Que horas são?

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Já estou acostumado a dizer as horas como qualquer outra pessoa que socorre alguém preocupado com a posição indicativa dos ponteiros em relação ao tempo presente, ou em outras muitas situações, atendendo a curiosidade legítima de pessoas que se surpreendem ao ver em meu pulso esquerdo uma ferramenta que historicamente só dialoga com o olhar.

O relógio foi feito para ser visto, seja por quem necessite saber das horas, seja por tantos outros que o reconhece como um adereço de beleza, uma joia, um elemento de vestimenta com alto valor agregado. Partindo deste raciocínio alguém pode dizer que relógios e cegos não combinam; argumento que vai para o espaço diante das milhares de vezes em que respondi após um: ‘que horas são?’.

Existem muitas possibilidades de um cego acessar as horas e neste artigo não pretendo esgotar todas elas, mesmo porque, pode ser que no exato momento em que estou lhes escrevendo essas “bem tecladas linhas” pode estar nascendo uma nova possibilidade tecnológica que supere o tema deste texto.

Os relógios mais conhecidos para cegos no Brasil são os nada simpáticos falantes. Eles acabaram se popularizando por conta de uma leva de milhões de peças vendidas para cegos e não cegos, pois trazia consigo uma grande novidade: tratava-se do anúncio das horas por Sr. Abravanel, ele mesmo, o dono do Baú, o cara das telesenas, o garoto propaganda voluntário do Netflix, Silvio Santos. Ocorre que muito antes dos tais brinquedos tomarem lojas e bancas de camelôs, já tinhamos no Brasil algumas possibilidades de relógios com vozes (e cabe observar que  quase em 100% em inglês ou espanhol.

Outra possibilidade é materializada pela proposta de relógios em Braille. Pode-se checar a hora levantando a tampa. O usuário deve tomar um pouco de cuidado, além é claro de manter as mãos limpas no momento da checagem, visto que está com o dedo em contato direto com o mostrador do equipamento. Existem modelos e marcas com boas possibilidades de design, porém os preços no Brasil ainda são um pouco proibitivos e acabam muitas vezes sendo mais caros que os tais falantes. Cegos ainda podem saber das horas com relógios híbridos, ou seja, braille e falante. Esses são bem bacanas, pois em um momento de discrição quando o usuário não quer incomodar quem está por perto pode recorrer á consulta tátil; já em uma festa em que porventura as mãos estejam úmidas ou até engorduradas em virtude daquele churras, utiliza-se  o modo fala.

Pessoalmente tenho um que trabalha com duas possibilidades táteis. Ele tem toda a marcação que sinaliza os minutos em alto relevo, assim como em modo Braille, porém, neste caso, os pontos ficam expostos circundando o visor do aparelho. Quando vou consultar as horas, pressiono a coroa lateral, posiciono o dedo no centro do visor e faço uma varredura em sentido horário. Aí entra em cena a outra solução tátil, no caso retornos vibratórios, sendo um retorno longo identifica a hora e outro curto que me mostra os minutos.

Em tempo de vivermos e testemunharmos a reinvenção dos relógios por parte das grandes empresas de tecnologia, espero que possamos vislumbrar soluções modernas e atrativas de acessibilidade e usabilidade.

Ainda não testei os que já chegaram no mercado, mas em breve espero voltar a esse assunto para compartilhar um pouco de minhas impressões diante das novas possibilidades de experiência no uso de relógios.

O que lhe parece belo

A política passa, mas os amigos ficam!!!

A política passa, mas os amigos ficam!!!

Em meio a tanto ódio e descompromisso com a generosidade, tem sido difícil navegar pela Internet sem esbarrar em amigos de longa data rompendo vínculos e degladeando-se em nome de suas “convicções econômicas, sociais e políticas”. Pessoalmente, tenho lido muita coisa bacana a respeito desse fenômeno vivido pelo país, logo entendo que é hora de nos esforçarmos para sair desse Fla x Flu ideológico, pois há muitas coisas para serem debatidas e feitas antes que a verdade absoluta de um lado ou de outro acabe ganhando destaque isolado em nossas estruturas de poder.

Pensando nisso, decidi contribuir propondo temas que nos fazem bem para alma, independente da cor partidária, do time de futebol, da religião, enfim. Quero falar do que nos encanta por ser belo e, antes que alguém argumente que em sendo belo sempre haverá o   feio surgindo como contraponto, preciso discordar, pois o belo nos faz bem para alma sem necessitar negar o feio, ou seja, o que verdadeiramente elegemos como belo se basta.

Pensem naquela canção que te pega pela mão e caminha contigo até algum lugar no tempo. Diferente de seu time de futebol, ela não necessita de algo a vencer para fazer seu coração bater mais forte. O que dizer então daquele livro que ao fim lhe fez pensar por horas ou, em alguns casos, até chorar. Diferente da sua posição política, não foi necessário negar outras possibilidades para que aquelas páginas ganhassem lugar em suas histórias e memórias.

O belo se apresenta a nós de forma arrojada, avassaladora e me atrevo a dizer que até invasiva. Trata-se de um fenômeno que minimamente podemos descrever, porém impossível de se traduzir, pois a beleza configura-se em uma espécie de certificação individual  que, por vezes, ganha força coletiva. Nestes casos, acontece um poderoso efeito sinérgico que na maior parte das vezes assegura ao eleito lugar garantido na história de um povo.

Um quadro, uma música, um sorriso, um local, uma história, um rosto, uma voz, um discurso, uma postura, um acontecimento. O belo não tem regras para se manifestar, pois só existe na medida em que alguém lhe sente e reconhece. Assim, o belo depende do humano, logo pode ser incompreendido, ignorado ou até subjugado; contudo, o belo já cumpriu sua função no momento em que se fez possível e único para quem o reconheceu.

O belo verdadeiro é o principal antídoto para a pasteurização da beleza. Assim, alguém pode ter até afirmado ser bela aquela canção que ganhou vida graças à repetição inconsequente de algum veículo de mídia bem remunerado. Mas, ao fim das contas, ela passa, se torna descartável, e o que de verdade é belo ganha espaço nos corações e mentes das pessoas independente de acúmulo econômico, social, cultural e/ou intelectual.

Proponho que reverenciemos o belo e busquemos nesta possibilidade uma saída diante de tantas posturas radicais e sem brilho.

Me despeço com ajuda do mestre Rubem Alves: ”Lutam melhor aqueles que têm sonhos belos. Somente aqueles que contemplam a beleza são capazes de endurecer sem nunca perder a ternura. Guerreiros ternos. Guerreiros que lêem poesias. Guerreiros que brincam como crianças”.

A desconstrução do panelaço

pessoas com panelas nas mãos

pessoas com panelas nas mãos

Acompanhamos pela internet e pelos grandes veículos de mídia o panelaço do último domingo, 8 de março, Dia Internacional da Mulher. Tratou-se de um conjunto de manifestações atomizadas fisicamente e, ao mesmo tempo, altamente conectadas via redes sociais. A gritaria brotou das sacadas de prédios e janelas de residências de centenas de lares brasileiros habitados por cidadãos insatisfeitos com as atuais práticas e perspectivas apresentadas pela Presidente Dilma Rousseff.

O fenômeno se deu no momento em que a mandatária da nação se pronunciava em rede nacional pedindo apoio e compreensão frente aos ajustes fiscais e à toda a crise experimentada pelo povo, empresas e instituições tradicionais do país.

Os resultados decorrentes de tais acontecimentos não foram surpreendentes, pois mais uma vez o que se viu e ouviu foi um debate caracterizado por uma dicotomia rasa, onde de um lado se maldizia Dilma e seu partido, e de outro se condenava as manifestações. O Partido dos Trabalhadores, já na madrugada de segunda-feira, se manifestou por meio de nota sustentando uma linha de raciocínio que trazia por pilar estruturante a fala do Vice-presidente e Coordenador de redes sociais do partido, Alberto Cantalice, afirmando que: “existe uma orquestração com viés golpista que parte principalmente dos setores da burguesia e da classe média alta”.

Neste espaço onde por anos temos discutido inclusão, cidadania, participação popular e controle social, cabe agora refletirmos juntos sobre qual o risco de se desqualificar a possibilidade de se manifestar a partir de filtros que rotulem determinados segmentos como legítimos ou não. Classificar manifestações democráticas e pacíficas como golpe, levando em conta recorte de renda e localização geográfica, me parece ir na contramão de tudo porque temos lutado quando o assunto é democracia.

A célebre afirmação de Voltaire, que nos guia como um mantra quando falamos em liberdade de expressão dizia: “Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las”, não trazia consigo em qualquer momento condição econômica, racial ou de gênero para ser legítima.

Não entro no mérito das manifestações, nem tão pouco dos atuais ajustes feitos pela gestão petista, contudo creio que tentar rotular a insatisfação de parte da população como sendo golpe de burgueses e brancos endinheirados, configura-se em uma estratégia que ameaça e agride toda nossa caminhada democrática.

É evidente que precisamos ficar alertas frente às possibilidades infinitas de  manipulação da opinião pública pela grande mídia, como também ficarmos atentos diante de retóricas oportunistas defensoras de um impeachment imediato e a qualquer custo. Isto posto, não podemos permitir que se tenha uma “curadoria” de manifestações no Brasil, dizendo ao povo sobre o que é ou não legitimo se de pleitear.

Criou-se uma falsa verdade absoluta, sustentada por três falsos rótulos atribuídos a quem critica o governo atual, que devem ser desconstruídos com urgência para avançarmos na consolidação de um país verdadeiramente democrático.

O primeiro vai na linha de infantilizar os pleitos. Montam-se textos rebuscados, repletos de situações e palavras em desuso, com o único objetivo de desqualificar quem está se manifestando, fragilizando assim possíveis futuros debates.

O segundo busca botar toda oposição em um mesmo balaio político, ou seja, se está contra o governo da Presidente, significa ser de direita, reaça e fascista. Devemos lembrar que apesar de se autodenominar como de esquerda, o governo atual não tem avançado em temas caros para a consolidação de uma gestão progressista. Pois é, não dá para cair na falácia de que só se é esquerda no Brasil se defender o governo federal. Alguém já ouviu a Presidente defendendo a descriminalização do aborto ou mesmo algum ministro falando com entusiasmo sobre a descriminalização das drogas?

Por fim, vem o rótulo mais utilizado atualmente. Trata-se do burguês branco e golpista. Pessoalmente conheço muitos que ganharam essa certificação, porém estão com a conta do banco arrebentada, CPF negativado e o único golpe que conhecem geralmente trata-se de algum daqueles aplicados por espertalhões virtuais ou presenciais.

Nossa democracia é jovem e não tenho dúvidas que todo nosso empenho deve ser no sentido de fortalecê-la. Assegurar o direito de criticar o PT, o PSDB e/ou qualquer outra instituição, desde que sejam sempre considerados os princípios e valores que nos permitiram chegar até aqui.

Quer Economizar?

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Pegando carona no grande bonde de palavras dIstorcidas, ou melhor, ressignificadas  pelo senso comum, o verbo economizar acabou se transformando em sinônimo de oportunidade para   gastar o máximo que se pode com produtos precificados abaixo da média de mercado. Lembro-me estarrecido de uma  promoção relâmpago que tive a oportunidade de acompanhar em uma dessas grandes redes de supermercados. Como é de praxe, enquanto as pessoas caminhavam e compravam aquilo que haviam se disposto a encontrar – ou mesmo tantas outras coisas que acabavam lhes seduzindo ao longo das prateleiras – o locutor anunciava que: “Em breve, dentro de alguns minutos, aconteceria uma grande promoção”. Ele não dizia qual seria o produto, muito menos quanto custaria, mas afirmava que seria um momento único, dava dicas para onde as pessoas deveriam se dirigir e conclamava todo empenho dos presentes para que não perdessem tamanha oportunidade.

Com suspense digno de final de novela das nove, aquele homem que agora fazia bater mais forte o coração de centenas de consumidores ávidos por ter um produto para chamar de seu, começou uma contagem regressiva. Em meio a uma loucura coletiva, como se fosse por mágica, cada vez mais pessoas correram até a “meca do preço baixo”  demarcada por ele minutos antes. Assim só restava para o rapaz contar cada vez mais alto e lentamente, assegurando desta forma,  chances equivalentes para  jovens e idosos, afinal, alertava ele: “Corram que não vai ter pra todo mundo”.

Produto e preço anunciados. Minha esposa me narrava a cena onde pessoas disputavam com energia cada unidade disponível de baldes grandes para lavar roupas, anunciados naquele momento por noventa e nove centavos. Jamais imaginei que tanta gente poderia, na mesma hora e local, estar tão necessitada por baldes.

Eu trouxe essa temática para esse espaço pois acredito que comprar pode e deve ser encarado como um ato de cidadania. Sendo assim, mesmo conhecendo e tendo estudado as infindáveis possibilidades da publicidade, entendo que debater o assunto gera empoderamento e pode provocar novos olhares. Então, pagar menos em um balde pode sim ser uma decisão acertada desde que se necessite ou, ao menos,  exista a expectativa de vir a utilizá-lo. Pagar menos, por muitas vezes, é percebido como um prêmio porém, não são  considerados elementos como necessidade/desejo, o que faz com que muitas pessoas deixem de comprar o que querem para adquirir o que lhes ofertam de última hora.

Para piorar a situação vivemos em um país onde a decisão por pagar caro por muitas vezes acaba sendo entendida como meio de alavancagem de status social, mas paradoxalmente  na mesma proporção, também se pode fazer a leitura de que se trata de uma postura  arrogante e prepotente. Então, vejam que loucura: economizar para boa parte dos brasileiros significa comprar o que quer que seja, desde que seja barato. Para outros tantos significa sinônimo de humildade, um exercício extremo de desapego manifestado publicamente e que pode até ser merecedor de  um futuro lugar no céu.

Henry Ford dizia que “Economia, frequentemente, não tem relação com o total de dinheiro gasto, mas com a sabedoria empregada ao gastá-lo”. Vale então refletir sobre quais os principais fatores que tem nos levado a comprar, lembrando que este não é um espaço de educação financeira. Estamos falando aqui de inclusão e cidadania e propondo que economizar deixe de ser uma ação tomada por impulso ou baseada no senso comum do conceito para se transformar em protagonismo efetivo de consumidor, levando é claro sempre em conta, a escassez dos recursos, os sonhos, as necessidades e as possibilidades decorrentes de cada aquisição.

Economizar é mais do que pagar menos. Trata-se de vivenciar uma experiência de compra inteligente.