agressivas do parlamentar contra negros, pessoas com deficiências, homossexuais, dentre outros segmentos sociais. Mais terrível do que as bobagens ditas é o fato de termos que ainda conviver com a ideia de que foram pronunciadas pelo atual presidente da comissão que cuida, no Poder Legislativo, dos direitos humanos e das minorias.

 

  1. Distorção dos valores cristãos

Jamais o Cristo “ecumênico” ou “histórico” pregou a intolerância, o preconceito ou o ódio. Assim, mesmo sua vice-presidente, a Deputada Antônia Luciléia Cruz Ramos Camara, representando o mesmo Partido Social Cristão, já anunciou que irá renunciar, diante dos absurdos falados aos quatro cantos pelo raivoso deputado.

Diante dos posicionamentos recentes do atual presidente da CDH (Comissão de Direitos Humanos), cabe perguntar: será que ele, de fato, leva a sério a ideia de amar ao próximo como a si mesmo?

Talvez, quando essa coluna estiver publicada, não teremos mais à frente da Comissão o triste Feliciano, mas este fato, como já foi dito, não pode ser esquecido, e se lembrarmos dele em todas as outras futuras eleições que participarmos, tudo isso já valeu a pena.