Mais um pitaco…

Ao longo das últimas semanas, foram muitos os artigos e posicionamentos inflamados que surgiram em blogs, fóruns de redes sociais e e-groups relacionados ao Cesar, o personagem interpretado por Antônio Fagundes na novela Amor à Vida, que, envenenado lentamente por sua mulher, acabou ficando cego.

Pessoalmente, não me peguei surpreso, pois é sempre assim, um movimento que ganha voz, e se faz presente naturalmente nos debates em geral na sociedade e quando se vê representado, seja de forma negativa ou positiva, sempre vai se posicionar.

Desde criança, na condição de noveleiro ocasional, mas assumido e bem resolvido, tenho acompanhado vários cegos em novela. O primeiro que me vem à memória foi o cego Jeremias, de Roque Santeiro. Tratava-se do cego estereotipado por décadas pelo imaginário brasileiro. Caso não tenham visto, ele pedia esmola, tinha super sentidos, como olfato e audição, tocava um instrumento, era bem-humorado, e com seu guia, compunha o cenário padrão de uma cidade pequena do interior do país.  Também me recordo dos cegos de América, o Jatobá, interpretado por Marcos Frota, a Flor, por Bruna Marquezine, além de atores verdadeiramente cegos, que ganharam espaço na trama. Mais recentemente o próprio Walcyr Carrasco, de Amor à Vida, apresentou a atriz cega, Danieli Haloten, que trouxe para Caras e Bocas a personagem Anita.

Notem que estou abordando somente a cegueira, mas também poderia falar de outras deficiências, que foram abordadas na teledramaturgia brasileira. No fim das contas, o debate que sempre vem à tona é “esse personagem não nos representa; cria uma imagem ruim para a sociedade; reforça velhos preconceitos”. Acho, inclusive, que em alguns casos, o grito de muitos dos militantes de nosso movimento de luta acaba fazendo todo o sentido. Contudo, também acredito que devamos respeitar a liberdade poética do autor. Faz-se necessário compreender que um personagem ganha vida dentro de um contexto; logo, todo seu comportamento se dá a partir daí.

No caso de Amor à Vida, antes de ficar cego fisicamente, Cesar já não tinha qualquer visão clara de mundo, seja por seu amor irracional por Aline, seja por seu desprezo incondicional pelo filho Félix e tantos outros interlocutores que cruzaram seu caminho ao longo da trama.

Penso que precisamos ter cada vez mais pessoas com deficiência, gays, lésbicas, índios, enfim, mais minorias em nossas novelas, já desgastadas por um padrão que as pesquisas mostram, clamam por mudanças urgentes.

Pessoalmente, não gostei de Amor à Vida. Aliás, confesso que foi uma grande decepção se pensarmos em outros trabalhos melhores já produzidos por Walcyr. Por outro lado, tenho que dizer que o cego criado por ele não me incomoda. Penso até que ficou claro para o povo brasileiro o fato concreto de que para aquele homem o menor dos problemas é a cegueira física.

Escrevo este artigo no dia 28 de janeiro, ou seja, a história de César ainda não chegou ao fim. Portanto, trata-se de mais uma dentre tantas opiniões, que espero que possa contribuir para bons papos sobre o convívio entre pessoas com e sem deficiência nas novelas e no mundo real.

Futurologia

Nesta semana, começou em Las Vegas a CES 2014 (Consumer Eletronics Services). Trata-se de uma das maiores feiras de tecnologia do mundo, e se caracteriza principalmente por apontar tendências e inovações que farão parte da vida das pessoas no futuro.

Super televisores, celulares com telas flexíveis, carros com sistemas operacionais integrados são algumas das novidades que começam a chegar de lá, digo, começam, pois creio que muito ainda será discutido em cima do que já foi publicado ou mesmo em relação a outras possibilidades ainda não anunciadas.

Pessoalmente, ainda não encontrei notícias significativas relacionadas a tecnologias assistivas e soluções inovadoras de acessibilidade. Isto não significa que nós, pessoas com deficiência, devamos ficar decepcionados com o evento, pelo contrário, creio que a cada notícia já possamos fazer nossos exercícios de futurologia com base no que já temos de recursos tecnológicos.

Notem por exemplo, que carros com sistemas operacionais integrados, já ricos em acessibilidade como o IOS da Apple, e o Android da Google, que cada vez avançam um pouco mais neste sentido, podem sinalizar um novo mundo para pessoas com diferentes limitações. Não é impossível imaginar que, em um futuro próximo, tais veículos poderão ser controlados por pessoas com movimentos comprometidos quase que na totalidade, apenas por direcionamento dos olhos ou quem sabe até por comando de voz.

Pessoas cegas já podem atualmente identificar com seus Smartphones, rótulos de bebidas, cores de roupas e nível de luminosidade do ambiente. Esta tendência, somada às novidades anunciadas, nos permite vislumbrar que logo poderão também com certeza identificar indivíduos, sabendo seu nome e detalhes de expressão facial ou corporal, que sinalizarão, por exemplo, informações relacionadas ao nível de humor.

Cabe dizer que realizar prognósticos sobre o futuro não pode ser uma ação irresponsável. Penso que um exercício dessa magnitude só se pode efetivar na medida em que temos claro que nossa realidade atual se viabilizou graças a tentativas semelhantes experimentadas por outros no passado.

Um programa de grande audiência, apresentado aos domingos à noite, trouxe em sua última edição a possibilidade real de pessoas amputadas terem próteses extremamente eficientes produzidas a partir de impressoras 3D. A matéria focou principalmente em mãos biônicas e afirmou que uma solução de milhares de dólares poderá em breve chegar ao usuário por pouco mais de 500 dólares.

Quando vi a notícia, além de comemorar a boa nova, fiquei pensando: quantas pessoas têm ideia do que é de fato uma impressora 3D? Talvez seja próximo de zero o percentual da humanidade que hoje já vislumbre o impacto dessa tecnologia em seu futuro. São poucas as pessoas que já se imaginam recebendo, por exemplo, um óculos por email e imprimindo em casa ou mesmo em uma autorizada localizada no próprio bairro.

Pensar o futuro nos permite visualizar um novo modo de vida. Novas possibilidades de convívio, de troca, de produção, de entretenimento, e até de empoderamento político cidadão. Como disse uma vez o francês Sihan Felix, o futuro é o passado em construção, logo, porque não, cada um de nós exercitarmos nossa capacidade de erguer essa edificação, aos moldes do que acreditamos e sonhamos.

Para tanto, não é necessário ser um gênio da mecatrônica, ou um iluminado do mundo das TIS, basta olhar para o lado e passar a imaginar que tudo que existe pode ser bem melhor se for pensado para todos que existem.

Ron Mace chamou isso de desenho universal. Pessoalmente, acredito tratar de algo bem maior e transformador, o que chamo, em última instância, de democratização do acesso ao mundo dos vivos, mas isso já é assunto para um outro texto. Até lá.