Probleminhas com o computador

Lembro do meu primeiro trabalho em escritório. Foi no século passado, mais precisamente no início da década de noventa. Eu, como muitos de vocês, leitores, me preparei para tanto. Curso de datilografia, redação, etc, etc, etc … Coisa de maluco, imaginar, em meio a um monte de pequenos e grandes problemas que estou tendo neste exato momento, após atualizar o sistema operacional de meu computador, como podíamos trabalhar com tanta tranquilidade sem essas máquinas.

Não quero com essa conversa trazer um discurso saudosista, até porque, quem me acompanha sabe que não é esta minha perspectiva de leitura de mundo. O objetivo é conversarmos um pouco sobre como se virar diante dos “paus” que possam surgir no meio do caminho.

Já vi, por exemplo, colegas professores quase paralisados diante do fato concreto, como um data show sem funcionar. Profissionais ótimos que se viraram por anos sem tal ferramenta, de repente se mostrando reféns de um recurso maravilhoso, mas esquecendo que se trata apenas de um recurso.     

Quem já não viveu em algum momento no escritório, o recorrente problema de “a Internet parou de funcionar”. Esta frase chega quase como uma mensagem subliminar que indica, “paramos todos nós agora imediatamente de trabalhar”. Pessoalmente, tenho que lhes dizer que me sinto bastante desconfortável quando estou trabalhando desconectado, porém isso não pode ser um motivo para qualquer profissional deixar de desenvolver suas atividades.

Mas e se o computador parou? Será que chegamos ao ponto em que também paramos? Com certeza sempre haverá muito a ser feito, e entrar em stand by pode ser apenas uma escolha ou desculpa para se por de lado aquilo que já não gerava qualquer tipo de entusiasmo.

Ferramentas foram desenvolvidas ao longo da historia, com vistas a nos permitir fazer melhor aquilo que realmente nos propusemos a fazer. Não tê-las significa buscar outros jeitos de se executar a tarefa, porém acredito que nunca pode ser uma justificativa para se desistir dela.

“O sim é um descuido do não”

“Sei lá, sei lá, a vida tem sempre razão”. É impressionante, mas também é fato, quando nos propomos a falar de um gênio, o Tsunami de palavras e emoções que nos invade acaba sendo tão intenso, que nos deixa quase sem ter o que dizer. Então, em uma espécie de reverência silenciosa, homenageamos aqueles que por conta de alguns “dons” e principalmente, ao escolher serem a si mesmos de verdade, fizeram de suas existências, enormes dádivas para o planeta.

Assim, um pouco tímido, e muito emocionado, bastante feliz, e em certa medida preocupado, na semana em que o mundo celebra cem anos de Vinícius de Moraes, humildemente relembro neste espaço alguns dos presentes forjados por palavras, boas doses de sabedoria e claro, muitos sentimentos deixados pelo grande poetinha.

Dentre tantos ensinamentos, ele nos mostrou que a vida é uma arte e disse, “A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida”. Bom demais lembrar como ele nos falava da amizade, “A gente não faz amigos, reconhece-os.”, ou ainda, “Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos!”.

Penso que foi ele, Vinícius, o brasileiro que melhor soube tratar do paradoxo que é a   beleza e a dor, de amar: “amar é querer estar perto, se longe; e mais perto, se perto”, e também cantou:

“Ai de quem ama,

Quanta tristeza há nesta vida

Só incerteza

Só despedida

Amar é triste

O que é que existe?

O amor Ama, canta

Sofre tanta

Tanta saudade

Do seu carinho

Quanta saudade

Amar sozinho

Ai de quem ama

Vive dizendo

Adeus, adeus”.

            Um brinde ao diplomata mais brasileiro de todos os tempos.  Afinal de contas, não poderia faltar um drinque nesta conversa, pois, como ele mesmo um dia falou, “O uísque é o melhor amigo do homem. É o cachorro engarrafado”.

Para fechar, deixo dois bons conselhos de nosso mestre: o primeiro nos bota diante de uma escolha, “é melhor ser alegre do que triste, alegria é a melhor coisa que existe”, e por fim  um chamado firme e lúcido para que vivamos, “Cuidado! A vida é pra valer. E não se engane não, tem uma só. Duas mesmo que é bom, ninguém vai me dizer que tem sem provar muito bem provado, com certidão passada em cartório do céu, e assinada embaixo: Deus! e com firma reconhecida. A vida não é de brincadeira, amigos”.

A complexidade do simples

Relativizar o óbvio, ou seja, por vezes se policiar para tornar claro aquilo que nos parece evidente, pode ser mais do que uma postura simpática, uma estratégia inteligente de melhor se fazer entender. Nossa geração, protagonista de uma revolução que se dá na esquina do mundo real e virtual, das eras industrial e do conhecimento, parece que ainda não se deu conta que, em boa medida, já não somos os mesmos, nem tão pouco vivemos como nossos pais.

Essa metamorfose, mais do que ambulante, é veloz e por vezes furiosa, pois acaba transformando conversas em verdadeiros monólogos disfarçados. Esta ficha caiu para mim ontem na hora do almoço, quando ouvi uma garota da mesa do lado pedindo para o senhor que todos os dias nos atende religiosamente no mesmo lugar e horário, “Por favor, pode me passar a senha do Wi Fi”? Ele, sem graça, respondeu: “eu vou ver, mas acho que aqui não tem isso não”. Minutos depois voltou com os números e letras anotados em um papel, porém, é bem provável até agora não sabe, e talvez nunca saberá o que, de fato, aquela cliente pediu.

A propósito, quantos dos jovens que se utilizam da tal gíria, “só agora caiu a ficha” já viram de fato uma ficha telefônica. Dei muita risada neste fim de semana ouvindo um de meus podcasts favoritos, quando um dos apresentadores comentou da perplexidade de seu filho de cinco anos diante de um bidê. Segundo ele, o garoto olhava fascinado aquela peça a mais no banheiro da nova casa, e tão pouco os pais se distraíram, a pequena criança já encontrou utilidade lúdica para aquele “segundo vaso sanitário com torneiras”.  Notem que falei nesta frase de podcasts, como se fosse a coisa mais comum do mundo. Esse tipo de conteúdo produzido, disponibilizado e baixado pela Internet, já é responsável por um mercado gigante, com milhões de fãs, profissionais e ferramentas disponíveis para sua viabilização. Contudo, ainda se trata de algo conhecido por um percentual ínfimo da população. Aliás, continuando no mesmo “rumo de prosa”, quantos por cento dessa mesma população sabe o significado da palavra ínfimo?

Não tenho dúvidas que em tempos de Google e outras possibilidades, tudo fica mais a mão e uma pequena pesquisa acaba aclarando grandes questionamentos. A questão que proponho nesta nossa conversa refere-se ao cuidado que podemos ter com a aparente simplicidade do óbvio. Esse equívoco pode nos fazer mais do que superficiais, por vezes injustos e arrogantes, diante de um interlocutor que não tem qualquer obrigação de compartilhar dos nossos mesmos saberes.

Quando trago tal problema para discussão, não me excluo do conjunto de pessoas que se deixam enganar pelo “fácil”. Vez ou outra me pego despejando siglas, expressões e até termos técnicos, como se fossem o suprassumo do simples de nossas conversas do dia a dia. Aí refletindo, chego à conclusão que pode sim ser até que isso seja verdade, porém não dá para desconsiderar que o simples, por vezes, pode se tornar complexo, e cabe a nós ficarmos atentos para que isso ocorra cada vez mais com menos frequência. Fecho este texto, sabendo que talvez já tenha me tornado prolixo, e por isso é melhor virar o disco, mas, antes, porém, não custa perguntar, quantos dos que lerão esta coluna já viram uma vitrola?