O Brasil não sabe o que quer. E você? – Parte III

Bandeira do Brasil

Chegamos ao fim desta série de textos repletos de temas que nos desafiam a formar opinião. São os últimos quatro eleitos que, se mais explorados, ofereceriam um ilimitado leque de possibilidades.

  1. Segurança pública

Este é daqueles assuntos que quando começam ganham desdobramentos intermináveis, porém sempre com abordagens superficiais e distantes de qualquer possibilidade imediata da resolução de problemas. A violência nos centros urbanos do Brasil mata mais do que muitas guerras iniciadas e já findadas ao redor do mundo. Pena de morte, redução da maioridade penal, mais polícia nas ruas. Vejam que as ideias exaustivamente debatidas pelos leigos e/ou pelos entendidos ”do riscado”, se mostram frágeis e não nos dão qualquer esperança de dias melhores. Nossos atuais mandatários de esquerda, direita ou orientação política indefinida, não tratam do assunto à altura do que se necessita e a sociedade, tampouco, debate com a profundidade que a urgência exige. Que ansiamos por segurança é fato. Mas que caminhos esperamos que sejam tomados para que se avance com velocidade neste sentido?

  1. Crise hídrica e energética

Nunca se ouviu tanta gente debatendo a seca na cidade de São Paulo ou possíveis futuros apagões pelo Brasil. Me perdoem o trocadilho infeliz, mas não dá para perder a piada. O que se passa, de fato, é que ‘caiu a ficha’ que se corre o risco real da água não bater onde se costuma dizer no dito popular. Mas, isto posto, faz-se necessário ultrapassarmos a fase de debates sobre os culpados desse caos para começar a defender propostas e soluções imediatas e de longo prazo para os problemas. Usinas de dessalinização? Termoelétricas? Transposição de rios? Energia nuclear? São possibilidades para todos os gostos e acredito que buscar entender um pouco mais sobre cada uma delas possibilitaará ao povo brasileiro botar isso na  pauta de debates das próximas eleições como assuntos prioritários. Daí em diante é lutar democraticamente para que o melhor projeto de país saia vencedor, afastando de vez os fantasmas que já deveríamos ter combatido há décadas atrás.

  1. Casamento gay

Eu disse no início dessa série que não iria emitir opinião, pois o que espero é provocar reflexões. Contudo, ao chegar neste tema, não posso deixar de dizer que entendo como surreal ainda existirem impedimentos sociais e legais para que pessoas possam viver juntas, se amando e sendo felizes. Pior ainda é a hipocrisia que permeia este debate, pois na contramão do que pregava o grande Paulo Freire, pessoas com discursos aparentemente modernos e progressistas acabam protagonizando em suas vidas pessoais e profissionais uma prática conservadora e preconceituosa. Conhece alguém assim?

10. Corrupção

Muita gente acha que corrupto só existe na política e só se vê na televisão. Infelizmente isso cria a falsa sensação que o problema é distante e que a culpa está sempre no outro. Se fizermos uma pesquisa tenho a impressão que uma esmagadora maioria da população se colocaria contrária e indignada diante das ações de corrupção. Mas também imagino que se o mesmo instituto de pesquisa desenvolvesse uma metodologia para identificar pequenos hábitos de legalidade duvidosa, chegaríamos a  números constrangedores. Achismos à parte, acredito que o Brasil pode sim dizer não à corrupção, porém o povo precisa decidir que sim.

Qual a sua opinião?

O Brasil não sabe o que quer. E você? – Parte II

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Hoje continuamos a nossa conversa apimentada com mais três de dez ingredientes que tomam espaços na mídia e em debates políticos, mas ainda com poucos avanços se pensarmos em     posicionamentos bem fundamentados, sem fanatismos ou achismos de toda ordem.

4. Liberação das drogas

Vamos combinar que a polêmica já nasce com um grande erro de origem. Drogas já são liberadas e podemos comprá-las, inclusive, em estabelecimentos com denominação específica, afinal, quem já não entrou em uma drogaria? O que se deve discutir é o quê se entende, no Brasil, por drogas sejam elas lícitas ou ilícitas. E em sendo ilícitas qual tratamento queremos que seja dado para quem produz, comercializa e consome? Entre a ‘romantização’ da maconha  e o extremismo de parlamentares poderosos ou agentes midiáticos conservadores, fica um grande vazio que clama pela necessidade de encontrarmos efetivamente um caminho qualificado para que possamos vencer, não o usuário da droga A ou B, mas sim todo o sistema complexo de violência, corrupção e mortes que se instalou no País a partir da maneira pela qual o Brasil trata essa questão.

5. Democracia e ditadura

De tempos em tempos assistimos a alternância de posturas sociais ora mais progressistas, ora totalmente reacionárias. Nesta batida, acompanhamos perplexos, jovens e idosos, ricos e pobres, ainda que em números inexpressivos, saindo pelas ruas clamando pela volta da ditadura. De cara já vale nos perguntar: será que eles sabem realmente o que estão negando, ou pior, pedindo? Precisamos fazer chegar a todo o povo brasileiro que democracia não se trata apenas do ritual de votar no fraco conjunto de possibilidades que nos é apresentado. Democracia é direito de se expressar, de ir e vir, de participar da construção das regras que poderão impactar em nossas vidas hoje ou daqui a vinte anos. Vejam como Zygmunt Bauman, filósofo e pesquisador, enxerga a democracia brasileira a partir do conceito instituído por ele de ‘Sociedade Líquida’, onde as relações sociais, atualmente mais fluidas, ficam sem ‘amarras’ e podendo, como a água, cumprir um papel dialético capaz de viver o paradoxo de ser passageiro e, ao mesmo tempo, protagonista da construção do seu próprio tempo e caminho. Diz ele: “Eu acho que a democracia no Brasil passou por um teste muito difícil, não somente na questão de eleger o seu presidente de tempos em tempos. Democracia é sobre habilitar os cidadãos a exercerem a cidadania de fato, não apenas pela lei. Somos todos cidadãos por decreto, porque temos documentos, mas isso não significa que todos sejamos capazes de nos envolver nas atividades em que os cidadãos devem ser envolvidos. É sobre habilitar as pessoas a participarem da condução dos assuntos do Estado. Assim, democracia é sobre cuidar não só da opinião da maioria, mas também ajudar as minorias a terem suas vozes ouvidas. Ter algo a dizer, em primeiro lugar, e tornar-se interessante de ser envolvido, ser engajado. Se avaliarmos não pelo número de eleições, mas pelo efeito sobre quantos reais cidadãos verdadeiramente existem agora no Brasil – em comparação com, digamos, 1970 –, se usarmos essa métrica, veremos que é uma das melhores democracias do mundo”.

6. Aborto

O recém eleito Presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, disse que a legalização do aborto só será votada se passarem por cima do cadáver dele. Independente de sermos contra ou a favor, será que é assim que se deve tratar tudo aquilo que parece antagônico ao nosso modo de pensar? Será que os brasileiros conhecem os números que apontam para a morte de centenas de milhares de mulheres por abortos clandestinos? E se caminhássemos para a legalização, quais seriam os parâmetros? Sei que em torno disso existem inúmeros elementos de ordem religiosa, filosófica e até científica. Acredito que tais variáveis sejam ainda mais motivos suficientes para que fujamos do papinho simplista que resume a conversa ao “sou contra, sou a favor”.

Buscar conhecimentos e ouvir o contraditório é, sem dúvidas, a melhor estratégia para que tenhamos de fato a nossa opinião. Você discorda? Então vamos continuar essa conversa em: www.blogdoferrari.com.br; no Twitter: @blogdoferrari; ou no Facebook: www.facebook.com/professorferrari .

O Brasil não sabe o que quer. E você? – Parte I

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Um título de coluna propositalmente provocativo. É claro que se eu, você, nós, o povo brasileiro, tivermos clareza do que queremos, o país por consequência também terá.

Então vamos a dez pontos polêmicos que sempre aparecem nos nossos happy hours, salões de beleza e nos bate-papos de fila de banco, mas que acabam, infelizmente, não traduzindo de fato o que pensam as pessoas.

Com essa série de textos, dividida em três partes, não pretendo formar opinião a partir daquilo que acredito, mas sim, provocar maiores debates e reflexões que nos permitam verdadeiramente defender aquilo que acreditamos.

  1. Afinal de contas, políticos devem ou não receber salários? Eles ganham muito ou pouco?  De cara, já sabemos a resposta da maioria: “ganham muito e  não fazem nada”, “roubam demais”, “nem precisariam receber, pois deveria ser um trabalho voluntário”. Bem, discursos prontos à parte, será que o problema está no quanto ganham ou será que o ponto a ser discutido é  a  qualidade do trabalho que desempenham? Já nos perguntamos porque grandes profissionais – aliás infinitamente melhores remunerados que os nossos atuais representantes – correm dessa ”tal função pública”? Continuando ainda no assunto, será que todos são ruins, todos trabalham pouco? Para terminar cabe ainda nos perguntar: para basilar nossa opinião já buscamos conhecer o dia-a-dia de um parlamentar ou gestor público?
  1. Continuando a falar de política, como devem ser financiadas as campanhas eleitorais? A moda agora é defender o financiamento público. Você acha que devem sair dos impostos recolhidos o custeio das campanhas para cargos no executivo e legislativo? Se acha que não, como deveria ser? Será que empresas privadas apoiariam campanhas apenas alinhadas com o seu compromisso social ou esperariam algo em troca do seu apoiado eleito? Para avançar um pouco mais na conversa: seria injusto cobrar determinados favores depois de financiar o candidato já empossado? Não houve uma ajuda prévia?
  1. Mas se você não gosta de política, vamos mudar o rumo da prosa. Proponho pensarmos um pouco mais sobre como está nascendo o nosso povo. Estatísticas recentes apontam para mais de 80% de partos cesarianas em hospitais privados e por volta de 40% no setor público. A OMS – Organização Mundial de Saúde recomenda apenas 15%; logo, os números mostram que estamos “nascendo errado”. Pessoalmente, cheguei ao mundo depois de minha mãe passar por doze horas de trabalho de parto. Minha filha, ao contrário, nasceu graças a uma cesariana bem sucedida, sem a qual seria impossível um parto de sucesso conforme nos afirmaram os profissionais envolvidos. Histórias à parte, fica a verdade aparente: de que mães e médicos bons são aqueles em linha com as recomendações da OMS. Contudo, vale refletirmos se temos remuneração e formação acadêmica adequadas para a realização de partos naturais no Brasil. Precisamos conversar sobre em que medida um pseudo-modismo pode vir a colocar a vida de futuras mamães e bebês em risco? Para terminar cabem mais algumas perguntas: como país, temos uma meta a atingir? Qual o caminho necessário para percorrer até chegarmos a melhores índices de partos HUMANIZADOS?

Sem dar respostas, porém aguardando muitas reflexões, continuamos na próxima semana com mais pontos de interrogação nessa série de textos que nos propõe um debate a partir de novos olhares diante de velhos tabus.