Vamos ler juntos?

solomon

Nunca imaginei que iria recomendar um livro depois de ler apenas pouco mais de 10% de seu conteúdo. Talvez, ao final, eu me arrependa, mas creio que isso não deva acontecer, pois até aqui a proposta e mesmo o texto denso têm me encantado pela ousadia e relevância da ideia que motivou a publicação.

A obra de Andrew Salomon começa nos mostrando a importância de seus pais para seu desenvolvimento pessoal, a partir do momento em que o então garoto é diagnosticado com dislexia. Anos depois, o já adolescente Andrew se vê obrigado a se afastar da família ao encontrar-se diante de uma rejeição latente desses mesmos pais por conta da homossexualidade. Tal fenômeno que dialeticamente coloca em lados opostos amor e aceitação fez com que ele mergulhasse em um trabalho de pesquisa intenso que resultou em Longe da Árvore – Pais, filhos e a busca da identidade.

A sinopse do livro e os milhares de comentários disponíveis na internet, com certeza, lhe apresentarão melhor as diversas facetas deste trabalho, bem melhor do que eu possa vir a fazer neste pequeno artigo. Assim, prefiro trabalhar por aqui alguns elementos que possam servir como bons estímulos para que vocês se motivem a pesquisar e, quem sabe, até aceitar meu convite para ler e possamos, futuramente, trocar ideias sobre nossos diversos olhares diante das mais de mil páginas recheadas de reflexões e dados levantados por Andrew Salomon.

Relações entre pais e filhos surdos, anões, com síndrome de Down, autistas, esquizofrênicos, com deficiências múltiplas, crianças prodígios, bebês concebidos por estupro, transgêneros e menores infratores: são as dez abordagens que nos permite debater questões relacionadas a convivência, as possibilidades e desafios para fortalecermos vínculos familiares, além de nos confrontar com conceitos como resiliência, inclusão, segregação, dentre outros.

Também fui apresentado ao livro por alguém que estava no início da leitura, logo, creio que esse fascínio pela descoberta e o consequente desejo de compartilhar a possibilidade de exploração do conteúdo, também é um elemento que merece considerações. Acredito que encontramos no livro uma possibilidade de provocar o diálogo social em torno de temas e situações que, na maior parte das vezes, são negligenciados ou tratados de maneira superficial.

O bacana é que o livro não chega com respostas, mas sim com uma série de possibilidades que nos fazem ter segurança e subsídios para perguntar e, porque nãodizer, nos posicionar com maior profundidade.

Espero que assim ao terminar de ler, eu possa fazer outro artigo compartilhando com vocês minhas impressões do livro já com a leitura concluída.   Acredito que ele traz contribuições para muito além do que se propõe, visto que antes de relações entre pais e filhos, estamos falando de relações entre seres humanos.

Abaixo fica o link para quem quiser mais informações sobre a obra. Vejam o vídeo e boa leitura!

http://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=13464

Bengala nova

homem_cego_-_thomas_leuthard_cc_-_04-11-2013-1

Quem costuma ler meus textos, ou mesmo aqueles que já assistiram algumas de minhas palestras relacionadas ao tema da deficiência, sabe um pouco dos conflitos que vivi quando passei, de fato, a utilizar uma bengala como ferramenta para viabilizar minha locomoção com autonomia. Eu tinha só catorze anos e creio que seja natural para qualquer adolescente viver em conflito diante de um novo desafio. Então, em meu caso, se por um lado havia satisfação plena por poder desbravar o mundo sem depender de alguém, também havia uma sensação de enorme constrangimento por sair com aquele “pau de metal” pelas ruas. Logo vi que tudo não passava de uma grande bobagem, porém, anos depois, ainda vejo como é presente para pessoas com deficiência assumir, em um primeiro momento, símbolos externos que, de fato, as apresentem como tal para a sociedade.

Isso tudo é bem explicado e trabalhado por profissionais da psicologia e de outras áreas correlatas, que acabam cumprindo um papel estratégico na habilitação e reabilitação. Hoje quero conversar com vocês sobre o outro lado da moeda: aquele onde quem já usa as soluções de tecnologia assistiva sente prazer diante da possibilidade de acesso a um novo equipamento.

Faz uns dois anos, quem sabe um pouco mais, que começou a chegar ao Brasil com maior intensidade bengalas telescópicas. Trata-se de uma bengala longa para cegos, de materiais como a fibra de carbono, projetada para se guardar como uma antena. Assim, no fim das contas, ela acaba ficando com o tamanho menor que de um palmo, podendo ser alojada em um estojo. A bengala tradicional é dobrável, com pequenos gomos de metais que tornam-se uniformes por conta de um elástico interno que os mantêm firmes quando montados para o uso. Ao longo dos anos, essa versão tem sido aprimorada com modelos de gomos mais finos, mais resistentes e, até em alguns casos, com cores diferentes.

Com esse exemplo, que poderia ser utilizado para tantos outros equipamentos de ajuda técnica, o que quero dizer no fim das contas é que aquilo que poderia ser objeto de “vergonha”, passa ao longo do tempo a ser algo desejado. Quando chegamos neste ponto, infelizmente o acesso é extremamente restrito, pois imaginem só: uma dessas bengalinhas telescópicas do parágrafo anterior chegam a ser vendidas por mais de R$ 200,00.

Precisamos debater, então, porque o estado brasileiro quando financia determinado equipamento só privilegia o feio, o mais barato, o indesejado. Estamos falando de suportes que chegam para resgatar a dignidade, elevar a autoestima e permitir uma inclusão verdadeira com o menor nível de estresse possível. Desta forma, nosso segmento deve passar a debater não apenas o que se deve ou não ser custeado com recursos públicos, mas também a qualidade do que é pago com o nosso dinheiro, e o quê, de verdade, é importante para que as pessoas com deficiência sejam incluídas para além de discursos ou gráficos enviesados.

Almejar uma bengala nova ou mesmo um tablet que assegure o acesso à leitura e ao entretenimento, não pode ser privilégio de uma camada social mais abastada. Tais possibilidades precisam chegar aos beneficiários do BPC – Benefício de Prestação Continuada e a tantos outros homens e mulheres que, se quer, sabem que têm direito a ter direitos.

O CHA dos pais

dia_dos_pais

Quem já fez algum curso relacionado à área de gestão e/ou negócios, com certeza já ouviu falar na ‘matriz CHA’. Trata-se de um acrônimo que agrega as palavras: Conhecimentos, Habilidades e Atitudes.

Há quem proponha outras configurações para a matriz, envolvendo mais letras e palavras. Neste caso, porém, eu lhes confesso ser conservador, acreditando que a forma como conheci e agora lhes apresento neste texto, o CHA se faz completo, pois contempla uma boa estrutura que nos desafia a realizar uma autoavaliação ou a buscar novos caminhos rumo à melhoria continua  destes três elementos.

As vésperas do dia dos pais,decidi me valer do CHA para reverenciar nossos eternos super-heróis. Acabei tendo essa ideia depois de me emocionar pensando o quanto os conhecimentos, habilidades e atitudes de meu pai foram e são fundamentais na constituição do meu caráter e, ao mesmo tempo, o quanto a qualidade do meu CHA pode ser decisiva para os atuais e futuros passos de minha pequena filha prestes a comemorar quatro anos.

Sem qualquer formação acadêmica, mas com grande acúmulo de vida, meu pai, desde cedo, me transmitiu inúmeros conhecimentos dentre os quais destaco a importância de preservarmos e fortalecermos os vínculos familiares e comunitários. Claro que não foram com essas palavras que ele me ensinou tudo isso, mas foi, sim, esta a mensagem que me fez perceber o quanto me tornei forte por investir amor, comprometimento e tempo para assegurar qualidade  nas minhas relações.

Foi me espelhando em meu pai que desenvolvi uma atitude proativa e disciplinada frente aos meus desafios profissionais. Minhas mais remotas memórias já registram toda a dedicação, compromisso e envolvimento de meu pai com o seu trabalho, superando o cansaço, as frustrações e as dificuldades eventuais, como: mau tempo, distância, festas perdidas, dentre outras.

Ainda não desenvolvi as habilidades na cozinha e, tampouco, para pequenos serviços de manutenção doméstica com o nível de qualidade imprimida pelo Sr. Tião. Contudo, é muito inspirado por ele que, às vezes, me arrisco a fazer um pão, já que meu velho já foi padeiro.

Cresci especialista em moda caipira, aprendendo com meu pai dezenas de canções, causos e nomes de personagens que marcaram esse componente cultural nacional. Peguei gosto pela pesca, aprendi a por isca no anzol e, mesmo sem enxergar e sabendo que nunca irei dirigir, meu pai fez questão de me transmitir toda a sua técnica para troca de pneu e outras pequenas coisas relacionadas a automóveis.

Educamos e aprendemos por meio dos pequenos e grandes exemplos, e é essa a constatação que por si só já nos faz valorizar nosso CHA de cada dia. Às vezes me pego, por exemplo, buscando mostrar para minha filha a beleza das letras e melodias de Toquinho, a simplicidade empolgante de festas folclóricas e regionais como as quadrilhas juninas e os bois de Parintins. Não posso negar que procuro estimular o gosto pela música, permitindo e promovendo o contato com meu velho violão, além, é claro, de provocar sempre a relação dela com bons textos, por meio de uma boa contação de histórias.

Às vezes, assim como água no chopp, acabamos vendo nosso CHA extremamente contaminado por elementos externos como funk, pagode e uma porção de outras músicas chiclete. Tudo muito natural, visto que a gente tenta evitar, mas não se pode criar os filhos em uma bolha.

Nesse dia dos pais quero celebrar, vivendo e relembrando tantos – e bons – Conhecimentos, Habilidades e Atitudes que meu pai tem até hoje compartilhado, materializando assim toda a expressão do amor e da consciência do valor dessa relação entre pais e filhos. Quero curtir minha princesinha, fazendo de nossos momentos boas oportunidades para transmissão de elementos que espero um dia sejam valorizados e reconhecidos por ela.

Parabéns para nós, papais!

“Peço seu voto portador”

eleitordeficienciajpg1349435679506ec11f67e90

Pois é, quem é militante, conhece um pouco de questões relacionadas à deficiência, sabe o quanto dói no ouvido uma fala como essa. Também, esse público sabe que não é incomum ouvir clamores de candidatos às vésperas de eleição, com esse padrão ou desculpem, com essa falta de padrão de qualidade.

De acordo com o Censo IBGE 2010, nós, pessoas com deficiência compomos quase um quarto da população brasileira. Questionamento dos dados e do método de levantamento das informações a parte, o fato é que nenhum candidato com o mínimo de inteligência desconsidera atualmente nosso segmento quando sai para campo em busca de futuros eleitores.

Creio que seja aí que o problema se demonstra ainda maior e com um enorme alerta de perigo, que nos deve por em atenção.  Digo isso, pois precisamos perceber como os candidatos se propõem a dialogar conosco e como eles têm se preparado e mesmo tratado nossas pautas.

Você, pessoa surda, ou você que tem um amigo ou familiar nesta condição, acredita que algum candidato que faz programa eleitoral, discursos, ou desenvolve quaisquer outras estratégias de comunicação, sem considerar a Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS), merece voto do segmento?

O que dizer então daqueles que pedem o voto dizendo, apenas se referindo ao número que está na tela, será que alguém pode mesmo acreditar que depois de eleito o futuro “representante do povo, se lembrará das demandas de pessoas cegas”?. Hoje não dá mais para dizer que foi falta de informação, que a equipe, ou mesmo o próprio candidato não sabia, visto que temos legislações e conteúdos elaborados mais do que suficientes para que sejam considerados e respeitados por aqueles que se apresentam como futuros defensores de nossas bandeiras.

A propósito, temos que ter claro que as bandeiras não são das pessoas com deficiência para as pessoas com deficiência. Nossas lutas são por um processo de inclusão transformador, que possa ressignificar as relações e possibilidades de acesso para toda a sociedade.

Enquanto pessoa com deficiência e militante do segmento, acredito que precisamos elevar o nível de exigência, e politizar o debate em torno de nossas escolhas para o executivo e legislativo já para as próximas eleições. Creio que essa decisão não deve ser apenas nossa, pois podemos envolver amigos, familiares, trabalhadores e estudiosos da área.

Além de ficar de olho em como nosso futuro escolhido se comunica, também precisamos descobrir e acompanhar como ele tem montado seu time. Vale à pena saber se existem pessoas que dominam, por exemplo, assuntos relacionados à Convenção Internacional da ONU, leis relacionadas a nossos sistemas universais públicos, além, é claro, dos instrumentos normativos que têm pautado a relação entre sociedade civil e estado brasileiro.

Precisamos saber o que pensam os futuros comandantes da nação, quanto à política voltada a pessoas com deficiência. Assim, vale perguntar se eles defendem uma pasta na gestão exclusiva para o tema. Como percebem a destinação orçamentária? O que vislumbram enquanto possibilidades de trabalho conjunto com movimentos e entidades