Sem controle.

controle by coisasestranas.blogs

Eram três: dois grandes e um pequeno. Mas, frente à minha quase inoperância diante daqueles aparelhinhos, decidi contar os botões. Oitenta e cinco ao todo, porém, a funcionalidade para mim, naquele momento, era bem distinta das reais possibilidades daqueles controles remotos que, em tese, seriam da TV, do ar condicionado e da operadora de serviço de cabo. Geralmente isso não acontece, pois sempre que chego a um hotel já costumo – me antecipando a um total despreparo dos funcionários para acolhimento de pessoas com deficiência – pedir para que me apontem ao menos como fazer para ligar o ar, desligar a televisão, mudar de canal e, claro, me falar onde deixarão meus chinelos ao fim do dia para quando eu retornar do trabalho.

É óbvio que isso não é uma regra e, felizmente, já tive boas surpresas com profissionais proativos, portadores de uma fala  previamente preparada e cheia de indicações sobre o local das toalhas, os controles remotos e outros tais. Mas voltando ao título dessa coluna, no dia em que me percebi de mãos atadas diante daquele trio projetado para permitir controle à distancia das coisas, me senti provocado a escrever pois, ainda perplexo com a inutilidade deles naquela ocasião, comecei a refletir  sobre  a possibilidade real de não só um cego viver aquele sentimento.  Façam uma pesquisa com pais, tios, avós, enfim, perguntem aos colegas de trabalho, ao taxista e à dona Maria lá da feira, quantas das funções ou botões dos muitos controles remotos que existem em suas casas eles sabem ou já viram ser usados por alguém. A abundância de possibilidades geralmente assusta e dá ao usuário a sensação de um possível erro que, na verdade, inibe a concretização de uma experiência completa no acesso aos caros equipamentos que as pessoas desejaram tanto antes de comprar.

Novamente preciso reafirmar que não estou aqui dialogando com uma regra, visto que mesmo em minha casa tenho eletroeletrônicos cujo o controle remoto tem apenas três botões, porém com inúmeras funcionalidades e grande nível de indução intuitiva, ou seja, dá para se usar sem ler qualquer manual. Para que tenham uma ideia, o equipamento ao qual me refiro é utilizado com plenitude por minha filha de quatro anos e por meus pais que já passaram dos sessenta. Contudo, o problema de usabilidade parece que infelizmente não tem tirado o sono de empresas e desenvolvedores de produtos. Pensar em soluções com acessibilidade, interfaces intuitivas e recursos alinhados com a diversidade etária e cultural é posicionamento vanguardista de mercado, e claro, passa pela decisão estratégica de qualquer negócio.

Vejam um outro exemplo: atualmente utilizo, como a maioria das pessoas cegas, um smartphone com tela touch sem qualquer dificuldade, ou seja, autonomia total. Isto porque uma empresa decidiu investir em pesquisa e fazer produtos verdadeiramente úteis para todos. Mas seguindo na linha do touch, recentemente tive o desprazer de conhecer máquinas touchscreen de uma operadora de cartão de crédito. Neste caso eles desconsideraram os milhões de consumidores cegos, nos deixando vulneráveis ao descobrir que só podemos utilizar sua maquininha mediante a condição de dizer a senha para alguém. Como dizem meus amigos cariocas, “sinistro não”?

Precisamos gritar e nos indignar diante das engenhocas e soluções de mercado que nos deixam sem controle. Pagamos pelo todo e usamos apenas uma parte, pois o produto ao fim não se viabiliza.

À propósito, fica o convite: deixem um post no meu blog ou um comentário na minha página no Facebook sobre as suas experiências ao tentar usar algum produto ou serviço que lhe deixaram “sem controle”. Vocês vão perceber que o que estou dizendo é bem mais ‘comum’ do que se imagina.

O que você acha disso?

blogpapa

Em tempos em que se pode opinar por meio de botões das redes sociais, curtindo, compartilhando e comentando, cada vez mais as pessoas ganham coragem para se posicionar sobre tudo e todos que acabam aparecendo em suas timelines. Os que ainda não se conectaram ao mundo virtual, acompanham curiosos e porque não dizer com uma certa dose de espanto, as notícias anunciadas e repercutidas  por algum parente ou amigo, como se fossem estes, algo parecido como uma espécie de recém chegados de um planeta,  em pleno funcionamento paralelo   a “realidade sem graça” dos ainda  offline.

Ontem, aguardando para pagar os pães na fila da padaria, ouvi um cara dizendo ao amigo, “eu sou Charlie! Acabei de postar”. O amigo meio sem graça, com voz um pouco confusa perguntou, “porque mano??? Desde quando você virou isso aí?”. A postura desinformada e desplugada do debate global em torno do terror, fez com que o mais novo Charlie declarado no facebook, iniciasse um sermão para o colega, digno de invocação da Nossa Senhora da Vergonha Alheia. “Caramba moleque, em que mundo você vive? Charlie é o nome do Jornal onde os terroristas muçulmanos, mataram os jornalistas franceses”! Na sequencia desta explicação já recheada de equívocos e preconceitos, vieram muitas outras frases, sustentadas por um tom de voz digno de especialista em geopolítica internacional. Já com meus pães e a conta devidamente paga, seguindo para a rua, ainda deu tempo de ouvir o rapaz “desinformado” afirmando para o amigo, “ah se é isso então, pode falar aí no facebook que eu também sou!”

As reflexões decorrentes da tragédia ocorrida na França, disponíveis em diferentes veículos de mídias tem sido riquíssimas. Tratam da necessidade de buscarmos compreender de fato o que é liberdade de expressão, nos chamam a pensar sobre a tensão vivida pela Europa diante das ameaças do Estado Islâmico, e nos emocionam diante da indignação de milhões de muçulmanos do mundo todo, frente à atrocidade cometida por pessoas que segundo eles não os representam.

Contudo, infelizmente replicando a situação vivida a partir de tantas outras polêmicas menos relevantes, o oba-oba em torno do tema cresce de forma desqualificada e irresponsável. Milhares de pessoas repetem o mantra Je suis Charlie, sem ter ideia do conteúdo da publicação, do impacto do que é publicado para a crença de milhões de outros seres humanos, e o pior muitas vezes sem se quer saber o significado da expressão.

Pessoalmente, acho desnecessárias, de mau gosto, e ofensivas, as charges publicadas pelo Charlie. Penso ainda, que nada pode justificar um ato que tira a vida de pessoas, simplesmente por conta de seus posicionamentos, mas entendo que se faz urgente um debate amplo do que de fato entendemos como liberdade de expressão. Se alguém acha normal zombar do profeta, não pode pleitear a proibição de piadas racistas ou mesmo posturas preconceituosas.

Ao fim das contas, entendo que mais do que nunca, fica um chamado para que as pessoas, possam para além do curtir, comentar, compartilhar ou twittar, usar a internet para se informar com qualidade  antes de se posicionar. Quando opinamos, em maior ou menor medida, também formamos opinião, criamos micro tendências, formando partidários da questão a ou b. Essa capacidade que agora ganha força nos espaços virtuais, deve nos fazer pensar  que temos uma imensa responsabilidade para com aquilo que tornamos público, portanto devemos nos preparar minimamente antes de clicar, sobre qualquer que seja o assunto.