Mais perdido que cego em tiroteio…

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Por mais paradoxal que possa parecer em determinados momentos, um grande tiroteio pode ser extremamente orientador para cegos se localizarem com precisão. É claro que isso não ocorre no mundo real, mas, acreditem, no virtual a mágica acontece propiciando momentos de grande emoção e adrenalina.

Vocês já devem ter percebido que o assunto da nossa conversa de hoje são games. Meu primeiro contato com essas maravilhas foi lá pelo meio dos anos oitenta. Mesmo sem enxergar, os sons e as possibilidades desafiadoras dos muitos jogos disponíveis para Atari e outros consoles similares me fascinavam, o que fez com que familiares e amigos me estimulassem a jogar, dando orientações como “mais para direita, esquerda, abaixa, atira”. Claro que meu desempenho não era nem de longe um dos melhores, mas, acreditem, dava sim para brincar e me divertir, até porque o nível de previsibilidade dos jogos permitiam que, com alguma disciplina e muito treino, podíamos jogar até de olhos fechados.

No fundo, o que valia mesmo era a paixão e o prazer de compartilhar momentos de lazer e entretenimento com a turma de minha idade. Se você achou loucura um cego jogar vídeo game, recomendo que conheça a história de Jordan Verner, um jovem cego canadense que se propôs a terminar o game “The Legend of Zelda: Ocarina of time”. O cara demorou dois anos, mobilizou uma galera na Internet e, segundo ele, o esforço valeu a pena. Segue o link de um fórum de games que debate a história:  http://romhacking.trd.br/index.php?/topic/5932-um-cego-zera-legend-of-zelda-ocarina-of-time-depois-de-2-anos/

Quase vinte anos depois de ganhar meu primeiro vídeo game, conheci os áudio games. Isso aconteceu há quase sete anos e os tais joguinhos eram realmente empolgantes. Com tecnologia de orientação pelos fones de ouvido, dava para combater naves espaciais, pilotar carros em meio a rallys e enduros, além de escalar prédios e fugir de prisões. Os jogos eram todos sem imagens e só podíamos jogar entre cegos.

Mergulhei nesse universo, ajudando a organizar o primeiro ‘Encontro Nacional de Áudio Games’, virando noites em competições virtuais e contribuindo para tradução de áudios que compunham o ambiente sonoro dos jogos. Muita gente não entendia, por exemplo, como eu participava em competições de corrida de automóveis. A ideia é relativamente simples: o condutor deve manter o som do motor de seu carro centralizado entre os dois fones de ouvido. Assim, sempre que o carro sai um pouco para direita ou para esquerda, o jogador rapidamente, por meio de um joystick ou mesmo das setas do teclado, deve trazer seu veículo de volta para o centro. Já para fazer as curvas abertas ou fechadas, existe uma orientação por voz, como por exemplo: “curva fechada à direita!”. Caso você queira conhecer mais do que estou falando e até baixar alguns jogos para experimentar, visite o www.audiogames.com.br.

Em 2011, decidi por mudar de plataforma enquanto usuário de computador, e essa saída do ambiente Windows me afastou novamente do fantástico mundo dos games.

Na última semana recebi um email falando do Nébula. Trata-se de um jogo para a plataforma IOS, ou seja, podemos jogar no Iphone ou Ipad. Diferente de tudo o que eu já havia conhecido, esse jogo traz a possibilidade de pessoas sem deficiência e cegos jogarem juntos. Isso porque, neste caso, também se tem os gráficos visuais.

Jogos textuais como o Sonora, o Perguntados e alguns outros já permitiam isso. Contudo, o inovador desta história foi a possibilidade de combate em ambientes simulados.

Ainda estou em fase de testes. Tentei um bate-papo com os desenvolvedores até fechar esta coluna, mas, infelizmente, não deu certo. Fica o convite para que você possa baixar o jogo oferecido em duas versões: uma paga, com 32 fases, e outra gratuita, onde se pode viver toda a experiência.

Reserve os fones de ouvido e bom divertimento inclusivo!