Os três presentes

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Hoje é dia de texto comemorativo. Esta semana, mais precisamente no dia vinte e cinco de junho, a Avape, Associação para Valorização de Pessoas com Deficiência, celebrou seus trinta e dois anos.

Desde que assumi a responsabilidade de presidir a Organização, há pouco mais de um ano, tenho testemunhado e feito parte dos esforços de todos que acreditam na entidade para ressignificar e qualificar sua atuação, frente a tantos novos e velhos desafios.

Por isso, na semana em que sopramos as trinta e duas velhinhas, vou compartilhar com vocês algumas situações e possibilidades que temos vivenciado nestes últimos meses, que neste momento, aproveito para reconhecer como verdadeiros presentes para essa jovem Instituição.

Vamos primeiro falar de comprometimento. A Avape pode se orgulhar de ter um time de colaboradores engajados e verdadeiramente envolvidos com a causa. Os momentos complicados, repletos de restruturações e dificuldades, tem sido superados por um conjunto de pessoas com perfis bem distintos, porém algo notadamente incomum: o compromisso. Tal envolvimento tem contagiado usuários, familiares, amigos, enfim, a comunidade em geral, estimulando a participação cidadã e voluntária, em todos os momentos bons, ou nem tanto, que temos atravessado.

Nosso segundo presente tem sido a confiança dispensada por parceiros e pela sociedade em geral, frente a um projeto ousado, porém realista de reestruturação. Diante da decisão estratégica que tomamos, por sermos transparentes mesmo frente a cenários  nem sempre tão bonitos, a resposta que temos recebido são inúmeros votos de “sim, estamos juntos”, de atores antigos e recém-chegados nesta história de luta.

Por fim, quero lhes falar sobre nosso renascimento. Certa vez li que “Trinta anos é uma idade difícil. (…) A vida acaba, começa a existência”. Tendo a crer que neste caso o que testemunhamos é um pouco diferente, ou seja, aos trinta e dois anos, mais do que existir, essa entidade passa de fato a viver com muito mais energia. Creio que isso ocorra, não porque tal situação deixou de ser almejada anteriormente, mas sim pelo nível de maturidade que se alcançou três décadas depois de tantas histórias de conquistas e superação. Não tenho dúvidas em afirmar então que nosso terceiro presente é um renascer com um convite expresso para viver mais e com maior intensidade. A propósito, falando em vida, um dia Gonzaguinha cantou “Somos nós que fazemos a vida, como der, ou puder, ou quiser…sempre desejada”.

E foi assim, nossa Avape foi desejada por pais e familiares de pessoas com deficiência que trabalhavam em uma montadora aqui do ABC em 1982. Depois, seguiu sua história ganhando fôlego e vida, graças a trabalhadores e voluntários apaixonados, que deram a organização não apenas um tamanho substantivo, mas sim uma força alicerçada pelo conhecimento técnico e empírico, reconhecimento social e político, e claro pela qualidade praticada e certificada.

A Avape atendeu em 2013 mais de doze mil pessoas. Tem atualmente por volta de duzentas instituições  parceiras, dos setores público, privado e não governamental.

Desta forma, publicamente neste artigo de homenagens a essa grande organização,    quero  saudar e agradecer  tantos homens e mulheres que ajudaram a escrever cada linha desta caminhada.  Me despeço aproveitando a oportunidade para  convidar, você leitor, a vir fazer parte desta história. Espero que sua chegada seja o novo presente para nossa Avape, e que ela passe a ser o grande presente para sua vida.

Inclusão 2.0?

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Já pensou em ir a seguidos restaurantes, porém só em alguns poucos ter acesso ao cardápio? Sim, sim, não seria nada bom. Mas imagina se nos restaurantes que houvesse cardápio, os mesmos lhe fossem trazidos sem preços atualizados. Pois é, ficou pior, mas é assim a realidade atual do cardápio em Braille naqueles locais onde se pode encontrá-los.

Virando a página. Já se imaginou como um cliente de companhias aéreas com prioridade total de atendimento? Calma, prioridade que se traduziria na seguinte regra: o Sr. deve esperar todos desembarcarem até que chegue a sua vez. Coisa de doido, mas é assim que funciona o atendimento a pessoas com deficiência em voos domésticos ou internacionais.

Neste texto, quero discutir com você sobre o fenômeno contemporâneo dos direitos conquistados e relativizados. Um exemplo bom neste sentido é aquele gestor que há anos não cumpre a Lei de Cotas para contratação de trabalhadores com deficiência. O cara afirma sem medo de escorregar, “as vagas estão abertas, porém não temos no mercado pessoas para assumir”. Há alguns dias, participando de um debate sobre inclusão, provoquei os colegas de debate, apontando a necessidade de concebermos uma versão 2.0 de nossas estratégias.

Pensar em uma inclusão 2.0 faz-se urgente para ressignificarmos os avanços já conquistados, na perspectiva de alcançarmos melhores e maiores níveis de efetividade. Voltando ao empregador que reclama da falta de pessoas com deficiência para contratar, há que se avaliar a partir de critérios técnicos consistentes, a qualidade e a viabilidade das vagas ofertadas, pois se corre o risco de se culpabilizar a vítima, no caso aqui o candidato, pela falta de parâmetros de qualidade no processo de contratação como um todo.

Ainda pensando em nosso upgrade inclusivo, devemos reafirmar que não dá mais para conviver com a cultura das carteirinhas. Na era dos certificados e assinaturas digitais, tal excrescência, coloca milhões de cidadãos com deficiência de pires na mão junto a inúmeros órgãos públicos, para acessar direitos, como se fossem favores, lhes recomendo ler meu texto, portadores de carteirinhas, em http://www.blogdoferrari.com.br/portadores-de-carteirinhas

A cultura do laudo é igualmente perversa e segue na contramão de qualquer perspectiva civilizatória. Me pego, por exemplo, para seguirmos com essa conversa. Sou tecnicamente cego desde que nasci, e salvo algum milagre de ordem sobrenatural, seguirei nesta condição até o fim de meus dias no mundo em que conhecemos. Contudo, a cada vez que penso em prestar um concurso, ou acessar um direito, devo buscar um laudo para reafirmar ao Estado minha cegueira. Pior que isso, caso eu queira comprar um automóvel na condição de não-condutor, a regra ainda é mais escabrosa, pois acreditem, tenho que levar dois laudos, assinados por um especialista do SUS, um clínico geral do SUS e o chefe da unidade do SUS.

Como se não bastasse, pessoas com deficiência de todo o país, repetidas vezes, tem vivenciado constrangimentos diante da rejeição dos médicos em expedir o laudo. Frases como ‘Eu não estou aqui para isso” ou “sua deficiência não é o caso para tanto”, são recorrentes e têm colocado agora mais um ponto de parada obrigatória na novela dos laudos, ou seja, as ouvidorias.

Implementar uma inclusão 2.0 é tarefa grande e de todos nós. Muitos lutaram para que tivéssemos asseguradas condições que hoje já não são as ideais, logo, agora creio que seja a nossa vez de buscarmos o novo, que com certeza um dia para os que seguem já se configurará como obsoleto.

Uma semana de Copa

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Será que já podemos avaliar se deu certo ou errado? Pessoalmente, penso que sim, ao menos se tomarmos por base o tal “Imagina na Copa”. O povo brasileiro tem mostrado seu potencial acolhedor e o país, com todos os problemas, vem se materializando como uma grata surpresa, ou melhor, uma excelente constatação, para milhares de turistas oriundos de diversas partes do mundo.

Creio que, devagar, as pessoas têm percebido que, para além de toda a incompetência suprapartidária, que marcou a ausência de grandes legados infraestruturais, a partir das três esferas de governo existe uma capacidade já instalada no país, que somada à habilidade criativa para improvisar de todos os segmentos da população, tem feito a Copa um evento divertido e mais do que isso, totalmente possível para a nossa realidade.

Bons jogos, belos estádios, placares surpreendentes, e claro, o orgulho de sermos os anfitriões, também vêm sendo ingredientes, que nos dão mais do que uma sensação, mas a certeza de sucesso da Copa realizada em casa.

É possível que esta coluna se torne desatualizada, ou mesmo possa vir a ser contestada, por um ou vários problemas sérios a surgirem ao longo do caminho. No entanto, creio que o que vale para agora é refletirmos um pouco sobre o grande jogo de futebol pelo qual temos transformado nossos debates em torno de polêmicos temas que pipocam diariamente na vida deste jovem país.

Vamos combinar que a polarização de opiniões sempre marcada por dois lados, apesar de chata, maniqueísta e carente de tons de cinza, que rompam com as verdades absolutas do “preto ou branco”, é também algo recente em nossa história, visto que até algumas décadas ter posição tomada sobre determinados assuntos já era algo raro para a maioria de nosso povo, que sufocado por uma ditadura alienante, acabava minimizando suas conversas, para questões como as novelas, os jogos da rodada, ou a fofoca do bairro e do ambiente de trabalho.

A abertura do mundial da FIFA, como já era de se esperar, trouxe mais um assunto para esquentar as conversas, já recheadas de análises como sempre contra ou a favor de nossos milhões de “neo-sociólogos” de plantão. Xingar ou não a presidenta foi o assunto que fez se popularizar dois novos rótulos nas filas de banco, salões de beleza e mesas de botequim. Os indignados com a falta de educação dos torcedores, que gritavam palavras de baixo calão para a liderança máxima do país, batizaram tais torcedores de elite branca. Na outra ponta, aqueles inconformados com a “tirada de casquinha” da candidata à reeleição, em um evento que segundo entendimento dos revoltosos, ela pouco contribuiu para que fosse bem-sucedido, chamaram os contrários a sua manifestação, de intolerantes e antidemocráticos.

Vieram as goleadas, as zebras, os jogos mornos, e hoje o Brasil só fala de bola. Infelizmente, não veio junto o aprofundamento do entendimento quanto aos rótulos. Pegar a onda de alguém, e repetir que determinados fulanos fazem parte de uma elite branca pouco esclarecida, é tão terrível quanto afirmar que qualquer questionamento a eventuais atitudes, pode já ser reconhecido como uma postura antidemocrática.

A euforia e todo o divertimento que temos e vamos desfrutar ao longo da Copa não pode nos fazer esquecer dos riscos de tratarmos temas complexos com superficialidade e pior, com convicções de torcedores de times de futebol.  Devemos ficar atentos, pois tais conceitos não brotam do nada, ao contrário são plantados e alimentados por gente que sabem muito bem a força que podem ganhar se alimentados por sentimentos como orgulho, ódio, esperança, medo e preconceito.

Isto posto, atentos e vigilantes, podemos seguir debatendo o futuro do Brasil, curtindo a Copa em vários idiomas, e quem sabe, em breve comemorando o hexa, sendo ou não esta a Copa das copas.

Os meus onze campeões

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Nem precisa ser época de Copa. Somos e estamos no país do futebol. Logo, por aqui todo mundo acaba, em algum momento, dando “pitacos” ou mesmo montando suas seleções. Já pensaram se em algum ponto do presente, passado ou futuro tivéssemos a Copa do Mundo da acessibilidade e inclusão?

Com certeza, os palpites sobre os possíveis vencedores não faltariam, e brincando um pouco com essa possibilidade, decidi montar aquele que, para mim, seria o dream time da modalidade.

No gol, meu titular absoluto seria o compromisso, pois creio que não dá para começar sequer a bater bola neste campo se não pudermos contar com um craque desta categoria. Soltos pelas laterais, jogando avançados com toda liberdade para atacar, eu escalaria a criatividade e a ousadia. Boa parte das ajudas técnicas e das soluções que hoje viabilizam a autonomia e a independência de pessoas com deficiência e/ou mobilidade reduzida nasceram nos últimos cinquenta anos. Assim, a criatividade fez e faz com que pudéssemos encontrar, em pequenas coisas, grandes possibilidades. Já a ousadia tem nos permitido fazer enormes transformações diante do que, até algum momento, nos parecia impossível.

Na zaga, defendendo tais direitos com ímpeto de vencedores, meus dois xerifões seriam o desejo e a escuta. Para se promover acessibilidade e inclusão tem que se querer muito! Na mesma medida, há que se buscar na fala de quem necessita de indicativos para concepção de boas soluções e só assim decidirmos avançar com segurança.

Para o meio, eu botaria em campo uma linha de três. O conhecimento, o investimento e a sensibilidade dariam a consistência necessária para o que eu chamo de uma empreitada de sucesso. Não promoveremos acessibilidade e inclusão apenas com discursos. Temos que buscar todo o conhecimento que tem sido produzido ao longo do tempo, investir em pesquisas e ter a sensibilidade de trabalhar com foco nas necessidades de cada segmento.

Sem titubear, buscando golear adversários difíceis e não correr qualquer risco de ficar sem o caneco, eu trabalharia com três atacantes. Abertos pelas pontas, em plena sintonia com nossos laterais, estariam a informação e o engajamento. Há defesa que aguenta uma dupla dessas?

E ali na área, esperando para mandar para as redes estaria nosso super artilheiro, o bola de ouro da turma, exatamente esse que você pensou: o respeito.

A boa informação vence qualquer preconceito, o engajamento transforma o compromisso em ação efetiva, e o respeito, esse faz com que transformemos boas normas escritas em belas práticas do cotidiano.

Orientação, mobilidade e o mundo do trabalho

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No dia 31 de maio, participei do Seminário de encerramento do curso de Orientação e Mobilidade, promovido pela Universidade Federal do Triângulo Mineiro, em parceria com Instituto de Cegos do Brasil Central. Fui convidado para falar sobre empregabilidade de pessoas com deficiência visual, e fazer uma relação com a formação que estava terminando.

Após aceitar o desafio e pensar um pouco sobre como construir uma boa fala, cheguei à conclusão que deveria partir de minhas experiências pessoais e de meus conhecimentos acadêmicos na área de gestão. Assim, elaborei uma apresentação que colocou a orientação e mobilidade enquanto paradigma transformador do indivíduo para o mundo do trabalho.

Hoje compartilho com vocês os cinco pontos que me fizeram chegar a esta conclusão, na expectativa de provocar reflexões que reafirmem ou contestem minha abordagem.

Comecemos pela proatividade. Para uma pessoa cega se locomover com qualidade, seja utilizando um cão, uma bengala, ou qualquer outra ajuda técnica, deve desenvolver esta habilidade. Faz-se necessário ser proativo para pedir informações, arriscar um novo caminho, mesmo não tendo clareza total da qualidade desta decisão, ir até um ônibus e perguntar o número ou nome da linha em momentos que não há ninguém no ponto para dar essa informação.

A segunda habilidade é a observação. Cheiro de farmácia, barulho de uma fabriqueta qualquer, piso esburacado, tudo isso passa a se configurar como grandes detalhes para constituição de referenciais. Quando caminhamos pelas ruas, temos que literalmente ler os diferentes ambientes, observar e eleger cada novo ponto como orientador para futuras incursões.

A disciplina foi apontada por mim como a terceira habilidade que adquirimos depois de alguns quilômetros rodados. Um cego deve ser rigoroso no uso de suas técnicas, visto que dentre outras coisas, estamos falando de sua própria segurança. Passamos por viadutos, escadas rolantes, estações de trem, dentre outros lugares nada simples. Logo, ser disciplinado é quase uma questão de sobrevivência.

A penúltima habilidade que apontei em minha conversa com os alunos da querida professora Nicinha, foi a resiliência. Não dá para esmorecer diante da constatação que acabamos de pedir informação para um objeto, imaginando que falávamos com alguém. Temos que compreender aquela senhorinha que nos ajuda atravessar a rua e logo em seguida passa a tentar nos convencer que o pastor de sua igreja nos operará uma cura daquelas de ser catalogada em bíblia. Tornamos-nos resilientes, pois aprendemos a conviver com loucos , santos e pseudos normais, a cada passo pelas ruas.

Por fim, falei do protagonismo que conquistamos quando decidimos ser independentes, autônomos, ou porque não dizer, livres. Somos o tempo todo ajudados quando caminhamos, porém somos nós que escolhemos o caminho. Com a ponta da bengala ou mesmo com a ajuda do cão, somos nós, pessoas cegas, que escrevemos a nossa história.

Por meio deste texto, homenageio os muitos profissionais de Orientação e Mobilidade, que com muito conhecimento e amor puderam transformar a vida de milhões de pessoas cegas há décadas por todo o mundo. Em especial, ofereço essa coluna a minha professora Sonia, que há quase vinte e cinco anos, foi a responsável por tudo o que aprendi no manejo de uma bengala longa, e ao povo de Uberaba, que tão bem nos acolheu.