Luta Armada

Imagem: 21 de setembro. Dia Nacional de Luta das Pessoas com Deficiência.

Imagem: 21 de setembro. Dia Nacional de Luta das Pessoas com Deficiência.

Na semana em que comemoramos o Dia Nacional de Luta pelos Direitos da Pessoa com Deficiência, podemos constatar que ainda não são fáceis, nem tão pouco confortáveis, a condição de nosso segmento frente aos inúmeros direitos violados, seja pela lentidão das ações de responsabilidade do Estado brasileiro, seja pela falta de estratégias claras adotadas pela sociedade com vistas a superar problemas históricos, que persistem mesmo diante de uma legislação moderna e complexa.

Assim como em anos anteriores, em 2014 temos em mãos uma arma poderosa que pode, se utilizada com sabedoria, nos ajudar a combater com um poder imenso toda essa lentidão que persiste e, infelizmente, acaba ofuscando uma série de avanços já conquistados em anos de lutas por direitos.

Quer conhecer um exemplo? De acordo com o Censo IBGE 2010, temos aproximadamente 45 milhões de pessoas com deficiência no Brasil. Estamos falando em quase um quarto da população, mas, junto deste número, ainda patinamos desde 2008 nos poucos mais de trezentos mil inseridos no mercado de trabalho formal. Os números nos apontam uma urgência de novas ações que nos permitam caminhar com vistas a alcançar as mais de novecentas mil vagas disponíveis, isso se considerarmos apenas a Lei de Cotas. Os dados falam por si só, e comprovam que Estado e sociedade acabam fazendo mais do mesmo, ou seja, punem empresas que não cumprem a cota, ampliam ofertas de cursos de capacitação desarticulados, firmam termos de ajustes de conduta, enfim, estratégias bacanas, mais ainda muito aquém do que podemos fazer.

A falta de ações ousadas e efetivas se repete quando o assunto é acesso a direitos. Temos que ficar constantemente renovando laudos, acumulando carteirinhas e nos recadastrando em cada novo programa, que insiste em trazer consigo uma nova exigência, colocando pessoas com deficiência e seus familiares a mercê de agendas com datas distantes, entendimentos subjetivos e avaliações ainda mal resolvidas que se perdem em meio ao debate, que ressignifica o modelo médico para o modelo social de olhar para essas deficiências.

Também é lamentável como nossos movimentos de luta são tratados atualmente pelas três esferas de governo. Afirmam que nos ouvem, nos chamam para conversar, porém acabam na maior parte das vezes decidindo com base em seus entendimentos ideológicos. Entidades, movimentos de defesa e garantia de direitos em sua grande maioria vivem sem recursos e dependem de projetos pontuais para vez ou outra poderem se reunir. Assim, não renovamos nossas lideranças, pois se quer temos perspectivas de financiamento público para custear momentos de formação e mobilização.

É urgente que o Brasil assuma o desafio de construir uma política efetiva voltada às pessoas com deficiência. Precisamos empoderar os conselhos municipais, estaduais e nacional da área, atribuindo-lhes caráter deliberativo e condições dignas para se reunir. A propósito, sabe qual a diária que recebe um conselheiro nacional quando vai para Brasília? Atualmente são aproximadamente R$ 321,00 para custear despesas com hospedagem, deslocamento e refeição. Além, é claro, do fato concreto de quem está lá não está naqueles dias trabalhando para obter qualquer outra fonte de renda.

Sou totalmente contrário à remuneração direta de agentes que atuam em espaços democráticos de participação popular, contudo, já passou da hora de termos estratégias afirmativas que fortaleçam entidades e movimentos, a partir de uma perspectiva que lhes garanta autonomia e profissionalismo quando se fizerem representar.

As armas que temos na mão são nosso voto consciente e propostas que traduzam e atendam as urgências do tempo em que vivemos.

Simplesmente genial

Encanta-me a convergência dessas duas palavras compreendidas equivocadamente por alguns como antagônicas. O genial é ‘simples’ por essência e essa peculiaridade é que coloca algumas ideias e fenômenos nesse nível de reconhecimento por determinados segmentos sociais. Assim, soluções ‘simples’ como uma bolinha no número cinco do teclado numérico de telefones ou um design tátil diferenciado em determinadas embalagens, produz para nós, cegos, um resultado de autonomia que nos faz celebrar tais implementos como simplesmente geniais.

Nunca vou me esquecer do meu assombro diante da descoberta de que as fitas cassetes em sua grande maioria – aqui tenho que abrir aspas gigantes para dizer que estou falando de uma mídia de áudio que provavelmente um percentual significativo de meus leitores jamais tenham visto ou tocado – essas belezinhas que tinham músicas ou quaisquer outros sons  gravados tanto no lado A quanto no lado B, vinham com uma marcação bem discreta com as letras A e B também em Braille. Um dia, contando isso para um amigo, o cara falou: “simplesmente genial, pois no escuro, até para quem enxerga, fica terrível saber o lado correto da fita”.

Notem que estou falando de pequenas sacadas, mas com forte impacto inclusivo. Eu poderia também buscar exemplos na mesma linha em receitas culinárias, músicas, pinturas, artes plásticas, enfim, em tudo aquilo que é produto da intervenção humana passando, a partir de então, a ser significativamente mais importante, agradável ou acessível para pessoas que venham a interagir ou que precisam daquela solução.

Mas vamos voltar para as belas ideias que podem promover grandes níveis de autonomia e acessibilidade. Esta semana após atualizar meu whatsapp, fiquei maravilhado com a nova implementação proposta pelos ‘caras’. Trata-se de um botão a mais que permite ao usuário tirar fotos de dentro do próprio mensageiro, podendo logo em seguida inserir legendas e encaminhar.

Penso que muito do sucesso desse aplicativo se deu pela possibilidade das pessoas constituírem grupos e poderem com agilidade e ‘privacidade’, compartilhar entre si ideias momentos bacanas que logo poderiam ser comentados e repercutidos de acordo com o nível de importância – ou falta dela – para os envolvidos. Contudo, até então nós, pessoas cegas, acabávamos no momento em que recebíamos as imagens ficando sem saber do que se tratava e, por muitas vezes, parecendo indelicados por não comentar algo que era compreendido como merecedor de atenção por nossos interlocutores.

É claro que já era possível inserir legendas nas fotos antes desse recurso do aplicativo, mas o trabalho seria bem mais complexo e chato de ser realizado. Agora o whatsapp deu um ponta-pé inicial para que toda aquela pessoa que encaminha uma foto o possa fazer com criatividade suficiente para que qualquer outra pessoa que a receba possa “ver, curtir e comentar”.

Fica meu convite para que experimentem a brincadeira. Mesmo não tendo amigos cegos, passem a exercitar a cultura de legendar suas fotos no whatsapp. Basta inserir uma pequena descrição e pronto, simplesmente genial, visto que enxergando ou não, todos poderão ver de verdade suas fotografias.

Depois que pegar gosto pela coisa já pode ampliar seus horizontes. Dá para legendar também no Facebook, Twitter e tantas outras redes sociais que ainda não trazem a mesma facilidade e que teriam tal medida muito bem vinda