Nossas festas de fim de ano

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E, felizmente, é mais forte do que a tal ‘rotina’ que quase sempre nos vence na grande maioria dos 365 dias do ano. Seja por motivos comerciais, seja pela fé individual ou coletiva, seja pela tradição construída e transmitida por nossa ancestralidade, o fato concreto é que o Natal já tomou as ruas, lojas, conversas, planos de curto prazo e, claro, nossos sentimentos.

À propósito, sabemos que não é essa, para todos, uma época de alegrias e boas lembranças. Muitos não gostam e até rejeitam, mas sentem com intensidade a chegada da data de celebração oficial de nascimento do Cristo Salvador.

As festas de fim de ano trazem consigo a cada ano uma dose cada vez maior de ingredientes como: nostalgia, consumismo, glamour e ‘goumetização’ de cardápios eleitos como os ideais para o momento. Mas seria injusto afirmar que para os tempos atuais só sobraram lembranças e comércios lotados. O Natal é a perspectiva de entrada de um novo ano, traz consigo a capacidade mágica de se renovar e, por consequência, renovar as esperanças e o modo de vida de milhões de famílias cristãs ao redor de todo o planeta ao menos por alguns dias.

A criança sorridente, feliz à espera de um presente, independente de qual valor ele possa ter, os casais e amigos envolvidos em torno da expectativa de como serão os pratos e as festas que lhes darão a possibilidade de comemorar juntos, os tantos outros reflexivos(as) diante da dor presente que preenche um espaço de saudade aberto pela perda de alguém que não está mais entre nós. Toda essa efervescência de sonhos, sensações e vida real é o que nos faz a cada dia desse mês de dezembro ter um ritmo de vida diferente.

2014 para muitos não foi fácil. Para outros é, sem dúvidas, o ano da vida. E, talvez  alguns mais, entendam que apenas passou batido. Pessoalmente defino como um ano intenso, bastante complexo pelas dificuldades econômicas enfrentadas pelo país e pelos debates acirrados em torno do processo eleitoral. Um ano de festas e lágrimas provocadas pela passagem bem sucedida, porém avassaladora, da Copa do Mundo por aqui. Um ano verdadeiramente histórico pelo marco da reaproximação entre Estados Unidos e Cuba. Esse foi um ano de trabalho, de desafios imensos repletos de possibilidades para 2015.

Então é chegada a hora de agradecer e desejar. Obrigado  a vocês que me acompanham pelo blog, pelos jornais e os tantos outros espaços de mídia que acabam nos assegurando  a oportunidade de trocar ideias e pensar juntos. Obrigado a meus alunos, colegas de trabalho, companheiros de militância e tantos outros que não sei nominar, mas que fizeram parte de momentos únicos nesta caminhada que tenho feito pelo Brasil. Obrigado aos atuais e ex-colaboradores da Avape, pessoas verdadeiramente especiais, pois é graças a essa capacidade de acreditar e de lutar que estamos testemunhando uma Organização com mais de trinta anos a reescrever seus caminhos. Obrigado a meus amigos e familiares, fontes seguras de acolhida, amor, sorrisos gratuitos e palavras de conforto e incentivo.

Desejo que possamos terminar o ano melhor do que começamos. Espero que 2015 seja uma versão atualizada e melhorada de 2014, onde possamos conviver mais, sorrir juntos e trabalhar em sinergia para um país melhor.

Boas festas!

Os estuprados por Bolsonaro…

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A fala fatídica do lamentável deputado colocou no mesmo balaio duas palavras que jamais estariam juntas se fossem considerados elementos como: bom senso, civilidade e humanidade. Ao dizer que não estupraria sua colega de Congresso Maria do Rosário, porque ela não merecia, o homem mais votado pelo estado do Rio de Janeiro, investido da condição dada a ele pelo povo, colocou lado a lado estupro e merecimento.

Podemos por horas conversar, refletir, buscar entender o que leva pessoas de bem, em sua grande maioria, depositar o seu voto em uma figura detentora de tamanho desalinhamento com valores básicos para as relações humanas e exercício da cidadania. Não entro aqui no mérito de julgamento de atributos relacionados à deputada agredida. Antes de qualquer coisa estamos falando de uma mulher, no caso dele de uma colega de trabalho, e claro, antes de qualquer coisa, de um ser humano.

Bolsonaro é produto efetivo resultante da falsa ideia disseminada que defende a truculência, o ódio e a punição sumária como únicas respostas para a resolução de nossos infindáveis problemas sociais. Quem com ele concorda, o faz sempre com coração ardendo de raiva, muitas vezes uma fúria incontida sem destinatário concreto, mas sempre ao ponto de transbordar podendo atingir quem quer que esteja por perto.

No caso, o voto em Bolsonaro atingiu em cheio os pilares estruturantes da nossa “jovem democracia”. Sem qualquer exagero, ao fim das contas, estuprados fomos todos nós, povo brasileiro, que assistimos perplexos, o descalabro retórico de um dos membros eleitos para nos representar, elaborando leis e fiscalizando o executivo a partir do Congresso Nacional.

Mas então, o que podemos fazer diante disso?

Parafraseando Darci Ribeiro, “só há duas opções nesta vida: se resignar ou se indignar. E eu não vou me resignar nunca”. Creio que o antídoto para tal postura, tem por fórmula básica, nossa posição firme, verbalizada e consistente. Já testemunhei amigos antenados rindo diante de tamanho absurdo, fazendo que uma postura violenta acabe se transformando em motivo para chacota.

Não pode ser assim. Rir é natural quando estamos diante de um fato bizarro e descolado de qualquer possibilidade de compreensão ou condescendência. Assim, passado o riso de desespero, há que se ficar alerta! Precisamos nos posicionar, negar veementemente e plantar em nossas conversas do cotidiano uma semente de reflexão que iniba futuras eleições de figuras como essa.

Defender nossa democracia passa, dentre tantas coisas, por concentrarmos esforços para conscientizar aqueles com os quais nos relacionamos quanto aos cuidados que deve se ter na hora de escolher nossos representantes, seja para o executivo ou legislativo. As últimas eleições foram marcadas por um Fla x Flu ideológico. Pessoas brigaram, amigos se afastaram, mas infelizmente toda essa energia não foi suficiente para elevar a qualidade do voto, ao ponto de deixar de fora esse tipo de político.

Armadura de guerra e espírito de celebração

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Parece paradoxal, não? E creio que, de fato, esta seja a tônica que marca nossa militância enquanto movimento de luta pelos direitos das pessoas com deficiência nos dias atuais.

Neste dia 03 de dezembro, mais uma vez celebramos a data internacional que marca essa jornada recheada de capítulos que povoam nossa memória, reforçando essa dicotomia entre conquistas e batalhas.

Já pudemos nos abraçar para celebrar ganhos históricos, como por exemplo, a ratificação pelo Brasil de uma Convenção Internacional da ONU, elaborada a partir do protagonismo do próprio segmento, como também já nos vimos repetidas vezes,  unidos  indignados, diante de bandeiras históricas ainda não atendidas, como o aumento da per capita de um quarto do salário mínimo como condicionante de  acesso ao Benefício de Prestação Continuada, o BPC.

Vibramos  diante das possibilidades tecnológicas viabilizadas pelos atuais smartphones, assegurando total autonomia para interação com os equipamentos para cegos, paralisados cerebrais, amputados, dentre tantas outras pessoas com limitações. Ao mesmo tempo, temos que nos indignar diante da falta de consciência de empresas de pagamento que colocam no mercado suas ‘maquininhas de cartão’ com um teclado touch sem qualquer acessibilidade, ignorando e desrespeitando milhões de consumidores que, da noite para o dia, se vêem impedidos de digitar suas senhas graças à miopia mercadológica dessas corporações.

Antes que alguém possa dizer que isso é ‘coisa do mercado’, cabe lembrar que o Estado Brasileiro também é especialista em transformar coisas boas em enormes transtornos. A mesma pessoa com deficiência tem direito a reserva de vagas em concurso público, compra de veículos com isenções tributárias, reserva de vagas em estacionamentos, aposentadoria especial, dentre outros. Mas, saibam caros leitores, para cada um desses direitos que poderiam ser comemorados e facilmente acessados, existe um calvário burocrático a ser perseguido marcado pela busca por laudos, submissão a perícias equivocadas, além de uma confusão crônica que, muitas vezes, leva alguns a pensarem que tais direitos são favores ofertados graças às benesses provenientes da gestão A ou B.

Dias desses, voltando de Brasília para São Paulo, ouvi de um companheiro de poltrona um comentário que manifestava sua satisfação por ver cada vez mais pessoas com deficiência cruzando os céus do Brasil. Segundo ele, a melhoria do poder de compra, somada ao empoderamento técnico-político do segmento, podem ser fatores relevantes a serem considerados para a comprovação deste fenômeno. Concordando em partes com o amigo, coloquei água no ‘choppe’ imaginário que regava a nossa conversa pois, infelizmente, junto com a chegada deste segmento aos aeroportos e aeronaves, não  veio o respeito necessário que mereceria um público que está injetando recursos no setor. Não se trata de exceção, mas sim de casos de pessoas com deficiência esquecidas em aeronaves ou mesmo no momento do embarque, acentos de prioridades garantidos por lei sendo vendidos sem qualquer constrangimento, além de um total descaso com as especificidades que marcam cada deficiência mostrando  que aeroportos e companhias aéreas não estão nada preocupados com o segmento.

Já manifestei em outros artigos publicados neste espaço, minha postura otimista diante da nossa caminhada. Gosto muito mais de celebrar do que de botar a armadura de guerra para lutar contra as posturas preconceituosas e discriminatórias presentes em nossa sociedade.  Isto posto, temos que ter claro que não podemos mais aceitar com naturalidade argumentos como, “desculpe tenho um cardápio em Braille, mas está desatualizado”, “perdão mas não temos banheiros adaptados”.

A lei de acessibilidade tem mais de dez anos e não podemos ter vergonha de cobrar de maneira intransigente seu comprimento junto a todos os setores da sociedade.  Pessoalmente já estou elaborando minha lista das dez grandes novidades do ano que me fazem comemorar os avanços testemunhados por nosso segmento. Também estou elencando os dez pontos negativos que me fazem estar alerta diante de nossas responsabilidades enquanto militantes e cidadãos de direito.