Baderneiros ou cidadãos.

Mais uma vez, nossa jovem e bela democracia dá prova do quanto pode encantar com sua beleza e força. Da mesma forma, e com a mesma intensidade, ainda com espinhas na cara, nos faz constatar quão grande são os impactos provenientes de tão poucos anos de vida cidadã em um país com valores tão nobres assegurados no âmbito de sua constituição.

O resultado disso, na maior parte das vezes, é a superficialização do debate. As pessoas assumem um lado, pois sabem que agora têm o direito de se posicionar.

Muitas vezes, mesmo sem ter claro o tamanho dessa conquista, exercem tal garantia; o que é bom, porém infelizmente acabam tomando um lado da discussão com base em retóricas repetidas, e pouco consistentes por si só. Assim, transformamos as conversas em torno da construção do futuro de nosso país em um papo pouco racional, envolto de paixões e opiniões, que quando ganham espaço, isso acontece mais pela intensidade de sua defesa e alto índice de repetição, do que pela profundidade do que trazem como principais pressupostos ou “boas ideias”.

Vejam só como tratamos, por exemplo, as questões referentes ao recorrente número de crimes cometidos por menores, principalmente em nossas grandes regiões metropolitanas. De cara, elegemos um tema, e com essa decisão, obviamente varremos todos os outros relacionados ao problema para baixo do tapete.

Neste exemplo, o assunto escolhido para que as pessoas “torçam” contra ou a favor é a redução da maioridade penal. Daí em diante, a conversa fica simples, quem se posiciona contrariamente a essa proposta recebe de seus adversários o rótulo de defensores de bandidos, teóricos de plantão, insensíveis diante da realidade dos fatos. Já aqueles que são favoráveis são rotulados por seus opositores como, reacionários, pequenos burgueses ou trabalhadores emburguesados, alienados e coptados pela grande imprensa golpista. Em meio a essa briga de torcidas, não se debate a baixa qualidade das medidas socioeducativas, o alto nível de amadurecimento de nossos jovens em relação às décadas anteriores, nem tão pouco a segurança pública como um todo no Brasil.

Seguindo nesta toada, nos últimos dias vimos novamente o país se dividir em duas grandes torcidas. Que fique claro, não foi por conta da escolha de seleções que disputam a Copa das Confederações. Agora de um lado, temos aqueles que defendem os protestos que acontecem por todo o país, classificando tais iniciativas como amadurecimento de nossa juventude, somado ao poder mobilizador das redes sociais. Na outra ponta, tem os indignados, que entendem isso como baderna, tumulto, enfim, uma afronta aos que trabalham.

Novamente não aprofundamos. Não se ouve, por exemplo, nas filas de banco, se discutir os motivos dos protestos, nem nas mesas de bares, pessoas fazendo uma análise mais profunda sobre as causas e as reais lideranças que encabeçam tais movimentos.

Pessoalmente, é óbvio, tenho minhas opiniões e acho uma delícia quando posso expor diante de pessoas contrárias travando bons debates horas a fio. Nesse espaço, no entanto, creio que o momento seja de convidar as pessoas para que relativizem mais, fujam das verdades confortáveis, e tentem ver no argumento contrário não uma bandeira partidária ou um standard inimigo. Trata-se apenas de outra forma de ver, boa para se discutir e em alguns casos combater, mas sempre lembrando Voltaire: “Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las.”

Assembleias imitam a vida? Ou seria o contrário?

Como aprendemos lá na matemática: a ordem dos fatores não altera o produto. Porém, na contramão de qualquer perspectiva lógica, os comportamentos humanos, aflorados em assembleias de associações, partidos políticos, condomínios, e outros espaços democráticos traduzem com grande intensidade e amplitude as nuances pouco ressaltadas no dia a dia daqueles que compõem esses espaços.

Nessas ocasiões, as pessoas são empoderadas, ou seja, colocadas frente a frente com o direito legítimo e intransferível, de participar e se manifestar. A partir de então, o que vemos são homens e mulheres mais contundentes, prolixos, tímidos, líderes, articuladores, indignados, corajosos e, por vezes, mais sonhadores, covardes, intolerantes e propositivos. Comprovadamente, o exercício pleno da democracia faz com que as pessoas “se permitam mais”.

Certa vez, participei de uma assembléia que teve início às duas da tarde, e terminou por volta de três da madrugada. Para quem nunca vivenciou uma situação como essa, parece se tratar de um grande desperdício de tempo. Já, eu, com mais de dez anos nesta caminhada, afirmo sem qualquer dúvida, que não existe melhor meio de compreendermos nossas relações do cotidiano do que viver a intensidade plena de um processo verdadeiramente democrático.

Costumo brincar com meus alunos, abordando este tema a partir de uma analogia sustentada pela ideia de que nesses espaços, nós, seres humanos, libertamos toda a fauna que compõe e acompanha a diversidade de personalidades que permeiam nosso convívio social. Sempre encontraremos, por exemplo, o pavão, aquela figura vaidosa, que adora externar todos os seus conhecimentos, abusando de palavras bonitas e de um tom de voz, digno dos mais sábios seres vivos da humanidade. Nunca faltará ainda o bicho preguiça, que descansará tranquilo e sem qualquer culpa, compondo todo o cenário diverso e, por vezes caótico, mas não menos confortável para seu repouso repleto de possíveis abstrações. Assinará ainda a lista de presença o velho e frequente ganso, aquele mesmo que liderará a todos com seus gritos incisivos e contagiantes, fazendo do microfone algo dispensável e pequeno diante de todo seu potencial vocal.

Esta conversa é longa e tem espaço para muitas outras analogias e possibilidades de interpretação. Por hora, deixo o convite a que possa vivenciar tais momentos e observar, a si, aos outros, e principalmente o impacto dessa atuação conjunta, para o crescimento individual de cada um.