E teve até Toré…

tore

Mas se você me perguntar o que de fato é isso? Não… não sou eu que posso lhe contar. Mas sim, de acordo com o que aprendi a gente não precisa aprender, simplesmente se lembrar daquela dança que um dia aprendemos a dançar.

No fim de uma capacitação intensa junto a trabalhadores, usuários e gestores da Assistência Social em Campina Grande, tudo o que sabíamos e sentíamos era que algo havia acontecido com intensidade. Angústias, perguntas, conteúdos compartilhados e debatidos, respostas propostas, sonhos contados e divididos foram alguns dos ingredientes que nos fizeram ter a clareza que retornávamos para casa diferentes. Todas as falas, os sorrisos, encenações finais e o nosso Toré deixavam claro para quem pudesse ou quisesse ver que ali,  mais do que um grupo de alunos e professores atomizados pelos seus compromissos e interesses do cotidiano,  o que se tinha de fato era unidade e sinergia. A força de nosso canto final mostrava aos passantes e a nós mesmos que éramos todos parte de um ideal a ser celebrado e constantemente perseguido.

João Batista do Espírito Santo Júnior é militante, pernambucano, trabalhador da Assistência Social e dono de um protagonismo conquistado a partir de uma liderança exercida enquanto jovem durante caminhada construída pelo Movimento Nacional dos Meninos e Meninas de Rua. Naquele dia, Junior era nosso colega, membro da equipe de facilitadores com a responsabilidade de discutir CRAS e CREAS. Junto com Rose, Júnior chegou de Jaboatão dos Guararapes, assumiu a maior oficina do evento e construiu, ao lado da colega eleita para desempenhar a missão e as dezenas de alunos de sua turma, uma proposta de apresentação final que terminava no jardim.

De repente estávamos em roda. Eu, paulista desconfiado, já fiquei imaginandoqual será a dinâmica que o Júnior escolheu para fechar? Poderia ser mais uma das tantas que já aprendemos e aplicamos nessas aulas Brasil a fora. Os dois já haviam me dito na noite anterior que rolaria um Toré. Sem saber do que poderia ser, decidi não perguntar, pois nada melhor para conhecer do que a própria experiência vivenciada.

Em meio à roda, Júnior começou nos lembrando das formigas. Falava da velha lição que elas nos passam por meio da sua fragilidade individual e da força enorme adquirida quando decidem estar juntas. Depois veio a música, pisa, pisa, pisa, pisa bem ligeiro, quem não pode com a formiga não assenta o formigueiro. Iniciando lentamente em sentido horário, todos batendo juntos e forte o pé direito no chão. Cantoria mais ritmo ganharam em poucos segundos um peso de dar inveja  a Bill Order e Tony Iommi, mesmo em seus anos de maior criatividade nos tempos de Black Sabbath.

Para alguns que estavam lá, aquilo pode ter sido uma brincadeira; para outros parte da conclusão da oficina; para mim, particularmente, uma verdadeira tradução do que cantou Engenheiros do Hawai, “Somos quem podemos ser, sonhos que podemos ter.

Pode ter certeza, vale perguntar para o Google e pedir para o Youtube um pouco mais de informações, sons e imagens sobre a beleza do Toré e todo o potencial dessa dança na construção da indianidade de vários povos e tribos desse país.

E seguimos adiante na luta por um SUAS cada vez mais forte: “Pisa, pisa, pisa, pisa bem ligeiro, quem não pode com a formiga, não assenta o formigueiro.

Once Upon a Time

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Essa semana terminei uma maratona diante de 22 episódios que compuseram a primeira temporada da série Once Upon a Time.  Foi muito intenso acompanhar a jornada de Branca de Neve, João e Maria, Pinóquio, Grilo Falante, o Principe Encantado, a Rainha Má, Chapeuzinho Vermelho, o genial Rumpelstiltskin, entre outros.

Cabe, antes de tudo, contextualizar um pouco sobre a proposta da série, antes que algum leitor conclua que esse que vos escreve definitivamente enlouqueceu. A ideia de Edward Kitsis é trazer, para os dias de hoje, todos as personagens dos contos de fada. A turma chega por aqui graças a uma maldição e convivem em uma pequena cidade americana sem se lembrarem, em sua grande maioria, quem verdadeiramente são. Aqui no Brasil, você pode acompanhar a série por meio da TV fechada, além do conteúdo estar disponível em um serviço de stream pago.

Mas eu trouxe esse assunto para cá, não apenas por ter me divertido muito com as aventuras e angústias vivenciadas pelos nossos heróis em suas vidas passadas e presentes. O que penso que vale realmente discutirmos é a ousadia que temos testemunhado diante da releitura de histórias que passaram por inúmeras gerações, reforçando a mensagem de que o bem e o mal são verdades absolutas que fazem das relações – humanas ou fictícias – dois pólos opostos que, ao final, terão um desfecho feliz e perfeito com um lado vencedor e outro derrotado.

Sem dar qualquer pista sobre a história, o que posso lhes afirmar é que temos neste seriado um material totalmente diferente. Ninguém é totalmente bom ou ruim, o que nos faz refletir a partir de uma perspectiva bem mais complexa e questionadora diante das causas e consequências que se desenrolam capítulo a capítulo. Você vai pular do sofá quando se deparar com a história do lobo mau!

Aqui no país, João Emanuel Carneiro também pensou fora da caixa. Milhões de brasileiros que acompanharam a novela global Avenida Brasil, puderam experimentar de forma inovadora e emocionante, a possibilidade de vibrar – e se decepcionar – com as mesmas personagens repetidas vezes durante a trama, expondo imperfeições de “mocinhos” e a sensibilidade de “vilões”, sinalizando a telespectadores historicamente acostumados a roteiros previsíveis, que nos dias de hoje nada mais pode ser considerado definitivo.

A Disney também saiu do lugar comum se propondo a contar velhas histórias a partir de novos olhares. Vale muito a pena acompanhar com os nossos pequenos a mensagem passada por Malévola, e claro, toda a beleza coroada pelo final, bastante distante do convencional, proposto em Frozen, maior produção da companhia em todos os tempos.

Com certeza as boas histórias continuarão fazendo parte de nossas vidas e sonhos, mesmo com finais não tão felizes. Até por que, vamos combinar: o que vale, de verdade, é o que se vive ao longo do caminho.

Era uma vez…

Sustentabilidade sem acessibilidade é insustentável

Logo da acessibilidade (ABNT) cravado em um tronco de árvore.

Logo da acessibilidade (ABNT) cravado em um tronco de árvore.

O desenvolvimento sustentável enquanto alternativa concreta para evoluirmos como civilização mais saudável, justa e economicamente viável, tem se mostrado uma proposta imbatível diante de quaisquer possibilidades de argumentos contrários. Cada vez mais as pessoas vão percebendo que essa conversa deve e pode ir muito além das questões ambientais relacionadas ao clima, ao solo, às florestas, rios e à qualidade do ar.

Elementos sociais, políticos, culturais e históricos entram na pauta, fazendo com que relacionamentos, crenças, hábitos e pontos de vista sejam ressignificados, tomando por norte a construção de projetos colaborativos, a promoção da troca de conhecimento e a geração de energia a partir de esforços anteriores. Mas nem tudo são flores, visto que, muitas vezes, a paixão pelo que se defende acaba ganhando mais força do que a preocupação com o impacto real na vida das pessoas. Como dizia o nosso grande Paulo Freire, as coisas, de fato, só ganham sentido na medida em que conseguimos verdadeiramente aproximar o discurso da prática. Uma cidade pode ser aplaudida por funcionar com energia limpa, celebrada por destinar corretamente 100% de seus resíduos, porém, nada disso serve se a mesma cidade não estiver adequada para que pessoas, independente de suas limitações, possam circular e se apropriar dos espaços públicos.

Recentemente estive em um evento onde se discutia estratégias e conteúdos importantes para a pauta dos objetivos sustentáveis.  Lá não havia material em formato acessível para que cegos pudessem acompanhar as explanações, tão pouco intérpretes de LIBRAS para os surdos. Você pode dizer, “talvez tenha sido apenas um deslize“, mas vejam que isso deveria ser condição básica para dar início a uma conversa que realmente se sustente considerando o fato de que participarão pessoas com características e necessidades diferentes.

Ao fim das contas, o debate que creio que deve ser feito é sobre que mundo queremos e/ou podemos construir a partir de uma mudança de postura pessoal e coletiva. Neste sentido a sustentabilidade sem acessibilidade no centro das prioridades não se sustenta, pois exclui pessoas e, em decorrência disso, a ideia acaba perdendo aliados. É importante dizer que trago essas reflexões não apenas considerando o segmento de pessoas com deficiência. Precisamos que o mundo esteja acessível para os seus idosos, as gestantes, os pobres e ricos, ou seja, necessitamos que a convivência entre seres humanos seja sustentável considerando as múltiplas possibilidades da vida em sociedade.

Surpreendentemente jovens

Da esquerda pra direita: Patrícia Raposo, Leonardo Apolinário, Willian Cunha, Alceu Kuhn e Carlos Ferrari.

Da esquerda pra direita: Patrícia Raposo, Leonardo Apolinário, Willian Cunha, Alceu Kuhn e Carlos Ferrari.

Semana passada participei de um Encontro Nacional que se propôs a promover a incidência política de jovens cegos no Brasil. Fazer parte deste processo, como palestrante e membro da direção da entidade nacional organizadora, foi uma experiência que superou todas as minhas expectativas, e espero poder neste texto, ter a capacidade de esculpir com palavras o tamanho do significado desta experiência para mim enquanto cidadão e militante.

Tecnicamente, sou cego desde que nasci, porém, foi na fronteira da adolescência com a idade adulta que comecei a experimentar as infinitas possibilidades que se tem quando se aceita, de fato, como realmente somos. Nunca neguei a cegueira, mas foi conhecendo outros colegas cegos e participando de associações de base que descobri que podemos ser mais fortes juntos, aprender com nossas limitações e ensinar com nossas potencialidades. Em 1999, a convite de um amigo, decidi seguir de ônibus até Guarapari, no Espírito Santo. Lá se realizaria um Encontro Nacional de Educadores de Deficientes Visuais e seria, também,  a minha primeira experiência em eventos organizados pelo movimento associativista nacional.

Há fora todo o desafio de seguir para um Estado desconhecido acompanhado apenas pela bengala, aqueles dias me foram especiais, pois me oportunizaram conviver com lideranças históricas para o segmento. Talvez muitos de vocês leitores não conheçam nomes como: Hamilton Garai da Silva, Edison Ribeiro Lemos, Adilson Ventura, Dorina Nowill, todos já falecidos, porém ainda muito vivos na memória de todos que trabalham nessa área. Poder conviver com eles, bater papo, almoçar, enfim, estar próximo, foi um aprendizado e uma emoção que afirmo, sem medo de errar, acabaram me fazendo um homem diferente para a vida toda.

Agora, quinze anos depois estamos aqui em João Pessoa. Eu, nosso presidente Moisés Bauer, Mizael Conrado, vice-presidente do Comitê Paralímpico Brasileiro, Volmir Raimondi, presidente da União Latino-Americana de Cegos. Agora, somos nós os líderes, e claro, também de certa forma, os responsáveis por estimular os que estão chegando a escreverem os próximos capítulos dessa história de luta.

Afirmo-lhes caro leitores, que saio daqui com a convicção que temos um belo caminho pela frente. Pude trocar ideias com uma moçada questionadora, propositiva, conectada e principalmente, convicta de que querem serem – eles próprios – os protagonistas da luta por direitos no Brasil.

Foram dias intensos com muitas palestras, mas também de rodas de conversa com cantoria e muito bate-papo durante os intervalos. Decidi escrever esse texto para homenagear os mestres que me motivaram a chegar até aqui e os futuros líderes que, em algum momento, assumirão a condução de nosso movimento. Também escrevo para lhes provocar a refletir sobre o quanto é importante termos referencias para um dia também, quem sabe, virmos a ser referência.