O que aprendemos com a Lei de Cotas?

972288_685647041462323_947323787_n Neste dia 24 de julho de 2014, a Lei 8213/1991 soprou 23 velinhas. Para nós, pessoas com deficiência, o motivo é de dupla comemoração, visto que podemos celebrar como cidadãos os grandes avanços assegurados pela Lei como um todo para o contexto da previdência social, e na condição específica de pessoas com deficiência, as conquistas proporcionadas pelas cotas para inserção no mercado formal de trabalho, demarcadas mais especificamente no artigo 93. Olha só como está escrito lá: Art. 93. A empresa com 100 (cem) ou mais empregados está obrigada a preencher de 2% (dois por cento) a 5% (cinco por cento) dos seus cargos com beneficiários reabilitados ou pessoas portadoras de deficiência, habilitadas, na seguinte proporção:        

I – até 200 empregados………………………………………………………..2%;      

 II – de 201 a 500…………………………………………………………………3%;        

III – de 501 a 1.000……………………………………………………………….4%;    

IV – de 1.001 em diante. ………………………………………………………5%.

Este tipo de conquista está dentre aquelas que têm impacto positivo para toda a sociedade, produzindo efeitos infinitamente maiores daqueles vislumbrados pelos envolvidos na formulação do diploma legal. Assim, temos situações em que muitas vezes o cara que nunca ouviu falar da lei, compra a ideia da inclusão de pessoas com deficiência, pois tem em seu departamento de trabalho um colega contratado por conta das exigências legais. Desta forma, podemos afirmar que é momento de comemoração, porém creio que também pode ser uma boa hora para reflexões sobre todo o aprendizado acumulado em pouco mais de duas décadas. Vejo como primeira grande lição, sem considerar qualquer perspectiva cronológica, o fato concreto de que quando se tem rigor na exigência do cumprimento dessa ou de qualquer outra norma legal, a coisa realmente acontece. Os números mostram que nas cidades em que se tem uma aliança entre sociedade civil, e os órgãos de fiscalização, as empresas acabam acelerando suas estratégias para inclusão. Contudo, tem sempre o outro lado, e neste caso por vezes esbarramos na dicotomia, quantidade x qualidade das ações inclusivas. Para explicar melhor isso já trago de imediato uma grande segunda lição. Trata-se da constatação de que não avançamos tendo por aliado apenas o fantasma da multa. Precisamos com urgência de outros elementos, que façam com que as empresas percebam a revolução positiva, diante de uma consciência inclusiva na composição de seu quadro de colaboradores. As organizações da sociedade civil com trabalhos de qualidade nesta área têm colaborado significativamente para isso, fazendo de suas ações de sucesso, cases incontestáveis, mesmo para aqueles executivos mais céticos e pragmáticos. O Estado brasileiro precisa urgentemente também dar sua contribuição, ou seja, já podemos afirmar que mais do que assustar com punições, nossos governantes podem encantar com possibilidades. Incentivos fiscais, financiamento facilitado de recursos de tecnologia assistiva, certificações específicas, e exigência legal vinculada ao fornecimento de produtos e serviços contratados, podem ser boas novas que com certeza farão dos próximos vinte anos de lei de cotas, uma nova etapa para esta jornada rumo à inclusão plena. Em minhas tribunas presenciais e virtuais, tenho chamado este novo momento de inclusão 2.0, ou seja, estratégias reinventadas em linha com as novas demandas e possibilidades de nosso tempo. Seguindo com o balanço de tudo o que aprendemos, também vale destacar o novo paradigma em torno da preparação para inclusão no mundo do trabalho. Esse objetivo inserido no âmbito da proteção social, objetivo da Política Pública de Assistência social, precisa ser repaginado e tratado com maior ousadia. O novo modelo nos desafia a preparar as pessoas alinhadas com a realidade do mercado. Não podemos mais imaginar que um dia alguém ficará pronto e depois providenciaremos sua chegada triunfal nos portões da sociedade. Precisamos preparar com inclusão, fazendo com que pessoas com e sem deficiência convivam, aprendam mutuamente, e façam da ideia de incluir seu novo estilo de vida. A Lei de Cotas é uma conquista, contudo não podemos deixar de nos desafiar diante do tanto que ainda não alcançamos. Devemos buscar empresas que contratem olhando para os potenciais humanos, rompendo assim com uma lógica arcaica reafirmada por alguns profissionais de seleção que “pedem” pessoas com deficiência como se estivessem diante de um cardápio de pizzaria. “Cego não serve, surdo talvez, tenta me mandar um sem braço”, pode acreditar, tem gente ainda trabalhando deste jeitão. Agora imaginem um profissional com essa mentalidade, tendo como superior hierárquico uma pessoa com deficiência? Pois é, há ainda muito caminho a ser percorrido e felizmente a cada dia tem mais gente com disposição para seguir em frente

A mãe do Miguelzinho

Miguel-Santos-Dias

Já parou para pensar como os vídeos viralizados têm, a cada dia, estado mais presentes em nossas vidas? Ontem, caminhando na feira, me deparei com dois amigos em uma barraca de frutas rindo demais, graças a um filminho que os dois compartilhavam em um mesmo Smartphone.

Muitos destes conteúdos são produzidos e pensados para explodir, outros tantos simplesmente caem na rede, e como se fosse mágica, acabam entrando na vida de milhares ou por vezes milhões de pessoas.

Foi assim que acabei conhecendo e me emocionando com o vídeo feito pela mãe do Miguel. No quintal de casa, ela brincou de Glauber Rocha enquanto dava um show de carinho, educação e respeito para com o seu filho, um garoto cego que acredito deve ter uns três anos de idade.

Por mais que eu tente descrever, fica difícil traduzir a beleza da cena que se desenrola, diante da câmera na mão, daquela mãe com grandes ideias e sentimentos na cabeça e no coração. O quintal com terreno acidentado é dividido por duas casas, e dentre elas existem alguns degraus a serem vencidos para chegar de um ponto a outro. Diante disso, Josiane pede ao garotinho que vá até a casa da avó para buscar uma panela. O menino fica com medo, dá uma travadinha, mas vai. Ele explora o ambiente, se solta aos poucos e a cada passo, ouve da mãe “vai em frente, você pode, você é guerreiro”.

Adorei o vídeo por vários motivos. O primeiro foi em virtude do impacto emocional, visto que lembrei demais de minha mãe, há pouco mais de três décadas fazendo algo muito parecido, porém naqueles dias ainda bem longe do Youtube e das tantas outras possibilidades tecnológicas que em breve Miguel vai desfrutar.

De maneira simples, porém profunda, as cenas captadas e vivenciadas pelo garoto, sua mãe e avó, também nos ensinam muito. Aprendemos, ou melhor, relembramos a importância vital de se acreditar e fazer acreditar. O medo enquanto realidade concreta, palpável e necessária também aparece de forma bem impactante. O menino enfrenta, supera e vai em frente.

Criar um filho é exercitar o amor a cada segundo, e por conta disso, buscamos via de regra sempre fazer coisas boas para que nossa cria possa estar em constante estado de felicidade. Ao propor ao garoto que fosse até a casa de sua avó para buscar uma panela, dona Josiane, acaba fazendo exatamente o contrário, ou seja, cria uma situação de desconforto momentâneo para que o menino tenha no futuro toda uma vida bem mais qualificada.

Assistindo ao vídeo me perguntei o quanto os pais têm criado situações desafiadoras para que seus filhos pudessem experimentar o sabor de poder superá-las.

Votando ao assunto “conteúdos viralizados”, podemos constatar que não é só porcaria que acaba ganhando corpo na net. Plagiando nosso ex Dr. Tiburcio e atual apresentador do CQC, Marcelo Tas, “em tempos de infindáveis ferramentas multimídia e grande conectividade, cada um pode ser o Roberto Marinho de si mesmo”.

Recomendo que vocês assistam ao vídeo que aparece no Youtube com o título “Indo na casa da vovó! Miguel segue aqui o link: http://youtu.be/2O_gwl6fzSE.

Aproveite a oportunidade para explorar mais o Youtube.

Visite, por exemplo, o canal Sentidos, caso ainda não conheça, lhe afirmo que vai se surpreender com tanta coisa bacana relacionada às pessoas com deficiência.

Feito isso, pense que você também pode produzir e compartilhar conteúdos e ideias inovadoras, e importantes para a vida de outras pessoas.

Bons clicks!

Um check in por acessibilidade

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São dias de Copa. As pessoas têm lotado bares, invadido restaurantes, além, é claro, de tomar as ruas e praças em grandes aglomerações. Nestes momentos, os smartphones têm trabalhado como nunca, já que ninguém quer deixar de fazer selfie com os amigos, ou mesmo registrar aqueles momentos surpreendentes, seja pelo lado cômico, seja pela bizarrice instaurada.

Para além dos milhares de cliques fotográficos, ou em paralelo a eles, o hábito do check in está sempre presente. Há quem faça pelo Facebook, tem quem ainda se mantenha utilizando o Foursquare, além de tantos outros que já migraram para o Swarm.

A propósito, por que será que tanta gente faz check in? Alguns aplicativos funcionam como um jogo, ou seja, se ganha mais pontos, títulos e, por consequência, melhor condição de ranking em relação aos amigos aquele que tem maior quantidade. Contudo, cada vez mais a ideia que tem prevalecido é a perspectiva de compartilhar informações sobre o local e o momento.

Por exemplo, o fulano de tal faz check in na loja “XPTO” e comenta, “excelente atendimento e ótimos preços”. Alguns estabelecimentos têm seguido a lógica americana, com campanhas do tipo, faça um check in e ganhe 10% de desconto no total da conta, um café ou até uma caipirinha.

O bacana é que um simples toque na tela do celular pode ter maiores e melhores consequências. Podemos utilizar aplicativos específicos como o Cidadela, utilizado para denunciar buracos na pista, árvores não-podadas e patrimônios públicos danificados. Nesta coluna, proponho trabalharmos com o melhor dos dois mundos, ou seja, fazermos check in em aplicativos tradicionais a partir de um olhar focado na acessibilidade.

Deixa eu dar um exemplo: você pode contar que o restaurante do Jogo da Copa que você está acompanhando no momento tem banheiro acessível ou mesmo que não tem cardápio em Braille. Essas informações podem ser muito úteis, para um usuário de cadeira de rodas que quer muito ver o jogo com os amigos e estábuscando informações sobre os locais no entorno.

Há poucos minutos, falando sobre essa ideia com dois amigos, fui perguntado: “mas e aquelas pessoas que não têm conhecimentos específicos sobre acessibilidade?”. Bem, essas são a maioria, porém creio que podem com alguns elementos se informarem com bastante qualidade sobre o nível de acessibilidade do local. Comecemos pela entrada, vale verificar se arquitetonicamente a coisa está bem, largura da porta, ausência de obstáculos como degraus, dentre outros. Depois de já acomodado e de alguns chopes, vale dar um pulo no banheiro e observar as adaptações para acessibilidade. Caso não visualize, voltando à mesa, procure dar uma especulada com o garçom. Aliás, aproveite e pergunte também se a casa tem cardápio com letras ampliadas e/ou Braille.

Depois de saber de tudo isso, é só fazer o check in, dizendo tudo o que tem ou o que não tem.

Ainda conversando com os amigos, comentei: “se a moda pega, transformamos em um curto espaço de tempo, acessibilidade em moda, ou melhor, em algo a ser perseguido e procurado, por aqueles que necessitam ou não de tais adequações”. Desta forma, tendo um direito ou mesmo a ausência dele, como pauta da sociedade como um todo, conseguimos, com um gesto simples, provocar enormes transformações.

Gostou da proposta? Então, além de compartilhar esse texto e falar sobre ele com os amigos, também multiplique a ideia em seus próximos check in. Sei que existem muitas pessoas que preferem não fazer o check in, considerando inclusive questões de segurança, para estes recomendo o check out, ou seja, faça tudo igual, mas logo depois que sair do estabelecimento.

Agora você, que ainda não tem um Smartphone, ou nunca viu esses tais aplicativos, calma…de repente, quando você menos esperar, já estará brincando com um desses super telefones quase sem botões, mas com infinitas possibilidades.