Compartilhando 2013

De alguns anos para cá, as redes sociais transformaram o compartilhamento do cotidiano em um novo hábito de uma parcela significativa da humanidade. Mostrar e contar para um grupo de pessoas uma foto, parte de um texto, o último destino visitado, uma reportagem ou um livro recém lido, se tornou uma praxe quase que por mágica.

Entendo que isso não é novo, pois as pessoas sempre buscaram formas de dividir suas histórias; logo, a novidade são os meios utilizados para tal e não as atitudes recorrentes nesse sentido.

Hoje, revisito e compartilho alguns momentos que vivi no ano de 2013. Creio que possa ser uma boa forma de agradecimento ao ano que se vai e uma ótima maneira de saudar o ano que logo vem.

De início é bom demais poder resgatar alguns dos tantos momentos que creio, por mais um ano, me permitiram contribuir para a construção e o aprimoramento do SUAS – Sistema Único de Assistência Social. Foram trabalhos intensos nas cinco regiões do país com formações e debates em dezenas de municípios como, por exemplo: Mogi Guaçú, em SP, e Belém, no Pará; ou Rio Grande, no Rio Grande do Sul, e Montes Claros, em Minas Gerais. Tudo isso somado ao privilégio de mais uma vez estar em Brasília para a Conferência Nacional de Assistência Social.

Militando pelo movimento de cegos, pude debater e aprender muito com os companheiros da Espanha, Uruguai, Bolívia e de todas as partes do Brasil. Estar presencialmente em cidades como Madri, Valladolid, La Paz, Montevidéu e tantos outros municípios do Brasil, reforçou para mim a necessidade de entrarmos em 2014 com o propósito firme de atuarmos em rede, trocando conhecimentos e implementando ferramentas que nos permitam maiores e melhores diagnósticos – considerando diferentes realidades – sobre a nossa atuação.

Para mim, este 2013 foi rico em conteúdo, com mais de cinqüenta textos publicados, dois cursos de extensão ministrados e um novo livro concluído com lançamento previsto para 2014. Este foi, também, o ano em que me deparei com o desafio de assumir a presidência de uma grande entidade de pessoas com deficiência: a Avape, tendo por conseqüência a alegria de me emocionar constantemente com as demonstrações de carinho e confiança de inúmeras pessoas comprometidas com o futuro dessa Organização.

Mas a vida não é só trabalho. Em meio às dezenas de horas de viagem de avião e espera em aeroportos pude ler muito. Foi irresistível não mergulhar em quatro dos cinco volumes de Game of Thrones, do brilhante George R. R. Martin; me emocionar com a bela narrativa de John Banville em Luz Antiga; além de conhecer a fundo a super carreira de Jonathan Ive, o genial designer da Apple.

Entro em 2014 devorando a deliciosa trilogia 1Q84, de Haruki Murakami, além de descobrir que em 2013 pude ressignificar as formas que construí, até então, de assistir TV, ouvir rádios, ler revistas e jornais. Escutar podcasts, assinar canais do Youtube e assistir filmes por meio de serviços de reprodução sobre demanda, foram experiências que me fizeram ter a certeza de que 2014 nasce em meio à consolidação de um novo paradigma de produção e acesso a conteúdos midiáticos.

Obrigado 2013 pelos bons momentos com amigos e familiares, pelas angústias e dores superadas e, principalmente, por nos conduzir até o jovem e promissor 2014. Assim, resgatando alguns de meus momentos e reflexões, espero poder abraçar a cada um de vocês que me acompanharam até aqui e de alguma forma se visualizaram em uma pequena fração do que escrevi. Espero estarmos juntos neste novo ano, para que ao fim, ou melhor, a cada dia,   possamos sempre compartilhar.

Presentes de Natal

Já pensou no que vai comprar? No que vai pedir? No que espera ganhar?

A data festiva mais emblemática e importante do mundo ocidental traz consigo um forte apelo que nos convida a refletir, ressignificar, enfim, renascer a partir da celebração dos valores e ensinamentos cristãos.

Por outro lado, a cultura consumista, adotada a cada geração com maior intensidade, faz com que, ano a ano, reforcemos para nossos descendentes a ideia simplista de que esse é quase que um simples dia de troca de presentes.

Esse não é um texto que nega os momentos  bacanas em que desembrulhamos  lembranças dadas com tanto carinho em meio a sorrisos, beijos e abraços.

O que quero hoje é lhes convidar a refletirmos um pouco sobre aqueles grandes presentes que ganhamos da vida, aos quais poderemos, no dia de Natal, celebrar e cada um, de acordo com sua crença, agradecer.

Pessoalmente, quero celebrar por exemplo meus familiares. Dizer “eu te amo” para minha esposa, filha, meus pais, além de abraçar todos os demais, agradecendo a cada um por existir. Quero ter o prazer de comemorar a chance de ter grandes amigos(as) conquistados(as) ao longo da vida. Eles foram chegando em momentos como um encontro em sala de aula, experiências de trabalho, um bate-papo regado a chope, debates políticos calorosos,  mas todos, ao final  das contas, puderam ser enxergados como oportunidades que trouxeram presentes, que merecem ser reverenciados nos 365 dias do ano.

Ainda quero poder brindar o privilégio de trabalhar fazendo o que gosto. Fiscalizando e propondo a formulação de políticas públicas em instâncias de controle social, escrevendo em diversas mídias,  elaborando conteúdos de formação, lecionando para diferentes  públicos, chegando e sendo acolhido em cada canto do Brasil.

Convite feito, agradeço abraçando a todos com palavras.

Obrigado! Feliz Natal aos Companheiros de militância do Movimento de Pessoas com Deficiência, da Saúde e da Assistência Social, colaboradores da Avape, alunos de tantas formações, equipe da Paulus, seguidores da Internet, leitores anônimos e tantas pessoas que me ajudaram a ser mais humano ao longo desse ano.

Vinte Anos de LOAS

Há ainda quem torça o nariz quando lê um texto meu sobre este assunto. “Mas como assim? O cara não é assistente social, não está matriculado, não é do grupo”, etc.

Felizmente, os rótulos do “não” foram insignificantes diante da certeza reforçada por tantos momentos que vivi ao longo de seis anos, que me deixam seguro para continuar escrevendo, propondo e falando sobre esta política pública, que com orgulho tenho ajudado a construir.

No último dia sete de dezembro a Lei Orgânica de Assistência Social – LOAS – fez vinte anos. São duas décadas então que, por exemplo, pessoas com deficiência e idosas têm, ainda que longe, o ideal do acesso assegurado à renda como um direito constitucional.

A partir de 1993, o Brasil sinalizou para o seu povo e para o mundo que poderia assumir um compromisso alicerçado em patamares civilizatórios, bem mais avançados e condizentes com a postura e a história de sua gente.

A LOAS, mais do que uma lei, situa-se como um marco da história brasileira, pois traz princípios e diretrizes que ressignficam a compreensão do que pode ser cidadania, para além de vulnerabilidades históricas como a deficiência, a infância, a velhice, o acesso à renda, orientação sexual, dentre outras.

 

Para quem nunca leu, é importante dizer que essa lei vai na contra-mão da criminalização da pobreza, ou seja, ninguém é pobre porque quer, logo, toda sociedade tem responsabilidade para com a construção de caminhos que levem à garantia de direitos, independente da condição humana de cada um.

Ainda dialogando com aqueles que nunca leram a LOAS, é importante dizer que essa Lei traz como pilar estruturador a participação popular por meio de organizações representativas, como meio para todas as deliberações desta política nas três esferas que compõem o pacto federativo.

A Loas (Lei n°8.742) foi recentemente alterada pela Lei n°125435, e dentre tantos ganhos cabe destacar a transformação do SUAs em lei, que significa Sistema Único de Assistência Social, algo concebido nas conferências e viabilizado graças a um compromisso do estado brasileiro com a democracia participativa, seis anos antes desta conquista legal. Essa alteração trouxe outras novidades significativas, principalmente no que tange ao entendimento do conceito de família e de deficiência.

Pessoalmente, acho que perdemos quando reescrevemos o artigo segundo, que trata dos objetivos da Assistência Social. Todos aqueles objetivos já assegurados constitucionalmente foram colocados dentro do guarda-chuva da proteção social, fazendo uma pequena “lambança” conceitual. Contudo, temos uma lei de dar orgulho. Se você ainda não teve acesso, vale à pena pesquisar, ler e, principalmente, buscar entender.

Fecho esse texto cumprimentando a todos que contribuíram para essa conquista. Agradeço a tantos companheiros que ao longo do caminho me ensinaram, debatendo e refletindo sobre assistência social.

 

Vamos celebrar e principalmente trabalhar para que tudo que ali está escrito seja assegurado a cada cidadão deste país.

Dia de luta

Nesta data, 03 de dezembro, comemoramos o Dia Internacional de Luta pelos Direitos das Pessoas com Deficiência. Costumo, há algum tempo, sempre próximo desta data, escrever algum texto que reforce a importância de nos mobilizarmos, buscarmos mais aliados, enfim, fazermos com que nossas bandeiras ganhem força por meio do reconhecimento da sociedade, e claro, principalmente por conta de nosso protagonismo cidadão.

Neste ano, penso que não pode, muito menos deve ser diferente. Temos inúmeras frentes que demandam um olhar urgente de toda a sociedade, porém paradoxalmente vivemos em tempos permeados por uma percepção social de que já temos tudo resolvido.

Não podemos desconsiderar os avanços e conquistas, da mesma forma que não devemos esmorecer diante de uma realidade que nos coloca em alguns casos, ainda muito longe de patamares aceitáveis de civilidade. Temos ações bem intencionadas de governo, que nos permite acessar crédito, viabilizar alguns programas de capacitação profissional, caminhar com maior celeridade para inserção de pessoas com deficiência no ambiente escolar e vislumbrar algumas possibilidades de melhor qualidade de atendimento no âmbito do SUS. Contudo, ainda estamos longe de uma política de estado. O Brasil não debate no seio de seus partidos políticos, nem dentre seus gestores dos três entes federados, qual o melhor modelo de gestão para uma política que deveria existir na perspectiva de dar respostas para  dezenas de milhões de pessoas.

Ainda temos que nos sujeitar ao calvário pela busca de laudos para provar o tempo todo que somos cidadãos de direitos. Sofremos sem perspectivas de mudanças ao ver, após 20 anos de LOAS, pessoas com deficiência tendo que comprovar um quarto de salário mínimo per capta, para ter acesso a um direito constitucional como o BPC, mesmo tendo inúmeras deliberações de conferências nacionais apontando para uma mudança radical neste sentido. Deixamos de ser portadores de deficiência, graças a um avanço na compreensão semântica, porém temos que ficar amealhando carterinhas para comprovar nossa deficiência em diferentes equipamentos públicos.

Espero que esse não seja encarado como um texto pessimista, ou injusto, com as tantas coisas boas que já foram feitas. Trata-se apenas de um alerta para a necessidade urgente de rompermos com a letargia que nos leva a testemunhar uma retração na inserção de pessoas com deficiência na ordem de 5% no mundo do trabalho entre 2007 e 2012.

A sociedade civil organizada precisa ser protagonista mais uma vez. Retomar sua capacidade de mobilização e ajudar o Estado Brasileiro encontrar caminhos inovadores e bem mais arrojados dos que  hoje temos trilhado.

Despeço-me cumprimentando tantos companheiros de luta que ganhei nesses quase vinte anos. Aproveito para homenagear tantos que já se foram, e saudar aos que constroem o futuro por meio de suas ações presentes. Gestores, trabalhadores, e todos nós, pessoas com deficiência que com todos os nossos erros e acertos, chegamos até aqui com a certeza de que podemos ir muito mais além. Nada sobre nós sem nós!